Um caso de histeria.
Trs ensaios sobre a teoria da sexualidade e outros trabalhos
















VOLUME VII
(1901-1905)















Dr. Sigmund Freud


        
       
       
       FRAGMENTO DA ANLISE DE UM CASO DE HISTERIA (1905[1901])
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS (JAMES STRACHEY) 
         
         BRUCHSTCK EINER HYSTERIE-ANALYSE
         
         (a) EDIES ALEMS:
         (1901 24 de jan. Concluso do primeiro manuscrito sob o ttulo de "Traum und Hysterie" ["Sonhos e Histeria"].)
         1905 Mschr. Psychiat. Neurol., 18 (4 e 5), out. e nov., 285-310 e 408-467
         1909 S.K.S.N., II, 1-110. (1912, 2 ed.; 1921, 3 ed.)
         1924 G.S., 8, 3-126.
         1932 Vier Krankengeschichten, 5-141.
         1942 G.W., 5, 163-286.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         
         'Fragment of an Analysis of a Case of Hysteria'
         1925 C.P., 3, 13- 146. (Tr. Alix e James Strachey.)
         
         A presente traduo inglesa  uma verso corrigida da que foi publicada em 1925.
         
         Embora este caso clnico s tenha sido publicado em outubro e novembro de 1905, sua maior parte foi escrita em janeiro de 1901. A descoberta das cartas 
de Freud a Wilhelm Fliess (Freud, 1950a) proporcionou-nos um grande nmero de evidncias contemporneas sobre o assunto.
         
         Em 14 de outubro de 1900 (Carta 139), Freud diz a Fliess que comeara pouco antes a tratar de uma nova paciente, "uma jovem de dezoito anos". Esta moa 
era evidentemente "Dora", e, como sabemos pelo prprio caso clnico (ver em [1]), seu tratamento terminou cerca de trs meses depois, em 31 de dezembro. Durante 
todo aquele outono Freud estivera dedicado a sua Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901b) e, em 10 de janeiro, ele escreve (numa carta no publicada) que 
est simultaneamente empenhado em dois trabalhos: A Vida Cotidiana e "Sonhos e Histeria, Fragmento de uma Anlise", que, como nos diz seu prefcio (ver em [1]), 
era o ttulo original do presente trabalho. Em 25 de janeiro (Carta 140) ele escreve: " 'Sonhos e Histeria' foi concludo ontem.  um fragmento de anlise de um 
caso de histeria em que as explicaes se agrupam em torno de dois sonhos. Portanto,, na realidade, uma continuao do livro sobre os sonhos. [A Interpretao dos 
Sonhos (1900a) fora publicada um ano antes.] Contm ainda resolues de sintomas histricos e consideraes sobre a base sexual-orgnica de toda a enfermidade. De 
qualquer forma,  a coisa mais sutil que j escrevi, e produzir um efeito ainda mais aterrador que de hbito. Cumpre-se com o prprio dever, entretanto, e o que 
se escreve no  para um presente fugaz. O trabalho j foi aceito por Ziehen." Este era co-editor, com Wernicke, do Monatsschrift fr Psychiatrie und Neurologie, 
no qual o trabalho veio finalmente a aparecer. Alguns dias depois, em 30 de janeiro (Carta 141), Freud continua: "Espero que voc no se decepcione com 'Sonhos e 
Histeria'. Seu interesse principal continua sendo a psicologia - uma estimativa da importncia dos sonhos e uma descrio de algumas das peculiaridades do pensamento 
inconsciente. H apenas vislumbres do orgnico - as zonas ergenas e a bissexualidade. Mas ele [o orgnico]  claramente mencionado e reconhecido, ficando aberto 
o caminho para seu exame exaustivo em outra oportunidade. Trata-se de uma histeria com tussis nervosa e afonia, cujas origens podem ser encontradas nas caractersticas 
de uma chupadora de dedo; e o papel principal nos processos psquicos em conflito  desempenhado pela oposio entre uma atrao pelos homens e outra pelas mulheres." 
Esses excertos mostram como este trabalho forma um elo entre A Interpretao dos Sonhos e os Trs Ensaios. O primeiro  seu antecedente, e o segundo, sua conseqncia.
         
         Em 15 de fevereiro (Carta 142), Freud anuncia a Fliess que Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana estar terminado em poucos dias e que ento as duas 
obras ficaro prontas para ser corrigidas e enviadas aos editores. Mas, na verdade, a histria dessas obras foi muito diferente. Em 8 de maio (Carta 143), Freud 
j est revendo as primeiras provas de Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana (que foi devidamente publicada nas edies de julho e agosto do Monatsschrift), mas 
esclarece, agora, que ainda no se decidiu a publicar o caso clnico. Em 9 de junho, todavia (em outra carta no publicada), ele anuncia que " 'Sonhos e Histeria' 
foi despachado e enfrentar o olhar estarrecido do pblico no outono". No temos informaes sobre como Freud veio novamente a mudar de idia e postergou a publicao 
por mais quatro anos. Em sua biografia de Freud, o Dr. Ernest Jones informa (Volume 2, p. 286) que a primeira revista para a qual o caso clnico foi enviado foi 
Journal fr Psychologie und Neurologie. Seu editor, Brodmann, desistiu de public-lo, aparentemente por consider-lo uma quebra do sigilo profissional.
         
         No h meio de determinar at que ponto Freud revisou o trabalho antes de sua publicao final em 1905. Todas as evidncias internas, contudo, sugerem que 
ele o alterou muito pouco. A ltima seo do "Posfcio" (ver em [1] e [2]) foi certamente acrescentada, assim como algumas passagens, pelo menos nas "Notas Preliminares", 
e certas notas de rodap. Salvo esses pequenos acrscimos, porm,  lcito considerar que o ensaio representa os mtodos tcnicos e as concepes tericas de Freud 
no perodo imediatamente posterior  publicao de A Interpretao dos Sonhos. Talvez parea surpreendente que sua teoria da sexualidade tivesse alcanado tal ponto 
de desenvolvimento tantos anos antes da publicao dos Trs Ensaios (1905d), que de fato apareceram quase simultaneamente a este trabalho. Mas nota de rodap da 
p. 55 corrobora explicitamente o fato. Alm disso, os leitores da correspondncia com Fliess ho de estar cientes de que grande parte desta teoria j existia em 
poca ainda anterior. Para citar apenas um exemplo, o dito de Freud no sentido de que as psiconeuroses so o "negativo" das perverses (ver em [1]) ocorre com palavras 
quase idnticas numa carta a Fliess de 24 de janeiro de 1897 (Carta 57). Mesmo antes dessa poca, j houvera uma aluso a essa idia numa carta de 12 de dezembro 
de 1896 (Carta 52), que tambm introduz a noo de "zonas ergenas" e prenuncia a teoria das "pulses parciais".
         
          curioso que por quatro vezes, em seus escritos posteriores, Freud situe seu tratamento de "Dora" no ano errado - 1899, ao invs de 1900. O engano ocorre 
duas vezes na primeira seo de sua "Histria do Movimento Psicanaltico" (1914d) e  repetido duas vezes na nota de rodap que ele acrescentou ao caso clnico em 
1923 (ver em [1]). No h nenhuma dvida de que o outono de 1900 foi a data correta, j que, alm das evidncias externas citadas acima, essa data  claramente fixada 
pelo "1902" estampado ao final do prprio trabalho (ver em [1]).
         
         O seguinte resumo cronolgico, baseado nos dados fornecidos no relato do caso clnico, talvez facilite ao leitor acompanhar os acontecimentos da narrativa:
         
         1882              Nascimento de Dora.
         1888 (Et. 6)   Pai tuberculoso. Famlia muda-se para B
         1889 (Et. 7)   Enurese noturna.
         1890 (Et. 8)   Dispnia.
         1892 (Et. 10)  Deslocamento da retina do pai.
         1894 (Et. 12) Crise confusional do pai. Visita dele a Freud. Enxaqueca e tosse nervosa.
         1896 (Et. 14)  Cena do beijo.
         1898 (Et. 16)  (Princpios do vero:) Primeira visita de Dora a Freud. (Fins de junho:) Cena junto ao lago. (Inverno:) Morte da tia. Dora em Viena.
         1899 (Et. 17)  (Maro:) Apendicite. (Outono:) A famlia deixa B e se muda para a cidade onde ficava a fbrica.
         1900 (Et. 18)  A famlia se muda para Viena. Ameaa de suicdio. (Outubro a dezembro:) Tratamento com Freud.
         1901               (Janeiro:) Redao do caso clnico.
         1902               (Abril:) ltima visita de Dora a Freud.
         1905               Publicao do caso clnico.
         
         NOTAS PRELIMINARES
         
         Em 1895 e 1896 formulei algumas teses sobre a patognese dos sintomas histricos e sobre os processos psquicos que ocorrem na histeria. E agora que, passados 
muitos anos, proponho-me fundament-las mediante o relato pormenorizado de um caso clnico e de seu tratamento, no posso furtar-me a algumas observaes preliminares, 
com o propsito, em parte, de justificar por vrios ngulos meu procedimento e, em parte, de reduzir a propores moderadas as expectativas que isso possa despertar.
         
         Foi sem dvida incmodo para mim ter de publicar os resultados de minhas investigaes, alis de natureza surpreendente e pouco gratificante, sem que meus 
colegas tivessem possibilidade de test-los e verific-los. No menos embaraoso, porm,  comear agora a expor ao juzo pblico parte do material em que se basearam 
aqueles resultados. No deixarei de ser censurado por isso. S que, se antes fui acusado de no comunicar nada sobre meus pacientes, agora diro que forneo sobre 
eles informaes que no deveriam ser comunicadas. Espero apenas que sejam as mesmas pessoas a mudarem assim de pretexto para suas censuras e, desse modo, renuncio 
antecipadamente a qualquer possibilidade de algum dia eliminar suas objees.
         
         Contudo, mesmo que eu no d importncia a esses crticos estreitos e malvolos, a publicao de meus casos clnicos continua a ser para mim um problema 
de difcil soluo. As dificuldades so, em parte, de natureza tcnica, mas em parte se devem  ndole das prprias circunstncias. Se  verdade que a causao das 
enfermidades histricas se encontra nas intimidades da vida psicossexual dos pacientes, e que os sintomas histricos so a expresso de seus mais secretos desejos 
recalcados, a elucidao completa de um caso de histeria estar fadada a revelar essas intimidades e denunciar esses segredos.  certo que os doentes nunca falariam 
se lhes ocorresse que suas confisses teriam a possibilidade de ser utilizadas cientificamente, e  igualmente certo que seria totalmente intil pedir-lhes que eles 
mesmos autorizassem a publicao do caso. Nessas circunstncias, as pessoas delicadas, bem como as meramente tmidas, dariam primazia ao dever do sigilo mdico e 
lamentariam no poder prestar nenhum esclarecimento  cincia. Em minha opinio, entretanto, o mdico assume deveres no s em relao a cada paciente, mas tambm 
em relao  cincia; seus deveres para com a cincia, em ltima anlise, no significam outra coisa seno seus deveres para com os muitos outros pacientes que sofrem 
ou sofrero um dia do mesmo mal. Assim, a comunicao do que se acredita saber sobre a causao e a estrutura da histeria converte-se num dever, e  uma vergonhosa 
covardia omiti-la quando se pode evitar um dano pessoal direto ao paciente em questo. Creio ter feito tudo para impedir que minha paciente sofra qualquer dano dessa 
ordem. Escolhi uma pessoa cujas peripcias no tiveram Viena por cenrio, mas antes uma cidadezinha distante de provncia, e cujas circunstncias pessoais devem, 
portanto, ser praticamente desconhecidas em Viena. Desde o incio, guardei com tal cuidado o sigilo do tratamento que apenas outro colega mdico, digno de minha 
total confiana, pode saber que essa moa foi minha paciente. Desde o trmino do tratamento, esperei ainda quatro anos para sua publicao, at tomar conhecimento 
de que na vida da paciente sobreveio uma modificao de tal ordem que me permite supor que seu prprio interesse nos acontecimentos e processos anmicos a serem 
aqui relatados ter desaparecido. Como  evidente, no conservei nenhum nome que pudesse colocar na pista algum leitor dos crculos leigos; alm disso, a publicao 
do caso numa revista especializada e estritamente cientfica servir como garantia contra esses leitores no habilitados. Naturalmente, no posso impedir que a prpria 
paciente sofra uma impresso penosa, caso a histria de sua prpria doena venha a cair acidentalmente em suas mos. Mas ela no saber por este relato nada de que 
j no tenha conhecimento, e poder perguntar a si mesma quem, alm dela, poderia descobrir que  ela o objeto deste trabalho.
         
         Sei que existem - ao menos nesta cidade - muitos mdicos que (por revoltante que possa parecer) preferem ler um caso clnico como este, no como uma contribuio 
 psicopatologia das neuroses, mas como um roman  clef destinado a seu deleite particular. A esse gnero de leitores posso assegurar que todos os casos clnicos 
que eu venha a publicar no futuro sero protegidos contra sua perspiccia por garantias semelhantes de sigilo, muito embora este propsito imponha restries extraordinrias 
a minha disponibilidade do material.
         
         Nesta histria clnica - a nica que at agora consegui fazer romper as limitaes impostas pelo sigilo mdico e por circunstncias desfavorveis - os aspectos 
sexuais so discutidos com toda a franqueza possvel, os rgos e funes da vida sexual so chamados por seus nomes exatos, e o leitor pudico poder convencer-se, 
por minha descrio, de que no hesitei em conversar sobre tais assuntos nessa linguagem mesmo com uma jovem. Acaso devo defender-me tambm dessa censura? Reclamei 
para mim simplesmente os direitos do ginecologista - ou melhor, direitos muito mais modestos - e acrescentarei que seria um sinal de singular e perversa lascvia 
supor que essas conversas possam ser um bom meio para excitar ou satisfazer os apetites sexuais. De resto, sinto-me inclinado a expressar minha opinio a esse respeito 
com algumas palavras tomadas de emprstimo.
         
         " deplorvel ter de dar lugar a tais protestos e declaraes num trabalho cientfico, mas que ningum recrimine a mim por isso; acuse-se, antes, o esprito 
da poca, em virtude do qual chegamos a um estado de coisas em que nenhum livro srio pode estar seguro de sobreviver." (Schmidt, 1902, Prefcio).
         
         Passo agora a comunicar o modo como superei as dificuldades tcnicas da elaborao do relatrio deste caso clnico. Essas dificuldades so muito considerveis 
para o mdico que tem de realizar cotidianamente seis ou oito desses tratamentos psicoteraputicos e no pode tomar notas durante a prpria sesso com o paciente, 
pois isso despertaria a desconfiana dele e perturbaria a apreenso do material a ser recebido por parte do mdico. Alm disso, ainda  para mim um problema no 
resolvido o modo como devo registrar para publicao a histria de um tratamento mais prolongado. No presente caso, duas circunstncias vieram em meu auxlio: primeiro, 
a durao do tratamento no ultrapassou trs meses, e segundo, os esclarecimentos do caso se agruparam em torno de dois sonhos (um relatado no meio do tratamento 
e outro no fim) cujo enunciado foi registrado imediatamente aps a sesso, assim proporcionando um ponto de apoio seguro para a teia de interpretaes e lembranas 
deles decorrente. Quanto  prpria histria clnica, s a redigi de memria aps terminado o tratamento, enquanto minha lembrana do caso ainda estava fresca e aguada 
por meu interesse em sua publicao. Por isso o registro no  absolutamente - fonograficamente - fiel, mas pode-se atribuir-lhe alto grau de fidedignidade. Nada 
de essencial foi alterado nele, embora em vrios trechos, para maior coerncia expositiva, a seqncia das explicaes tenha sido modificada.
         
         Passo agora a salientar o que ser encontrado neste relato e o que falta nele. O trabalho levava originalmente o ttulo de "Sonhos e Histeria", que me parecia 
peculiarmente apto a mostrar como a interpretao dos sonhos se entrelaa na histria de um tratamento e como, com sua ajuda, podem preencher-se as amnsias e elucidarem-se 
os sintomas. No foi sem boas razes que, no ano de 1910, dei a um laborioso e exaustivo estudo sobre o sonho (A Interpretao dos Sonhos) precedncia sobre as publicaes 
que tencionava fazer acerca da psicologia das neuroses. Alis, pude verificar por sua acolhida quo insuficiente  o grau de compreenso com que tais esforos so 
ainda hoje recebidos pelos colegas. E nesse caso, no era vlida a objeo de que o material em que eu baseara minhas assertivas fora retido, sendo, portanto, impossvel 
promover-se uma convico de sua veracidade fundamentada em verificaes. Ocorre que qualquer um pode submeter seus prprios sonhos ao exame analtico, e a tcnica 
de interpretao dos sonhos  facilmente assimilvel pelas instrues e exemplos que ali forneci. Hoje, como naquela poca, devo insistir em que o aprofundamento 
nos problemas do sonho  um pr-requisito indispensvel para a compreenso dos processos psquicos da histeria e das outras psiconeuroses, e que ningum que pretenda 
furtar-se a esse trabalho preparatrio tem a menor perspectiva de avanar um nico passo nesse campo. Portanto, como este caso clnico pressupe o conhecimento da 
interpretao dos sonhos, sua leitura parecer extremamente insatisfatria queles que no atenderem a esse pressuposto. Em vez do esclarecimento buscado, eles s 
encontraro motivos de perplexidade nestas pginas, e certamente se inclinaro a projetar a causa dessa perplexidade no autor e a declar-lo fantasioso. Na realidade, 
essa perplexidade est ligada aos fenmenos da prpria neurose; sua presena ali s  ocultada por nossa familiaridade mdica com os fatos, e ressurge a cada tentativa 
de explic-los. S seria possvel elimin-la por completo se consegussemos rastrear cada elemento da neurose at fatores com que j estivssemos familiarizados. 
Mas tudo indica, ao contrrio, que seremos levados pelo estudo das neuroses a fazer muitas novas suposies, que depois se convertero pouco a pouco em objeto de 
um conhecimento mais seguro. O novo sempre despertou perplexidade e resistncia.
         
         Todavia, seria errneo supor que os sonhos e sua interpretao ocupam em todas as psicanlises uma posio to destacada quanto neste exemplo.
         
         Se o presente caso clnico parece to privilegiado no que tange  utilizao dos sonhos, em outros aspectos se revelou mais precrio do que eu teria desejado. 
Mas suas deficincias prendem-se justamente s circunstncias que possibilitaram sua publicao. Como j disse, eu no teria sabido como lidar com o material do 
relato de um tratamento que se tivesse estendido por um ano inteiro. Este relato, que cobre apenas trs meses, pde ser rememorado e revisto, mas seus resultados 
permanecem incompletos em mais de um aspecto. O tratamento no prosseguiu at alcanar a meta prevista, tendo sido interrompido por vontade da prpria paciente depois 
de chegar a certo ponto. Nessa ocasio, alguns dos enigmas do caso no tinham sequer sido abordados, e outros se haviam esclarecido de maneira incompleta, ao passo 
que, se o trabalho tivesse prosseguido, teramos sem dvida avanado em todos os pontos at o mais completo esclarecimento possvel. Assim s posso oferecer aqui 
um fragmento de anlise.
         
         Os leitores familiarizados com a tcnica de anlise exposta nos Estudos sobre a Histeria [Breuer e Freud, 1895] talvez fiquem surpresos por no ter sido 
possvel, em trs meses, encontrar uma soluo completa ao menos para os sintomas abordados. Isso se tornar compreensvel mediante minha explicao de que, desde 
os Estudos, a tcnica psicanaltica sofreu uma revoluo radical. Naquela poca, o trabalho [de anlise] partia dos sintomas e visava a esclarec-los um aps outro. 
Desde ento, abandonei essa tcnica por ach-la totalmente inadequada para lidar com a estrutura mais fina da neurose. Agora deixo que o prprio paciente determine 
o tema do trabalho cotidiano, e assim parto da superfcie que seu inconsciente oferea a sua ateno naquele momento. Mas desse modo, tudo o que se relaciona com 
a soluo de determinado sintoma emerge em fragmentos, entremeado com vrios contextos e distribudo por pocas amplamente dispersas. Apesar dessa aparente desvantagem, 
a nova tcnica  muito superior  antiga, e  incontestavelmente a nica possvel.
         
         Ante o carter incompleto de meus resultados analticos, no me restou seno seguir o exemplo daqueles descobridores que tm a felicidade de trazer  luz 
do dia, aps longo sepultamento, as inestimveis embora mutiladas relquias da antigidade. Restaurei o que faltava segundo os melhores modelos que me eram conhecidos 
de outras anlises, mas, como um arquelogo consciencioso, no deixei de assinalar em cada caso o ponto onde minha construo se superpe ao que  autntico.
         
         H outra espcie de deficincia que eu mesmo introduzi intencionalmente.  que, em geral, no reproduzi o trabalho interpretativo a que as associaes e 
comunicaes da paciente tiveram de ser submetidas, expondo apenas seus resultados.  parte os sonhos, portanto, a tcnica do trabalho analtico s foi revelada 
em muito poucos pontos. Ocorre que meu objetivo neste caso clnico era demonstrar a estrutura ntima da doena neurtica e o determinismo de seus sintomas; s levaria 
a uma inextricvel confuso se eu tentasse, ao mesmo tempo, cumprir tambm a outra tarefa. Para a fundamentao das regras tcnicas, a maioria das quais foi descoberta 
de maneira emprica, seria preciso coligir material de muitos casos clnicos. Contudo, no se deve imaginar que foi particularmente grande a abreviao produzida 
pela omisso da tcnica neste caso. Justamente a parte mais difcil do trabalho tcnico nunca entrou em jogo com essa paciente, pois o fator da "transferncia", 
considerado no final do caso clnico (ver a partir de [1]), no foi abordado durante o curto tratamento.
         
         De uma terceira espcie de deficincia neste relato, nem a paciente nem o autor tm culpa. Ao contrrio,  bvio que um nico caso clnico, ainda que fosse 
completo e no desse margem a nenhuma dvida, no poderia dar resposta a todas as questes levantadas pelo problema da histeria. No pode dar-nos conhecimento de 
todos os tipos dessa doena, nem de todas as formas da estrutura interna da neurose, nem de todas as espcies possveis de relao entre o psquico e o somtico 
encontradas na histeria. No  justo esperar de um nico caso mais do que ele pode oferecer. E quanto aos que at agora no quiseram acreditar na validade universal 
e sem excees da etiologia psicossexual da histeria, eles dificilmente ficaro convencidos disso tomando conhecimento de um nico caso clnico. Melhor fariam em 
adiar seu julgamento at adquirirem por seu prprio trabalho o direito de ter uma convico.
         
         O QUADRO CLNICO
         
         Tendo demonstrado em A Interpretao dos Sonhos, publicada em 1900, que os sonhos em geral podem ser interpretados e que, uma vez concludo o trabalho de 
interpretao, podem ser substitudos por pensamentos impecavelmente construdos, passveis de ser inseridos num ponto reconhecvel no encadeamento anmico, gostaria 
de dar nas pginas seguintes um exemplo da nica aplicao prtica que a arte de interpretar sonhos parece admitir. J mencionei em meu livro como foi que deparei 
com o problema dos sonhos. Encontrei-o em meu caminho quando me empenhava em curar as psiconeuroses por meio de determinado mtodo psicoteraputico, pois, entre 
outros eventos de sua vida anmica, meus pacientes tambm me contavam sonhos que pareciam reclamar insero na longa trama de relaes tecida entre um sintoma da 
doena e uma idia patognica. Nessa poca, aprendi a traduzir a linguagem dos sonhos em formas de expresso de nossa prpria linguagem do pensamento, compreensveis 
sem maior auxlio. Esse conhecimento, posso asseverar,  imprescindvel para o psicanalista, pois o sonho  um dos caminhos pelos quais pode aceder  conscincia 
o material psquico que, em virtude da oposio criada por seu contedo, foi bloqueado da conscincia, recalcado, e assim se tornou patognico. O sonho , em suma, 
um dos desvios por onde se pode fugir ao recalcamento, um dos principais recursos do que se conhece como modo indireto de representao no psquico. O presente fragmento 
da histria do tratamento de uma jovem histrica destina-se a mostrar de que forma a interpretao dos sonhos se insere no trabalho de anlise. Ao mesmo tempo, dar-me- 
uma primeira oportunidade de trazer a pblico, com extenso suficiente para evitar outros mal-entendidos, parte de minhas concepes sobre os processos psquicos 
e condies orgnicas da histeria. No mais preciso desculpar-me pela extenso, j que agora se admite que as severas exigncias que a histeria faz ao mdico e ao 
investigador s podem ser satisfeitas pelo mais dedicado aprofundamento, e no por uma atitude de superioridade e desprezo. Decerto,
         
                                Nicht Kunst und Wissenschaft allein,
                                   Geduld will bei dem Werke sein!
         
         Se eu comeasse por apresentar um relato clnico integral e acabado, isso colocaria o leitor em condies muito diferentes das do observador mdico. As 
informaes dos parentes do enfermo - neste caso, do pai da moa de dezoito anos - em geral fornecem um quadro muito desfigurado do curso da doena. Na verdade, 
comeo o tratamento solicitando que me seja narrada toda a biografia do paciente e a histria de sua doena, mas, ainda assim, as informaes que recebo nunca bastam 
para me orientar. Esse primeiro relato se compara a um rio no navegvel cujo leito  ora bloqueado por massas rochosas, ora dividido entre baixios e bancos de areia. 
No posso deixar de me surpreender com a maneira como os autores conseguem apresentar relatos clnicos to acabados e precisos dos casos de histeria. Na realidade, 
os pacientes so incapazes de fornecer tais relatos a seu prprio respeito. De fato, podem dar ao mdico muitas informaes coerentes sobre este ou aquele perodo 
de suas vidas, mas logo se segue outro perodo em relao ao qual suas comunicaes escasseiam, deixando lacunas e enigmas; e em outras ocasies fica-se diante de 
novos perodos de total obscuridade, no iluminados por urna nica informao que tenha serventia. As ligaes, inclusive as aparentes, so em sua maioria desconexas, 
e a seqncia dos diferentes acontecimentos  incerta. Durante o prprio relato, os pacientes corrigem repetidamente um pormenor ou uma data, talvez para retornar, 
depois de muita hesitao, a sua verso inicial. A incapacidade dos doentes desfazerem uma exposio ordenada de sua biografia no que ela coincide com a histria 
de sua doena no  caracterstica apenas da neurose, mas tem tambm grande importncia terica. Essa deficincia tem os seguintes fundamentos: em primeiro lugar, 
os pacientes retm consciente e intencionalmente parte do que lhes  perfeitamente conhecido e que deveriam contar, por no terem ainda superado seus sentimentos 
de timidez e vergonha (ou discrio, quando h outras pessoas em jogo); esta seria a contribuio da falta consciente de franqueza. Em segundo lugar, parte do conhecimento 
amnsico de que o paciente dispe em outras ocasies no lhe ocorre enquanto ele narra sua histria, sem que ele tenha nenhuma inteno de ret-la:  a contribuio 
da insinceridade inconsciente. Em terceiro lugar, nunca faltam as amnsias verdadeiras - lacunas da memria em que caram no apenas lembranas antigas como at 
mesmo recordaes bem recentes - e as iluses de memria [paramnsias], formadas secundariamente para preencher essas lacunas. Quando os fatos em si so guardados 
na memria, o propsito subjacente s amnsias pode ser cumprido com igual segurana destruindo-se uma ligao, e a maneira mais certa de desfazer uma ligao  
alterar a ordem cronolgica dos acontecimentos. Esta ltima sempre se revela o elemento mais vulnervel do acervo da memria e o mais facilmente sujeito ao recalcamento. 
Muitas lembranas so encontradas, por assim dizer, num primeiro estgio de recalcamento, apresentando-se cercadas de dvidas. Decorrido algum tempo, essas dvidas 
seriam substitudas por um esquecimento ou por uma falsificao da memria.
         
         A existncia desse estado de coisas no tocante s lembranas ligadas  histria da doena  o correlato necessrio e teoricamente indispensvel dos sintomas 
patolgicos. Depois, no decorrer do tratamento, o paciente fornece os fatos que, embora sempre fossem de seu conhecimento, tinham sido retidos por ele ou no lhe 
haviam ocorrido. As iluses de memria se revelam insustentveis e as lacunas so preenchidas. S quando o tratamento se aproxima do seu trmino  que temos diante 
de ns uma histria clnica inteligvel, coerente e sem lacunas. Se o objetivo prtico do tratamento  eliminar todos os sintomas possveis e substitu-los por pensamentos 
conscientes, podemos considerar como segundo objetivo, de cunho terico, reparar todos os danos  memria do paciente. Esses dois objetivos so coincidentes: quando 
se alcana um, tambm o outro  atingido; um mesmo caminho conduz a ambos.
         
         Pela natureza das coisas que compem o material da psicanlise, compete-nos o dever, em nossos casos clnicos, de prestar tanta ateno s circunstncias 
puramente humanas e sociais dos enfermos quanto aos dados somticos e aos sintomas patolgicos. Acima de tudo, nosso interesse se dirigir para as circunstncias 
familiares do paciente - e isso, como se ver mais adiante, no apenas com o objetivo de investigar a hereditariedade, mas tambm em funo de outros vnculos.
         
         O crculo familiar de nossa paciente de dezoito anos inclua, alm dela prpria, seus pais e um irmo um ano e meio mais velho que ela. O pai era a pessoa 
dominante desse crculo, tanto por sua inteligncia e seus traos de carter como pelas circunstncias de sua vida, que forneceram o suporte sobre o qual se erigiu 
a histria infantil e patolgica da paciente. Na poca em que aceitei a jovem em tratamento, seu pai j beirava os cinqenta anos e era um homem de atividade e talento 
bastante incomuns, um grande industrial com situao econmica muito cmoda. A filha era muito carinhosamente apegada a ele e, por essa razo, seu senso crtico 
precocemente despertado escandalizava-se ainda mais com muitos dos atos e peculiaridades do pai.
         
         Essa ternura por ele era ainda aumentada em virtude das muitas e graves doenas de que padecera o pai desde que ela contava seis anos de idade. Nessa poca 
ele ficara tuberculoso, e isso ocasionara a mudana da famlia para uma cidadezinha de clima propcio, situada numa de nossas provncias do sul; ali a afeco pulmonar 
teve uma rpida melhora, mas em virtude das precaues ainda consideradas necessrias, esse lugar, que chamarei de B , continuou a ser nos dez anos seguintes a residncia 
principal tanto dos pais quanto dos filhos. Quando o pai j estava bem de sade, costumava ausentar-se temporariamente para visitar suas fbricas; na poca mais 
quente do vero, a famlia mudava-se para uma estao de guas nas montanhas.
         
         Quando a menina tinha cerca de dez anos, o pai teve de submeter-se a tratamento em quarto escuro por causa de um descolamento de retina. Em conseqncia 
desse infortnio, sua viso ficou permanentemente reduzida. A doena mais grave ocorreu cerca de dois anos depois; consistiu numa crise confusional, seguida de sintomas 
de paralisia e ligeiras perturbaes psquicas. Um amigo dele, de cujo papel ainda nos ocuparemos mais adiante (ver em [1]), convenceu-o, mal tendo seu estado melhorado 
um pouco, a viajar para Viena com seu mdico e consultar-se comigo. Hesitei por algum tempo, sem saber se deveria supor a existncia de uma paralisia tabtica, mas 
finalmente me decidi por um diagnstico de afeco vascular difusa; e como o paciente admitiu ter tido uma infeco especfica antes do casamento, receitei-lhe um 
tratamento antilutico enrgico, em conseqncia do qual cederam todos os distrbios que ainda persistiam. Foi sem dvida graas a essa minha feliz interveno que, 
quatro anos depois, ele me apresentou sua filha, que nesse meio-tempo ficara inequivocamente neurtica, e passados mais dois anos entregou-a a mim para tratamento 
psicoterpico.
         
         Entrementes, eu tambm conhecera em Viena uma irm um pouco mais velha dele, em quem reconheci uma forma grave de psiconeurose sem nenhum dos sintomas caracteristicamente 
histricos. Depois de uma vida acabrunhada por um casamento infeliz, essa mulher morreu de um marasmo que progrediu rapidamente e cujos sintomas, alis, nunca foram 
totalmente esclarecidos.
         
         Um irmo mais velho do pai de minha paciente, a quem tive oportunidade de conhecer, era um solteiro hipocondraco.
         
         As simpatias da prpria moa, que, como disse, tornou-se minha paciente aos dezoito anos, sempre penderam para o lado paterno da famlia e, depois de adoecer, 
ela tomara como modelo a tia que acabei de mencionar. Tampouco me era duvidoso que fora dessa famlia que ela derivara no s seus dotes e sua precocidade intelectual, 
como tambm a predisposio  doena. No cheguei a conhecer sua me. Pelas comunicaes do pai e da moa, fui levado a imagin-la como uma mulher inculta e acima 
de tudo ftil, que, a partir da doena e do conseqente distanciamento de seu marido, concentrara todos os seus interesses nos assuntos domsticos, e assim apresentava 
o quadro do que se poderia chamar de "psicose da dona-de-casa". Sem nenhuma compreenso pelos interesses mais ativos dos filhos, ocupava o dia todo em limpar e manter 
limpos a casa, os mveis e os utenslios, a tal ponto que se tornava quase impossvel us-los ou desfrutar deles. Esse estado, do qual se encontram indcios com 
bastante freqncia nas donas-de-casa normais, no pode deixar de ser comparado com as formas de lavagem obsessiva e outras obsesses pela limpeza. Mas tais mulheres, 
como acontecia no caso da me de nossa paciente, desconhecem por completo sua doena, faltando-lhes, portanto, uma caracterstica essencial da "neurose obsessiva". 
As relaes entre me e filha eram muito inamistosas havia vrios anos. A filha menosprezavaa me, criticava-a duramente e se subtrara por completo de sua influncia.
         
         Em pocas anteriores, o nico irmo da moca, um ano e meio mais velho, fora o modelo que ela ambicionara seguir. Nos ltimos anos, porm, as relaes entre 
ambos se haviam tornado mais distantes. O rapaz procurava afastar-se o mximo possvel das discusses da famlia, mas, quando se via obrigado a tomar partido, apoiava 
a me. Assim, a costumeira atrao sexual aproximara pai e filha, de um lado, e me e filho, de outro.
         
         Nossa paciente, a quem doravante darei o nome de "Dora", j aos oito anos comeara a apresentar sintomas neurticos. Nessa poca, passou a sofrer de uma 
dispnia crnica com acessos ocasionais muito mais agudos, o primeiro dos quais ocorreu aps uma pequena excurso pelas montanhas, sendo por isso atribudo ao esforo 
excessivo. No curso de seis meses, graas ao repouso e aos cuidados com que foi tratada, esse estado cedeu gradativamente. O mdico da famlia parece no ter hesitado 
nem por um momento em diagnosticar o distrbio como puramente nervoso e excluir qualquer causa orgnica para a dispnia, mas  evidente que considerou esse diagnstico 
compatvel com a etiologia do esforo excessivo.
         
         A menina passou pelas doenas infecciosas habituais da infncia sem sofrer qualquer dano permanente. Segundo ela prpria me contou (com inteno mais simbolizante!) 
(ver em [1]), seu irmo costumava ser o primeiro a contrair a doena em forma branda, seguindo-se ento ela com manifestaes mais graves. Por volta dos doze anos 
ela comeou a sofrer de dores de cabea unilaterais do tipo de enxaquecas, bem como de acessos de tosse nervosa. A princpio esses dois sintomas sempre apareciam 
juntos, mas depois se separaram e tiveram desdobramentos diferentes. A enxaqueca tornou-se mais rara e, por volta dos dezesseis anos, desapareceu completamente. 
Mas os acessos de tussis nervosa, que sem dvida tinham comeado com uma gripe comum, continuaram por todo o tempo. Quando, aos dezoito anos, ela entrou em tratamento 
comigo, tossia novamente de maneira caracterstica. O nmero desses acessos no pde ser determinado, mas sua durao era de trs a cinco semanas, e numa ocasio 
se estendeu por vrios meses. O sintoma mais incmodo durante a primeira metade de uma dessas crises, pelo menos nos ltimos anos, costumava ser a perda completa 
da voz. O diagnstico de que mais uma vez se tratava de nervosismo fora estabelecido desde longa data, mas os vrios mtodos de tratamento usuais, inclusive hidroterapia 
e aplicao local de eletricidade, no haviam produzido nenhum resultado. Foi nessas circunstncias que a criana transformou-se numa jovem madura, de juzo muito 
independente, que se acostumou a rir dos esforos dos mdicos e acabou por renunciar inteiramente  assistncia deles. Alm disso, ela sempre se opusera a procurar 
orientao mdica, embora no fizesse nenhuma objeo  pessoa de seu mdico de famlia. Qualquer proposta de consultar um novo mdico despertava sua resistncia, 
e tambm a mim ela s veio movida pela autoridade do pai.
         
         Vi-a pela primeira vez no incio do vero, quando estava com dezesseis anos, sofrendo de tosse e rouquido, e j nessa poca propus um tratamento psquico, 
que no foi adotado porque tambm essa crise, que durara mais do que as outras, desapareceu espontaneamente. No inverno seguinte, aps a morte de sua amada tia, 
ela esteve em Viena na casa do tio e das filhas dele, e aqui adoeceu com um quadro febril ento diagnosticado como apendicite. No outono seguinte, como a sade do 
pai parecia justificar essa medida, a famlia deixou definitivamente a estao de B , mudando-se a princpio para a cidade onde ficava a fbrica do pai e, depois, 
decorrido pouco menos de um ano, fixando residncia permanente em Viena.
         
         Entrementes Dora havia crescido e se transformara numa moa em flor, com feies inteligentes e agradveis, mas que era fonte de srias preocupaes para 
seus pais. O desnimo e uma alterao do carter se tinham tornado agora os principais traos de sua doena. Era evidente que no estava satisfeita consigo mesma 
nem com a famlia, tinha uma atitude inamistosa em relao ao pai e se dava muito mal com a me, que estava determinada a faz-la participar das tarefas domsticas. 
Dora procurava evitar os contactos sociais; quando a fadiga e a falta de concentrao de que se queixava o permitiam, ocupava-se em ouvir conferncias para mulheres 
e se dedicava a estudos mais srios. Um dia, seus pais ficaram muito alarmados ao encontrarem, dentro ou sobre a escrivaninha da moa, uma carta em que ela se despedia 
deles porque no podia mais suportar a vida.  verdade que o pai, homem de bastante discernimento, calculou que a moa no tinha intenes srias de suicdio, mas, 
mesmo assim, ficou muito abalado; e quando um dia, aps uma ligeira troca de palavras entre ele e a filha, esta teve um primeiro ataque de perda da conscincia - 
acontecimento tambm posteriormente encoberto por uma amnsia -, ficou decidido, apesar de sua relutncia, que ela deveria tratar-se comigo.
         
         Sem dvida este caso clnico, tal como o esbocei at agora, no parece em seu conjunto digno de ser comunicado. Trata-se de uma "petite hystrie" com os 
mais comuns de todos os sintomas somticos e psquicos: dispnia, tussis nervosa, afonia e possivelmente enxaquecas, junto com depresso, insociabilidade histrica 
e um taedium vitae que provavelmente no era muito levado a srio. Sem dvida j se publicaram casos mais interessantes de histeria, amide registrados com maior 
cuidado, pois nas pginas que se seguem nada se encontrar sobre estigmas de sensibilidade cutnea, limitao do campo visual ou coisas semelhantes. Permito-me observar, 
contudo, que todas essas colees de estranhos e assombrosos fenmenos da histeria no nos fizeram avanar grande coisa em nosso conhecimento dessa molstia, que 
ainda continua a ser enigmtica. O que nos falta  justamente a elucidao dos casos mais comuns e de seus sintomas mais freqentes e tpicos. Eu me daria por satisfeito 
se as circunstncias me tivessem permitido dar um esclarecimento completo deste caso de pequena histeria. Segundo minhas experincias com outros pacientes, no tenho 
nenhuma dvida de que meu mtodo analtico me teria bastado para faz-lo.
         
         Em 1896, pouco depois da publicao de meus Estudos sobre a Histeria, em colaborao com o Dr. J. Breuer [1895], pedi a um eminente colega sua opinio sobre 
a teoria psicolgica da histeria ali defendida. Ele respondeu sem rodeios que a considerava uma generalizao injustificvel de concluses que poderiam ser corretas 
para uns poucos casos. Desde ento tenho visto inmeros casos de histeria, ocupando-me de cada um por vrios dias, semanas ou anos, e em nenhum deles deixei de descobrir 
as condies psquicas postuladas nos Estudos, ou seja, o trauma psquico, o conflito dos afetos e, como acrescentei em publicaes posteriores, a comoo na esfera 
sexual. Quando se trata de coisas que se tornaram patognicas por seu af de ocultar-se, decerto no se deve esperar que o doente v ao encontro do mdico exibi-las, 
nem tampouco deve este contentar-se com o primeiro "No" que se oponha s investigaes.
         
         No caso de Dora, graas  j to salientada inteligncia do pai, no foi preciso que eu mesmo procurasse os pontos de referncia vitais, pelo menos no tocante 
 conformao mais recente de sua doena. Contou-me o pai que ele e a famlia tinham feito uma amizade ntima em B  com um casal ali radicado j h muitos anos. 
A Sra. K. cuidara dele durante sua longa enfermidade, tendo assim feito jus  sua eterna gratido. O Sr. K. sempre fora extremamente amvel com sua filha Dora, levando-a 
a passear com ele quando estava em B  e dando-lhe pequenos presentes, mas ningum via nenhum mal nisso. Dora tratava com o mais extremo cuidado os dois filhinhos 
dos K., dedicando-lhes uma ateno quase maternal. Quando pai e filha vieram consultar-me dois anos antes, no vero, estavam justamente prestes a viajar para ir 
ao encontro do Sr. e Sra. K., que passavam o vero num de nossos lagos nos Alpes. Dora deveria passar vrias semanas na casa dos K., enquanto seu pai pretendia regressar 
dentro de poucos dias. Durante esse perodo, tambm o Sr. K. estivera l. Mas quando o pai se preparava para partir, a moa de repente declarou com extrema firmeza 
que iria com ele, e de fato assim fez. S depois de alguns dias esclareceu seu estranho comportamento, contando  me, para que esta por sua vez o transmitisse ao 
pai, que o Sr. K. tivera a audcia de lhe fazer uma proposta amorosa, durante uma caminhada depois de um passeio pelo lago. Chamado a prestar contas de seu comportamento 
ao pai e ao tio da moa quando do encontro seguinte entre eles, o acusado negou do modo mais enftico qualquer atitude de sua parte que pudesse ter dado margem a 
essa interpretao, e comeou a lanar suspeitas sobre a moa, que, segundo soubera pela Sra. K., s mostrava interesse pelos assuntos sexuais, e que at na prpria 
casa dele junto ao lago lera a Fisiologia do Amor, de Mantegazza, e livros semelhantes. Provavelmente, excitada por tais leituras, ela teria "imaginado" toda a cena 
que descrevera.
         
         "No tenho dvida", disse o pai, "de que esse incidente  responsvel pelo abatimento, irritabilidade e idias suicidas de Dora. Ela vive insistindo em 
que eu rompa relaes com o Sr. K., e em particular com a Sra. K., a quem antes positivamente venerava. Mas no posso fazer isso, primeiro porque eu mesmo acredito 
que a histria de Dora sobre a impertinncia imoral do homem  uma fantasia que se imps a ela, e segundo porque estou ligado  Sra. K. por laos de honrosa amizade 
e no quero mago-la. A pobre mulher j  muito infeliz com o marido, a quem, por sinal, no tenho em grande conceito; ela mesma j sofreu muito dos nervos e tem 
em mim seu nico apoio. Considerando meu estado de sade, no preciso assegurar-lhe que no h nada de ilcito por trs de nossas relaes. Somos apenas dois pobres 
coitados que consolamos um ao outro como podemos atravs de um interesse amistoso. O senhor bem sabe que no tenho nada disso com minha prpria mulher. Mas Dora, 
que herdou minha obstinao,  inabalvel em seu dio pelos K. Seu ltimo ataque ocorreu depois de uma conversa em que ela tornou a me fazer a mesma exigncia [de 
romper com os K.]. Por favor, tente agora coloc-la no bom caminho."
         
         No se harmonizava muito com essas declaraes o fato de que o pai, em outras conversas, procurava atribuir a culpa maior pelo comportamento insuportvel 
de Dora  me, cujas peculiaridades tiravam todo o gosto pela vida domstica. Mas eu resolvera desde longa data suspender meu juzo sobre o verdadeiro estado de 
coisas at que tivesse ouvido tambm o outro lado.
         
         A experincia de Dora com o Sr. K. - suas propostas amorosas a ela e a conseqente afronta a sua honra - parece fornecer, no caso de nossa paciente, o trauma 
psquico que Breuer e eu declaramos, no devido tempo, ser a condio prvia indispensvel para a gnese de um estado patolgico histrico. Mas este novo caso tambm 
mostra todas as dificuldades que depois me fizeram ir alm dessa teoria, acrescidas de uma nova dificuldade de cunho mais especial. Como  to freqente nos casos 
clnicos de histeria, o trauma que sabemos ter ocorrido na vida do paciente no basta para esclarecer a especificidade do sintoma, para determin-lo; entenderamos 
tanto ou to pouco de toda a histria se, em vez de tussis nervosa, afonia, abatimento e taedium vitae, outros sintomas tivessem resultado do trauma. Mas h ainda 
a considerao de que alguns desses sintomas (a tosse e a perda da voz) tinham sido produzidos pela paciente anos antes do trauma, e que suas primeiras manifestaes 
remontavam  infncia, pois tinham ocorrido no oitavo ano de vida. Portanto, se no queremos abandonar a teoria do trauma, devemos retroceder at a infncia da moa 
e buscar ali influncias ou impresses que pudessem ter surtido efeito anlogo ao de um trauma.Alm disso,  digno de nota que, mesmo na investigao de casos em 
que os primeiros sintomas no se tinham instalado na infncia, fui levado a reconstituir a biografia dos pacientes at seus primeiros anos de vida.
         
         Superadas as primeiras dificuldades do tratamento, Dora comunicou-me uma experincia anterior com o Sr. K., mais bem talhada ainda para operar como um trauma 
sexual. Estava ento com quatorze anos. O Sr. K. combinara com ela e com sua mulher para que,  tarde, elas fossem encontr-lo em sua loja comercial, na praa principal 
de B  , para dali assistirem a um festival religioso. Mas ele induziu sua mulher a ficar em casa, despachou os empregados e estava sozinho quando a moa entrou na 
loja. Ao se aproximar a hora da procisso, pediu  moa que o aguardasse na porta que dava para a escada que levava ao andar superior, enquanto ele abaixava as portas 
corredias externas. Em seguida voltou e, ao invs de sair pela porta aberta, estreitou subitamente a moa contra si e deps-lhe um beijo nos lbios. Era justamente 
a situao que, numa mocinha virgem de quatorze anos, despertaria uma ntida sensao de excitao sexual. Mas Dora sentiu naquele momento uma violenta repugnncia, 
livrou-se do homem e passou correndo por ele em direo  escada, da alcanando a porta da rua. Mesmo assim, as relaes com o Sr. K. prosseguiram; nenhum dos dois 
jamais mencionou essa pequena cena, e Dora afirma t-la guardado em segredo at sua confisso durante o tratamento. Por algum tempo depois disso, ela evitou ficar 
a ss com o Sr. K. Por essa poca, os K. tinham combinado fazer uma excurso de alguns dias, da qual Dora tambm deveria participar. Depois da cena do beijo na loja, 
ela se recusou a acompanh-los, sem dar nenhuma razo.
         
         Nessa cena - a segunda da seqncia, mas a primeira na ordem temporal -, o comportamento dessa menina de quatorze anos j era total e completamente histrico. 
Eu tomaria por histrica, sem hesitao, qualquer pessoa em quem uma oportunidade de excitao sexual despertasse sentimentos preponderante ou exclusivamente desprazerosos, 
fosse ela ou no capaz de produzir sintomas somticos. Esclarecer o mecanismo dessa inverso do afeto  uma das tarefas mais importantes e, ao mesmo tempo, uma das 
mais difceis da psicologia das neuroses. Em minha prpria opinio, ainda estou bem longe de alcanar essa meta, e no contexto desta comunicao posso tambm acrescentar 
que at do que sei s me ser possvel apresentar uma parte.
         
         O caso de nossa paciente Dora ainda no fica suficientemente caracterizado acentuando-se apenas a inverso do afeto;  preciso dizer, alm disso, que houve 
aqui um deslocamento da sensao. Ao invs da sensao genital que uma jovem sadia no teria deixado de sentir em tais circunstncias, Dora foi tomada da sensao 
de desprazer prpria da membrana mucosa da entrada do tubo digestivo - isto , pela repugnncia. A estimulao de seus lbios pelo beijo foi sem dvida importante 
para localizar a sensao nesse ponto especfico, mas creio reconhecer tambm o efeito de outro fator.
         
         A repugnncia que Dora sentiu nessa ocasio no se tornou um sintoma permanente, e mesmo na poca do tratamento existia apenas potencialmente, por assim 
dizer. Ela se alimentava mal e confessou certa averso pelos alimentos. Por outro lado, a cena deixara outra conseqncia, sob a forma de uma alucinao sensorial 
que ocorria de tempos em tempos e chegou a se verificar enquanto ela a relatou a mim. Disse continuar sentindo na parte superior do corpo a presso daquele abrao. 
Segundo certas regras da formao de sintomas que vim a conhecer, e ao mesmo tempo levando em conta algumas outras particularidades da paciente, que de outra forma 
seriam inexplicveis - por exemplo, no queria passar por nenhum homem a quem visse em conversa animada ou terna com uma mulher -, formei para mim mesmo a seguinte 
reconstruo da cena. Creio que, durante o abrao apaixonado, ela sentiu no s o beijo em seus lbios, mas tambm a presso do membro ereto contra seu ventre. Essa 
percepo revoltante para ela foi eliminada de sua memria, recalcada e substituda pela sensao inocente de  presso sobre o trax, que extraa de sua fonte recalcada 
uma intensidade excessiva. Uma vez mais, portanto, vemos um deslocamento da parte inferior para a parte superior do corpo. Por outro lado, a compulso em seu comportamento 
construa-se como se proviesse da lembrana inalterada da cena: ela no gostava de passar por nenhum homem a quem julgasse em estado de excitao sexual porque no 
queria voltar a ver o sinal somtico desse estado.
         
         Vale ressaltar que, aqui, trs sintomas - a repugnncia, a sensao de presso na parte superior do corpo e a evitao dos homens em conversa afetuosa - 
provinham de uma mesma experincia, e somente levando em conta a inter-relao desses trs signos  que se torna possvel compreender o processo de formao dos 
sintomas. O nojo corresponde ao sintoma do recalcamento da zona ergena dos lbios (mimada demais em Dora, como veremos (em [1]), pelo sugar infantil). A presso 
do membro ereto provavelmente levou a uma alterao anloga no rgo feminino correspondente, o clitris, e a excitao dessa segunda zona ergena foi fixada no 
trax por deslocamento para a sensao simultnea de presso. O horror aos homens que pudessem achar-se em estado de excitao sexual obedece ao mecanismo de uma 
fobia destinada a dar proteo contra o reavivamento da percepo recalcada.
         
         Para evidenciar a possibilidade dessa complementao da histria, perguntei  paciente com extrema cautela se ela conhecia o sinal corporal da excitao 
no corpo do homem. Sua resposta foi "Sim" quanto ao momento atual, mas, no tocante quela poca, ela achava que no. Desde o incio tive com esta paciente o mximo 
cuidado de no lhe fornecer nenhum novo conhecimento na esfera da vida sexual, no por escrupulosidade, mas porque queria submeter meus pressupostos a uma prova 
rigorosa neste caso. Por isso, s chamava uma coisa por seu nome quando as aluses dela se tinham tornado to claras que parecia haver muito pouco risco em traduzi-las 
para a linguagem direta. Sua resposta sempre pronta e franca era que ela j sabia disso,mas de onde vinha esse conhecimento era um enigma que suas lembranas no 
permitiam resolver. Ela esquecera a fonte de todos esses conhecimentos.
         
         Se me  lcito representar dessa maneira a cena do beijo ocorrido na loja, chego  seguinte derivao para a repugnncia. A sensao de nojo parece ser, 
originalmente, uma reao ao cheiro (e depois tambm  viso) dos excrementos. Mas os rgos genitais, e em especial o membro masculino, podem lembrar as funes 
excretoras, porque aqui o rgo, alm de desempenhar a funo sexual, serve tambm  da mico. Na verdade, esta  a primeira das duas a ser conhecida, e  a nica 
conhecida durante o perodo pr-sexual.  assim que a repugnncia se inclui nas manifestaes afetivas da vida sexual.  o "inter urinas et faeces nascimur" dos 
Padres da Igreja, que adere  vida sexual e dela no pode desprender-se, a despeito de todos os esforos de idealizao. Gostaria, contudo, de enfatizar expressamente 
minha opinio de que o problema no fica resolvido pela simples indicao dessa via associativa. O fato de que essa associao pode ser evocada ainda no explica 
que ela de fato o seja. E no o , em circunstncias normais. O conhecimento das vias no torna dispensvel o conhecimento das foras que por elas transitam.
         
         No me era fcil, alm disso, dirigir a ateno de minha paciente para suas relaes com o Sr. K. Ela afirmava ter rompido com essa pessoa. A camada mais 
superficial de todas as suas associaes durante as sesses, e tudo aquilo de que se conscientizava com facilidade e que era conscientemente lembrado da vspera 
sempre se relacionava com o pai. Era bem verdade que ela no podia perdo-lo por continuar a manter relaes com o Sr. K. e, mais particularmente, com a Sra. K. 
Mas encarava essas relaes de maneira muito diferente da que o pai queria deixar transparecer. Para ela no havia nenhuma dvida de que o que ligava seu pai quela 
mulher jovem e bonita era um relacionamento amoroso corriqueiro. Nada que pudesse contribuir para corroborar essa tese escapava  sua percepo, que nesse sentido 
era implacavelmente aguda; aqui no havia nenhuma lacuna em sua memria. O relacionamento com os K. tinha comeado antes da doena grave do pai, mas s se tornou 
ntimo quando, no curso dessa enfermidade, a jovem senhora assumiu oficialmente a posio de enfermeira, enquanto a me de Dora se mantinha afastada do leito do 
doente. Nas primeiras frias de vero aps a recuperao do pai, aconteceram coisas que deveriam ter aberto os olhos de todos para a verdadeira natureza daquela 
"amizade". As duas famlias tinham alugado um conjunto de aposentos em comum no hotel, e um belo dia a Sra. K. anunciou que no podia continuar no quarto que at 
ento partilhara com um de seus filhos; poucos dias depois, o pai de Dora deixou seu prprio quarto e ambos se mudaram para outros - os quartos da extremidade, separados 
apenas pelo corredor-, enquanto os aposentos que haviam abandonado no ofereciam tal garantia contra interferncias. Mais tarde, sempre que Dora repreendia o pai 
por causa da Sra. K., ele costumava dizer que no podia entender sua hostilidade e que, ao contrrio, seus filhos tinham todas as razes para serem gratos a ela. 
A me, a quem Dora foi pedir uma explicao sobre esse misterioso comentrio, disse-lhe que, naquela poca, papai estava to triste que quisera suicidar-se nos bosques; 
a Sra. K., suspeitando disso, fora atrs dele e o persuadira com suas splicas a se preservar para os seus. Naturalmente, Dora no acreditava nisso; sem dvida, 
os dois tinham sido vistos juntos no bosque e papai inventara a histria do suicdio para justificar o encontro deles.
         
         Quando retornaram a B , o pai visitava todos os dias a Sra. K. em determinados horrios, enquanto o marido dela estava na loja. Todo mundo comentara isso 
e as pessoas interrogavam Dora de maneira significativa a esse respeito. O prprio Sr. K. muitas vezes se queixara amargamente  me de Dora, embora poupasse a filha 
de qualquer aluso ao assunto - o que ela parecia atribuir a uma delicadeza da parte dele. Nos passeios de todos em comum, seu pai e a Sra. K. sempre sabiam arranjar 
as coisas de modo a ficarem a ss. No havia dvida alguma de que ela aceitava dinheiro dele, pois fazia gastos que seria impossvel sustentar com seus recursos 
ou com os do marido. O pai comeara tambm a dar grandes presentes  Sra. K. e, para disfar-los, tornou-se ao mesmo tempo particularmente generoso com a me de 
Dora e com ela prpria. E a Sra. K., at ento doentia, ela mesma obrigada a passar meses num sanatrio para doentes nervosos por no poder andar, tornara-se agora 
uma mulher sadia e cheia de vida.
         
         Mesmo depois de deixarem B  [mudando-se para a cidade onde ficava a fbrica], esse relacionamento de anos prosseguiu, pois de tempos em tempos o pai declarava 
no suportar o rigor do clima e ter de fazer algo por sua sade; comeava a tossir e a se queixar, at que de repente partia para B  de onde escrevia as mais alegres 
cartas. Todas essas doenas no passavam de pretextos para que ele revisse sua amiga. Depois, um belo dia, ficou decidido que eles se mudariam para Viena, e Dora 
comeou a suspeitar de uma combinao. E de fato, mal se haviam passado trs semanas desde que estavam em Viena, ela soube que tambm os K. se tinham transferido 
para l. No momento, contou-me ela, continuavam em Viena, e era freqente ela topar com o pai na rua em companhia da Sra. K. Tambm encontrava amide o Sr. K.; ele 
sempre a acompanhava com o olhar e, certa feita, quando a encontrou sozinha, seguiu-a por um longo trecho para ver aonde ela ia e se no estaria indo a um encontro.
         
         O pai era insincero, havia um trao de falsidade em seu carter, s pensava em sua prpria satisfao e tinha o dom de arranjar as coisas da maneira que 
mais lhe conviesse: tais foram as crticas mais freqentes que ouvi de Dora um dia, quando o pai tornou a sentir que seu estado havia piorado e viajou para B  por 
vrias semanas, ao que a arguta Dora prontamente se inteirou de que tambm a Sra. K. fizera uma viagem para a mesma cidade para fazer uma visita a seus parentes.
         
         No pude contestar de maneira geral essa caracterizao do pai; tambm era fcil ver por qual recriminao particular Dora estava justificada. Quando ficava 
com o nimo mais exasperado, impunha-se a ela a concepo de ter sido entregue ao Sr. K. como prmio pela tolerncia dele para com as relaes entre sua mulher e 
o pai de Dora; e por trs da ternura desta pelo pai podia-se pressentir sua fria por ser usada dessa maneira. Noutras ocasies, ela sabia muito bem que era culpada 
de exagero ao falar assim. Naturalmente, os dois homens nunca haviam firmado um pacto formal de que ela fosse tratada como objeto de troca, tanto mais que seu pai 
teria recuado horrorizado ante tal insinuao. Mas ele era um desses homens que sabem como fugir a um conflito falseando seu julgamento sobre uma das alternativas 
em oposio. Se lhe tivessem chamado a ateno para a possibilidade de que uma adolescente corresse perigo na companhia constante e no vigiada de um homem insatisfeito 
com sua prpria mulher, ele certamente teria respondido que podia confiar na filha, que um homem como K. jamais poderia ser perigoso para ela e que seu amigo era 
incapaz de tais intenes. Ou ento: que Dora ainda era uma criana e era tratada como criana por K. Mas, na realidade, ocorre que cada um dos dois homens evitava 
extrair da conduta do outro qualquer conseqncia que pudesse ser inconveniente para suas prprias pretenses. Assim, o Sr. K. pde enviar flores a Dora todos os 
dias por um ano inteiro enquanto esteve por perto, aproveitar todas as oportunidades de dar-lhe presentes valiosos e passar todo o seu tempo livre na companhia dela, 
sem que os pais da moa discernissem nesse comportamento o carter de uma corte amorosa.
         
         Quando surge no tratamento psicanaltico uma seqncia correta, fundamentada e incontestvel de pensamentos, isso bem pode representar um momento de embarao 
para o mdico, do qual o paciente se aproveita para perguntar: "Tudo isso  perfeitamente verdadeiro e correto, no ? Que quer o Sr. modificar, agora que lhe contei?" 
Mas logo se evidencia que o paciente est usando tais pensamentos inatacveis pela anlise para acobertar outros que se querem subtrair da crtica e da conscincia. 
Um rosrio de censuras a outras pessoas leva-nos a suspeitar da existncia de um rosrio de autocensuras de contedo idntico. Basta que se volte cada censura isolada 
para a prpria pessoa do falante. H algo de inegavelmente automtico nessa maneira de defender-se de uma autocensura dirigindo a mesma censura contra outrem. Encontra-se 
um modelo disso nos argumentos tu quoque das crianas; quando uma delas  acusada de mentirosa, retruca sem hesitar: "Voc  que ." Um adulto empenhado em revidar 
um insulto procuraria um ponto fraco real de seu oponente e no poria a nfase principal na repetio do mesmo contedo. Na parania, essa projeo da censura em 
outrem sem qualquer alterao do contedo, e portanto, sem nenhum apoio na realidade, torna-se manifesta como processo de formao do delrio.
         
         Tambm as censuras de Dora a seu pai estavam assim "forradas" ou "revestidas" de autocensuras de contedo idntico, quase sem exceo, como se ver em detalhe. 
Tinha razo em achar que seu pai no queria esclarecer o comportamento do Sr. K. em relao a ela para no ser molestado em seu prprio relacionamento com a Sra. 
K. Mas Dora fizera precisamente a mesma coisa. Tornara-se cmplice desse relacionamento e repudiara todos os sinais que pudessem mostrar sua verdadeira natureza. 
S da aventura no lago (ver em [1])  que datavam sua viso clara do assunto e suas exigncias ao pai. Durante todos os anos anteriores ela fizera o possvel para 
favorecer as relaes do pai com a Sra. K. Nunca ia v-la quando suspeitava de que seu pai estivesse l. Sabia que, nesse caso, as crianas seriam afastadas, e rumava 
pelo caminho em que estava certa de encontr-las, indo passear com elas. Na casa de Dora tinha havido uma pessoa que cedo quis abrir-lhe os olhos para as relaes 
do pai com a Sra. K. e induzi-la a tomar partido contra essa mulher. Fora sua ltima governanta, uma moa solteira e mais velha, muito lida e de opinies avanadas. 
Mestra e aluna se deram esplendidamente por algum tempo, at que, de repente, Dora se desentendeu com ela e insistiu em sua dispensa. Enquanto a governanta teve 
alguma influncia, usou-a para acirrar os nimos contra a Sra. K. Disse  me de Dora que era incompatvel com sua dignidade tolerar tal intimidade entre seu marido 
e uma estranha e chamou a ateno de Dora para tudo o que saltava aos olhos naquele relacionamento. Mas seus esforos foram em vo, pois Dora continuava ternamente 
ligada  Sra. K. e no queria saber de nenhum motivo que fizesse as relaes do pai com ela parecerem indecentes. Por outro lado, percebia muito bem os motivos que 
impeliam sua governanta. Cega num sentido, Dora tinha a percepo bem aguada no outro. Notou que a governanta estava apaixonada por seu pai. Quando ele estava em 
casa, ela parecia uma pessoa completamente diferente, podendo ser divertida e obsequiosa. Na poca em que a famlia morava na cidade industrial e a Sra. K. no estava 
no horizonte, sua animosidade se voltava contra a me de Dora, que era ento sua rival mais imediata. Mas Dora ainda no levava nada disso a mal. S se zangou ao 
observar que ela prpria era totalmente indiferente para a governanta, cuja afeio demonstrada por ela de fato era dirigida a seu pai. Enquanto o pai estava ausente 
da cidade industrial, a moa no tinha tempo para ela, no queria passear com ela e no se interessava por seus estudos. Mal o pai voltava de B , ela tornava a se 
mostrar prestimosa em toda sorte de servio e ajuda. Por isso Dora a deixou de lado.
         
         A pobre mulher elucidara com clareza indesejada uma parte do comportamento de Dora. O que a governanta s vezes era para Dora, esta fora para os filhos 
do Sr. K. Fora uma me para eles, instruindo-os, passeando com eles e lhes oferecendo um substituto completo para o escasso interesse que a verdadeira me lhes demonstrava. 
O Sr. e a Sra. K. freqentemente falavam em divrcio, que nunca se concretizou porque o Sr. K., que era um pai afetuoso, no queria abrir mo de nenhum dos dois 
filhos. O interesse comum pelos filhos fora desde o incio um elo entre o Sr. K. e Dora. Evidentemente, ocupar-se de crianas era para Dora um disfarce destinado 
a ocultar dela mesma e dos outros alguma outra coisa.
         
         De seu comportamento para com as crianas, considerado  luz da conduta da governanta com ela prpria, extraa-se a mesma concluso que de sua tcita aquiescncia 
s relaes do pai com a Sra. K., a saber, que em todos aqueles anos ela estivera apaixonada pelo Sr. K. Quando formulei essa concluso, no obtive dela nenhum assentimento. 
 verdade que me disse de imediato que tambm outras pessoas (por exemplo, uma prima que passara algum tempo com eles em B ) lhe tinham dito: "Ora, voc  simplesmente 
louca por este homem!" Mas ela prpria no queria lembrar-se de nenhum sentimento dessa ordem. Mais tarde, quando a abundncia do material surgido tornou-lhe difcil 
persistir na negativa, ela admitiu que poderia ter estado enamorada do Sr. K. em B , mas declarou que desde a cena do lago isso havia acabado. De qualquer forma, 
era certo que a censura, por fazer ouvidos de mercador aos chamados imperativos do dever e por arranjar as coisas da maneira mais conveniente do ponto de vista do 
prprio enamoramento, ou seja, a censura que ela fazia contra o pai recaa sobre sua prpria pessoa.
         
         A outra censura, de que as doenas do pai eram criadas como um pretexto e exploradas em proveito prprio, coincide tambm com todo um fragmento de sua prpria 
histria secreta. Um dia, Dora queixou-se de um sintoma supostamente novo, que consistia em dores de estmago dilacerantes, e acertei em cheio ao perguntar: "A quem 
voc est copiando nisso?" No dia anterior ela fora visitar as primas, filhas da tia que morrera. A mais jovem ficara noiva e com isso a mais velha adoecera com 
umas dores de estmago,sendo mandada para Semering. Dora achava que era apenas inveja por parte da mais velha, pois ela sempre adoecia quando queria alguma coisa, 
e o que queria agora era afastar-se de casa para no ter de assistir  felicidade da irm. Mas suas prprias dores de estmago diziam que Dora se identificara com 
a prima, assim declarada simuladora, fosse porque ela tambm invejava o amor da moa mais afortunada, fosse porque via sua prpria histria refletida na da irm 
mais velha, que tivera recentemente um caso amoroso de final infeliz. Mas Dora tambm aprendera, observando a Sra. K., quanto proveito se podia tirar das doenas. 
O Sr. K. passava parte do ano viajando; sempre que voltava, encontrava sua mulher adoentada, embora, como Dora sabia, ela tivesse gozado de boa sade at o dia anterior. 
Dora compreendeu que era a presena do marido que fazia a mulher adoecer, e que esta considerava a doena bem-vinda para escapar aos deveres conjugais que tanto 
detestava. Nesse ponto inseriu-se uma observao repentina de Dora sobre suas prprias alternaes entre doena e sade nos primeiros anos de sua infncia em B  
, e assim fui levado a suspeitar de que seus prprios estados de sade dependiam de alguma outra coisa, tal como os da Sra. K.  que na tcnica da psicanlise existe 
uma regra de que uma conexo interna ainda no revelada se anuncia pela contigidade, pela proximidade temporal entre as associaes, exatamente como, na escrita, 
um a e um b postos lado a lado significam que se pretendeu formar com eles a slaba ab. Dora tivera um grande nmero de acessos de tosse acompanhados de perda da 
voz. Teria a presena ou ausncia do homem amado exercido alguma influncia sobre o aparecimento e desaparecimento dos sintomas patolgicos? Se assim fosse, em algum 
ponto se deveria revelar uma coincidncia denunciadora. Perguntei-lhe qual tinha sido a durao mdia desses ataques. "Trs a seis semanas, talvez." Quanto tempo 
duravam as ausncias do Sr. K.? "Trs a seis semanas, tambm", teve ela de admitir. Com suas doenas, portanto, ela demonstrava seu amor por K., tal como a mulher 
dele demonstrava sua averso. Bastava supor que seu comportamento fora o oposto do da Sra. K.: enferma quando ele estava ausente e sadia quando ele voltava. Isso 
realmente parece ter acontecido pelo menos durante o primeiro perodo dos ataques. Em pocas posteriores, sem dvida, tornou-se necessrio obscurecer a coincidncia 
entre seus ataques de doena e a ausncia do homem secretamente amado,para que a constncia dessa coincidncia no trasse seu segredo. A durao dos acessos permaneceria, 
depois, como uma marca de seu sentido originrio.
         
         Lembrei-me de ter visto e ouvido tempos atrs, na clnica de Charcot [1885-6], que nas pessoas que sofrem de mutismo histrico a escrita funcionava vicariamente 
em lugar da fala. Elas escreviam com maior fluncia, mais depressa e melhor do que as outras ou elas mesmas anteriormente. O mesmo acontecera com Dora. Nos primeiros 
dias de suas crises de afonia "a escrita sempre lhe flua da mo com especial facilidade". Essa peculiaridade, como expresso de uma funo fisiolgica substitutiva 
criada pela necessidade, na verdade no requeria esclarecimento psicolgico, mas era notvel a facilidade com que este era encontrado. O Sr. K. lhe escrevia profusamente 
quando em viagem, e lhe mandava cartes-postais; houve ocasies em que s ela estava a par da data de seu regresso, enquanto este apanhava sua mulher de surpresa. 
Alm disso, corresponder-se com um ausente com quem no se pode falar no  mais compreensvel do que, tendo perdido a voz, tentar fazer-se entender pela escrita. 
A afonia de Dora, portanto, admitia a seguinte interpretao simblica: quando o amado estava longe, ela renunciava  fala; esta perdia seu valor, j que no podia 
falar com ele. Por outro lado, a escrita ganhava importncia como nico meio de se manter em relao com o ausente.
         
         Devo, ento, afirmar que em todos os casos em que h crises peridicas de afonia devemos diagnosticar a existncia de um amado que se ausenta temporariamente? 
Por certo no  esta minha inteno. A determinao do sintoma no caso de Dora  por demais especfica para que se possa pensar na repetio freqente dessa mesma 
etiologia acidental. Mas, que valor tem ento o esclarecimento da afonia em nosso caso? No nos teremos simplesmente deixado enganar por um jeu d'esprit? Creio que 
no. Aqui convm lembrar a questo to freqentemente levantada de saber se os sintomas da histeria so de origem psquica ou somtica ou, admitindo-se o primeiro 
caso, se todos tm necessariamente um condicionamento psquico. Esta pergunta, como tantas outras a que os investigadores tm voltado repetidamente sem sucesso, 
no  adequada. As alternativas nelas expostas no cobrem a essncia real dos fatos. At onde posso ver, todo sintoma histrico requer a participao de ambos os 
lados. No pode ocorrer sem a presena de uma certa complacncia somtica fornecida por algum processo normal ou patolgico no interior de um rgo do corpo ou com 
ele relacionado. Porm no se produz mais de uma vez - e  do carter do sintoma histrico a capacidade de se repetir - a menos que tenha uma significao psquica, 
um sentido. O sintoma histrico no traz em si esse sentido, mas este lhe  emprestado, soldado a ele, por assim dizer, e em cada caso pode ser diferente, segundo 
a natureza dos pensamentos suprimidos que lutam por se expressar. Todavia, h uma srie de fatores que operam para tornar menos arbitrrias as relaes entre os 
pensamentos inconscientes e os processos somticos de que estes dispem como meio de expresso, assim como para aproxim-las de algumas formas tpicas. Para a terapia, 
os determinantes mais importantes so os fornecidos pelo material psquico acidental; os sintomas so dissolvidos buscando-se sua significao psquica. Uma vez 
removido tudo o que se pode eliminar pela psicanlise, fica-se em condies de formar toda sorte de conjecturas, provavelmente acertadas, sobre as bases somticas 
dos sintomas, que em geral so constitucionais e orgnicas. Tampouco no caso dos acessos de tosse e afonia de Dora nos contentaremos com uma interpretao psicanaltica, 
mas indicaremos por trs dela o fator orgnico de que partiu a "complacncia somtica" que lhe possibilitou expressar sua afeio por um amado temporariamente ausente. 
E se neste caso a conexo entre a expresso sintomtica e o contedo dos pensamentos inconscientes nos parecer fruto de um habilidoso e impressionante artifcio, 
ficaremos reconfortados em saber que ela cria a mesma impresso em todos os outros casos e em todos os outros exemplos.
         
         Estou pronto a ouvir, nesta altura, que no h grande vantagem em sermos informados, graas  psicanlise, de que no mais precisamos buscar a chave do 
problema da histeria numa "labilidade peculiar das molculas nervosas" ou numa suscetibilidade aos "estados hipnides", mas numa "complacncia somtica". Em resposta 
a essa observao, quero frisar que dessa maneira o enigma no s recuou um pouco, mas tambm se tornou um pouco menor. J no temos de lidar com o enigma inteiro, 
mas apenas da parte dele em que se inclui a caracterstica particular da histeria que a diferencia das outras psiconeuroses. Os processos psquicos em todas as psiconeuroses 
so os mesmos durante um extenso percurso, at que entre em cena a "complacncia somtica" que proporciona aos processos psquicos inconscientes uma sada no corporal. 
Quando esse fator no se faz presente, surge da situao total algo diferente de um sintoma histrico, mas ainda de natureza afim: uma fobia, talvez, ou uma idia 
obsessiva - em suma, um sintoma psquico.
         
         Volto agora  censura pela "simulao" de doena que Dora fez ao pai. Logo se evidenciou que a ela correspondiam no s autocensuras concernentes a estados 
patolgicos anteriores, mas tambm outras relativas  poca atual. Nesse ponto, cabe comumente ao mdico a tarefa de adivinhar e complementar aquilo que a anlise 
lhe oferece apenas sob a forma de aluses. Tive de assinalar  paciente que seu atual estado de sade era to determinado por motivos e to tendencioso quanto fora 
a doena da Sra. K., que ela entendera to bem. No havia nenhuma dvida, disse eu, de que ela visava a um objetivo que esperava alcanar atravs de sua doena. 
Este no podia ser outro seno o de fazer seu pai afastar-se da Sra. K. Mediante splicas ou argumentos ela no conseguia; talvez esperasse ter xito assustando 
o pai (vide a carta de despedida), despertando sua compaixo (por meio dos ataques de desmaios) (ver em [1]), ou se tudo isso fosse em vo, pelo menos se vingaria 
dele. Ela sabia muito bem, prossegui, o quanto ele lhe era apegado e que seus olhos se enchiam de lgrimas quando lhe perguntavam pelo estado da filha. Eu estava 
plenamente convencido de que ela se recuperaria imediatamente se o pai lhe dissesse que tinha sacrificado a Sra. K, em prol da sade dela. Mas, acrescentei, eu esperava 
que ele no se deixasse persuadir a faz-lo, pois ento ela ficaria conhecendo a poderosa arma que tinha nas mos e por certo no deixaria de servir-se em todas 
as ocasies futuras de sua possibilidade de adoecer. Se o pai no cedesse, porm, eu deveria estar preparado para isto: ela no renunciaria to facilmente a sua 
doena.
         
         Omito os detalhes que mostraram quo plenamente correto era tudo isso, preferindo acrescentar algumas observaes gerais sobre o papel desempenhado na histeria 
pelos motivos da doena. Os motivos do adoecimento devem ser nitidamente distinguidos, enquanto conceito, das possibilidades de adoecer - do material de que se formam 
os sintomas. Eles no tm participao alguma na formao de sintomas e nem sequer esto presentes no incio da doena. S aparecem secundariamente, mas  apenas 
com seu advento que se constitui plenamente a enfermidade. Pode-se contar com sua existncia em todos os casos em que haja um sofrimento real e de longa data. A 
princpio, o sintoma  para a vida psquica um hspede indesejvel: tudo est contra ele, e  por isso que pode dissipar-se com tanta facilidade, aparentemente por 
si s, sob a influncia do tempo. No incio, no tem nenhum emprego til na economia domstica psquica, porm com muita freqncia encontra serventia secundariamente. 
Uma ou outra corrente psquica acha cmodo servir-se do sintoma, que assim adquire uma funo secundria e fica como que ancorado na vida anmica. Aquele que pretende 
curar o doente tropea ento, para seu assombro, numa grande resistncia, que lhe ensina que a inteno do paciente de se livrar de seus males no  nem to cabal 
nem to sria quanto parecia. Imaginemos um trabalhador, um pedreiro, digamos, que tenha cado de uma construo e ficado aleijado, e que agora ganhe a vida mendigando 
nas esquinas. Chega um milagreiro e promete endireitar-lhe a perna torta e devolver-lhe a marcha. No se deve esperar, acho eu, ver uma expresso de particular contentamento 
em seu rosto. Sem dvida, na poca em que sofreu a leso, ele h de ter-se sentido extremamente infeliz, ao compreender que nunca mais poderia voltar a trabalhar 
e teria de passar fome ou viver de esmolas. Desde ento, porm, o que antes o deixara sem seu ganha-po tornou-se sua fonte de renda: ele vive de sua invalidez. 
Se esta lhe for tirada, talvez ele fique totalmente desamparado; nesse meio tempo, ele esqueceu seu ofcio, perdeu seus hbitos de trabalho e se acostumou  indolncia, 
e talvez tambm  bebida.
         
         Os motivos para adoecer muitas vezes comeam a se fazer sentir j na infncia. A menina sedenta de amor, que a contragosto partilha com seus irmos a afeio 
dos pais, percebe que toda esta volta a afluir-lhe quando seu adoecimento desperta a preocupao deles. Agora ela conhece um meio de atrair o amor dos pais, e se 
valer dele to logo disponha do material psquico para produzir uma doena. Quando essa menina se transforma em mulher e, em total contradio com as exigncias 
de sua infncia, casa-se com um homem pouco atencioso que sufoca sua vontade, explora impiedosamente sua capacidade de trabalho e no lhe d nem ternura nem dinheiro, 
a doena  a nica arma que lhe resta para afirmar-se na vida. Ela lhe proporciona a ansiada considerao, fora o marido a fazer sacrifcios pecunirios e a demonstrar-lhe 
um respeito que no teria se ela estivesse com sade, e o obriga a trat-la com prudncia caso ela se recupere, pois do contrrio poder haver uma recada. O carter 
aparentemente objetivo e involuntrio de seu estado patolgico, que o mdico encarregado de trat-la por certo defender, possibilita esse uso oportuno, sem autocensuras 
conscientes, de um meio que ela constatara ser eficaz na infncia.
         
         E ainda assim essas doenas so obra da inteno! Em geral, esses estados patolgicos se destinam a uma determinada pessoa, de modo que desaparecem quando 
ela se afasta. As opinies mais rudes e banais sobre a natureza dos distrbios histricos, como as que se ouvem de parentes incultos e de enfermeiras, de certa forma 
so corretas.  verdade que a mulher que jaz paralisada na cama se levantaria de um salto se irrompesse um incndio em seu quarto, e que a esposa excessivamente 
mimada esqueceria todos os seus sofrimentos se um filho seu adoecesse com risco de vida ou se alguma catstrofe ameaasse a situao do lar. Todos os que assim falam 
dos pacientes esto certos, a no ser num nico ponto: desconsideram a distino psicolgica entre consciente e inconsciente, o que talvez seja permissvel quando 
se trata de crianas, mas com adultos j no tem cabimento. Por isso  que de nada servem todas essas afirmaes de que  "apenas uma questo de vontade" e todas 
as exortaes e insultos dirigidos ao doente. Primeiro  preciso tentar, pelas vias indiretas da anlise, fazer com que a pessoa convena a si mesma da existncia 
dessa inteno de adoecer.
         
         Na histeria,  no combate aos motivos da doena que reside, de modo bastante geral, o ponto fraco para qualquer terapia, inclusive a psicanlise. Para o 
destino as coisas so mais fceis: ele no precisa atacar a constituio ou o material patognico do enfermo; basta-lhe eliminar o motivo de adoecimento para que 
o doente fique temporria ou at permanentemente livre de seu mal. Quo menor seria o nmero de curas milagrosas e desaparecimentos espontneos dos sintomas que 
ns, os mdicos, teramos de admitir na histeria, se nos fosse dado conhecer mais amide os interesses vitais que os doentes nos ocultam! Ora um prazo se esgotou, 
ora desapareceu a considerao por alguma outra pessoa, ora uma situao foi fundamentalmente alterada por algum acontecimento externo, e eis que todo distrbio 
at ento pertinaz desaparece de um s golpe, de modo aparentemente espontneo, mas, na verdade, por ter sido privado de seu motivo mais poderoso - um dos usos que 
tinha na vida do enfermo.
         
         Em todos os casos plenamente desenvolvidos  provvel que se encontrem motivos que sustentam a condio do doente. Mas h casos com motivos puramente internos, 
como, por exemplo, a autopunio, ou seja, o arrependimento e a penitncia. Neles, verifica-se que a tarefa teraputica  mais fcil de solucionar do que nos casos 
em que a doena se relaciona com a consecuo de algum objetivo externo. No caso de Dora, esse objetivo era claramente o de sensibilizar o pai e afast-lo da Sra. 
K.
         
         Nenhum dos atos do pai parecia irrit-la tanto quanto sua presteza em tomar a cena do lago como produto da fantasia dela. Dora ficava fora de si ante a 
idia de se pensar que ela simplesmente imaginara algo naquela ocasio. Durante muito tempo fiquei em apuros para adivinhar que autocensura se ocultaria por trs 
de sua recusa apaixonada dessa explicao. Era justificvel suspeitar de que houvesse algo oculto, pois uma censura que no acerta o alvo tampouco ofende em termos 
duradouros. Por outro lado, cheguei  concluso de que o relato de Dora devia corresponder  verdade em todos os aspectos. Mal ela percebera a inteno do Sr. K., 
no deixara que ele terminasse de falar, esbofeteara-o no rosto e se afastara s carreiras. Seu comportamento, depois que ela se foi, deve ter parecido to incompreensvel 
para o homem quanto para ns, pois ele j deveria ter depreendido desde muito antes, por pequenos indcios, que tinha assegurada a afeio da moa. Na discusso 
do segundo sonho encontraremos tanto a soluo desse enigma quanto a autocensura em vo buscada no comeo (ver a partir de [1]).
         
         Como as acusaes contra o pai se repetiam com cansativa monotonia e ao mesmo tempo sua tosse continuava, fui levado a achar que esse sintoma poderia ter 
algum significado relacionado com o pai. Alm disso, as exigncias que costumo fazer  explicao de um sintoma estavam longe de ser satisfeitas. Segundo uma regra 
que eu pudera confirmar repetidamente pela experincia mas que ainda no me atrevera a consolidar num princpio geral, o sintoma significa a representao - a realizao 
- de uma fantasia de contedo sexual, isto , uma situao sexual. Melhor dizendo, pelo menos um dos significados de um sintoma corresponde  representao de uma 
fantasia sexual, enquanto para os outros significados no se impe tal limitao do contedo. Quando se empreende o trabalho psicanaltico, logo se constata que 
os sintomas tm mais de um significado e servem para representar simultaneamente diversos cursos inconscientes de pensamento. E eu acrescentaria que, na minha opinio, 
um nico curso de pensamento ou fantasia inconsciente dificilmente bastar para a produo de um sintoma.
         
         Logo surgiu uma oportunidade de atribuir  tosse nervosa de Dora uma interpretao desse tipo, mediante uma situao sexual fantasiada. Quando ela insistiu 
mais uma vez em que a Sra. K. s amava seu pai porque ele era "ein vermgender Mann" ["um homem de posses"], certos pormenores da maneira como se expressou (que 
omito aqui, como a maioria dos aspectos puramente tcnicos da anlise) levaram-me a notar que por trs dessa frase se ocultava seu oposto, ou seja, que o seu pai 
era "ein unvermgender Mann" ["um homem sem recursos"]. Isso s poderia ser entendido num sentido sexual - que seu pai, como homem, era sem recursos, era impotente. 
Depois que Dora confirmou essa interpretao com base em seu conhecimento consciente, assinalei a contradio em que ela caa quando, por um lado, continuava a insistir 
em que as relaes do pai com a Sra. K. eram um caso amoroso corriqueiro e, por outro, asseverava que o pai era impotente e, portanto, incapaz de tirar proveito 
de tal relacionamento. Sua resposta mostrou que ela no precisava reconhecer a contradio. Ela sabia muito bem, disse, que h mais de uma maneira de se obter satisfao 
sexual. A fonte desse conhecimento, alis, novamente lhe era inidentificvel. Como lhe perguntei se ela se estava referindo ao uso de outros rgos que no os genitais 
na relao sexual e ela respondeu afirmativamente, pude prosseguir dizendo que, nesse caso, ela devia estar pensando precisamente nas partes do corpo que nela se 
achavam em estado de irritao - a garganta e a cavidade bucal. Obviamente, ela no queria saber de seus pensamentos a tal ponto, e de fato, se era isso que possibilitava 
o sintoma, no poderia mesmo ser-lhe inteiramente claro. Mas era irrecusvel a complementao de que, com sua tosse espasmdica - que, como de hbito, tinha por 
estmulo uma sensao de ccega na garganta -, ela representava uma cena de satisfao sexual per os entre as duas pessoas cuja ligao amorosa a ocupava to incessantemente. 
Muito pouco tempo depois de ela aceitar em silncio essa explicao, a tosse desapareceu - o que se afinava muito bem com minha viso; mas no quero atribuir um 
valor excessivo a essa mudana, visto que ela j se produzira tantas vezes espontaneamente.
         
         Caso esse trechinho da anlise tenha despertado no leitor mdico, alm do ceticismo a que ele tem direito, tambm estranheza, e horror, estou disposto a 
averiguar, neste ponto, se essas duas reaes so justificveis. A estranheza, penso eu,  motivada por minha ousadia em falar sobre coisas to delicadas e desagradveis 
com uma jovem - ou, de modo geral, com qualquer mulher sexualmente ativa. O horror sem dvida concerne  possibilidade de que uma moa virgem possa conhecer semelhantes 
prticas e ocupar-se delas em sua fantasia. Em ambos os pontos eu recomendaria moderao e prudncia. No h motivos para indignao em nenhum dos dois casos. Pode-se 
falar com moas e muIheres sobre toda sorte de assuntos sexuais sem causar-lhes qualquer prejuzo e sem acarretar suspeitas sobre si mesmo, desde que, em primeiro 
lugar, adote-se uma certa maneira de faz-lo, e, em segundo, consiga-se despertar nelas a convico de que isso  inevitvel. Afinal, nessas mesmas condies, o 
ginecologista se permite submet-las a todos os desnudamentos possveis. A melhor maneira de falar sobre tais coisas  ser seco e direto; e ela , ao mesmo tempo, 
a que mais se afasta da lascvia com que os mesmos temas so tratados na "sociedade", com a qual as moas e mulheres esto plenamente acostumadas. Dou aos rgos 
e funes do corpo seus nomes tcnicos, e os comunico - refiro-me aos nomes - quando por acaso so ignorados. J'apelle un chat un chat. Certamente j ouvi falar 
de pessoas - mdicos e leigos - que se escandalizam com uma terapia em que ocorrem tais conversas, e que parecem invejar a mim ou a meus pacientes pela excitao 
que, segundo suas expectativas, tal mtodo deve proporcionar. Mas conheo demasiadamente bem o decoro desses senhores para me irritar com eles. Resistirei  tentao 
de escrever uma stira a seu respeito. Mas h uma coisa que quero dizer: muitas vezes, depois de tratar por algum tempo de uma paciente para quem, de incio, no 
foi fcil a franqueza nas questes sexuais, tive a satisfao de ouvi-la exclamar: "Ora, afinal, seu tratamento  muito mais decente do que a conversa do Sr. X!"
         
         Antes de se empreender o tratamento de um caso de histeria,  preciso estar convencido da impossibilidade de evitar a meno de temas sexuais, ou pelo menos 
estar disposto a se deixar convencer pela experincia. A atitude correta : "pour faire une omelette il faut casser des oeufs". Os prprios pacientes so fceis 
de convencer, e h inmeras oportunidades para isso no decorrer do tratamento. No h por que recriminar-se por falar com eles sobre os fatos da vida sexual normal 
ou anormal. Com um pouco de cautela, no se faz mais do que traduzir em idias conscientes o que j se sabia no inconsciente, e toda a eficcia do tratamento se 
baseia em nosso conhecimento de que a ao do afeto ligado a uma idia inconsciente  mais intensa e, como ele no pode ser inibido, mais prejudicial que a do afeto 
ligado a uma idia consciente. Nunca se corre qualquer perigo de corromper uma jovem inexperiente; quando no h no inconsciente nenhum conhecimento sobre os processos 
sexuais, tampouco surge qualquer sintoma histrico. Quando se constata uma histeria, no h como falar em "inocncia dos pensamentos" no sentido usado pelos pais 
e educadores. Nas crianas de dez, doze ou quatorze anos, sejam elas meninos ou meninas, pude convencer-me da confiabilidade desta afirmao, sem excees.
         
         Quanto  segunda reao emocional, que j no se dirige a mim e sim a minha paciente - supondo-se que minha viso dela esteja correta -, e que considera 
horrvel o carter perverso de suas fantasias, cabe-me frisar que no compete ao mdico tal condenao apaixonada. Entre outras coisas, considero despropositado 
que um mdico, ao escrever sobre as aberraes das pulses sexuais, sirva-se de cada oportunidade para intercalar no texto expresses de sua repugnncia pessoal 
ante coisas to revoltantes. Estamos diante de um fato, e  de se esperar que nos acostumemos a ele pondo de lado nossos prprios gostos. Precisamos aprender a falar 
sem indignao sobre o que chamamos de perverses sexuais - essas transgresses da funo sexual tanto na esfera do corpo quanto na do objeto sexual. J a indefinio 
dos limites do que se deve chamar de vida sexual normal nas diferentes raas e pocas deveria arrefecer tal ardor fantico. Tampouco nos devemos esquecer de que 
a perverso que nos  mais repelente, o amor sensual de um homem por outro, no s era tolerada num povo culturalmente to superior a ns quanto os gregos, como 
tambm lhe eram atribudas entre eles importantes funes sociais. Na vida sexual de cada um de ns, ora aqui, ora ali, todos transgredimos um pouquinho os estreitos 
limites do que se considera normal. As perverses no so bestialidades nem degeneraes no sentido pattico dessas palavras. So o desenvolvimento de germes contidos, 
em sua totalidade, na disposio sexual indiferenciada da criana, e cuja supresso ou redirecionamento para objetivos assexuais mais elevados - sua "sublimao" 
- destina-se a fornecer a energia para um grande nmero de nossas realizaes culturais. Portanto, quando algum se torna grosseira e manifestamente pervertido, 
seria mais correto dizer que permaneceu como tal, pois exemplifica um estgio de inibio do desenvolvimento. Todos os psiconeurticos so pessoas de inclinaes 
perversas fortemente acentuadas, mas recalcadas e tornadas inconscientes no curso de seu desenvolvimento. Por isso suas fantasias inconscientes exibem um contedo 
idntico ao das aes documentadas nos perversos, mesmo que eles no tenham lido a Psychopathia Sexualis de Krafft-Ebing, livro a que as pessoas ingnuas atribuem 
uma parcela to grande de culpa na gnese das tendncias perversas. As psiconeuroses so, por assim dizer, o negativo das perverses. Nos neurticos, a constituio 
sexual, na qual est contida a expresso da hereditariedade, atua em combinao com as influncias acidentais de sua vida que possam perturbar o desenvolvimento 
da sexualidade normal. O curso d'gua que encontra um obstculo em seu leito reflui para leitos antigos que antes pareciam destinados a permanecer secos. As foras 
impulsoras da formao dos sintomas histricos no provm apenas da sexualidade normal recalcada, mas tambm das moes perversas inconscientes.
         
         As menos chocantes dentre as chamadas perverses sexuais so amplamente difundidas por toda a populao, como sabe todo o mundo, exceto os mdicos que escrevem 
sobre o assunto. Ou melhor, esses autores tambm sabem, s que se empenham em esquec-lo no momento em que tomam da pena para escrever a respeito. Portanto, no 
surpreende que nossa histrica de quase dezenove anos soubesse da existncia desse tipo de relao sexual (suco do rgo masculino), criasse uma fantasia inconsciente 
dessa natureza e a expressasse atravs da sensao de ccega na garganta e da tosse. Tampouco seria assombroso que ela chegasse a tal fantasia mesmo sem contar com 
qualquer esclarecimento externo, como pude comprovar com certeza em outras pacientes.  que, no caso dela, um fato digno de nota proporcionava a precondio somtica 
para tal criao independente de uma fantasia que coincide com a prtica dos perversos. Ela lembrava muito bem de ter sido, na infncia, uma "chupadora de dedo". 
O pai tambm se recordava de t-la feito abandonar esse hbito, que persistira at os quatro ou cinco anos de idade. A prpria Dora tinha clara na memria a imagem 
de uma cena de sua tenra infncia em que, sentada num canto do assoalho, ela chupava o polegar esquerdo, enquanto com a mo direita puxava o lbulo da orelha do 
irmo, sentado quieto a seu lado. Essa  a forma completa da autogratificao pelo ato de chupar, tal como tambm me foi descrita por outras pacientes que depois 
se tornaram anestsicas e histricas.
         
         Uma dessas pacientes deu-me uma informao que esclarece perfeitamente a origem desse estranho hbito. Essa jovem senhora, que nunca deixara o hbito de 
chupar o dedo, via-se numa lembrana de infncia, supostamente da primeira metade de seu segundo ano de vida, mamando no seio de sua ama e, ao mesmo tempo, puxando-lhe 
ritmicamente o lbulo da orelha. Ningum h de contestar, penso eu, que a membrana mucosa dos lbios e da boca pode ser considerada como uma zona ergena primria, 
j que parte dessa significao  ainda preservada no beijo tido como normal. A intensa atividade dessa zona ergena em idade precoce constitui, portanto, a condio 
para a complacncia somtica posterior do trato da membrana mucosa que comea nos lbios. Se depois, numa poca em que j se conhece o objeto sexual propriamente 
dito, o membro masculino, surgem circunstncias que tornam a aumentar a excitao da zona da boca, que preservou seu carter ergeno, no  preciso um grande dispndio 
de fora criadora para substituir, na situao de satisfao, o mamilo originrio e o dedo que fazia as vezes dele pelo objeto sexual atual, o pnis. Assim, essa 
fantasia perversa e sumamente escandalosa de chupar o pnis tem a mais inocente das origens;  a nova verso do que se pode chamar de impresso pr-histrica de 
sugar o seio da me ou da ama - uma impresso comumente revivida no contato com crianas que estejam sendo amamentadas. Na maioria das vezes, o bere da vaca serve 
de representao intermediria adequada entre o mamilo e o pnis.
         
         A recm-mencionada interpretao do sintoma da garganta de Dora tambm pode dar margem a outra observao. Pode-se perguntar de que modo essa situao sexual 
fantasiada se harmoniza com nossa outra explicao, a saber, a de que o aparecimento e desaparecimento das manifestaes patolgicas refletia a presena e ausncia 
do homem amado, e, portanto, no tocante  conduta da Sra. K., expressava o seguinte pensamento: "Se eu fosse mulher dele, eu o amaria de maneira muito diferente; 
adoeceria (de saudade, digamos) quando ele estivesse fora e ficaria curada (de alegria) quando voltasse para casa." A isso devo responder, por minha experincia 
na resoluo dos sintomas histricos, que no  necessrio que os diversos significados de um sintoma sejam compatveis entre si, ou seja, que se complementem num 
todo articulado. Basta que a interarticulao seja constituda pelo tema que deu origem s diversas fantasias. Em nosso caso, alm disso, tal compatibilidade no 
est excluda; um dos dois significados se relaciona mais com a tosse, e o outro, com a afonia e o carter cclico do distrbio. Uma anlise mais acurada provavelmente 
permitiria reconhecer um nmero muito maior de elementos anmicos nos pormenores da enfermidade.
         
         J constatamos que, com bastante regularidade, um sintoma corresponde simultaneamente a diversos significados; acrescentemos agora que tambm pode expressar 
diversos significados sucessivamente. No decorrer dos anos, um sintoma pode alterar um de seus significados ou seu sentido principal, ou ento o papel principal 
pode passar de um significado para outro. H como que um trao conservador no carter das neuroses: uma vez formado, se possvel, o sintoma  preservado, mesmo que 
o pensamento inconsciente que nele encontrou expresso tenha perdido seu significado. Mas tambm  fcil explicar mecanicamente essa tendncia  conservao do sintoma: 
 to difcil a produo de um sintoma dessa natureza, so tantas as condies favorecedoras necessrias  transposio de uma excitao puramente psquica para 
o corporal - isso que denominei de "converso" -, e  to raro dispor-se da complacncia somtica necessria  converso, que o impulso para a descarga da excitao 
vinda do inconsciente utiliza, tanto quanto possvel, qualquer via de descarga j transitvel. Muito mais fcil do que criar uma nova converso parece ser a produo 
de vnculos associativos entre um novo pensamento carente de descarga e o antigo, que j no precisa dela. Pela via assim facilitada flui a excitao da nova fonte 
excitante para o antigo ponto de descarga, e o sintoma se assemelha, segundo as palavras do Evangelho, a um odre velho repleto de vinho novo. Por estas observaes, 
a parte somtica do sintoma histrico parece ser a mais estvel e a mais difcil de substituir, enquanto a psquica se afigura como o elemento mais varivel e mais 
facilmente substituvel. Todavia, no se deve pretender inferir dessa relao nenhuma hierarquia entre os dois elementos. Para a terapia psquica, a parte psquica 
 sempre a mais significativa.
         
         No caso de Dora, a incessante repetio dos mesmos pensamentos sobre as relaes entre seu pai e a Sra. K. possibilitou extrair da anlise um outro material 
ainda mais importante.
         
         Uma seqncia de pensamentos como essa pode ser descrita como hiperintensa, ou melhor, reforada ou hipervalente ["berwertig"] na acepo de Wernicke [1900, 
140]. Ela mostra seu carter patolgico, a despeito do contedo aparentemente correto, pela peculiaridade singular de que, por maiores que sejam os esforos de pensamento 
conscientes e voluntrios da pessoa, no se pode dissip-la ou elimin-la. Uma seqncia normal de pensamentos, por mais intensa que seja, acaba podendo ser eliminada. 
Dora achava, com toda razo, que seus pensamentos sobre o pai reclamavam um julgamento especial. "No consigo pensar em outra coisa", queixava-se ela repetidamente. 
"Meu irmo me diz que ns, os filhos, no temos o direito de criticar esses atos do papai, que no nos devemos preocupar com isso, e que talvez devamos at alegrar-nos 
por ele ter encontrado uma mulher a quem pode se afeioar, j que mame o compreende to pouco. Tambm vejo isso, e gostaria de pensar como meu irmo, mas no posso. 
No posso perdo-lo."
         
         Ora, que fazer diante de tal pensamento hipervalente, depois de se tomar conhecimento de sua fundamentao consciente, bem como dos protestos ineficazes 
feitos contra ele? Diz-se que essa seqncia hiperintensa de pensamentos deve seu reforo ao inconsciente. Ela  impossvel de resolver pelo trabalho do pensamento, 
seja porque suas razes chegam at o material inconsciente, recalcado, seja porque outro pensamento inconsciente se oculta por trs dela. Este ltimo , na maioria 
das vezes, seu oposto direto. Os opostos sempre esto estreitamente interligados e, muitas vezes, separam-se em duplas de tal maneira, que um pensamento  consciente 
com hiperintensidade, enquanto sua contrapartida  recalcada e inconsciente. Essa relao entre os dois pensamentos  um efeito do processo de recalcamento. Com 
efeito, o recalcamento muitas vezes se efetua por meio de um reforo excessivo do oposto do pensamento a ser recalcado. A esse processo chamo reforo reativo, e 
designo por pensamento reativo o pensamento que se afirma na conscincia com hiperintensidade e que,  maneira de um preconceito, mostra-se indestrutvel. Os dois 
pensamentos comportam-se ento entre si como as duas agulhas de um galvanmetro esttico. O pensamento reativo mantm o pensamento objetvel sob recalcamento por 
meio de um certo excesso de intensidade, mas, em vista disso, ele prprio fica "amortecido" e invulnervel aos esforos conscientes do pensamento. Portanto, a maneira 
de retirar o reforo do pensamento hiperintensificado consiste em tornar consciente seu oposto recalcado.
         
         No devemos excluir a expectativa de encontrar casos que no apresentam apenas um desses fundamentos da hipervalncia, mas sim a concorrncia de ambos. 
Podem ainda surgir outras complicaes, mas  fcil articul-las com o esquema geral.
         
         Apliquemos agora nossa teoria ao exemplo fornecido pelo caso de Dora. Comearemos pela primeira hiptese, ou seja, de que a raiz de sua preocupao obsessiva 
com as relaes entre seu pai e a Sra. K. lhe era desconhecida por situar-se no inconsciente. No  difcil adivinhar a natureza dessa raiz a partir da situao 
e das manifestaes de Dora. Seu comportamento obviamente ia muito alm da esfera de interesse de uma filha; ela se sentia e agia mais como uma esposa ciumenta, 
como se consideraria compreensvel em sua me. Por sua exigncia ao pai ("ou ela ou eu"), pelas cenas que costumava criar e pela ameaa de suicdio que deixou entrever, 
 evidente que ela se estava colocando no lugar da me. E se adivinhamos com acerto a fantasia de situao sexual subjacente a sua tosse, nessa fantasia ela deveria 
estar-se colocando no lugar da Sra. K. Portanto, identificava-se com as duas mulheres, a que o pai amara um dia e a que amava agora.  bvia a concluso que sua 
inclinao pelo pai era muito maior do que ela sabia ou estava disposta a admitir, ou seja, que estava apaixonada por ele.
         
         Aprendi a ver nessas relaes amorosas inconscientes entre pai e filha ou entre me e filho, conhecidas por suas conseqncias anormais, uma revivificao 
de germes dos sentimentos infantis. Expus em outros lugares em que tenra idade a atrao sexual se faz sentir entre pais e filhos, e mostrei que a lenda de dipo 
provavelmente deve ser considerada como a elaborao potica do que h de tpico nessas relaes.  provvel que se encontre na maioria dos seres humanos um trao 
ntido dessa inclinao precoce da filha pelo pai e do filho pela me, e deve-se presumir que ela seja mais intensa, j desde o incio, no caso das crianas constitucionalmente 
destinadas  neurose, que tm amadurecimento precoce e so famintas de amor. Entram ento em jogo certas influncias que no abordaremos aqui e que levam  fixao 
desse impulso amoroso rudimentar, ou que o reforam de tal modo que ele se transforma, ainda na infncia ou, no mximo, na puberdade, em algo equiparvel a uma inclinao 
sexual e que, como esta, tem a libido a seu dispor. As circunstncias externas de nossa paciente no eram nada desfavorveis a tal suposio. Sua predisposio sempre 
a atrara para o pai, e as numerosas doenas deste ho de ter forosamente aumentado sua ternura por ele. Em muitas dessas doenas, ele no permitia que ningum 
seno ela lhe prestasse os pequenos servios que seu tratamento requeria; orgulhoso do desenvolvimento precoce da inteligncia dela, ele a tornara, ainda criana, 
sua confidente. Com o aparecimento da Sra. K., na verdade no foi a me, e sim ela, que foi desalojada de mais de uma posio.
         
         Quando comuniquei a Dora que s me era possvel supor que sua inclinao pelo pai, j em poca precoce, deveria ter tido o carter de um completo enamoramento, 
 verdade que ela me deu sua resposta corriqueira: "No me lembro disso." Logo em seguida, porm, contou-me algo anlogo sobre uma prima de sete anos (por parte 
da me), em quem ela freqentemente julgava ver uma espcie de reflexo de sua prpria infncia. Essa menina tornara a testemunhar uma discusso acalorada entre os 
pais e sussurrou no ouvido de Dora, que acabava de chegar para uma visita: "Voc no pode imaginar como odeio essa pessoa!" (apontando para a me) "E um dia, quando 
ela morrer, vou me casar com papai." Costumo ver nessas associaes, que trazem  tona algo que concorda com o contedo de uma afirmao minha, uma confirmao vinda 
do inconsciente. Nenhuma outra espcie de "sim" pode ser extrada do inconsciente; no existe, em absoluto, um "no" inconsciente.
         
         Por anos a fio Dora no externalizara essa paixo pelo pai; ao contrrio, manteve-se por muito tempo na mais cordial harmonia com a mulher que a suplantara 
junto a ele e, como sabemos atravs de suas autocensuras, ainda facilitou as relaes dessa mulher com seu pai. Esse amor pelo pai, portanto, fora recentemente reavivado 
e, sendo esse o caso, podemos perguntar-nos com que finalidade isso ocorreu. Obviamente, como sintoma reativo para suprimir alguma outra coisa que, por conseguinte, 
ainda era poderosa no inconsciente. Considerando a situao, no pude deixar de supor, em primeiro lugar, que o suprimido era seu amor pelo Sr. K. Foi-me foroso 
presumir que ela ainda estava apaixonada por ele, mas que desde a cena do lago, por motivos desconhecidos, seu amor tropeava numa violenta resistncia, que a moa 
retomara e reforara sua velha afeio pelo pai para no ter de notar nada em sua conscincia sobre esse amor dos primeiros anos de sua adolescncia, que agora se 
tornara penoso para ela. Assim pude tambm discernir um conflito que muito se prestava para desorganizar a vida anmica da moa. Por um lado, muito a consternava 
ter de rejeitar a proposta desse homem e ela sentia muita saudade da pessoa dele e de todos os pequenos sinais de sua afeio; por outro lado, esses impulsos de 
ternura e saudade eram combatidos por motivos poderosos, dentre os quais era fcil perceber seu orgulho. Desse modo, ela conseguiu convencer-se de que havia rompido 
com o Sr. K. - era esse o lucro que retirava desse processo tpico de recalcamento -, mas, ainda assim, era obrigada a recorrer a sua afeio infantil pelo pai e 
a exager-la, para se proteger do enamoramento que assediava constantemente sua conscincia. O fato de ela ser quase incessantemente dominada pelo mais amargo cime 
parecia ainda admitir mais uma determinao.
         
         No trouxe nenhum desapontamento para minhas expectativas que essa exposio dos fatos provocasse em Dora a mais enftica negativa. O "no" ouvido do paciente 
depois de se apresentar pela primeira vez um pensamento recalcado  sua percepo consciente no faz seno constatar a existncia de um recalcamento e sua firmeza; 
serve, por assim dizer, para medir a fora deste. Quando esse "no", em vez de ser considerado como expresso de um juzo imparcial (do qual, por certo, o doente 
no  capaz),  ignorado, dando-se prosseguimento ao trabalho, logo aparecem as primeiras provas de que, nesses casos, o "no" significa o desejado "sim". Dora admitiu 
que no conseguia ficar to zangada com o Sr. K. quanto ele merecia. Contou-me que um dia o encontrara na rua quando estava em companhia de uma prima que no o conhecia. 
A prima exclamara repentinamente: "Dora, o que h com voc? Voc ficou plida como um cadver!" Ela prpria no sentira nada dessa alterao, mas expliquei-lhe que 
a fisionomia e a expresso dos afetos obedecem mais ao inconsciente do que ao consciente e so traioeiras para o primeiro. De outra feita, Dora apareceu-me no pior 
mau humor, depois de vrios dias em que estivera sempre no melhor dos nimos. No soube explic-lo; estava muito contrariada, declarou; era aniversrio de seu tio 
e ela no se animava a cumpriment-lo, no sabia por qu. Minha arte interpretativa estava embotada nesse dia; deixei que ela continuasse falando e, de repente, 
ela se lembrou de que era tambm aniversrio do Sr. K., fato este que no deixei de aproveitar contra ela. J ento no foi difcil explicar por que os lindos presentes 
que ela ganhara em seu aniversrio, alguns dias antes, no lhe trouxeram nenhuma alegria.  que faltava um presente, o do Sr. K., que obviamente fora antes o mais 
precioso de todos.
         
         No obstante, Dora continuou por algum tempo a negar minha afirmao, at que, prximo do trmino da anlise, a prova conclusiva de sua exatido veio  
tona (ver em [1]).
         
         Devo agora considerar uma outra complicao a que certamente no daria espao, fosse eu um escritor empenhado na criao de um espao anmico desse tipo 
para um conto, e no um mdico empenhado em sua dissecao. O elemento que apontarei agora s serve para turvar e confundir a beleza e a poesia do conflito que pudemos 
supor em Dora; ele  justificadamente sacrificado pela censura do escritor, que sem dvida simplifica e abstrai quando faz as vezes de psiclogo. Mas no fundo da 
realidade, que me esforo por retratar aqui, a regra  a complicao dos motivos, a acumulao e a combinao das moes anmicas - em suma, a sobredeterminao. 
Por trs da seqncia hipervalente de pensamentos que se ocupavam com as relaes entre o pai de Dora e a Sra. K. ocultava-se, de fato, um impulso de cime cujo 
objeto era essa mulher - ou seja, um impulso que s se poderia fundamentar numa inclinao para o mesmo sexo. H muito se sabe e j se tem assinalado que, na puberdade, 
com freqncia, tanto os meninos quanto as meninas, mesmo nos casos normais, mostram claros indcios da existncia de uma inclinao para pessoas do mesmo sexo. 
A amizade entusistica por uma colega de escola, acompanhada de juras, beijos, promessas de correspondncia eterna e toda a sensibilidade do cime,  o precursor 
comum da primeira paixo intensa de uma moa por um homem. Em circunstncias favorveis, a corrente homossexual amide seca por completo, mas, quando no se  feliz 
no amor por um homem, ela torna a ser despertada pela libido nos anos posteriores e  aumentada em maior ou menor intensidade. Se nas pessoas sadias isso pode ser 
confirmado sem esforo e se levarmos em conta nossas observaes anteriores (ver em [1] e [2]) sobre o maior desenvolvimento, nos neurticos, dos germes normais 
da perverso, devemos tambm esperar, na constituio destes, uma predisposio homossexual mais forte. E deve ser assim, pois at hoje nunca passei por uma s psicanlise 
de um homem ou de uma mulher sem ter de levar em conta uma corrente homossexual bastante significativa. Nas mulheres e moas histricas cuja libido sexual voltada 
para o homem  energicamente suprimida, constata-se com regularidade que a libido dirigida para as mulheres  vicariamente reforada e at parcialmente consciente.
         
         No continuarei abordando aqui esse importante tema, particularmente indispensvel ao entendimento da histeria masculina, porque a anlise de Dora terminou 
antes que pudesse lanar luz sobre essas circunstncias. Mas convm lembrar a j citada governanta (ver em [1]) com quem, a princpio, Dora conviveu na mais ntima 
troca de idias at descobrir que ela no a apreciava nem a tratava bem por sua prpria causa, e sim por causa de seu pai, e ento obrig-la a deixar a casa. Dora 
tambm costumava repisar com notvel freqncia e com nfase peculiar a histria de uma outra desavena que at mesmo a ela parecia inexplicvel. Sempre se dera 
particularmente bem com sua segunda prima, a mesma que depois ficou noiva (ver em [1]), partilhando com ela toda sorte de segredos. Na primeira vez em que o pai 
voltou a B  depois do passeio interrompido no lago, e Dora naturalmente se recusou a acompanh-lo, pediram a essa prima que viajasse com ele, e ela aceitou. Da 
em diante, Dora sentira frieza em relao a ela, e se surpreendia, ela prpria, ao verificar o quanto a outra lhe era agora indiferente, por mais que, como admitia, 
no pudesse fazer  prima nenhuma grande censura. Essas susceptibilidades levaram-me a perguntar quais tinham sido suas relaes com a Sra. K. at a poca do rompimento. 
Inteirei-me, ento, de que a jovem mulher e a menina apenas adolescente tinham vivido durante anos na mais estreita intimidade. Quando Dora se hospedava com os K., 
costumava partilhar o quarto com a Sra. K., sendo o marido desalojado. Dora era a confidente e conselheira da mulher em todas as dificuldades de sua vida conjugal; 
no havia nada de que no conversassem. Media ficou muito contente em ver Creusa tornar-se amiga de seus dois filhos, e tambm no fez nada para estorvar o relacionamento 
entre a moa e o pai das crianas. Como foi que Dora conseguiu apaixonar-se pelo homem sobre quem sua adorada amiga tinha tantas coisas ruins a dizer constitui um 
interessante problema psicolgico, sem dvida solucionvel quando compreendermos que, no inconsciente, os pensamentos vivem muito comodamente lado a lado, e at 
os opostos se toleram sem antagonismo - um estado de coisas que, com bastante freqncia, persiste at mesmo no consciente.
         
         Quando Dora falava sobre a Sra. K., costumava elogiar seu "adorvel corpo alvo" num tom mais apropriado a um amante do que a uma rival derrotada. Noutra 
ocasio, mais triste do que com raiva, ela me disse estar convencida de que os presentes que o pai lhe oferecia eram escolhidos pela Sra. K., pois reconhecia seu 
gosto. De outra feita ainda, ela assinalou que a haviam presenteado, evidentemente por interveno da Sra. K., com algumas jias que eram exatamente idnticas s 
que vira na casa dela, expressando ento em voz alta o desejo de possu-las. Na verdade, devo dizer que nunca ouvi dela uma s palavra spera ou irada sobre essa 
mulher, embora, do ponto de vista de seus pensamentos hipervalentes, devesse ver nela a principal causadora de suas desventuras. Dora parecia comportar-se de maneira 
inconseqente,mas sua aparente inconseqncia era justamente a expresso de uma corrente complicadora de sentimentos. De fato, como se comportara para com Dora essa 
amiga to entusiasticamente amada? Depois que Dora formulou sua acusao contra o Sr. K e seu pai escreveu para ele pedindo-lhe uma explicao, o Sr. K. respondeu, 
inicialmente, protestando a mais alta estima por ela e se oferecendo para ir at a cidade industrial a fim de esclarecer todos os mal-entendidos. Passadas algumas 
semanas, quando o pai de Dora falou com ele em B , j no se tocou mais na estima. Ao contrrio, o Sr. K. depreciou a moa e jogou seu trunfo: uma moa que lia tais 
livros e se interessava por aquelas coisas no podia ter nenhuma pretenso ao respeito de um homem. A Sra. K., portanto, a havia trado e caluniado, pois somente 
com ela  que Dora falara sobre Mantegazza e sobre temas proibidos. Era uma repetio do que acontecera com a governanta: a Sra. K. tambm no a amara por ela mesma, 
e sim por causa do pai. Ela a havia sacrificado sem um momento de hesitao para que seu relacionamento com o pai de Dora no fosse perturbado. Essa ofensa talvez 
a tenha tocado mais de perto e tido maior efeito patognico do que a outra com que ela tentou encobri-la, ou seja, a de ter sido sacrificada pelo pai. Acaso a amnsia 
to obstinadamente perseverante a respeito das fontes de seu conhecimento proibido (ver em [1] e [2]) no apontaria diretamente para o valor emocional da acusao 
que lhe foi feita e, por conseguinte, para sua traio pela amiga?
         
         Creio no estar errado, portanto, em supor que a seqncia hipervalente de pensamentos de Dora, que a fazia ocupar-se das relaes entre seu pai e a Sra. 
K., destinava-se no apenas a suprimir seu amor pelo Sr. K., que antes fora consciente, mas tambm a ocultar o amor pela Sra. K., que era inconsciente num sentido 
mais profundo. A seqncia hipervalente de pensamentos era diretamente oposta a esta ltima corrente. Dora dizia a si mesma incessantemente que seu pai a sacrificara 
a essa mulher, fazia demonstraes ruidosas de que a invejava pela posse do pai e, dessa maneira, ocultava de si mesma o oposto que: invejava o pai pelo amor da 
Sra. K. e que no perdoava  mulher amada a desiluso que ela lhe causara com sua traio. A moo de cime feminino estava ligada, no inconsciente, ao cime que 
um homem sentiria. Essas correntes de sentimentos masculinos, ou, melhor dizendo, ginecoflicos, devem ser consideradas tpicas da vida amorosa inconsciente das 
moas histricas.
         
         O PRIMEIRO SONHO
         
         Justamente no momento em que havia perspectivas de esclarecer um ponto obscuro da infncia de Dora atravs do material que se impunha  anlise, ela me 
informou que, algumas noites antes, voltara a ter um sonho que j lhe ocorrera repetidas vezes exatamente da mesma maneira. Um sonho periodicamente repetido, j 
por essa simples caracterstica, estava fadado a despertar minha curiosidade; e de fato, era justificvel, no interesse do tratamento, considerar o entrelaamento 
desse sonho na trama da anlise. Resolvi, portanto, proceder a uma investigao particularmente cuidadosa.
         
         Eis o sonho, tal como Dora o relatou: "Uma casa estava em chamas. Papai estava ao lado da minha cama e me acordou. Vesti-me rapidamente. Mame ainda queria 
salvar sua caixa de jias, mas papai disse: `No quero que eu e meus dois filhos nos queimemos por causa da sua caixa de jias.' Descemos a escada s pressas e, 
logo que me vi do lado de fora, acordei."
         
         Como se tratava de um sonho recorrente, naturalmente lhe perguntei quando o tivera pela primeira vez. No sabia dizer. Mas se recordava de ter tido o sonho 
trs noites sucessivas em L  (o lugar no lago onde ocorrera a cena com o Sr. K.), e agora voltara a t-lo algumas noites atrs, aqui [em Viena]. Naturalmente, a 
ligao assim estabelecida entre o sonho e os acontecimentos de L  aumentou minhas expectativas a respeito de sua soluo. Mas primeiro eu queria descobrir qual 
fora o motivo de sua recente repetio, e, por conseguinte, pedi a Dora, que por alguns pequenos exemplos antes analisados j estava instruda na interpretao dos 
sonhos, que decompusesse o sonho e me comunicasse o que lhe ocorria a propsito dele.
         
         - "Ocorre-me uma coisa", disse ela, "mas no pode ter nenhuma relao com isso, porque  muito recente, ao passo que sem dvida eu j tivera o sonho antes."
         - No tem importncia, v em frente - respondi; -  justamente a ltima coisa que se adequa ao sonho.
         - "Est bem; nesses ltimos dias papai teve uma discusso com mame porque ela tranca a sala de jantar  noite.  que o quarto de meu irmo no tem entrada 
independente, e s se pode chegar a ele pela sala de jantar. Papai no quer que meu irmo fique trancado assim  noite. Diz ele que isso no  bom; pode acontecer 
alguma coisa durante a noite que torne necessrio sair."
         - E isso a fez pensar no risco de um incndio?
         - "Sim".
         - Bem, peo-lhe que preste muita ateno a suas prprias expresses. Talvez precisemos delas. Voc disse que "pode acontecer alguma coisa durante a noite 
que torne necessrio sair."
         
         Dora, porm, descobrira agora o vnculo entre a causa recente e a causa original do sonho, pois prosseguiu:
         
         - "Quando chegamos a L  naquela ocasio, papai e eu, ele manifestou abertamente sua angstia diante da possibilidade de um incndio. Chegamos em meio a 
uma violenta tempestade e vimos que a casinha de madeira no tinha pra-raios. Logo, a angstia era muito natural."
         
         Cabia-me agora estabelecer a relao entre os acontecimentos em L  e os sonhos do mesmo teor que ela tivera nessa poca. Assim, perguntei: Voc teve o sonho 
nas primeiras noites em L  ou nas ltimas, antes de sua partida? Quer dizer, antes ou depois da conhecida cena no bosque? (De fato, eu sabia que a cena no ocorrera 
logo no primeiro dia, e que depois disso ela ainda permanecera alguns dias em L  sem deixar transparecer nenhum indcio do incidente.)
         
         Sua primeira resposta foi "No sei", mas, passados alguns momentos, acrescentou: "Mas creio que foi depois."
         
         Portanto, agora eu sabia que o sonho fora uma reao quela experincia. Mas por que se repetira ali trs vezes? Continuei perguntando: Quanto tempo voc 
ainda ficou em L depois da cena?
         
         - "Mais quatro dias, e no quinto fui embora com papai."
         - Agora tenho certeza de que o sonho foi o efeito imediato de sua experincia com o Sr. K. Foi em L  que voc teve o sonho pela primeira vez, e no antes. 
Voc introduziu essa incerteza na lembrana apenas para obliterar em si mesma a ligao. Mas para mim, os nmeros ainda no se ajustam muito. Se voc ainda ficou 
em L  mais quatro noites, poderia ter tido o sonho mais quatro vezes. Ser que foi isso?
         
         Ela no contradisse mais minha afirmao, porm, ao invs de responder a minha pergunta, prosseguiu: "Na tarde seguinte ao nosso passeio pelo lago, do qual 
o Sr. K. e eu voltamos ao meio-dia, eu tinha-me recostado no sof do quarto, como de costume, para dormir um pouco. De repente, acordei e vi o Sr. K. parado em frente 
a mim..."
         
         - Quer dizer, tal como voc viu seu pai no sonho ao lado de sua cama?
         - "Foi. Mandei que ele explicasse o que estava procurando ali. Como resposta, ele disse que no ia deixar de entrar no seu prprio quarto quando quisesse; 
alm disso, queria apanhar alguma coisa. Com isso, fiquei prevenida, perguntei  Sra. K. se no havia uma chave do quarto e, na manh seguinte (no segundo dia), 
tranquei-me enquanto fazia minha toalete.  tarde, quando quis me trancar para deitar de novo no sof, a chave tinha sumido. Estou convencida de que o Sr. K. a havia 
retirado."
         
         A est, portanto, o tema de trancar ou no o quarto, que surgiu na primeira associao ao sonho e que, casualmente, tambm desempenhou um papel na causa 
recente do sonho. Pertenceria tambm a esse contexto a frase "Vestia-me rapidamente"?
         
         - "Foi ento que resolvi no ficar mais na casa dos K. na ausncia do papai. Nas manhs seguintes, eu no podia deixar de temer que o Sr. K. me surpreendesse 
enquanto fazia minha toalete, e por isso sempre me vestia muito rapidamente.  que papai ficava no hotel, e a Sra. K. sempre saa cedo para fazer alguma excurso 
com ele. Mas o Sr. K. no voltou a me importunar."
         - Compreendo. Na tarde do segundo dia, voc formou o propsito de escapar dessas perseguies, e ento, na segunda, terceira e quarta noites depois da cena 
no bosque, teve tempo de repetir esse propsito enquanto dormia. (J na segunda tarde - antes do sonho, portanto, - voc sabia que na manh seguinte, a terceira, 
no teria a chave para se trancar enquanto se vestia, e pde ento formar o propsito de se vestir o mais depressa possvel.) Mas seu sonho se repetia todas as noites 
justamente por corresponder a um propsito. O propsito persiste at ser realizado. Voc como que disse a si mesma: "No terei tranqilidade, no poderei ter um 
sono tranqilo enquanto no estiver fora desta casa."  o inverso disso que voc diz no sonho: "Logo que me vi do lado de fora, acordei."
         
         lnterrompo aqui o relato da anlise para comparar esse pequeno fragmento de interpretao dos sonhos com minhas teses gerais sobre o mecanismo da formao 
dos sonhos. Em meu livro A Interpretao dos Sonhos (1900a), afirmei que todo sonho  um desejo que se representa como realizado, que a representao  encobridora 
quando se trata de um desejo recalcado, que pertence ao inconsciente, e que, salvo no caso dos sonhos das crianas, s o desejo inconsciente ou um desejo que chegue 
at o inconsciente possui a fora para formar um sonho. Creio que minha teoria conseguiria com mais certeza obter aceitao geral se eu me tivesse contentado com 
a afirmao de que todo sonho tem um sentido possvel de ser descoberto mediante um certo processo de interpretao. Uma vez completa a interpretao, poder-se-ia 
substituir o sonho por pensamentos que se enquadrariam na vida anmica de viglia num ponto facilmente reconhecvel. E teria ento podido prosseguir dizendo que 
esse sentido do sonho  to diversificado quanto os processos de pensamento da viglia. Numa ocasio se trataria de um desejo realizado, noutra, de um temor realizado, 
noutra ainda, de uma reflexo prosseguida durante o sono, ou de um propsito (como no sonho de Dora), de um fragmento de produo mental durante o sono etc. Essa 
exposio sem dvida teria sido atraente por sua simplicidade, e poderia ter-se apoiado num grande nmero de exemplos bem interpretados, como no caso do sonho aqui 
analisado.
         
         Em vez disso, formulei uma tese geral que restringe o sentido dos sonhos a uma nica forma de pensamento - a representao de desejos -, e assim provoquei 
a inclinao universal  discordncia. Devo dizer, porm, que no me achei no direito ou no dever de simplificar um processo psicolgico para torn-lo mais agradvel 
aos leitores, quando minha investigao mostrava nele uma complicao cuja soluo, para ser homognea, teria primeiro de ser encontrada em outro lugar. Por isso, 
tem para mim um valor especial demonstrar que as aparentes excees, como esse sonho de Dora, que a princpio se afigurou como a continuao de um propsito diurno 
durante o sono, no fazem seno corroborar novamente a regra contestada. (Ver a partir de [1])
         
         Certamente, temos ainda uma grande parte do sonho por interpretar. Minhas perguntas prosseguiram:
         
         - Como  isso da caixa de jias que sua me queria salvar?
         - "Mame gosta muito de jias e ganhou vrias do papai."
         - E voc?
         - "Eu tambm gostava muito de jias antes; desde a doena no tenho usado nenhuma. Um dia, faz uns quatro anos (um ano antes do sonho), houve uma grande 
discusso entre papai e mame por causa de uma jia. Mame queria para ela algo especial, umas gotas de prolas [Tropfen von Perlen] para usar como pingentes nas 
orelhas. Mas papai no gostava disso e, em vez das gotas, trouxe-lhe uma pulseira. Ela ficou furiosa e disse que, j que ele tinha gasto tanto dinheiro num presente 
de que ela no gostava, melhor seria que o desse a outra pessoa."
         - E voc ter pensado que o aceitaria com prazer?
         - "No sei, no tenho a menor idia de como mame entra no sonho; ela no estava conosco em L nessa poca."
         - Depois lhe explicarei isso. No lhe ocorre nada mais sobre a caixa de jias [Schrmuckkstchen]? At agora, voc s falou sobre as jias [Schmuck], e nada 
sobre a caixinha [Kstchen].
         - "Sim, o Sr. K. me presenteara pouco tempo antes com uma caixinha de jias dispendiosa."
         - Ento seria muito apropriado retribuir o presente. Talvez voc no saiba que "caixa de jias"  uma expresso muito apreciada para a mesma coisa a que 
voc aludiu, no faz muito tempo, com a bolsinha que estava usando: os genitais femininos.
         - "Sabia que o senhor ia dizer isso."
         - Ou seja, voc sabia disso... Agora o sentido do sonho est ficando ainda mais claro. Voc disse a si mesma: esse homem est me perseguindo; quer forar 
a entrada em meu quarto, minha "caixa de jias" est em perigo e, se acontecer alguma desgraa, a culpa  do papai. Foi por isso que escolheu, no sonho, uma situao 
que expressa o oposto, um perigo de que seu pai a salva. Nessa parte do sonho, em geral, tudo est transformado em seu oposto; voc logo saber por qu. O mistrio 
certamente reside em sua me. Como  que a mame entra no sonho? Ela , como voc sabe, sua rival anterior nos favores de seu pai. No episdio da pulseira, voc 
teria aceito de bom grado o que sua me rejeitou. Agora, vamos substituir "aceitar" por "dar" e "rejeitar" por "recusar". Isso quer dizer, ento, que voc estaria 
disposta a dar a seu pai o que sua me lhe recusava, e a coisa que se trata teria a ver com uma jia. Pois bem, lembre-se agora da caixa de jias que o Sr. K. lhe 
deu. Voc tem a o ponto de partida para uma seqncia paralela de pensamentos, na qual seu pai deve ser substitudo pelo Sr. K., tal como aconteceu na situao 
de ele estar em frente a sua cama. Ele lhe deu uma caixa de jias e, portanto, voc tem de presente-lo com sua caixa de jias; por isso falei h pouco em "retribuio 
do presente". Nessa seqncia de pensamentos, sua me deve ser substituda pela Sra. K., que estava presente, ela sim, naquela ocasio. Logo, voc est disposta 
a dar ao Sr. K. o que a mulher dele lhe recusa. A est o pensamento que voc teve de recalcar com tanto esforo e que tornou necessria a transformao de todos 
os elementos em seu oposto. O sonho torna a corroborar o que eu j lhe tinha dito antes de voc sonh-lo: que voc est evocando seu antigo amor por seu pai para 
se proteger de seu amor pelo Sr. K. Mas, o que mostram todos esses esforos? No s que voc temeu o Sr. K., mas que temeu ainda mais a si mesma, temeu ceder  tentao 
dele. Confirmam tambm, portanto, quo intenso era seu amor por ele.
         
         Naturalmente, Dora no quis acompanhar-me nessa parte da interpretao. Mas eu conseguira dar um passo adiante na interpretao do sonho, que parecia indispensvel 
tanto para a anamnese do caso quanto para a teoria dos sonhos. Prometi comunicar isso a Dora na sesso seguinte.
         
         O fato  que eu no podia esquecer a indicao que parecia brotar das j citadas palavras ambguas (pode acontecer uma desgraa durante a noite que torne 
necessrio sair). A isso se acrescentou o fato de que o esclarecimento do sonho me pareceria incompleto enquanto no se satisfizesse um certo requisito, que certamente 
no quero estabelecer como universal, mas cuja satisfao procuro buscar. Um sonho de formao regular apia-se, por assim dizer, em duas pernas, uma das quais est 
em contato com a causa atual essencial, e a outra, com algum acontecimento relevante da infncia. Entre esses dois fatores, a experincia infantil e a atual, o sonho 
estabelece uma ligao esforando-se por remodelar o presente segundo o modelo do passado mais remoto.  que o desejo que cria o sonho sempre provm da infncia 
e sempre tenta retransform-la em realidade, corrigir o presente segundo a infncia. Eu acreditava j poder discernir claramente, no contedo do sonho de Dora, os 
elementos passveis de se combinarem numa aluso a um acontecimento da infncia.
         
         Iniciei sua elucidao com um pequeno experimento que, como de hbito, teve xito. Casualmente, havia sobre a mesa uma grande caixa de fsforos. Pedi a 
Dora que olhasse em volta para ver se notava sobre a mesma algo de especial que no costumasse estar ali. No viu nada. Perguntei-lhe ento se sabia por que as crianas 
eram proibidas de brincar com fsforos.
         
         - "Sim,  por causa do perigo de incndio. Os filhos de meu tio gostam muito de brincar com fsforos."
         - No  s por isso. Elas so advertidas de "no brincar com fogo", e isso  acompanhado de uma certa crena.
         
         Dora nada sabia a respeito. - Pois bem, teme-se que elas molhem a cama. A anttese entre gua e fogo por certo se encontra na base disso. Talvez elas sonhem 
com fogo e depois tentem apag-lo com gua. No sei dizer com exatido. Mas vejo que a oposio entre gua e fogo no sonho presta a voc extraordinrios servios. 
Sua me queria salvar a caixa de jias para que ela no fosse queimada; nos pensamentos do sonho, em contrapartida, trata-se de que a "caixa de jias" no fique 
molhada. Mas fogo no  empregado apenas como oposto de gua; serve tambm como representao direta do amor, de estar enamorado, ardendo de paixo. Portanto, de 
"fogo" parte uma via que, passando por esse sentido simblico, chega aos pensamentos amorosos, enquanto que a outra via, por intermdio do oposto "gua" e depois 
de fazer uma ramificao que estabelece outro vnculo com "amor" (pois tambm este deixa as coisas molhadas), leva a outra direo. Mas, para onde? Pense em sua 
prpria expresso:  noite, pode acontecer uma desgraa que torne foroso sair. No significaria isso uma necessidade fsica? E, se voc transpuser essa desgraa 
para a infncia, que outra coisa ela poderia ser seno molhar a cama? E o que  que se costuma fazer para evitar que as crianas molhem a cama? No so elas despertadas 
do sono durante a noite, exatamente como seu pai acordou voc no sonho? Esse seria, portanto, o acontecimento real que lhe permitiu substituir o Sr. K., que realmente 
a despertou do sono, por seu pai. Devo ento inferir que voc continuou a molhar a cama por mais tempo do que costuma acontecer com as crianas. O mesmo deve ter 
ocorrido com seu irmo, pois seu pai disse: "No quero que meus dois filhos... peream. Seu irmo nada tem a ver com a situao atual dos K., nem tampouco foi a 
L . Que dizem suas lembranas sobre isso?
         
         - "Quanto a mim, no sei nada" - respondeu ela -, "mas meu irmo molhava a cama at os seis ou sete anos, e muitas vezes isso lhe aconteceu at de dia."
         
         Eu estava a ponto de lhe fazer uma observao sobre como  mais fcil recordar uma coisa assim a respeito de um irmo do que de si mesmo, quando ela prosseguiu, 
com a memria recuperada:
         
         - "Sim, isso tambm me aconteceu por algum tempo, mas s no stimo ou oitavo ano. Deve ter sido grave, porque agora me lembro que o mdico foi consultado. 
Durou at pouco antes de minha asma nervosa" (ver em [1]).
         - Que disse o mdico a respeito?
         - "Explicou que era uma debilidade nervosa; passaria logo, achou ele; e receitou um tnico."
         
         A interpretao do sonho agora me parecia completa. No dia seguinte, porm, Dora ainda me trouxe um aditamento. Esquecera de contar que todas as vezes, 
depois de acordar, sentia cheiro de fumaa. A fumaa,  claro, combinava bem com o fogo, mas indicava, alm disso, que o sonho tinha uma relao especial comigo, 
pois, quando ela afirmava que por trs disto ou daquilo no havia nada escondido, eu costumava retrucar: "onde h fumaa h fogo." Mas Dora fez a essa interpretao 
puramente pessoal a objeo de que o Sr. K. e seu pai eram fumantes apaixonados, como eu tambm, alis. Ela mesma fumara durante sua estada no lago, e o Sr. K. acabara 
de enrolar-lhe um cigarro pouco antes de iniciar sua lastimvel corte. Ela tambm acreditava lembrar com certeza que o cheiro de fumaa no aparecera pela primeira 
vez apenas na ocasio do ltimo reaparecimento do sonho, mas tambm nas trs vezes em que ele ocorreu em L . Posto que se recusasse a fornecer-me outras informaes, 
coube a mim determinar como inserir esse aditamento na trama dos pensamentos do sonho. Como ponto de referncia, pude servir-me do fato de que a sensao da fumaa 
s havia surgido como um acrscimo ao sonho, ou seja, deveria ter tido que superar um esforo especial do recalcamento. Por conseguinte, provavelmente se relacionava 
com o pensamento mais obscuramente representado e mais bem recalcado no sonho, ou seja, a tentao de se mostrar disposta a ceder ao homem. Sendo assim, dificilmente 
poderia significar outra coisa seno a nsia de um beijo, que, trocado com um fumante, necessariamente cheiraria a fumo; mas tinha havido um beijo entre eles cerca 
de dois anos antes, e por certo ter-se-ia repetido mais de uma vez se a moa tivesse cedido ao galanteio. Os pensamentos ligados  tentao, portanto, pareciam ter 
remontado  cena anterior e revivido a lembrana do beijo contra cuja atrao sedutora a pequena "chupadora de dedo" se protegera, a seu tempo, por meio do asco. 
Por fim, considerando os indcios de uma transferncia para mim, posto que tambm sou fumante, cheguei  concluso de que um dia, durante uma sesso, provavelmente 
lhe ocorrera que ela desejaria ser beijada por mim. Esse teria sido o pretexto que a levou a repetir o sonho de advertncia e a formar a inteno de interromper 
o tratamento. Tudo se encaixa muito bem dessa maneira, mas, devido s particularidades da "transferncia", fica privado de comprovao. (ver em [1])
         
         Agora eu poderia hesitar entre considerar primeiramente o partido a ser tirado desse sonho para a histria clnica do caso, ou comear por abordar a objeo 
que, com base nele, pode-se fazer a teoria dos sonhos. Opto pela primeira alternativa.
         
         Vale a pena examinar detidamente a significao da enurese para a histria primitiva do neurtico. A bem da clareza, limito-me a destacar que o caso de 
Dora, no aspecto de molhar a cama, no era o habitual. Essa perturbao no apenas persistira alm da poca admitida como normal, mas tambm, segundo o depoimento 
explcito de Dora, primeiro desaparecera e depois tornara a surgir em poca relativamente tardia, aps o sexto ano de vida (ver em [1]). Ao que eu saiba, esse tipo 
de enurese no tem outra causa mais provvel do que a masturbao, a qual, na etiologia da enurese em geral, desempenha um papel que ainda no foi suficientemente 
apreciado. Em minha experincia, as prprias crianas tiveram um dia um conhecimento muito claro dessa ligao, e da decorrem todas as suas conseqncias psquicas, 
como se elas nunca a tivessem esquecido. Ora, na poca em que Dora relatou o sonho, estvamos empenhados numa linha de investigao que levava diretamente  admisso 
de que ela se masturbara na infncia. Pouco antes, ela havia perguntado exatamente por que havia adoecido, e, antes que eu lhe desse uma resposta, pusera a culpa 
no pai. A justificao disso no provinha de seus pensamentos inconscientes, mas de um conhecimento consciente. A jovem sabia, para minha surpresa, qual tinha sido 
a natureza da doena de seu pai. Depois de ele regressar de meu consultrio (ver em [1] e [2]), ela entreouvira uma conversa em que o nome da doena fora mencionado. 
Em poca ainda anterior, na ocasio do descolamento da retina (ver em [1]), um oculista consultado deve ter aludido  etiologia lutica, pois a menina curiosa e 
preocupada, dessa vez, ouvira uma tia idosa dizer a sua me: "Ele j era doente antes do casamento", e acrescentar algo que lhe fora incompreensvel, mas que, posteriormente, 
ela interpretara para si mesma como ligado a coisas indecorosas.
         
         Portanto, o pai adoecera por levar uma vida leviana, e ela supunha que lhe tivesse transmitido o estado doentio por hereditariedade. Tive o cuidado de no 
lhe dizer que, como j afirmei (em [1]), tambm eu sou de opinio que os descendentes dos luticos so muito particularmente predispostos a graves neuropsicoses. 
Esse curso de pensamento acusatrio ao pai prosseguiu atravs do material inconsciente. Por um perodo de vrios dias ela se identificou com a me atravs de pequenos 
sintomas e peculiaridades, o que lhe deu oportunidade de produzir alguns comportamentos realmente insuportveis; deu-me ento a entender que estava pensando numa 
temporada que passara em Franzensbad, que ela visitara em companhia da me - j no sei em que ano. A me sofria de dores no baixo ventre e de uma secreo (catarro) 
que tornaram necessrio um tratamento em Franzensbad. Dora era de opinio - mais uma vez, provavelmente justificada - que essa doena era devida a seu pai, que assim 
teria transmitido sua doena venrea  me dela. Era muito compreensvel que, ao extrair essa concluso, ela, como a maioria dos leigos, confundisse gonorria com 
sfilis, e tambm o hereditrio com o transmissvel pelo contato. Sua persistncia nessa identificao [com a me] quase me forou a perguntar-lhe se ela tambm 
tinha alguma doena venrea, e foi ento que me inteirei de que ela estava com um catarro (fluor albus) de cujo incio no conseguia lembrar-se.
         
         Compreendi ento que, por trs da seqncia de pensamentos que acusava expressamente o pai, ocultava-se, como de hbito, uma autoacusao. Fui em direo 
a ela assegurando-lhe que, a meu ver, a leucorria das mocinhas apontava primordialmente para a masturbao, e que todas as outras causas comumente atribudas a 
essa queixa eram relegadas para segundo plano pela masturbao. Assim, ela estava em vias de responder a sua prpria pergunta sobre exatamente por que havia adoecido 
mediante a confisso de que se havia masturbado, provavelmente na infncia. Ela negou terminantemente lembrar-se de qualquer coisa assim. Passados alguns dias, porm, 
fez algo que tive de considerar como mais um passo a aproxim-la da confisso. Ocorre que, nesse dia, ela trazia na cintura uma bolsinha porta-moedas do formato 
que havia entrado em voga (coisa que nunca fizera antes e nem faria depois) e, enquanto falava estendida no div, ps-se a brincar com ela: abria-a, introduzia um 
dedo, tornava a fech-la, etc. olhei-a por algum tempo e depois lhe expliquei o que vem a ser um ato sintomtico. Chamo de atos sintomticos as funes que as pessoas 
executam, como se costuma dizer, de maneira automtica e inconsciente, sem reparar nelas, como que brincando, querendo negar-lhes qualquer significao e, se inquiridas, 
explicando-as como indiferentes e casuais. A observao mais cuidadosa, porm, mostra que tais aes, das quais a conscincia nada sabe ou nada quer saber, expressam 
pensamentos e impulsos inconscientes, sendo, portanto, valiosas e instrutivas enquanto manifestaes permitidas do inconsciente. H dois modos de conduta consciente 
frente aos atos sintomticos. Quando se pode atribuir-lhes uma motivao irrelevante, toma-se conhecimento deles; quando falta  conscincia um pretexto dessa ordem, 
em geral no se observa em absoluto que esto sendo executados. No caso de Dora, a motivao era fcil: "Por que no usaria eu uma bolsinha dessas, j que agora 
est na moda?" Mas tal justificativa no descarta a possibilidade de que o referido ato tenha uma origem inconsciente. Por outro lado, nem essa origem nem o sentido 
atribudo ao ato podem ser comprovados de maneira concludente. Temos de contentar-nos em constatar que tal sentido se ajusta excepcionalmente bem  trama da situao 
em pauta,  ordem do dia do inconsciente.
         
         Em outra oportunidade apresentarei uma coletnea desses atos sintomticos, tal como podem ser observados nas pessoas sadias e nos neurticos. Suas interpretaes 
so amide muito fceis. A bolsinha de dupla abertura de Dora no passava de uma representao dos rgos genitais, e sua maneira de brincar com ela, abrindo-a e 
ali inserindo seu dedo, era uma comunicao pantommica bastante desembaraada, mas inconfundvel, do que gostaria de fazer: masturbar-se. Faz pouco tempo ocorreu-me 
um caso similar, muito divertido. Em meio  sesso, uma paciente mais velha apanhou uma caixinha de marfim, pretensamente para se refrescar com um bombom, esforou-se 
por abri-la e depois a entregou a mim, para que eu me convencesse de como era difcil faz-lo. Externei minha suspeita de que essa caixinha deveria significar algo 
especial, pois era a primeira vez que eu a via, embora sua dona me viesse consultando h mais de um ano. Retrucou ento a dama vivamente: "Sempre trago essa caixinha 
comigo, carrego-a para onde quer que v!" S se acalmou depois que a fiz notar, rindo, quo bem suas palavras se adequavam a um outro sentido. A caixa - Dose [em 
alemo], ????? - , assim como a bolsinha e a caixa de jias, mais uma vez no era outra coisa seno um substituto para a concha de Vnus, para a genitlia feminina!
         
         H na vida muito desse simbolismo, que comumente nos passa despercebido. Quando me propus a tarefa de trazer  luz o que os seres humanos guardam escondido, 
no mediante a compulso da hipnose, mas a partir do que eles dizem e mostram, julguei que tal tarefa fosse mais difcil do que realmente . Quem tem olhos para 
ver e ouvidos para ouvir fica convencido de que os mortais no conseguem guardar nenhum segredo. Aqueles cujos lbios calam denunciam-se com as pontas dos dedos; 
a denncia lhes sai por todos os poros. Por isso, a tarefa de tornar consciente o que h de mais secreto no anmico  perfeitamente exeqvel.
         
         O ato sintomtico de Dora com a bolsinha no foi o precursor imediato do sonho. A sesso que nos levou ao relato do sonho comeou por outro ato sintomtico. 
Quando entrei na sala onde ela me aguardava, ela escondeu s pressas uma carta que estava lendo. Naturalmente, perguntei-lhe de quem era, e a princpio ela se recusou 
a dizer-me. Surgiu ento algo que era extremamente irrelevante e no tinha nenhuma relao com nosso tratamento. Tratava-se de uma carta de sua av em que esta a 
exortava a escrever-lhe com mais freqncia. Creio que Dora queria apenas brincar de "segredo" comigo e indicar que estava prestes a deixar que seu segredo fosse 
arrancado pelo mdico. Expliquei ento a mim mesmo sua antipatia por qualquer novo mdico por sua angstia de que, fosse ao examin-la (pelo catarro), fosse ao fazer-lhe 
perguntas (pela comunicao do hbito de urinar na cama), ele pudesse adivinhar a razo de seu sofrimento: a masturbao. Mais tarde, ela sempre falava com muito 
desprezo dos mdicos a quem, antes, obviamente superestimara. (ver em [1])
         
         Acusaes ao pai por t-la feito adoecer, e mais a auto-acusao por trs disso; leucorria, brincadeira com a bolsinha; enurese depois dos seis anos; e 
um segredo que no se queria deixar arrancar pelos mdicos: considero estabelecida sem nenhuma lacuna a prova circunstancial da masturbao infantil. No caso de 
Dora, eu comeara a suspeitar da masturbao quando ela me falou sobre as dores estomacais da prima (ver em [1]) e em seguida se identificou com ela, queixando-se 
por dias a fio de sensaes dolorosas similares.  sabido que, com freqncia, as dores gstricas surgem justamente nos masturbadores. Segundo uma comunicao pessoal 
que me foi feita por Wilhelm Fliess, so precisamente essas as gastralgias passveis de ser interrompidas mediante a aplicao de cocana no "ponto gstrico" por 
ele descoberto no nariz, e curadas mediante sua cauterizao. Dora me confirmou ter conscincia de duas coisas: de que ela mesma sofrera muitas vezes de espasmos 
gstricos e de que tinha boas razes para considerar sua prima uma masturbadora.  muito comum os pacientes reconhecerem em outros uma relao que suas resistncias 
emocionais os impossibilitam de reconhecer em sua prpria pessoa. Dora no mais negou essa relao, embora ainda no se lembrasse de nada. At mesmo a cronologia 
da enurese, durando "at pouco antes do surgimento da asma nervosa" (ver em [1]), parece-me clinicamente valorizvel. Os sintomas histricos quase nunca se apresentam 
enquanto as crianas se masturbam, mas s depois, na abstinncia; constituem um substituto de satisfao masturbatria, que continua a ser desejada no inconsciente 
at que surja alguma outra satisfao mais normal, caso esta ainda seja possvel. Dessa ltima condio depende a possibilidade de cura da histeria pelo casamento 
e pelas relaes sexuais normais. Caso a satisfao no casamento volte a ser interrompida - por exemplo, devido ao coito interrompido, ao distanciamento psquico 
etc. -, a libido torna a refluir para seu antigo curso e se manifesta mais uma vez nos sintomas histricos.
         
         Gostaria de acrescentar infomaes precisas sobre quando e mediante que influncia especial a masturbao de Dora foi suprimida, mas a incompletude da anlise 
obriga-me a apresentar aqui um material cheio de lacunas. Tive conhecimento de que ela urinava na cama at pouco antes de adoecer pela primeira vez com dispnia. 
Ora, o nico esclarecimento que pde prestar sobre esse primeiro ataque foi que, nessa ocasio, seu pai sara em viagem pela primeira vez desde que melhorara de 
sade. Nesse pequeno fragmento de lembrana preservado deve haver uma relao alusiva  etiologia da dispnia. Os atos sintomticos e outros sinais de Dora forneceram-me 
boas razes para supor que a menina, cujo quarto era contguo ao dos pais, teria entreouvido uma visita noturna do pai a sua mulher e escutado a respirao ofegante 
do homem (alis, habitualmente entrecortada) durante o coito. As crianas, nesses casos, pressentem o sexual nesse rudo inslito. A rigor, os movimentos expressivos 
da excitao sexual j se acham prontos nelas como mecanismos inatos. Indiquei, anos atrs, que a dispnia e as palpitaes da histeria e da neurose de angstia 
so apenas fragmentos isolados do ato do coito, e em muitos casos, como no de Dora, pude reconduzir o sintoma da dispnia, da asma nervosa,  mesma origem casual: 
ao som entreouvido da relao sexual entre adultos. Sob a influncia da excitao concomitante experimentada nessa ocasio,  perfeitamente possvel que tenha sobrevindo 
uma reviravolta na sexualidade da menina, substituindo sua inclinao para a masturbao por uma inclinao para a angstia. Tempos depois, estando o pai ausente 
e a menina enamorada a pensar nele com saudade, repetiu-se a impresso ento havida, sob a forma de um ataque de asma. Pela lembrana preservada do que ensejou esse 
sbito adoecimento, pode-se ainda conjecturar a seqncia angustiada de pensamentos que acompanhou o ataque. Este lhe surgiu pela primeira vez depois de ela se haver 
extenuado numa excurso pelas montanhas (ver em [1]), na qual provavelmente sentira um pouco de dispnia real. A isto somou-se a idia de que seu pai estava proibido 
de escalar montanhas, de que no podia extenuar-se por ter o flego curto; seguiu-se a lembrana de quanto ele se havia extenuado com a me naquela noite (acaso 
isso no o teria prejudicado?); depois veio a preocupao de saber se ela mesma no se haveria esforado demais na masturbao, que levava igualmente ao orgasmo 
sexual acompanhado de uma ligeira dispnia; e por fim houve o retorno intensificado da dispnia como sintoma. Parte desse material ainda me foi possvel deduzir 
da anlise, mas a outra eu mesmo tive de complementar. Pelo modo como se constatou a masturbao, j pudemos ver que o material concernente a um determinado tema 
s pode ser coligido fragmento por fragmento, em diferentes pocas e contextos.
         
         Surge agora uma srie de perguntas da mxima importncia sobre a etiologia da histeria: ser lcito considerar o caso de Dora como tpico no tocante  etiologia? 
Ser que ele representa o nico tipo de causao? etc. No entanto, creio estar no caminho certo ao adiar minha resposta a essas perguntas para depois da comunicao 
de um nmero mais amplo de casos similares analisados. Alm disso, eu deveria comear por retificar a formulao das perguntas. Em vez de me pronunciar por um "sim" 
ou um "no" a propsito de se dever buscar a etiologia desse caso patolgico na masturbao infantil, eu teria de discutir primeiramente o conceito de etiologia 
nas psiconeuroses. O ponto de vista desde o qual eu poderia responder mostrar-se-ia ento sensivelmente distante do ponto de vista desde o qual a pergunta me  formulada. 
No tocante a este caso, basta chegarmos  convico de que a masturbao infantil  demonstrvel e no  nada acidental nem irrelevante para a conformao do quadro 
patolgico.
         
         O exame da significao do fluor albus confessado por Dora acena com uma compreenso ainda maior dos sintomas. A palavra "catarro", com a qual ela aprendeu 
a designar sua afeco na poca em que uma queixa similar forou sua me a visitar Franzensbad (ver em [1]), no passa de outra "reviravolta no sentido" (ver em 
[1]) atravs do qual toda a srie de pensamentos sobre a culpa de seu pai pela doena obteve acesso  manifestao no sintoma da tosse. Essa tosse, sem dvida originariamente 
surgida de um diminuto catarro real, era ainda uma imitao do pai, cujos pulmes estavam afetados, e pde expressar sua compaixo e inquietao por ele. Alm disso, 
porm, tambm proclamava ao mundo, por assim dizer, algo que talvez ainda no se tivesse tornado consciente para ela: "Sou a filha de papai. Tal como ele, tenho 
um catarro. Ele me fez adoecer, assim como fez mame adoecer. Tenho dele as paixes prfidas que so castigadas pela doena."
         
         Podemos agora fazer uma tentativa de reunir os diversos determinantes que encontramos para os ataques de tosse e rouquido. Na camada mais inferior da estratificao 
devemos presumir a presena de uma irritao real e organicamente condicionada da garganta, ou seja, o gro de areia em torno do qual a ostra forma a prola. Esse 
estmulo era passvel de fixao por dizer respeito a uma regio do corpo que, na menina, conservava em alto grau a significao de uma zona ergena. Por conseguinte, 
estava apto a dar expresso  libido excitada. Ficou fixado atravs do que foi, provavelmente, seu primeiro revestimento psquico - a imitao compassiva do pai 
enfermo - e, depois, atravs das auto-acusaes por causa do "catarro". Esse mesmo grupo de sintomas, alm disso, mostrou-se passvel de representar as relaes 
dela com o Sr. K., seu pesar pela ausncia dele e o desejo de ser para ele uma esposa melhor. Depois que uma parte da libido voltou-se novamente para o pai, o sintoma 
obteve o que talvez seja sua significao ltima: representar a relao sexual com o pai pela identificao de Dora com a Sra. K. Gostaria de afianar, em contrapartida, 
que esta srie de modo algum est completa. Infelizmente, a anlise incompleta no nos permite seguir a cronologia das reviravoltas no sentido, nem esclarecer a 
sucesso e a coexistncia dos diversos significados. S de uma anlise completa  lcito esperar o cumprimento dessas exigncias.
         
         No posso agora deixar de tocar em algumas relaes adicionais entre o catarro genital e os sintomas histricos de Dora. No tempo em que ainda se estava 
muito longe de chegar a um esclarecimento psquico da histeria, eu costumava ouvir de colegas mais velhos e experientes a afirmao de que, nas pacientes histricas 
que apresentavam leucorria, o agravamento do catarro era regularmente seguido pela agudizao dos achaques histricos, em particular a perda de apetite e os vmitos. 
Ningum tinha um conhecimento claro da relao a indicada, mas creio que se tendia a adotar a viso dos ginecologistas, que, como  sabido, supem em ampla escala 
uma influncia perturbadora direta e orgnica das afeces genitais sobre as funes nervosas, embora a comprovao teraputica dessa teoria seja a conta certa para 
deixar a maioria de ns desamparados. Dado o estado atual de nossos conhecimentos, tampouco se pode dar por excluda tal influncia direta e orgnica, porm, em 
todo caso, seu revestimento psquico  mais facilmente demonstrvel. Entre nossas mulheres, o orgulho pela configurao dos rgos genitais  uma parte muito especial 
de sua vaidade; as afeces deles, consideradas capazes de inspirar repugnncia ou mesmo asco, atuam incrivelmente no sentido de melindr-las, rebaixar sua auto-estima 
e torn-las irritadias, suscetveis e desconfiadas. A secreo anormal da mucosa da vagina  vista como fonte de repugnncia.
         
         Lembremo-nos de que em Dora, depois do beijo do Sr. K., houve uma viva sensao de asco, e de que encontramos razes para complementar o relato que ela 
nos fez dessa cena conjecturando que, durante o abrao, ela sentira a presso do membro ereto do homem em seu ventre (ver a partir de [1]). Sabemos agora, alm disso, 
que a mesma governanta que ela fez ser despedida por sua infidelidade lhe dissera, por sua prpria experincia de vida, que todos os homens eram frvolos e indignos 
de confiana. Para Dora, isso devia significar que todos os homens eram como seu pai. Mas ela considerava que o pai sofria de uma doena venrea, e que teria transmitido 
essa doena a ela e a sua me. Foi-lhe ento possvel imaginar que todos os homens sofriam de doenas venreas, e sua concepo destas se formara, naturalmente, 
a partir de sua experincia nica e pessoal com elas. Sofrer de uma doena venrea, por conseguinte, significava para ela estar acometida de uma secreo enojante. 
No seria essa uma outra motivao do asco por ela sentido no momento do abrao? Esse asco, transferido para o contato com o homem, seria ento um sentimento projetado 
segundo o mecanismo primitivo mencionado anteriormente (ver em [1]) e estaria referido, em ltima instncia, a sua prpria leucorria.
         
         Suspeito estarmos tratando aqui de cursos inconscientes de pensamento urdidos sobre uma trama orgnica pr-estruturada, tal como uma grinalda sobre a armao 
de arame, de sorte que, numa outra ocasio, pode-se encontrar outras vias de pensamento intercaladas entre os mesmos pontos de partida e de chegada. Mas o conhecimento 
dos vnculos de pensamento que se mostraram eficazes em cada indivduo  de valor insubstituvel para a resoluo dos sintomas. Unicamente por fora da interrupo 
prematura da anlise  que tivemos de recorrer, no caso de Dora, a conjecturas e complementaes. O que aqui apresento para preencher as lacunas apia-se inteiramente 
em outros casos analisados a fundo.
         
         O sonho mediante cuja anlise obtivemos as informaes precedentes corresponde, como vimos, a um propsito que Dora levou consigo para o sono. Por isso 
se repetiu todas as noites, at que o propsito fosse realizado, e reapareceu anos depois, ao surgir uma ocasio para que ela formasse um propsito anlogo. O propsito 
poderia expressar-se conscientemente da seguinte maneira: "Preciso afastar-me dessa casa, na qual, como vi, minha virgindade corre perigo; partirei com papai e, 
pela manh, ao fazer minha toalete, tomarei minhas precaues para no ser surpreendida." Esses pensamentos encontram ntida expresso no sonho; pertencem a uma 
corrente [psquica] que, na vida de viglia, chegou  conscincia e se tornou dominante. Por trs deles se pode discernir uma cadeia mais obscura de pensamentos 
substitutos que correspondia  corrente contrria e, por isso mesmo, foi suprimida. Essa segunda cadeia de pensamentos culminava na tentao de entregar-se ao homem, 
em agradecimento pelo amor e pela ternura que ele lhe demonstrara nos ltimos anos, e talvez tenha invocado a lembrana do nico beijo que at ento Dora recebera 
dele. Contudo, segundo a teoria desenvolvida em meu livro A Interpretao dos Sonhos, tais elementos no bastam para a formao de um sonho. O sonho no  um propsito 
que se representa como executado, mas um desejo que se representa como realizado e precisamente, alm disso, um desejo proveniente da vida infantil. Temos a obrigao 
de verificar se essa tese no  contradita por nosso sonho.
         
         O sonho contm, de fato, um material infantil que no guarda relao alguma,  primeira vista, com o propsito de Dora de escapar da casa do Sr. K. e da 
tentao de sua presena. Para que emergiria a lembrana de quando ela urinava na cama, em criana, e do trabalho que seu pai ento tivera para habitu-la  limpeza? 
Pode-se dar a isso a resposta de que somente com a ajuda dessa cadeia de pensamentos era possvel suprimir os intensos pensamentos de tentao e fazer prevalecer 
o propsito formado contra eles. A menina decidira fugir com o pai; na realidade, estava fugindo para o pai, em funo da angstia frente ao homem que a assediava; 
convocou uma inclinao infantil pelo pai para que esta a protegesse de sua inclinao recente por um estranho. O prprio pai era culpado pelo perigo atual, pois 
a havia entregue a esse estranho, movido por seus prprios interesses amorosos. Quo mais belo tinha sido quando esse mesmo pai no amava a ningum mais do que a 
ela, e se empenhara em salv-la dos perigos que ento a ameaavam! O desejo infantil e hoje inconsciente de colocar o pai no lugar do estranho  uma potncia formadora 
de sonhos. Havendo uma situao passada semelhante a uma situao presente, embora tendo por diferena essa substituio de pessoas, ela passa a ser a situao principal 
do sonho. E tal situao de fato existiu; justamente como fizera o Sr. K. na vspera, seu pai estivera um dia em frente  cama dela e a acordara; quem sabe com um 
beijo, como talvez o Sr. K. tivesse pretendido fazer. Portanto, o propsito de fugir da casa, por si s, no seria formador de um sonho, mas transformou-se nisso 
ao se associar com outro propsito fundamentado num desejo infantil. O desejo de substituir o Sr. K. pelo pai forneceu a fora impulsora [pulsional] para o sonho. 
Relembro aqui a interpretao a que me compeliu, em Dora, a cadeia reforada de pensamentos sobre as relaes de seu pai com a Sra. K.: a de que uma inclinao infantil 
pelo pai fora invocada para que fosse possvel manter sob recalcamento o amor recalcado pelo Sr. K. (ver a partir de [1]). Essa reviravolta na vida anmica de Dora 
 o que o sonho espelha.
         
         No tocante  relao entre os pensamentos de viglia que tm prosseguimento durante o sono - os restos diurnos - e o desejo inconsciente formador do sonho, 
fiz em A Interprerao dos Sonhos algumas observaes que aqui cito inalteradas, porque nada tenho a acrescentar-lhes e porque a anlise desse sonho de Dora torna 
a provar que no  outra a relao existente:
         
         "Estou pronto a admitir que h toda uma classe de sonhos cuja instigao provm principalmente, ou at de maneira exclusiva, dos restos da vida diurna; 
e penso que at meu desejo de enfim tornar-me Professor Extraordinrio poderia ter-me deixado dormir em paz aquela noite, se a preocupao com a sade de meu amigo 
no houvesse persistido desde o dia anterior. Mas a preocupao, por si s, no teria formado um sonho. A fora impulsora requerida pelo sonho tinha de ser suprida 
por um desejo; cabia  preocupao apoderar-se de um desejo que atuasse como fora propulsora do sonho.
         
         "A situao pode ser explicada por uma analogia. O pensamento diurno pode perfeitamente desempenhar o papel de empresrio do sonho; mas o empresrio, que, 
como se costuma dizer, tem a idia e a iniciativa para execut-la, no pode fazer nada sem o capital; precisa de um capitalista que possa arcar com o gasto, e capitalista 
que fornece o desembolso psquico para o sonho , invarivel e indiscutivelmente, sejam quais forem os pensamentos do dia anterior, um desejo oriundo do inconsciente."
         
         Quem tiver aprendido a conhecer a delicadeza da estrutura dessas formaes que so os sonhos no ficar surpreso com o fato de que esse desejo de Dora, 
de que seu pai tomasse o lugar do homem tentador, no tenha trazido  memria um material infantil qualquer, mas justamente um material que mantinha as mais ntimas 
relaes com a supresso dessa tentao.  que, se Dora se sentia incapaz de ceder ao amor por esse homem, se recalcava esse amor em vez de entregar-se a ele, a 
nenhum outro fator essa deciso se prendia mais intimamente do que a seu gozo sexual prematuro e as conseqncias dele - a enurese, o catarro e o asco. Tal histria 
primitiva, conforme o somatrio dos determinantes constitucionais, pode constituir o fundamento para dois tipos de conduta frente s exigncias do amor na maturidade: 
ou uma entrega plena  sexualidade, sem nenhuma resistncia e beirando a perverso, ou, por reao, o repdio da sexualidade no adoecimento neurtico. Em nossa paciente, 
a constituio e o nvel de sua educao intelectual e moral decidiram em favor da segunda alternativa.
         
         Quero ainda chamar especial ateno para o fato de que, a partir da anlise desse sonho, tivemos acesso a detalhes de vivncias patogenicamente ativas que, 
de outro modo, teriam sido inacessveis  memria ou, pelo menos,  reproduo. A lembrana do urinar na cama durante a infncia, como vimos, j fora recalcada. 
Quanto aos detalhes do assdio por parte do Sr. K., Dora nunca os mencionara, pois no lhe ocorriam.
         
         Acrescento ainda algumas observaes sobre a sntese desse sonho. O trabalho do sonho comea na tarde do segundo dia aps a cena no bosque, depois que Dora 
notou que j no poderia trancar a porta de seu quarto (ver em [1]). Foi ento que disse a si mesma: "Corro srio perigo aqui", e formou o propsito de no ficar 
sozinba na casa, mas sim partir com o pai. Esse propsito tornou-se passvel de formar um sonho por ter encontrado prosseguimento no inconsciente. Seu equivalente 
ali foi a invocao do amor infantil pelo pai como proteo contra a tentao atual. A virada assim ocorrida nela fixou-se e a levou para a postura representada 
por sua cadeia hipervalente de pensamentos (cime da Sra. K. por causa do pai, como se estivesse apaixonada por ele). Lutavam nela a tentao de ceder ao homem que 
a cortejava e uma oposio composta a faz-lo. Esta se compunha de motivos de decoro e prudncia, de impulsos hostis causados pela revelao da governanta (cime 
e orgulho ferido, como veremos adiante em [1]), e de um elemento neurtico - a averso  sexualidade a que estava predisposta e que se enraizava em sua histria 
infantil. O amor pelo pai, invocado para proteg-la da tentao, provinha dessa mesma histria infantil.
         
         O sonho transforma o propsito de fugir para o pai, entranhado no inconsciente, numa situao que mostra realizado o desejo de que o pai a salvasse do perigo. 
Para isso foi preciso pr de lado um pensamento que constitua um obstculo - o de que justamente o pai a expusera a esse perigo. Quanto  moo hostil contra o 
pai (propenso  vingana), aqui suprimida, dela tomaremos conhecimento como um dos motores do segundo sonho (ver a partir de [1]).
         
         De acordo com as condies da formao dos sonhos, a situao fantasiada  escolhida de modo a reproduzir uma situao infantil.  um triunfo especial conseguir-se 
transformar uma situao recente, justamente a que ocasionou o sonho, numa situao infantil. Em nosso caso, isso foi conseguido por uma mera casualidade do material. 
Tal como o Sr. K. postou-se diante do sof e a acordou, o pai muitas vezes a acordara na infncia. Toda a mudana pde simbolizar-se de maneira muito oportuna substituindo-se 
o Sr. K. pelo pai nessa situao.
         
         Mas o pai costumava acord-la, naquela poca, para que ela no molhasse a cama. Esse "molhar" tornou-se decisivo para o restante do contedo do sonho, apesar 
de ser nele representado apenas por uma aluso distante e por seu oposto.
         
         O oposto de "molhado" e "gua" pode facilmente ser "ardente" e "fogo". A casualidade de o pai, ao chegarem quele lugar [L ], ter expressado angstia ante 
o perigo de fogo (ver em [1]) contribuiu para decidir que o perigo do qual o pai deveria salv-la seria um incndio. Nesse acaso e na oposio a "molhar" baseou-se 
a situao escolhida para a imagem onrica: havia um incndio e o pai estava em frente a sua cama para despert-la. O enunciado fortuito do pai no teria alcanado 
essa importncia no sonho se no se harmonizasse to esplendidamente com a corrente de sentimentos dominante, que queria ver nele a qualquer preo o protetor e salvador. 
"Ele pressentiu o perigo logo depois de nossa chegada, e tinha razo!" (Na realidade, ele  que havia exposto a moa a esse perigo.)
         
         Nos pensamentos onricos, cabe ao "molhar", por ligaes muito fceis de estabelecer, o papel de ponto nodal entre vrios crculos de representaes. "Molhar" 
pertencia no s ao molhar a cama, mas tambm ao crculo de pensamentos de tentao sexual suprimidos por trs desse contedo onrico. Dora sabia haver tambm um 
molhar-se na relao sexual, sabia que, no coito, o homem oferece  mulher algo lquido em forma de gotas. Sabia ainda que o perigo reside justamente nisso, e que 
era tarefa sua proteger sua genitlia para que no fosse molhada.
         
         Com "molhar" e "gotas" abre-se ao mesmo tempo outro crculo de associaes: o do catarro enojante que, em seus anos mais maduros, sem dvida tinha para 
ela o mesmo significado do molhar a cama na infncia. "Molhado" tem aqui o mesmo sentido de "sujo". Os rgos genitais, que deveriam manter-se limpos, j se haviam 
sujado com o catarro, e alm disso o mesmo ocorrera com a me dela (ver em [1]). Dora parecia entender a mania de limpeza da me como uma reao contra essa imundcie.
         
         Os dois crculos se renem num s: "Mame recebeu as duas coisas de papai, o umedecimento sexual e a secreo que suja." O cime sentido pela me era inseparvel 
do crculo de pensamentos ligados ao amor infantil pelo pai, aqui invocado para dar proteo. Mas esse material ainda no era passvel de representao. No entanto, 
encontrando-se uma lembrana que mantivesse com os dois crculos do "molhar" uma relao similarmente boa, mas que evitasse o chocante, esta poderia assumir a representao 
do material no contedo do sonho.
         
         Tal lembrana foi encontrada no episdio das "gotas" [Tropfen] como jia desejada pela me (ver em [1]). Aparentemente, a ligao dessa reminiscncia com 
os dois crculos, o do umedecimento sexual e o de ficar suja, era externa e superficial, mediada pelas palavras, pois "gotas" foi usada como uma "reviravolta" (ver 
em [1]), uma palavra de duplo sentido, enquanto "jia" ["Schmuck"], no lugar de "limpo",  um oposto um tanto forado para "sujo". Na realidade, porm,  possvel 
demonstrar as mais firmes ligaes em termos do contedo. A lembrana proveio do material do cime de Dora pela me, que se enraizava na infncia mas persistiu por 
muito mais tempo. Atravs dessas duas pontes verbais foi possvel transferir para uma nica reminiscncia, a das "gotas-jia" [Schmucktropfen], todo o sentido preso 
s representaes da relao sexual entre os pais, do adoecimento pela secreo e da incmoda mania de limpeza da me.
         
         Contudo, faltava ainda mais uma transposio para que isso pudesse entrar no contedo do sonho. Neste, no foram as "gotas", mais prximas do "molhar" originrio, 
e sim "jia", mais distante, que chegou a obter ingresso. "Assim, ao se inserir esse elemento na situao onrica j fixada anteriormente, foi possvel dizer: "Mame 
ainda queria salvar suas jias." Na nova alterao para "caixinha de jias" [Schmuckkstchen] fez-se ento sentir, a posteriori, a influncia de elementos do crculo 
subjacente, relativo  tentao vinda do Sr. K. Este no a presenteara com jias, mas sim com uma "caixinha" para elas (ver em [1]) - o substituto de todas as distines 
e mostras de ternura pelas quais ela deveria agora mostrar-se agradecida. E o composto assim formado, "caixa de jias", tinha ainda um valor especial como substituto. 
Acaso "caixinha de jias" [Schmuckkstchen] no  uma imagem corriqueira para designar a genitlia feminina imaculada e intacta? E no , por outro lado, uma palavra 
inocente e, portanto, primorosamente apropriada tanto para ocultar quanto para aludir aos pensamentos sexuais por trs do sonho?
         
         Assim, diz-se em dois lugares do contedo do sonho "caixa de jias da mame", e esse elemento substitui a meno ao cime infantil de Dora, s gotas (ou 
seja, ao umedecimento sexual), ao sujar-se com a secreo e, por outro lado, aos pensamentos de tentao atuais que pressionam pela retribuio do amor e retratam 
a situao sexual iminente - ansiada e ameaadora. O elemento "caixa de jias", mais do que qualquer outro, foi um produto da condensao e do deslocamento, e um 
compromisso entre correntes opostas. Sua origem mltipla - em fontes infantis e atuais -  certamente apontada por seu duplo aparecimento no contedo do sonho.
         
         O sonho foi a reao a uma nova vivncia de efeito excitante, que deve necessariamente ter despertado a lembrana da nica vivncia de anos anteriores anloga 
a ela. Trata-se da cena do beijo na loja do. Sr. K., durante a qual surgiu a repugnncia (ver em [1]). Mas essa mesma cena era associativamente acessvel, partindo-se 
de outras direes: do crculo de pensamentos ligados ao catarro (ver em [1]) e da tentao atual. Portanto, ela trouxe uma contribuio prpria para o contedo 
do sonho, a qual teve de adaptar-se  situao onrica pr-formada. "Havia um incndio..." - o beijo sem dvida tinha gosto de fumaa [fumo], e por isso no sonho 
sente-se o cheiro de fumaa, que persiste at depois de Dora acordar (ver em [1]).
         
         Por inadvertncia, deixei lamentavelmente uma lacuna na anlise desse sonho. Atribui-se ao pai o dito "No quero que meus dois filhos... ("em conseqncia 
da masturbao", cabe sem dvida acrescentar aqui, partindo dos pensamentos onricos) peream". Tais ditos onricos so usualmente compostos de fragmentos de ditos 
reais, proferidos ou ouvidos. Eu deveria ter-me informado sobre a origem real desse dito. O resultado dessa investigao teria por certo tornado mais complicada 
a estrutura do sonho, mas teria tambm permitido conhec-lo com maior transparncia.
         
         Acaso se deve supor que esse sonho, ao ocorrer em L , teve exatamente o mesmo contedo que em sua repetio durante o tratamento? No parece necessrio. 
A experincia mostra que as pessoas amide afirmam ter tido o mesmo sonho, quando, na verdade, as aparies isoladas do sonho recorrente se diferenciam por numerosos 
detalhes e outras alteraes de considervel importncia. Assim, uma de minhas pacientes me informou ter tido novamente na noite anterior, e da mesma maneira, seu 
sonho favorito e recorrente: estava nadando no mar azul, sentindo prazer em furar as ondas etc. A investigao mais atenta mostrou que sobre a base comum surgia 
ora este detalhe, ora aquele; numa ocasio, inclusive, ela estava nadando num mar gelado e cercada por icebergs. Outros sonhos que a paciente no procurava apresentar 
como idnticos revelaram-se intimamente ligados ao sonho recorrente. Uma vez, por exemplo, ela viu numa fotografia em tamanho natural, ao mesmo tempo, as partes 
superior e inferior da ilha de Helgoland; no mar havia um barco onde se achavam duas pessoas a quem ela conhecera na juventude etc.
         
          certo que o sonho de Dora ocorrido durante o tratamento havia adquirido um novo sentido atual, talvez sem modificar seu contedo manifesto. Entre seus 
pensamentos onricos ele incluiu uma referncia a meu tratamento e correspondeu a uma renovao do antigo propsito de escapar de um perigo. Se no estava em jogo 
nenhuma iluso de memria por parte de Dora quando ela declarou que j em L  percebera a fumaa depois de acordar, cabe reconhecer que meu provrbio "onde h fumaa 
h fogo" (ver em [1]) foi introduzido com muita habilidade na forma acabada do sonho, onde parece ter servido para sobredeterminar o ltimo elemento. Inegavelmente, 
foi mera casualidade que o pretexto mais recente do sonho - o trancamento da sala de jantar pela me, com o que o irmo ficava encerrado em seu quarto (ver em [1]) 
- trouxesse um vnculo com a perseguio do Sr. K. em L , onde Dora amadureceu sua deciso ao descobrir que no poderia trancar-se no quarto. Talvez o irmo no 
tivesse aparecido no sonho nas ocasies anteriores, de modo que o dito "meus dois filhos" s entrou em seu contedo depois da ltima ocasio que o ensejou.
         
         O SEGUNDO SONHO
         
         Algumas semanas depois do primeiro sonho ocorreu o segundo, com cuja resoluo interrompeu-se a anlise. No se pode torn-lo to transparente quanto o 
primeiro, mas ele possibilitou uma confirmao desejada de uma posio que se tornara necessria sobre o estado anmico da paciente (ver em [1]), preencheu uma lacuna 
de sua memria (ver em [1]) e permitiu obter um profundo conhecimento da gnese de outro de seus sintomas (ver em [1]).
         
         Narrou Dora: "Eu estava passeando por uma cidade que no conhecia, vendo ruas e praas que me eram estranhas. Cheguei ento a uma casa onde eu morava, fui 
at meu quarto e ali encontrei uma carta de mame. Dizia que, como eu sara de casa sem o conhecimento de meus pais, ela no quisera escrever-me que papai estava 
doente. `Agora ele morreu e, se quiser, voc pode vir.' Fui ento para a estao [Bahnhof] e perguntei umas cem vezes: `Onde fica a estao?' Recebia sempre a resposta: 
`Cinco minutos.' Vi depois  minha frente um bosque espesso no qual penetrei, e ali fiz a pergunta a um homem que encontrei. Disse-me: `Mais duas horas e meia.' 
Pediu-me que o deixasse acompanhar-me. Recusei e fui sozinha. Vi a estao  minha frente e no conseguia alcanc-la. A me veio o sentimento habitual de angstia 
de quando, nos sonhos, no se consegue ir adiante. Depois, eu estava em casa; nesse meio tempo, tinha de ter viajado, mas nada sei sobre isso. Dirigi-me  portaria 
e perguntei ao porteiro por nossa casa. A criada abriu para mim e respondeu: `A mame e os outros j esto no cemitrio [Friedhof]'."
         
         A interpretao desse sonho no prosseguiu sem alguma dificuldade. Devido s circunstncias peculiares - ligadas a seu contedo - em que interrompemos a 
anlise, nem todo o sonho ficou esclarecido, e tambm a isso se prende que minha memria no tenha conservado, com igual segurana em todos os pontos, a ordem em 
que as dedues foram feitas. Comearei por mencionar o tema sobre o qual versava a anlise em curso quando se deu a interferncia do sonho. Desde algum tempo, a 
prpria Dora vinha formulando perguntas sobre a ligao entre suas aes e os motivos presumveis delas. Uma dessas perguntas era: "Por que foi que, nos primeiros 
dias depois da cena do lago, eu nada disse sobre ela?" Segunda pergunta: "Por que, ento, de repente contei isso a meus pais?" Eu considerava que, de modo geral, 
ainda era preciso explicar o que a levara a sentir-se to gravemente melindrada pela proposta do Sr. K., tanto mais que eu comeava a me aperceber de que, para o 
Sr. K., a proposta a Dora no significara nenhuma tentativa leviana de seduo. Quanto a ela ter dado conhecimento do episdio a seus pais, eu o encarava como um 
ato j praticado sob a influncia de uma sede doentia de vingana. Uma jovem normal, penso eu, lidaria sozinha com essas questes.
         
         Portanto, apresentarei o material surgido na anlise desse sonho na ordem bastante confusa em que se oferece  minha reproduo.
         
         Ela vagava sozinha por uma cidade estranha e via ruas e praas. Assegurou-me que certamente no era B , em que eu pensara primeiro, mas uma cidade em que 
nunca estivera. Como era natural, prossegui: ela poderia ter visto quadros ou fotografias das quais retirara as imagens do sonho. Depois dessa observao veio o 
adendo sobre o monumento numa das praas e, logo a seguir, o reconhecimento de sua fonte. Nas festas de Natal tinham-lhe enviado um lbum com paisagens de uma estao 
de guas alem, e justamente na vspera ela o procurara para mostr-lo a alguns parentes que estavam hospedados em sua casa. Ele estava numa caixa de fotografias 
que no se conseguia encontrar, e Dora perguntou  me: "Onde est a caixa?". Uma das paisagens mostrava uma praa com um monumento. Mas o autor do presente era 
um jovem engenheiro com quem Dora travara rpido conhecimento na cidade fabril. O rapaz aceitara um posto na Alemanha para chegar mais depressa a sua autonomia, 
aproveitava todas as oportunidades para fazer-se lembrar a Dora, e era fcil adivinhar que tencionava, a seu tempo, quando sua posio melhorasse, apresentar-se 
a Dora como pretendente. Mas ainda no era chegado o momento, havia de esperar.
         
         A perambulao pela cidade estranha estava sobredeterminada. Levou a um dos ensejos oferecidos durante o dia. Nas festas chegara a visita de um priminho 
a quem Dora teve de mostrar a cidade de Viena. Essa causa diurna decerto lhe fora sumamente indiferente. Mas o primo lhe trouxe  lembrana sua breve estada em Dresden 
pela primeira vez. Naquela ocasio, ela perambulara como uma estranha, embora no deixasse, naturalmente, de visitar a famosa galeria. Um outro primo, que estivera 
com eles e conhecia Dresden, quisera servir de guia no percurso pela galeria. Mas ela o recusara e seguira sozinha, detendo-se diante dos quadros que lhe agradavam. 
Diante da Madona Sistina deixou-se ficar duas horas, sonhadoramente perdida em silenciosa admirao. Ante a pergunta sobre o que tanto lhe agradara no quadro, no 
soube dar nenhuma resposta clara. Finalmente, disse: "A Madona."
         
          indubitvel que essas associaes realmente pertenam ao material formador do sonho. Incluem componentes que reencontramos inalterados no contedo do 
sonho ("ela recusou e foi sozinha" e "duas horas"). Ressalto desde j que as "imagens" so um ponto nodal na trama dos pensamentos do sonho (as paisagens do lbum, 
os quadros em Dresden). Destacaria tambm, para investigao posterior, o tema da Madona, da me virgem. Mas o que veio acima de tudo  que, nessa primeira parte 
do sonho, ela se identifica com um rapaz. Ele vagueia por terras estrangeiras, esfora-se por atingir uma meta, mas  retido, precisa de pacincia, tem de esperar. 
Se Dora tinha em mente o engenheiro, seria muito condizente que essa meta fosse a posse de uma mulher, da prpria pessoa dela. Em vez disso, era... uma estao, 
que alis, pela relao entre a pergunta do sonho e a pergunta realmente formulada, nos  lcito substituir por caixa. Uma caixa e uma mulher: isso j comea a combinar 
melhor.
         
         Ela perguntou umas cem vezes... Isso levou a outra causa do sonho, essa menos indiferente. Na noite da vspera, em meio a uma reunio domstica, o pai lhe 
pedira que fosse buscar o conhaque; no dormia sem antes beber conhaque. Dora pediu  me a chave do buf, mas ela estava absorta na conversa e no lhe deu resposta 
alguma, at que, com o exagero da impacincia, Dora exclamou: "J lhe perguntei umas cem vezes onde est a chave." Na realidade, ela naturalmente s repetira a pergunta 
umas cinco vezes.
         
         "Onde est a chave?" parece-me ser o equivalente masculino da pergunta "Onde est a caixa?". Portanto, so perguntas... pelos rgos genitais.
         
         Nessa mesma reunio familiar, algum fizera um brinde ao pai de Dora, expressando a esperana de que por muito tempo ainda ele gozasse da melhor sade etc. 
Nisso, uma expresso singular toldou o rosto cansado do pai, e ela compreendeu os pensamentos que ele teve de sufocar. Pobre enfermo! Quem poderia saber quanto tempo 
de vida ainda lhe restava?
         
         Com isso chegamos ao contedo da carta no sonho. O pai estava morto e ela sara de casa por seu prprio arbtrio. A partir dessa carta, relembrei prontamente 
a Dora a carta de despedida que ela escrevera aos pais, ou que pelo menos fora composta para eles (ver em [1]). Essa carta se destinava a dar um susto no pai para 
que ele desistisse da Sra. K., ou pelo menos a se vingar dele, caso no fosse possvel induzi-lo a isso. Estamos diante do tema da morte dela ou da morte do pai 
(cf. cemitrio, mais adiante no sonho). Acaso estaremos no caminho errado ao supor que a situao constitutiva da fachada do sonho correspondia a uma fantasia de 
vingana contra o pai? Os pensamentos compassivos do dia anterior se harmonizariam muito bem com isso. Ora, a fantasia rezava que ela saa de casa, indo para o estrangeiro, 
e que com isso o pai ficava com o corao partido pelo desgosto e pela saudade dela. Ento estaria vingada. Dora compreendia muito bem de que  que o pai sentia 
falta, no podendo agora dormir sem o conhaque. Assinalemos a sede de vingana como um novo elemento para uma sntese posterior dos pensamentos do sonho.
         
         Mas o contedo da carta deve ser passvel de uma determinao adicional. De onde proviria a frase "se voc quiser"? A propsito disso ocorreu a Dora o adendo 
de que, depois da palavra "quiser", havia um ponto de interrogao, e com isso ela tambm reconheceu essas palavras como uma citao extrada da carta da Sra. K. 
que contivera o convite para L  (o lugar junto ao lago). De maneira estranhssima, aps a intercalao "se voc quiser vir", havia nessa carta um ponto de interrogao 
colocado bem no meio da frase.
         
         Assim, estamos outra vez de volta  cena do lago (ver em [1]) e aos enigmas ligados a ela. Pedi a Dora que me descrevesse essa cena minuciosamente. A princpio, 
ela no revelou grandes novidades. O Sr. K. fizera uma introduo razoavelmente sria, mas ela no o deixara terminar. Mal compreendeu do que se tratava, deu-lhe 
uma bofetada no rosto e se afastou s pressas. Eu queria saber que palavras ele empregara, mas Dora s se lembrou de uma de suas alegaes: "Sabe, no tenho nada 
com minha mulher." Naquele momento, para no tornar a encontr-lo, ela quisera voltar para L  contornando o lago a p, e perguntou a um homem com quem cruzou a que 
distncia ficava. Ante a resposta "duas horas e meia", desistiu dessa inteno e voltou em busca do barco, que partiu logo depois. O Sr. K. tambm estava l novamente, 
aproximou-se dela e lhe pediu que o desculpasse e no contasse nada sobre o incidente. Mas ela no lhe deu resposta alguma...  mesmo, o bosque do sonho era muito 
parecido com o bosque na orla do lago, no qual se desenrolara a cena que ela acabava de me descrever mais uma vez. Justamente esse mesmo bosque denso  que ela vira 
na vspera, num quadro de exposio secessionista. Ao fundo do quadro viam-se ninfas.
         
         Nesse ponto, uma suspeita transformou-se em certeza para mim. Bahnhof ["estao"; literalmente, "ptio de ferrovia"] e Friedhof ["cemitrio"; literalmente, 
"ptio de paz"], em lugar da genitlia feminina, j eram bastante inusitados, mas guiaram minha ateno j aguada para uma palavra de formao similar, "Vorhof" 
["vestbulo"; literalmente, "ptio anterior"], termo anatmico para designar uma regio especfica da genitlia feminina. Mas isso poderia ser um equvoco por excesso 
de engenho. Agora, porm, com o acrscimo das "ninfas" que se viam ao fundo do "bosque denso", j no podia haver dvidas. Era uma geografia simblica do sexo! "Ninfas", 
como  sabido pelos mdicos, embora no pelos leigos (embora mesmo entre os primeiros no seja muito usual),  como se chamam os pequenos lbios que ficam no fundo 
do "bosque denso" dos plos pubianos. Mas quem usa termos tcnicos como "vestbulo" e "ninfas" h de ter extrado seu conhecimento dos livros, e justamente no de 
livros populares, mas de manuais de anatomia ou de alguma enciclopdia, refgio habitual dos jovens devorados pela curiosidade sexual. Portanto, se essa interpretao 
estava certa, ocultava-se por trs da primeira situao do sonho uma fantasia de deflorao, como quando um homem se esfora por penetrar na genitlia feminina.
         
         Partilhei minhas concluses com Dora. A impresso causada deve ter sido imperiosa, pois emergiu imediatamente um pequenino fragmento esquecido do sonho: 
que ela foi calmamente para seu quarto e ps-se a ler um livro grande que estava sobre sua escrivaninha. A nfase recai aqui sobre dois detalhes: "calmamente" e 
"grande", relacionado com o livro. Perguntei: "Ele tinha o formato de uma enciclopdia?" Dora disse que sim. Ora, as crianas nunca lem calmamente sobre matrias 
proibidas numa enciclopdia. Fazem-no tremendo de medo e espiam inquietas para ver se algum vem vindo. Os pais estorvam muito essas leituras. Mas a fora realizadora 
de desejos que  prpria do sonho melhorara radicalmente essa situao incmoda. O pai estava morto e os demais j tinham ido para o cemitrio. Ela podia ler calmamente 
o que bem lhe aprouvesse. No significaria isso que uma de suas razes para a vingana era tambm a revolta contra a coero exercida pelos pais? Se seu pai estivesse 
morto, ela poderia ler ou amar como quisesse.
         
         A princpio, ela se recusou a lembrar-se de algum dia ter lido uma enciclopdia, e depois admitiu que uma lembrana dessa ordem emergira nela, embora de 
contedo inocente. Na poca em que a tia a quem tanto amava estivera gravemente enferma e j se havia decidido a viagem de Dora a Viena, chegou de outro tio uma 
carta anunciando que eles no poderiam ir a Viena, j que um filho dele, primo de Dora, portanto, adoecera perigosamente de uma apendicite. Na ocasio, ela consultou 
uma enciclopdia para saber quais eram os sintomas da apendicite. Do que leu ento ela ainda recorda a dor caracterstica localizada no abdmen.
         
         Lembrei-me ento de que, pouco depois da morte da tia, Dora sofrera em Viena de uma suposta apendicite (ver em [1]). At esse momento, eu no me atrevera 
a incluir essa doena entre suas produes histricas. Contou-me ela que, nos primeiros dias, teve febre alta e sentiu no baixo ventre a mesma dor sobre a qual lera 
na enciclopdia. Puseram-lhe compressas frias, mas ela no conseguiu suport-las; no segundo dia, em meio a violentas dores, chegou sua menstruao, que desde seu 
adoecimento tornara-se muito irregular. Nessa poca, ela sofria constantemente de constipao intestinal.
         
         No parecia correto conceber esse estado como puramente histrico. Se indubitavelmente ocorre a febre histrica, parecia arbitrrio, por outro lado, atribuir 
a febre dessa doena questionvel  histeria, e no a uma causa orgnica atuante na ocasio. Eu estava a ponto de abandonar essa pista quando a prpria Dora veio 
em meu auxlio, trazendo seu ltimo adendo ao sonho: "ela se via com singular nitidez subindo as escadas."
         
         Naturalmente, eu exigia para isso um determinante especial. Dora objetou que, afinal, tinha de subir a escada se pretendia chegar a seu apartamento, que 
ficava num andar alto. Foi-me fcil repelir essa objeo, levantada talvez no muito a srio, assinalando que, se no sonho ela pudera viajar da cidade estranha at 
Viena omitindo o percurso de trem, tambm poderia ter deixado de fora a subida da escada. Ela prosseguiu ento no relato: depois da apendicite, tivera dificuldade 
em caminhar, pois arrastava o p direito. Isso persistira por muito tempo, e portanto de bom grado ela evitava as escadas. At hoje, o p ainda se arrastava muitas 
vezes. Os mdicos por ela consultados a pedido do pai muito se haviam admirado com essa seqela extremamente incomum de uma apendicite, sobretudo porque a dor abdominal 
no voltou a aparecer e de modo algum acompanhava o arrastar do p.
         
         Tratava-se, portanto, de um autntico sintoma histrico. Por mais que a febre da poca fosse considerada orgnica - talvez por um dos ataques to freqentes 
de influenza sem localizao particular -, estava agora comprovado que a neurose se apoderara desse evento fortuito e se valera dele para uma de suas manifestaes. 
Assim, Dora havia arranjado para si uma doena sobre a qual lera na enciclopdia, punindo-se por essa leitura; e teve de reconhecer que o castigo no podia, em absoluto, 
referir-se  leitura do artigo inocente, mas que se deu mediante um deslocamento, depois que a essa leitura seguiu-se uma outra, mais carregada de culpa, que hoje 
se ocultava na lembrana por trs da leitura inocente contempornea. Talvez ainda fosse possvel investigar sobre que temas ela lera naquela ocasio.
         
         Que significava, ento, aquele estado que pretendia imitar uma peritiflite? A seqela da afeco - o arrastar de uma perna - era inteiramente incompatvel 
com uma peritiflite, e por certo deveria adequar-se melhor ao sentido secreto, e talvez sexual, do quadro patolgico; se fosse possvel esclarec-lo, ele poderia 
lanar luz sobre o sentido buscado. Tentei encontrar uma via de acesso para esse enigma. Tinha havido indicaes temporais no sonho, e o tempo nunca  indiferente 
no acontecer biolgico. Assim, perguntei quando ocorrera a apendicite, se antes ou depois da cena do lago. A resposta imediata, que solucionou de um s golpe todas 
as dificuldades, foi: nove meses depois. Esse intervalo  bem caracterstico. A suposta apendicite realizara, portanto, com os modestos recursos  disposio da 
paciente (as dores e o fluxo menstrual), a fantasia de um parto. Naturalmente, Dora conhecia o significado desse prazo, e no pde desmentir a probabilidade de ter 
lido na enciclopdia, naquela ocasio, a respeito da gravidez e do parto. Mas o que tinha isso a ver com o arrastar da perna? Eu podia agora arriscar uma conjectura. 
 assim que se anda quando se torce o p. Portanto, ela dera um "passo em falso" e era perfeitamente correto que desse  luz nove meses depois da cena junto ao lago. 
Mas ainda me cabia colocar uma outra exigncia. Tais sintomas s se formam, segundo minha convico, quando se tem um modelo infantil para eles. Por minhas experincias 
feitas at agora, devo sustentar firmemente que as lembranas que se tem de pocas posteriores no dispem da fora necessria para se impor como sintomas. Eu no 
ousava esperar que Dora me fornecesse o material infantil desejado, posto que ainda no posso afirmar a validade universal da tese acima, por mais que me agradasse 
faz-lo. Aqui, porm, a confirmao veio de imediato. Sim, quando pequena, ela torcera certa vez esse mesmo p; estava em B  e, ao descer as escadas, escorregara 
num degrau; o p, justamente o mesmo que ela arrastava depois, inchara e tivera de ser enfaixado, deixando-a em repouso por algumas semanas. Isso foi pouco tempo 
antes da asma nervosa que lhe sobreveio no oitavo ano de vida (ver em [1]).
         
         Agora era preciso tirar proveito da comprovao dessa fantasia: "Se voc passou por um parto nove meses depois da cena do lago, e se at hoje arca com as 
conseqncias do passo em falso, isso prova que, no inconsciente, voc lamentou o desfecho da cena. Assim, em seu pensamento inconsciente, tratou de corrigi-lo. 
A premissa de sua fantasia de parto  que, de fato, algo aconteceu naquela ocasio, que voc vivenciou e experimentou ento tudo o que, mais tarde, teve de extrair 
da enciclopdia. Como v, seu amor pelo Sr. K. no terminou com aquela cena, mas, como afirmei, persistiu at o dia de hoje, embora em seu inconsciente." Dora no 
mais o contradisse.
         
         Esses trabalhos para esclarecer o segundo sonho haviam requerido duas sesses. Quando, ao trmino da segunda, expressei minha satisfao ante o conseguido, 
ela respondeu em tom desdenhoso: " - Ora, ser que apareceu tanta coisa assim?" E com isso preparei-me para a chegada de outras revelaes.
         
         Dora iniciou a terceira sesso com estas palavras:
         
         " - O senhor sabe, doutor, que hoje estou aqui pela ltima vez?"
         - No posso saber, pois voc no me disse nada a esse respeito.
         " - , eu me propusera agentar at o Ano Novo, mas no quero esperar mais pela cura."
         - Voc sabe que tem sempre a liberdade de se retirar. Mas hoje ainda vamos continuar trabalhando. Quando foi que tomou essa deciso?
         " - Faz uns quatorze dias, creio."
         - Isso soa como uma empregada ou uma governanta: um aviso prvio de quatorze dias.
         " - Havia tambm uma governanta que deu aviso prvio na casa dos K. quando os visitei em L , no lago."
         -  mesmo? Voc nunca me contou nada sobre ela. Conte-me, por favor.
         "- Bem, havia uma mocinha na casa, como governanta das crianas, que exibia um comportamento estranhssimo em relao ao Sr. K. No o cumprimentava, no 
lhe dava nenhuma resposta, nunca lhe entregava nada  mesa quando ele lhe pedia, em suma, tratava-o como se fosse vento. Alis, ele tambm no era muito mais corts 
com ela. Um ou dois dias antes da cena do lago, a moa me chamou  parte; tinha algo a me comunicar. Contou-me ento que o Sr. K., numa poca em que sua mulher estivera 
ausente por vrias semanas, tinha-se aproximado dela, fizera-lhe um assdio insistente e lhe pedira que fosse solcita com ele, dizendo que no tinha nada com sua 
mulher etc."
         - Ora, so as mesmas palavras que ele usou ao fazer-lhe sua proposta, e em funo das quais voc lhe deu a bofetada no rosto.
         "- . Ela cedeu, mas em pouco tempo ele j no lhe dava importncia, e desde ento ela passou a odi-lo."
         - E essa governanta deu um aviso prvio?
         "- No, estava pretendendo faz-lo. Disse-me que, to logo se sentiu abandonada, contou o acontecido a seus pais, que so gente decente que mora em algum 
lugar da Alemanha. Os pais lhe exigiram que abandonasse a casa imediatamente e, como isso no foi feito, escreveram dizendo que no queriam mais saber dela, que 
ela nunca mais poderia voltar para casa."
         - E por que ela no foi embora?
         "- Disse que ainda queria esperar um pouco para ver se o Sr. K. no se modificaria. No suportava viver daquela maneira. Se no visse nenhuma mudana, daria 
o aviso prvio e sairia."
         - E o que aconteceu com a moa?
         "- S sei que foi embora."
         - No teve nenhum filho dessa aventura?
         "- No."
         
         Em meio  anlise, portanto - alis, em perfeito acordo com as regras -, ali vinha  luz um fragmento de material efetivo que ajudava a solucionar problemas 
previamente levantados. Pude dizer a Dora:
         
         - Agora conheo o motivo daquela bofetada com que voc respondeu  proposta do Sr. K. No foi a afronta pela impertinncia dele, mas uma vingana por cime. 
Quando a mocinha lhe contou sua histria, voc ainda pde valer-se de sua arte de pr de lado tudo o que no convinha a seus sentimentos. Mas no momento em que o 
Sr. K. usou as palavras "No tenho nada com minha mulher", que ele tambm dissera  senhorita, novas emoes foram despertadas em voc e fizeram pender a balana. 
Voc disse a si mesma: "Como se atreve ele a me tratar cono uma governanta, uma servial?" A esse orgulho ferido somaram-se o cime e os motivos de prudncia conscientes: 
definitivamente, era demais. Para provar o quanto voc ficou impressionada com a histria da governanta, relembro suas repetidas identificaes com ela no sonho 
e em sua prpria conduta. Voc contou a seus pais, o que at aqui no havamos compreendido, tal como a moa escreveu aos pais dela. Est-se despedndo de mim como 
uma governanta, com um aviso prvio de quatorze dias. A carta do sonho, que lhe permite voltar para casa,  a contrapartida da carta dos pais da moa, em que ela 
 proibida de faz-lo.
         " - E por que, ento, no contei a meus pais imediatamente?"
         - Quanto tempo deixou passar?
         " - A cena ocorreu no ltimo dia de junho; em 14 de julho contei-a a mame."
         - Outra vez, portanto, quatorze dias, o prazo caracterstico para uma criada! Agora posso responder  sua pergunta. Voc compreendeu muito bem a pobre moa. 
Ela no queria ir-se de imediato porque ainda tinha esperanas, porque esperava que o Sr. K. voltasse a lhe dar sua ternura. Esse deve ter sido tambm o seu motivo. 
Voc aguardou esse prazo para ver se ele renovaria suas propostas; da teria concludo que ele estava agindo a srio, e que no queria brincar com voc como fizera 
com a governanta.
         " - Nos primeiros dias depois da partida ele ainda me mandou um carto-postal."
         - Sim, mas como no veio nada mais, voc deu livre curso a sua vingana. Posso at imaginar que, nessa poca, ainda havia lugar para a inteno colateral, 
mediante a acusao, de induzi-lo a viajar at o local onde voc morava.
         " - ... Que foi, alis, o que ele primeiro se ofereceu a fazer", interrompeu ela.
         - Ento sua saudade dele ter-se-ia apaziguado - aqui, ela assentiu com a cabea, coisa que eu no havia esperado - e ele poderia ter-lhe dado a satisfao 
que voc reclamava.
         " - Que satisfao?"
         -  que estou comeando a suspeitar de que voc levou a questo com o Sr. K. muito mais a srio do que quis revelar at agora. No havia entre os K. conversas 
freqentes sobre divrcio?
         " - Certamente; primeiro ela no queria, por causa dos filhos, e agora ela quer, mas ele no quer mais."
         - Ser que no pensou que ele queria divorciar-se da mulher para se casar com voc? E que agora j no quer faz-lo, por no ter nenhuma substituta? H 
dois anos, sem dvida, voc era muito jovem, mas voc mesma me contou que sua me ficou noiva aos dezessete anos, e depois esperou dois anos pelo marido. A histria 
amorosa da me costuma ser um modelo para a filha. Por isso, voc tambm queria esperar, e achou que ele estava apenas aguardando que voc amadurecesse o bastante 
para se tornar mulher dele. Imagino que esse tenha sido um projeto de vida muito srio para voc. E no tem sequer o direito de afirmar que essa inteno estivesse 
excluda para o Sr. K., pois voc me contou sobre ele o bastante para apontar diretamente para esse propsito. Tampouco a conduta dele em L  contradiz isso. Voc 
no o deixou terminar sua fala e no sabe o que ele queria dizer-lhe. Alis, o projeto no seria to impossvel de realizar. As relaes entre seu pai e a Sra. K., 
que provavelmente voc s apoiou por tanto tempo por causa disso, davam-lhe a certeza de que se conseguiria o consentimento da mulher para o divrcio, e com seu 
pai voc consegue o que quer. Na verdade, se a tentao em L  houvesse tido outro desfecho, essa teria sido a nica soluo possvel para todas as partes. Penso 
tambm que por isso voc lamentou tanto o outro desenlace e o corrigiu na fantasia que se apresentou como uma apendicite. Assim, deve ter sido uma grande decepo 
para voc que, em vez de uma proposta renovada, suas acusaes tenham tido como resultado as negativas e as calnias do Sr. K. Voc admite que nada a enfurece mais 
do que acreditarem que voc imaginou a cena do lago (ver em [1]). Agora sei do que  que no quer ser lembrada:  de ter imaginado que a proposta estava sendo feita 
a srio e que o Sr. K. no desistiria at que voc se casasse com ele.
         
         Dora me escutara sem me contradizer como de costume. Parecia emocionada; despediu-se da maneira mais amvel, com votos calorosos para o Ano-Novo, e... nunca 
mais voltou. O pai, que ainda me visitou algumas vezes, garantiu que ela voltaria; notava-se, dizia, que ela estava ansiosa pela continuao do tratamento. Mas ele 
no era totalmente sincero. Havia apoiado o tratamento enquanto lhe fora possvel esperar que eu "dissuadisse" Dora da idia de que entre ele e a Sra. K. havia algo 
alm de uma amizade. Seu interesse desvaneceu-se ao notar que no era minha inteno promover esse resultado. Eu sabia que ela no retornaria. Foi um indubitvel 
ato de vingana que, no momento em que minhas esperanas de um trmino feliz do tratamento estavam no auge, ela partisse de maneira to inesperada e aniquilasse 
essas esperanas. Tambm sua tendncia a prejudicar a si mesma beneficiou-se desse procedimento. Quem, como eu, invoca os mais malficos e maldomados demnios que 
habitam o peito humano, com eles travando combate, deve estar preparado para no sair ileso dessa luta. Ser que eu poderia ter conservado a moa em tratamento, 
se tivesse eu mesmo representado um papel, se exagerasse o valor de sua permanncia para mim e lhe mostrasse um interesse caloroso que, mesmo atenuado por minha 
posio de mdico, teria equivalido a um substituto da ternura por que ela ansiava? No sei. J que em todos os casos parte dos fatores encontrados sob a forma de 
resistncia permanecem desconhecidos, sempre evitei desempenhar papis e me contentei com uma arte psicolgica mais modesta. A despeito de todo o interesse terico 
e de todo o empenho mdico de curar, tenho muito presente que a influncia psquica necessariamente tem limites, e respeito como tais tambm a vontade e a compreenso 
do paciente.
         
         Tampouco sei se o Sr. K. teria logrado mais se lhe fosse revelado que aquela botetada no rosto de modo algum significara um "no" definitivo de Dora, mas 
que expressara o cime recm-despertado nela, enquanto as moes mais intensas de sua vida anmica ainda tomavam o partido dele. Se ele no tivesse dado ouvidos 
a esse primeiro "no" e houvesse persistido em sua proposta com uma paixo mais convincente, o resultado bem poderia ter sido um triunfo da afeio da moa sobre 
todas as suas dificuldades internas. Mas creio que, talvez com a mesma facilidade, isso poderia t-la apenas provocado a satisfazer nele, com intensidade ainda maior, 
sua sede de vingana. Nunca se pode calcular para que lado pender a deciso no conflito entre os motivos, se para a eliminao ou o reforo do recalcamento. A incapacidade 
para o atendimento de uma demanda amorosa real  um dos traos mais essenciais da neurose; os doentes so dominados pela oposio entre a realidade e a fantasia. 
Aquilo por que mais intensamente anseiam em suas fantasias  justamente aquilo de que fogem quando lhes  apresentado pela realidade, e com maior gosto se entregam 
a suas fantasias quando j no precisam temer a realizao delas. A barreira levantada pelo recalcamento, no entanto, pode cair sob o assalto de excitaes violentas 
de causa real; a neurose ainda pode ser derrotada pela realidade. Mas no podemos avaliar genericamente em quem e de que maneira essa cura seria possvel.
         
         POSFCIO
         
          verdade que anunciei esta comunicao como um fragmento de anlise; mas ho de t-la achado incompleta em propores muito maiores do que seu ttulo levaria 
a esperar. Convm, portanto, que eu tente indicar os motivos dessas omisses nada acidentais.
         
         Falta uma srie de resultados da anlise, em parte porque, quando da interrupo do trabalho, eles no estavam suficientemente reconhecidos, e em parte 
porque teriam requerido um prosseguimento para se chegar a alguma concluso geral. Noutros pontos, onde me pareceu admissvel, apontei o rumo provvel em que cada 
soluo seria encontrada. Alm disso, omiti por completo a tcnica, que nada tem de bvia e unicamente atravs da qual se pode extrair da matria-prima das associaes 
do enfermo o metal puro dos valiosos pensamentos inconscientes. Isso traz a desvantagem de o leitor no poder confirmar, nesta exposio, o acerto de meu procedimento. 
Contudo, pareceu-me totalmente impraticvel lidar ao mesmo tempo com a tcnica da anlise e com a estrutura interna de um caso de histeria; para mim, isso seria 
uma tarefa quase impossvel, e a leitura seria certamente intragvel para o leitor. A tcnica exige uma exposio totalmente separada, que a esclarea mediante numerosos 
exemplos extrados dos mais diversos casos e possa prescindir do resultado obtido em cada um deles. Tampouco tentei fundamentar aqui as premissas psicolgicas vislumbradas 
em minhas descries dos fenmenos psquicos. Nada se produziria com uma fundamentao descuidada, e uma que fosse minuciosa constituiria uma obra por si s. Posso 
apenas assegurar que abordei o estudo dos fenmenos revelados pela observao dos psiconeurticos sem estar comprometido com nenhum sistema psicolgico definido, 
e que depois modifiquei vez aps outra minhas opinies, at me parecerem adequadas para dar conta da trama das observaes efetuadas. No me orgulho por ter evitado 
a especulao, porm o material para estas hipteses foi obtido mediante a mais ampla e laboriosa observao. Em particular,  possvel que a firmeza de meu ponto 
de vista na questo do inconsciente seja chocante, uma vez que opero com representaes, cursos de pensamento e moes inconscientes como se fossem objetos da psicologia 
to bons e incontestveis quanto todo o consciente; mas de uma coisa estou certo: quem quer que empreenda a investigao desse mesmo campo de fenmenos com o mesmo 
mtodo no poder deixar de situar-se no mesmo ponto de vista, apesar de todas as dissuases dos filsofos.
         
         Os colegas que consideram puramente psicolgica minha teoria da histeria, e que por isso a qualificam de antemo como incapaz de solucionar um problema 
patolgico, deduziro deste ensaio que sua objeo transfere injustificadamente para a teoria o que constitui uma caracterstica da tcnica. Apenas a tcnica teraputica 
 puramente psicolgica; a teoria de modo algum deixa de apontar para as bases orgnicas da neurose, muito embora no as procure em alguma alterao anatomopatolgica 
e substitua provisoriamente pela funo orgnica a alterao qumica esperada, mas ainda impossvel de conceber atualmente. Ningum h de querer negar o carter 
de fator orgnico da funo sexual, na qual vejo a fundamentao da histeria e das psiconeuroses em geral. Suspeito que nenhuma teoria da vida sexual possa evitar 
a hiptese da existncia de determinadas substncias sexuais de ao excitante. De fato, dentre todos os quadros patolgicos de que tomamos conhecimento na clnica, 
as intoxicaes e a abstinncia quando do uso crnico de certos venenos so os que mais se aproximam das autnticas psiconeuroses.
         
         Tampouco me estendi neste ensaio, entretanto, acerca do que hoje se pode dizer sobre a "complacncia somtica", os germes infantis da perverso, as zonas 
ergenas e a predisposio para a bissexualidade; apenas destaquei os pontos em que a anlise tropea nesses fundamentos orgnicos dos sintomas. Mais no se poderia 
fazer com um caso isolado, e tive as mesmas razes antes apontadas para evitar uma discusso passageira desses fatores. H aqui uma oportunidade abundante para trabalhos 
posteriores, baseados num grande nmero de anlises.
         
         Com esta publicao to incompleta, eu quis alcanar duas coisas. Em primeiro lugar, como um complemento a meu livro sobre a interpretao dos sonhos, mostrar 
como essa arte, que de outro modo seria intil, pode ser proveitosa para a descoberta do oculto e do recalcado na vida anmica; alis, na anlise dos dois sonhos 
aqui comunicados, levou-se em considerao a tcnica da interpretao dos sonhos, semelhante  tcnica psicanaltica. Em segundo lugar, quis despertar interesse 
numa srie de situaes que a cincia ainda hoje desconhece por completo, j que somente a aplicao desse procedimento especfico permite desvend-las. Ningum 
podia ter uma noo exata da complicao dos processos psquicos na histeria, da justaposio das mais diversas moes, do vnculo recproco entre os opostos, dos 
recalques e deslocamentos etc. A nfase de Janet na ide fixe, que se converte no sintoma, no significa nada alm de uma esquematizao realmente precria. No 
se pode evitar a suposio de que certas excitaes cujas respectivas representaes no so passveis de se conscientizar atuam diferentemente umas sobre as outras, 
tm cursos diferentes e levam a manifestaes diversas das que chamamos "normais", cujo contedo de representao torna-se consciente para ns. Uma vez esclarecidas 
as coisas at esse ponto, nada mais poder estorvar a compreenso de uma terapia que suprime os sintomas neurticos transformando as representaes do primeiro tipo 
em representaes normais.
         
         Empenhava-me tambm em mostrar que a sexualidade no intervm simplesmente como um deus ex machina que se apresentasse uma nica vez em algum ponto da engrenagem 
dos processos caractersticos da histeria, mas que fornece a fora impulsora para cada sintoma singular e para cada manifestao singular de um sintoma. Os fenmenos 
patolgicos so, dito de maneira franca, a atividade sexual do doente. Um caso isolado nunca permitir demonstrar uma tese to geral, mas s posso repetir vez aps 
outra, pois jamais constato outra coisa, que a sexualidade  a chave do problema das psiconeuroses, bem como das neuroses em geral. Quem a desprezar nunca ser capaz 
de abrir essa porta. Ainda aguardo as investigaes capazes de refutar ou restringir essa tese. O que tenho ouvido at agora no passam de manifestaes de desagrado 
pessoal ou de incredulidade, s quais basta contrapor o dito de Charcot: "a n'empche pas d'exister."
         
         O caso de cuja histria clnica e teraputica aqui publiquei um fragmento tampouco  apropriado para situar em sua justa luz o valor da terapia psicanaltica. 
No apenas a brevidade do tratamento, que mal chegou a trs meses, como tambm outro fator, inerente ao prprio caso, impediram que a cura se conclusse com a melhora 
obtenvel em outros casos, uma melhora admitida pelo enfermo e por seus parentes, que mais ou menos se aproxima de uma recuperao completa. Obtm-se tal resultado 
satisfatrio quando as manifestaes patolgicas so exclusivamente sustentadas pelo conflito interno entre as moes concernentes  sexualidade. Nesses casos, v-se 
melhorar o estado do doente  medida que, traduzindo o material patognico em material normal, contribui-se para o solucionamento de seus problemas psquicos. O 
rumo tomado  diverso quando os sintomas se colocam a servio de motivos vitais externos, como acontecera com Dora nos ltimos dois anos. Fica-se surpreso, e pode-se 
facilmente errar o caminho, quando se toma conhecimento de que o estado do doente no d sinal de se modificar nem mesmo depois de o trabalho ter progredido muito. 
Na realidade, porm, as coisas no so to ruins;  certo que os sintomas no desaparecem enquanto o trabalho prossegue, e sim algum tempo depois, uma vez dissolvidos 
os vnculos com o mdico. O adiamento da cura ou da melhora s  realmente causado pela pessoa do mdico.
         
         Devo estender-me um pouco mais para tornar essa questo inteligvel. Durante o tratamento psicanaltico, pode-se dizer com segurana que uma nova formao 
de sintomas fica regularmente sustada. A produtividade da neurose, porm, de modo algum se extingue, mas se exerce na criao de um gnero especial de formaes 
de pensamento, em sua maioria inconscientes, s quais se pode dar o nome de "transferncias".
         
         O que so as transferncias? So reedies, reprodues das moes e fantasias que, durante o avano da anlise, soem despertar-se e tornar-se conscientes, 
mas com a caracterstica (prpria do gnero) de substituir uma pessoa anterior pela pessoa do mdico. Dito de outra maneira: toda uma srie de experincias psquicas 
prvia  revivida, no como algo passado, mas como um vnculo atual com a pessoa do mdico. Algumas dessas transferncias em nada se diferenciam de seu modelo, no 
tocante ao contedo, seno por essa substituio. So, portanto, para prosseguir na metfora, simples reimpresses, reedies inalteradas. Outras se fazem com mais 
arte: passam por uma moderao de seu contedo, uma sublimao, como costumo dizer, podendo at tornar-se conscientes ao se apoiarem em alguma particularidade real 
habilmente aproveitada da pessoa ou das circunstncias do mdico. So, portanto, edies revistas, e no mais reimpresses.
         
         Quando se penetra na teoria da tcnica analtica, chega-se  concepo de que a transferncia  uma exigncia indispensvel. Na prtica, pelo menos, fica-se 
convencido de que no h nenhum meio de evit-la, e de que essa ltima criao da doena deve ser combatida como todas as anteriores. Ocorre que essa parte do trabalho 
 de longe a mais difcil. Interpretar os sonhos, extrair das associaes do enfermo os pensamentos e lembranas inconscientes, e outras artes similares de traduo 
so fceis de aprender: o prprio doente sempre fornece o texto para elas. Somente a transferncia  que se tem de apurar quase que independentemente, a partir de 
indcios nfimos e sem incorrer em arbitrariedades. Mas ela  incontornvel, j que  utilizada para produzir todos os empecilhos que tornam o material inacessvel 
ao tratamento, e j que s depois de resolvida a transferncia  que surge no enfermo o sentimento de convico sobre o acerto das ligaes construdas [durante 
a anlise].
         
         Tender-se- a considerar uma sria desvantagem desse procedimento, alis nada cmodo, que ele prprio multiplique o trabalho do mdico, criando uma nova 
espcie de produtos psquicos patolgicos, e talvez se queira at inferir da existncia das transferncias algum prejuzo para o doente atravs do tratamento analtico. 
Ambas as suposies estariam erradas. O trabalho do mdico no  multiplicado pela transferncia; de fato, -lhe indiferente ter de superar a respectiva moo do 
enfermo ligada a sua pessoa ou a alguma outra. Mas o tratamento tampouco obriga o doente, com a transferncia, a qualquer nova tarefa que de outro modo ele no executasse. 
Se tambm se produzem curas da neurose em instituies das quais o tratamento psicanaltico est excludo, se  possvel dizer que a histeria no  curada pelo mtodo, 
e sim pelo mdico, e se  freqente obter-se como resultado uma espcie de dependncia cega e de cativeiro permanente do enfermo perante o mdico que o livrou de 
seus sintomas atravs da sugesto hipntica, a explicao cientfica de tudo isso h de ser vista nas "transferncias" que o doente faz regularmente para a pessoa 
do mdico. O tratamento psicanaltico no cria a transferncia, mas simplesmente a revela, como a tantas outras coisas ocultas na vida anmica. A nica diferena 
manifesta-se em que, espontaneamente, o enfermo s evoca transferncias ternas e amistosas que contribuam para sua cura; no podendo ser esse o caso, ele se afasta 
o mais rpido possvel, sem ser influenciado pelo mdico que no lhe  "simptico". Na psicanlise, por outro lado, de acordo com sua colocao diferenciada dos 
motivos, despertam-se todas as moes [do paciente], inclusive as hostis; mediante sua conscientizao elas so aproveitadas para fins de anlise, e com isso a transferncia 
 repetidamente aniquilada. A transferncia, destinada a constituir o maior obstculo  psicanlise, converte-se em sua mais poderosa aliada quando se consegue detect-la 
a cada surgimento e traduzi-la para o paciente.
         
         Fui obrigado a falar da transferncia porque somente atravs desse fator pude esclarecer as particularidades da anlise de Dora. O que constitui seu grande 
mrito e que a fez parecer adequada para uma primeira publicao introdutria, a saber, sua transparncia incomum, est intimamente ligado a seu grande defeito, 
que levou a sua interrupo prematura. No consegui dominar a tempo a transferncia; graas  solicitude com que Dora punha  minha disposio no tratamento uma 
parte do material patognico, esqueci a precauo de estar atento aos primeiros sinais da transferncia que se preparava com outra parte do mesmo material, ainda 
ignorada por mim. Desde o incio ficou claro que em sua fantasia eu substitua seu pai, o que era fcil de compreender em vista de nossa diferena de idade. Dora 
chegou at a me comparar com ele conscientemente, buscando, angustiada, assegurar-se de minha completa sinceridade para com ela, j que seu pai "preferia sempre 
o segredo e os rodeios tortuosos". Depois, ao surgir o primeiro sonho, no qual ela se alertava a abandonar o tratamento tal como antes deixara a casa do Sr. K., 
eu mesmo deveria ter-me precavido, dizendo-lhe: "Agora voc fez uma transferncia do Sr. K. para mim. Acaso ter notado algo que a leve a suspeitar de ms intenes 
semelhantes s do Sr. K. (diretamente ou por meio de alguma sublimao)? Ou ser que algo em mim chamou sua ateno, ou que voc soube de alguma coisa a meu respeito 
que me fez cair em suas graas, como lhe ocorreu antes com o Sr. K.?" Ento a ateno dela ter-se-ia voltado para algum detalhe de nosso relacionamento, em minha 
pessoa ou nas minhas condies, por trs do qual se esconderia algo anlogo, mas incomparavelmente mais importante, a respeito do Sr. K.; e mediante a resoluo 
dessa transferncia a anlise teria obtido acesso a um novo material mnmico, provavelmente ligado a fatos reais. Mas fiquei surdo a essa primeira advertncia, pensando 
haver tempo, de sobra, j que no se apresentavam outros estgios da transferncia e ainda no se esgotara o material para anlise. Assim, fui surpreendido pela 
transferncia e, por causa desse "x" que me fazia lembrar-lhe o Sr. K., ela se vingou de mim como queria vingar-se dele, e me abandonou como se acreditara enganada 
e abandonada por ele. Assim, atuou uma parte essencial de suas lembranas e fantasias, em vez de reproduzi-las no tratamento. Naturalmente, no sei dizer qual era 
esse "x": desconfio que se relacionasse com dinheiro, ou com cimes de uma outra paciente que, uma vez curada, continuara a manter relaes com minha famlia. Quando 
as transferncias se deixam abarcar precocemente na anlise, o curso desta  opacificado e retardado, mas sua existncia fica mais assegurada contra as resistncias 
repentinas e insuperveis.
         
         No segundo sonho de Dora, a transferncia  substituda por diversas aluses claras. Quando ela o narrou, eu ainda no sabia (s fiquei sabendo dois dias 
depois) que s nos restavam duas horas de trabalho, o mesmo tempo que ela passara em frente  Madona Sistina (ver em [1]) e tambm, introduzindo uma correo (duas 
horas em vez de duas horas e meia), o que lhe fora indicado como a extenso do trajeto ao redor do lago, que ela no seguira (ver em [1]). As aspiraes e a espera 
no sonho, relacionadas com o rapaz na Alemanha e provenientes da espera de que o Sr. K. pudesse casar-se com ela, j se haviam expressado na transferncia dias antes: 
o tratamento se prolongava muito e ela no tinha pacincia de esperar tanto, muito embora, nas primeiras semanas, houvesse demonstrado discernimento suficiente para 
escutar, sem fazer tais objees, meu anncio de que seu pleno restabelecimento talvez requeresse um ano. A recusa a ser acompanhada e a preferncia por ir sozinha, 
manifestas no sonho e igualmente originrias da visita  galeria de Dresden, eram algo que eu prprio deveria experimentar no dia marcado. Tinham sem dvida esse 
sentido: "J que todos os homens so to detestveis, prefiro no me casar. Esta  minha vingana."
         
         Quando, no decorrer do tratamento, as moes de crueldade e os motivos de vingana j usados na vida do paciente para sustentar seus sintomas transferem-se 
para o mdico, antes que ele tenha tido tempo de afast-los de sua pessoa reconduzindo-os a suas origens, no surpreende que o estado do enfermo no exiba a influncia 
de seu empenho teraputico. De que maneira pode o doente vingar-se com mais eficcia do que demonstrando, em sua prpria pessoa, quo impotente e incapaz  o mdico? 
Ainda assim, no me inclino a subestimar o valor teraputico nem mesmo de tratamentos to fragmentrios quanto foi o de Dora.
         
         S depois de decorridos quinze meses do trmino do tratamento e da redao deste texto recebi notcias do estado de minha paciente e, por conseguinte, dos 
resultados da terapia. Numa data nada indiferente, o dia 1 de abril - sabemos que as indicaes temporais nunca foram desprovidas de sentido para ela -, Dora apresentou-se 
diante de mim para concluir sua histria e pedir-me ajuda novamente, mas uma olhadela para sua expresso revelou-me que ela no levava a srio esse pedido. Nas quatro 
ou cinco semanas aps deixar o tratamento ela andou numa "atrapalhao", segundo disse. Sobreveio ento uma grande melhora: os ataques rarearam e seu estado de nimo 
se elevou. Em maio daquele ano morreu um dos filhos do casal K., que sempre fora doentio. Ela aproveitou a oportunidade dessa perda para fazer-lhes uma visita de 
condolncias, e os K. a receberam como se nada houvesse acontecido naqueles ltimos trs anos. Nessa ocasio, ela se reconciliou com eles, vingou-se deles e levou 
seu assunto a uma concluso que lhe foi satisfatria.  mulher, disse: "Sei que voc tem um relacionamento com papai", e esta no o negou. Quanto ao marido, provocou-o 
a confessar a cena do lago antes contestada por ele, e levou ao pai essa notcia justificatria. Desde ento no retomou seu relacionamento com essa famlia.
         
         Depois disso, ela foi muito bem at meados de outubro, poca em que lhe sobreveio outro ataque de afonia que perdurou trs semanas. Surpreso diante dessa 
comunicao, perguntei-lhe se tinha havido algo que ensejasse isso e soube que o ataque se seguira a um susto violento. Ela vira algum ser atropelado por uma carruagem. 
Por fim, saiu-se com a informao de que o acidente no atingira outra pessoa seno o Sr. K. Deparara com ele na rua um dia, num lugar de trfego intenso; ele se 
quedara diante dela, como que desconcertado, e nesse estado de distrao fora derrubado por uma carruagem. A propsito, ela se convencera de que ele havia escapado 
sem nenhum dano considervel. Ainda lhe causava uma ligeira emoo ouvir falar no relacionamento de seu pai com a Sra. K., mas ela j no se imiscua nisso. Estava 
dedicada a seus estudos e no pensava em se casar.
         
         Viera buscar minha ajuda por causa de uma nevralgia facial do lado direito, que agora persistia dia e noite. - Desde quando? perguntei-lhe. "Exatamente 
h quatorze dias." No pude deixar de sorrir, pois foi-me possvel demonstrar-lhe que justamente quatorze dias antes ela lera uma notcia referente a mim nos jornais, 
o que ela confirmou (isso foi em 1902).
         
         A suposta nevralgia facial correspondia, portanto, a uma autopunio, ao remorso pela bofetada que ela dera naquele dia no Sr. K. e pela transferncia vingativa 
da feita para mim. No sei que tipo de auxlio ela queria pedir-me, mas prometi perdo-la por ter-me privado da satisfao de livr-la muito mais radicalmente de 
seus padecimentos.
         
         Passaram-se novamente vrios anos desde sua visita. A moa se casou, e por certo com aquele rapaz que, se todos os indcios no me enganam, fora mencionado 
em suas associaes no incio da anlise do segundo sonho. Tal como o primeiro sonho significara o afastamento do homem amado em direo ao pai, ou seja, a fuga 
da vida para a doena, esse segundo sonho anunciou que ela se desprenderia do pai e ficaria recuperada para a vida.
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
       
       
       
       TRS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE (1905)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         DREI ABHANDLUNGEN ZUR SEXUAL THEORIE
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1905 Leipzig e Viena: Deuticke, ii + 83 pgs.
         1910 2 Ed., Leipzig e Viena: Deuticke, iii + 87 pgs. (Com acrscimos)
         1915 3 Ed., Leipzig e Viena: Deuticke, vi + 101 pgs. (Com acrscimos)
         1920 4 Ed., Leipzig e Viena: Deuticke: viii + l04 pgs. (Com acrscimos)
         1922 5 Ed., Leipzig e Viena: Deuticke: viii + l04 pgs. (Sem alteraes)
         1924 G.S., 5, 3-119 (Com acrscimos)
         1925 6 Ed., Leipzig e Viena: Deuticke, 120 pgs. (= G S. 5)
         1942 G.W., 5, 29-145 (Sem alteraes)
         1972 S.A., 5, pp. 37-145.
         
         "Vorwort zur vierten Auflage"
         1920 Int. Z. Psychoanal., 6, p. 247.
         1920 Leipzig e Viena: Deuticke, pp. vii-viii.
         1922 Leipzig e Viena: Deuticke, pp. vii-viii.
         1924 G.S., 5, pg. 5.
         1925 Leipzig e Viena: Deuticke, p. 5.
         1942 G.W., 5, pp. 31-2.
         1972 S.A., 5, pp. 45-6.
         
         (b) TRADUES EM INGLS:
         
         Three Contributions to the Sexual Theory
         
         1910 Nova York: Journal of Nerv. and Ment. Dis. Publ. Co. (Srie de Monografias n 7), x + 91 pgs. (Trad. de A.A. Brill; Introd. de J.J. Putnam.)
         
         Three Contributions to the Theory of Sexc
         
         1916 2 Ed. da de 1910, acima, xi + 117 pgs. (Com acrscimos)
         1918 3 Ed., xii + 117 pgs.
         1930 4 Ed., xiv + l04 pgs. (Revisada)
         1938 Basic Writings, 553-629 (Reedio da ed. de 1930, acima.)
         
         Three Essays on the Theory of Sexuality
         1949 Londres: Imago Publishing Co., 133 pgs. (Trad. de James Strachey.)
         
         A presente traduo [inglesa]  uma verso corrigida e ampliada da que se publicou em 1949.
         
         Os Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, juntamente com A Interpretao dos Sonhos, figuram sem dvida como as contribuies mais significativas e 
originais de Freud para o conhecimento humano. No obstante, na forma em que costumamos ler esses ensaios,  difcil avaliar a natureza exata de seu impacto quando 
da primeira publicao.  que, no decorrer de edies sucessivas num perodo de vinte anos, eles foram submetidos por seu autor a mais modificaes e acrscimos 
do que qualquer outro de seus escritos, salvo, talvez, pela prpria Interpretao dos Sonhos. Esta edio difere num importante aspecto de todas as que a antecederam, 
seja em alemo ou em ingls. Embora se baseie na sexta edio alem de 1925, ltima a ser publicada durante a vida de Freud, ela indica, com as respectivas datas, 
todas as alteraes substanciais introduzidas na obra desde sua primeira edio. Em todos os pontos em que se suprimiu ou modificou grandemente o material nas edies 
posteriores, o trecho omitido ou a verso anterior so fornecidos em notas de rodap. Isso permitir ao leitor ter uma noo mais clara de como eram estes ensaios 
em sua forma original.
         
         Provavelmente causar surpresa, por exemplo, saber que a ntegra das sees sobre as teorias sexuais infantis e sobre a organizao pr-genital da libido 
(ambas no segundo ensaio) s foi acrescentada em 1915, dez anos aps a primeira edio do livro. Esse mesmo ano trouxe tambm o acrscimo da seo sobre a teoria 
da libido, no terceiro ensaio. Menos surpreendente  que os avanos da bioqumica tenham tornado necessrio (em 1920) reescrever o pargrafo sobre as bases qumicas 
da sexualidade. Nesse ponto, a rigor, a surpresa funciona mais no sentido inverso, pois a verso original desse pargrafo, aqui impressa numa nota, mostra a notvel 
anteviso de Freud nesse aspecto e revela quo pouco se fez necessrio alterar suas concepes (ver em [1]).
         
         Entretanto, a despeito dos acrscimos considerveis feitos ao livro aps sua publicao original, sua essncia j estava presente em 1905, sendo mesmo possvel 
rastrear-lhe as origens at datas ainda mais remotas. A histria completa do interesse de Freud pelo assunto pode agora, graas  publicao da correspondncia com 
Fliess (1950a), ser pormenorizadamente acompanhada, mas basta-nos aqui indicar seus contornos gerais. As observaes clnicas da importncia dos fatores sexuais 
na causao da neurose de angstia e da neurastenia, inicialmente, e das psiconeuroses, mais tarde, foram o que levou Freud pela primeira vez a uma investigao 
geral do tema da sexualidade. Suas primeiras abordagens, durante o incio da dcada de 1890, partiram dos pontos de vista da fisiologia e da qumica. Por exemplo, 
encontra-se uma hiptese neurofisiolgica sobre os processos de excitao e descarga sexuais na Seo III de seu primeiro artigo sobre a neurose de angstia (1895b); 
um notvel diagrama ilustrando essa hiptese aparece no Rascunho G das cartas a Fliess, aproximadamente na mesma poca, mas j fora mencionado um ano antes (no Rascunho 
D). A insistncia de Freud nas bases qumicas da sexualidade remonta pelo menos a essa poca (mas h tambm uma aluso ao tema no Rascunho D, provavelmente datado 
da primavera de 1894). Nesse caso, Freud acreditava dever muito s sugestes de Fliess, como fica demonstrado, entre outros pontos, em suas associaes ao famoso 
sonho da injeo de Irma, no vero de 1895 (A Interpretao dos Sonhos, Captulo II). Era tambm a Fliess que devia algumas sugestes sobre o tema correlato da bissexualidade 
(ver em [1]), que Freud mencionou numa carta de 6 de dezembro de 1896 (Carta 52) e que, mais tarde, veio a considerar como um "fator decisivo" (ver em [1]), embora 
sua opinio final sobre a atuao desse fator o tenha colocado em desacordo com Fliess.  nessa mesma carta de fins de 1896 (Freud, l950a, Carta 52) que encontramos 
a primeira referncia s zonas ergenas (passveis de estimulao na infncia, porm mais tarde sufocadas) e a seus vnculos com as perverses. No incio do mesmo 
ano (Rascunho K, de 1 de janeiro de 1896) - e aqui podemos ver indcios de uma abordagem mais psicolgica -, surge tambm uma discusso sobre as foras recalcadoras, 
o asco, a vergonha e a moral.
         
         Contudo, embora tantos elementos da teoria de Freud sobre a sexualidade j estivessem em sua mente por volta de 1896, sua pedra angular ainda estava por 
ser descoberta. Desde os primrdios tinha havido uma suspeita de que os fatores casuais da histeria remontavam  infncia; h uma aluso a esse fato nos pargrafos 
iniciais da "Comunicao Preliminar" de Breuer e Freud, de 1893. Por volta de 1895 (ver, por exemplo, a Parte II do "Projeto", impressa como um apndice  correspondncia 
com Fliess), Freud dispunha de uma explicao completa da histeria, com base nos efeitos traumticos da seduo sexual na primeira infncia. Durante todos esses 
anos anteriores a 1897, porm, a sexualidade infantil era encarada como nada alm de um fator latente, passvel de vir  luz, com resultados desastrosos, somente 
pela interveno de um adulto.  verdade que se poderia supor uma aparente exceo a isso a partir do contraste traado por Freud entre a causao da histeria e 
a da neurose obsessiva: a primeira, afirmava ele, remontava a experincias sexuais passivas na infncia, ao passo que a segunda se originaria em experincias ativas. 
Mas Freud deixa muito claro, em seu segundo ensaio sobre "As Neuropsicoses de Defesa" (1896b), onde essa distino  traada, que as experincias ativas subjacentes 
 neurose obsessiva so invariavelmente precedidas por experincias passivas, donde, mais uma vez, a mobilizao da sexualidade infantil se deveria, em ltima anlise, 
 interferncia externa. Foi somente no verao de 1897 que Freud se viu forado a abandonar sua teoria da seduo. Anunciou esse acontecimento em sua carta a Fliess 
de 21 de setembro (Carta 69), e sua descoberta quase simultnea do complexo de dipo, feita em sua auto-anlise (Cartas 70 e 71, de 3 e 15 de outubro), levou inevitavelmente 
ao reconhecimento de que as moes sexuais atuavam normalmente nas crianas de mais tenra idade, sem nenhuma necessidade de estimulao externa. Com essa descoberta, 
a teoria sexual de Freud estava realmente completa.
         
         Levou alguns anos, porm, para que ele acatasse por inteiro sua prpria descoberta. Num trecho do ensaio sobre "A Sexualidade na Etiologia das Neuroses" 
(1898a), por exemplo, ele se pronuncia ora a favor, ora contra ela. De um lado, afirma que as crianas so "capazes de todas as funes sexuais psquicas e de muitas 
das somticas" e que  errneo supor que sua vida sexual s comece na puberdade. De outro lado, entretanto, declara que "a organizao e a evoluo da espcie humana 
buscam evitar qualquer atividade sexual considervel na infncia", que as foras motoras sexuais dos seres humanos devem ser armazenadas e somente liberadas na puberdade, 
e que isso explica por que as experincias sexuais infantis esto fadadas a ser patognicas. O importante, prossegue ele, so os efeitos posteriores produzidos por 
tais experincias na maturidade, graas ao desenvolvimento do aparelho sexual somtico e psquico ocorrido no entretempo. At mesmo na primeira edio de A Interpretao 
dos Sonhos (1900a) v-se um trecho curioso, ao final do Captulo III (ver em [1]), onde Freud comenta que temos "em alta conta a felicidade da infncia, por ser 
ela ainda inocente de desejos sexuais". (Uma nota corretiva foi acrescentada a esse trecho em 1911, por sugesto de Jung, segundo afirma Ernest Jones.) Isso foi, 
sem dvida, um remanescente de um rascunho inicial do livro, pois em outros trechos (por exemplo, na discusso do complexo de dipo no Captulo V) ele escreve, de 
maneira perfeitamente inequvoca, sobre a existncia de desejos sexuais mesmo nas crianas normais. E  evidente que, ao redigir seu caso clnico de "Dora" (no incio 
de 1901), j estavam firmemente estabelecidas as linhas principais de sua teoria da sexualidade. (Ver em [1].)
         
         Ainda assim, porm, Freud no tinha pressa em publicar seus resultados. Concluda e prestes a ser lanada A Interpretao dos Sonhos, em 11 de outubro de 
1899 (Carta 121), escreveu ele a Fliess: " possvel que uma teoria da sexualidade seja a sucessora imediata do livro dos sonhos." E, decorridos trs meses, em 26 
de janeiro de 1900 (Carta 128): "Estou colhendo material para a teoria sexual e esperando que alguma centelha inflame o material j acumulado." Mas a centelha demoraria 
muito a surgir. Salvo pelo pequeno ensaio Sobre os Sonhos e pela Psicopatologia da Vida Cotidiana, ambos lanados antes do outono de 1901, Freud nada publicou de 
importante nos cinco anos que se seguiram.
         
         E ento, repentinamente, em 1905, lanou trs obras fundamentais: seu livro sobre O Chiste, os Trs Ensaios e o caso clnico de "Dora".  certo que este 
ltimo fora escrito, em sua maior parte, quatro anos antes (ver a partir de [1]), sendo publicado em outubro e novembro de 1905. As outras duas obras foram lanadas 
quase simultaneamente alguns meses antes, embora se ignorem as datas exatas (ver uma discusso mais extensa a esse respeito no Prefcio do Editor ao livro sobre 
o chiste (1905c), em [1]).
         
         Nas edies alems, as sees s aparecem numeradas no primeiro ensaio, e mesmo neste, a rigor, antes de 1924, s eram numeradas at a metade do texto. 
Para facilitar as referncias, estendemos aqui a numerao das sees ao segundo e terceiro ensaios.
         
         PREFCIO  SEGUNDA EDIO
         
         O autor, que no se deixa enganar sobre as lacunas e obscuridades deste pequeno escrito, ainda assim resistiu  tentao de incorporar-lhe os resultados 
das investigaes dos ltimos cinco anos, por no querer destruir seu carter de documento unitrio. Por isso reproduz o texto original com alteraes mninas e 
se contenta em acrescentar algumas notas de rodap, que se distinguem das antigas por levarem um asterisco. Ademais,  seu fervoroso desejo que este livro envelhea 
rapidamente, obtida uma aceitao universal para o que outrora trouxe de novo e substitudas as imperfeies que contm por teses mais corretas.
         Viena, dezembro de 1909.
         
         
         
         
         PREFCIO  TERCEIRA EDIO
         
         Depois de observar por um decnio a recepo e os efeitos deste livro, cabe-me dotar esta terceira edio de algumas observaes prvias destinadas a corrigir 
mal-entendidos e expectativas irrealizveis em relao a ele.  preciso frisar, acima de tudo, que a exposio aqui encontrada parte inteiramente da experincia 
mdica cotidiana,  qual os resultados da investigao psicanaltica pretendem trazer aprofundamento e relevncia cientfica. Os Tres Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade 
no podem conter nada alm daquilo que a psicanlise precisa supor ou permite confirmar. Exclui-se, portanto, a possibilidade de que algum dia se ampliem a ponto 
de constituir uma "teoria sexual", e  compreensvel que no tomem posio acerca de muitos problemas importantes da vida sexual. Mas nem por isso se deve acreditar 
que tais captulos omitidos desse grande tema sejam desconhecidos do autor, ou que este os tenha desprezado por consider-los secundrios.
         
         A subordinao deste escrito s experincias psicanalticas, que levaram a sua redao, mostra-se ainda no apenas na escolha do material, como tambm em 
sua ordenao. Ao longo de todo ele observa-se uma certa seqncia de instncias, d-se prioridade aos fatores acidentais, deixam-se em segundo plano os fatores 
disposicionais, e o desenvolvimento ontogentico  considerado antes do filogentico.  que o acidental desempenha na anlise o papel preponderante, sendo esta dominada 
por ele quase por completo; o disposicional s vem  luz por trs dele, como algo despertado pelo vivenciar, mas cuja apreciao ultrapassa amplamente o campo de 
trabalho da psicanlise.
         
         Uma proporo semelhante domina a relao entre a ontognese e a filognese. A ontognese pode ser vista como uma repetio da filognese, na medida em 
que esta no seja modificada por uma vivncia mais recente. A predisposio filogentica faz-se notar por trs do processo ontogentico. No fundo, porm, a predisposio 
 justamente o precipitado de uma vivncia prvia da espcie,  qual se vem agregar a experincia mais nova do indivduo como soma dos fatores acidentais.
         
         Junto a sua total dependncia da investigao psicanaltica, devo destacar, como caracterstica desse meu trabalho, sua deliberada dependncia da investigao 
biolgica. Evitei cuidadosamente introduzir expectativas cientficas provenientes da biologia sexual geral, ou da biologia das espcies animais em particular, no 
estudo da funo sexual do ser humano que nos  possibilitado pela tcnica da psicanlise. A rigor, meu objetivo foi sondar o quanto se pode apurar sobre a biologia 
da vida sexual humana com os meios acessveis  investigao psicolgica; era-me lcito assinalar os pontos de contato e concordncia resultantes dessa investigao, 
mas no havia por que me desconcertar com o fato de o mtodo psicanaltico, em muitos pontos importantes, levar a opinies e resultados consideravelmente diversos 
dos de base meramente biolgica.
         
         Introduzi nesta terceira edio um nmero abundante de inseres, mas renunciei a identific-las, como na edio anterior, mediante algum sinal particular. 
O trabalho cientfico em nosso campo teve seu progresso lentificado nos ltimos tempos, mas era indispensvel uma certa complementao deste escrito caso se pretendesse 
mant-lo em contato com a literatura psicanaltica mais recente.
          Viena, outubro de 1914.
         
         PREFCIO  QUARTA EDIO
         
         Dissipadas as correntes da guerra, pode-se verificar com satisfao que o interesse pela psicanlise permanece ileso no mundo em geral, Mas nem todas as 
partes da doutrina tiveram o mesmo destino. As colocaes e constataes puramente psicolgicas da psicanlise sobre o inconsciente, o recalcamento, o conflito que 
leva  doena, o lucro extrado da doena, os mecanismos da formao de sintomas etc., gozam de crescente reconhecimento e so consideradas at mesmo por aqueles 
que em princpio as contestam. Mas a parte da doutrina que faz fronteira com a biologia, cujas bases so fornecidas neste pequeno escrito, continua a enfrentar um 
dissenso indiminuto, e as prprias pessoas que por algum tempo se ocuparam intensamente da psicanlise foram movidas a abandon-la para abraar novas concepes, 
destinadas a restringir mais uma vez o papel do fator sexual na vida anmica normal e patolgica.
         
         Ainda assim, no posso decidir-me pela suposio de que essa parte da doutrina psicanaltica possa afastar-se muito mais que as outras da realidade apurada. 
A memria e o reexame constantemente reiterado dizem-me que ela brotou de uma observao igualmente esmerada e isenta de expectativas; ademais, o esclarecimento 
dessa dissociao percebida no reconhecimento pblico no apresenta nenhuma dificuldade. Em primeiro lugar, os primrdios aqui descritos da vida sexual humana s 
podem ser confirmados por investigadores que tenham pacincia e habilidade tcnica suficientes para reconduzir a anlise at os primeiros anos da infncia do paciente. 
 freqente, ademais, no haver possibilidade disso, porquanto a prtica mdica exige que se despache com mais rapidez, aparentemente, o caso patolgico. Salvo pelos 
mdicos que exercem a psicanlise, entretanto, ningum pode ter acesso algum a esse campo, nem qualquer possibilidade de formar por si um juzo que no seja influenciado 
por suas prprias averses e preconceitos. Soubessem os homens aprender atravs da observao direta das crianas, estes trs ensaios poderiam no ter sido escritos.
         
         Mas convm lembrar ainda que parte do contedo deste escrito - a saber, sua insistncia na importncia da vida sexual para todas as realizaes humanas 
e a ampliao aqui ensaiada do conceito de sexualidade - tem constitudo, desde sempre, o mais forte motivo para a resistncia que se ope  psicanlise. No af 
de encontrar tpicos grandiloqentes, chegou-se at a falar no "pan-sexualismo" da psicanlise e a fazer a esta a absurda censura de que ela explicaria "tudo" a 
partir da sexualidade. S  possvel assombrar-se com isso quando se esquece quo confuso e distrado se pode ficar em decorrncia dos fatores afetivos. J faz um 
bom tempo que o filsofo Arthur Schopenhauer mostrou aos homens em que medida seus feitos e interesses so determinados por aspiraes sexuais - o sentido corriqueiro 
da expresso -, e parece incrvel que todo um mundo de leitores tenha conseguido banir de sua mente, de maneira to completa, uma advertncia to impressionante! 
E quanto  "ampliao" do conceito de sexualidade, que a anlise das crianas e dos chamados perversos tornou necessria, todos aqueles que desde seu ponto de vista 
superior olham desdenhosamente para a psicanlise deveriam lembrar-se de quanto essa sexualidade ampliada da psicanlise se aproxima do Eros do divino Plato. (Cf. 
Nachmansohn, 1915.)
         Viena, maio de 1920.
         AS ABERRAES SEXUAIS
         
         O fato da existncia de necessidades sexuais no homem e no animal expressa-se na biologia pelo pressuposto de uma "pulso sexual". Segue-se nisso a analogia 
com a pulso de nutrio: a fome. Falta  linguagem vulgar [no caso da pulso sexual] uma designao equivalente  palavra "fome"; a cincia vale-se, para isso, 
de "libido".
         
         A opinio popular faz para si representaes bem definidas da natureza e das caractersticas dessa pulso sexual. Ela estaria ausente na infncia, far-se-ia 
sentir na poca e em conexo com o processo de maturao da puberdade, seria exteriorizada nas manifestaes de atrao irresistvel que um sexo exerce sobre o outro, 
e seu objetivo seria a unio sexual, ou pelo menos os atos que levassem nessa direo. Mas temos plena razo para ver nesses dados uma imagem muito infiel da realidade; 
olhando-os mais de perto, constata-se que esto repletos de erros, imprecises e concluses apressadas.
         
         Introduzamos aqui dois termos: chamemos de objeto sexual a pessoa de quem provm a atrao sexual, e de alvo sexual a ao para a qual a pulso impele. 
Assim fazendo, a observao cientificamente esquadrinhada mostrar um grande nmero de desvios em ambos, o objeto sexual e o alvo sexual, e a relao destes com 
a suposta norma exige uma investigao minuciosa.
         
         (1) DESVIOS COM RESPElTO AO OBJETO SEXUAL
         
         A teoria popular sobre a pulso sexual tem seu mais belo equivalente na fbula potica da diviso do ser humano em duas metades - homem e mulher - que aspiram 
a unir-se de novo no amor. Por isso causa grande surpresa tomar conhecimento de que h homens cujo objeto sexual no  a mulher, mas o homem, e mulheres para quem 
no o homem, e sim a mulher, representa o objeto sexual. Diz-se dessas pessoas que so "de sexo contrrio", ou melhor, "invertidas", e chama-se o fato de inverso. 
O nmero de tais pessoas  bastante considervel, embora haja dificuldades em apur-lo com preciso.
         
         (A) A INVERSO
         
         COMPORTAMENTO DOS INVERTIDOS
         
         As pessoas em questo comportam-se de maneira muito diversificada em vrios aspectos.
         
         (a) Podem ser invertidos absolutos, ou seja, seu objeto sexual s pode ser do mesmo sexo, enquanto o sexo oposto nunca  para eles objeto de anseio sexual, 
mas antes os deixa frios ou at lhes desperta averso sexual. Quando se trata de homens, essa averso os incapacita de praticarem o ato sexual normal, ou ento no 
extraem dessa prtica nenhum gozo.
         
         (b) Podem ser invertidos anfgenos (hermafroditas sexuais), ou seja, seu objeto sexual tanto pode pertencer ao mesmo sexo quanto ao outro; falta  inverso, 
portanto, o carter de exclusividade.
         
         (c) Podem ser invertidos ocasionais, ou seja, em certas condies externas, dentre as quais destacam-se a inacessibilidade do objeto sexual normal e a imitao, 
elas podem tomar como objeto sexual uma pessoa do mesmo sexo e encontrar satisfao no ato sexual com ela.
         
         Os invertidos mostram ainda um comportamento variado no juzo que fazem da peculiaridade de sua pulso sexual. Alguns aceitam a inverso como algo natural, 
tal como os normais aceitam a orientao de sua libido, e defendem energicamente sua igualdade de direitos com os normais. Outros, porm, rebelam-se contra o fato 
de sua inverso e a sentem como uma compulso patolgica.
         
         Outras variaes concernem s relaes temporais. O trao da inverso pode vir de longa data no indivduo, at onde sua memria consegue alcanar, ou s 
se ter feito notar em determinada poca, antes ou depois da puberdade. Esse carter pode conservar-se por toda a vida, ou ser temporariamente suspenso, ou ainda 
constituir um episdio no caminho para o desenvolvimento normal; e pode at exteriorizar-se pela primeira vez em poca posterior da vida, aps um longo perodo de 
atividade sexual normal. Observou-se tambm uma oscilao peridica entre o objeto sexual normal e o invertido. Particularmente interessantes so os casos em que 
a libido se altera no sentido da inverso depois de se ter uma experincia penosa com o objeto sexual normal.
         
         Em geral, essas diferentes sries de variaes coexistem independentemente umas das outras. Em sua forma mais extrema, talvez se possa supor regularmente 
que a inverso existiu desde poca muito prematura e que a pessoa se sente em consonncia com sua peculiaridade.
         
         Muitos autores se recusariam a reunir num s conjunto os casos aqui enumerados e prefeririam frisar as diferenas em vez das semelhanas entre esses grupos, 
o que se prende a sua maneira favorita de encarar a inverso. No entanto, por mais legtimas que sejam essas distines,  impossvel desconhecer que todos os graus 
intermedirios so abundantemente encontrados, de modo que o estabelecimento de sries como que se impe por si s.
         
         CONCEPO DA INVERSO
         
         A primeira apreciao da inverso consistiu em conceb-la como um sinal inato de degenerao nervosa, e estava em consonncia com o fato de os observadores 
mdicos terem deparado com ela pela primeira vez em doentes nervosos ou pessoas que davam a impresso de s-lo. Essa caracterizao contm dois elementos que devem 
ser apreciados separadamente: o carter inato e a degenerao.
         
         DEGENERAO
         
         A degenerao est exposta s objees que se levantam, em geral, contra o uso indiscriminado dessa palavra. Tornou-se costume imputar  degenerao todos 
os tipos de manifestao patolgica que no sejam de origem diretamente traumtica ou infecciosa. A classificao dos degenerados feita por Magnan faz com que nem 
mesmo a mais primorosa conformao geral da funo nervosa fique excluda da aplicabilidade do conceito de degenerao. Nessas circunstncias, pode-se indagar que 
benefcio e que novo contedo possui em geral o juzo "degenerao". Parece mais oportuno falar em degenerao apenas quando:
         
         (1) houver uma conjugao de muitos desvios graves em relao  norma;
         
         (2) a capacidade de funcionamento e de sobrevivncia parecer em geral gravemente prejudicada.
         
         Vrios fatores permitem ver que os invertidos no so degenerados nesse sentido legtimo da palavra:
         
         (1) Encontra-se a inverso em pessoas que no exibem nenhum outro desvio grave da norma;
         
         (2) Do mesmo modo, encontramo-la em pessoas cuja eficincia no est prejudicada e que inclusive se destacam por um desenvolvimento intelectual e uma cultura 
tica particularmente elevados.
         
         (3) Se abstrairmos os pacientes encontrados em nossa experincia mdica e procurarmos abarcar um horizonte mais amplo, depararemos em duas direes com 
fatos que impedem que se conceba a inverso como um sinal de degenerao:
         
         (a)  preciso considerar que nos povos antigos, no auge de sua cultura, a inverso era um fenmeno freqente, quase que uma instituio dotada de importantes 
funes.
         
         (b) Ela  extremamente difundida em muitos povos selvagens e primitivos, ao passo que o conceito de degenerao costuma restringir-se  civilizao elevada 
(cf. I. Bloch); e mesmo entre os povos civilizados da Europa, o clima e a raa exercem a mais poderosa influncia sobre a disseminao e o juzo que se faz da inverso.
         
         CARTER INATO
         
         Como  compreensvel, o carter inato s  alegado no tocante  primeira e mais extrema classe dos invertidos, e na verdade com base na asseverao dessas 
pessoas de que em nenhum momento de sua vida mostrou-se a elas outra orientao de sua pulso sexual. J a existncia das duas outras classes, especialmente da terceira 
[os invertidos "ocasionais"], dificilmente se compatibiliza com a concepo de um carter inato. Por isso os que sustentam essa opinio tendem a separar o grupo 
dos invertidos absolutos de todos os demais, o que tem como conseqncia a renncia a uma concepo universalmente vlida da inverso. Assim, a inverso teria um 
carter inato numa srie de casos, enquanto noutros poderia ter-se originado de outra maneira.
         
         O oposto disso  a concepo alternativa de que a inverso  um carter adquirido da pulso sexual. Ela se apia nas seguintes consideraes:
         
         (1) Na vida de muitos invertidos (mesmo absolutos) pode-se demonstrar a influncia de uma impresso sexual prematura cuja conseqncia duradoura  representada 
pela inclinao homossexual.
         
         (2) Na vida de muitos outros  possvel indicar as influncias externas favorecedoras e inibidoras que levaram, em poca mais prematura ou mais tardia, 
 fixao da inverso (relacionamentos exclusivos com o mesmo sexo, companheirismo na guerra, deteno em presdios, os riscos da relao heterossexual, celibato, 
fraqueza sexual etc.).
         
         (3) A inverso pode ser eliminada pela sugesto hipntica, o que seria assombroso numa caracterstica inata.
         
         Dentro dessa perspectiva, pode-se at contestar a prpria existncia de uma inverso inata.  possvel objetar (cf. Havelock Ellis [1915]) que um exame 
mais rigoroso dos casos reivindicados em prol da inverso inata provavelmente tambm traria  luz uma vivncia da primeira infncia que foi determinante para a orientao 
da libido. Essa vivncia simplesmente no se teria preservado na memria consciente da pessoa, mas seria possvel traz-la de volta  lembrana mediante a influncia 
apropriada. Segundo esses autores, a inverso s poderia ser qualificada como uma variao freqente da pulso sexual, passvel de ser determinada por uma quantidade 
de circunstncias externas de vida.
         
         Mas a aparente certeza assim adquirida chega ao fim atravs da observao contrria de que muitas pessoas ficam sujeitas s mesmas influncias sexuais (inclusive 
na meninice: seduo, masturbao mtua), sem por isso se tornarem invertidas ou assim continuarem permanentemente. Somos portanto impelidos  suposio de que a 
alternativa inato/adquirido  incompleta, ou ento no abarca todas as situaes presentes na inverso.
         
         EXPLICAO DA INVERSO
         
         Nem a hiptese de que a inverso  inata, nem tampouco a conjectura alternativa de que  adquirida explicam sua natureza. No primeiro caso,  preciso dizer 
o que h nela de inato, para que no se concorde com a explicao rudimentar de que a pessoa traz consigo, em carter inato, o vnculo da pulso sexual com determinado 
objeto sexual. No outro caso, cabe perguntar se as mltiplas influncias acidentais bastariam para explicar a aquisio da inverso, sem necessidade de que algo 
no indivduo fosse ao encontro delas. A negao deste ltimo fator, segundo nossas colocaes anteriores,  inadmissvel.
         
         O RECURSO  BISSEXUALIDADE
         
         Desde Lydston [1889], Kiernan [1888] e Chevalier [1893] tem-se recorrido, para esclarecer a possibilidade de uma inverso sexual, a uma srie de idias 
que contm uma nova contradio das opinies populares. Estas admitem que o ser humano ou  homem ou  mulher. A cincia, porm, conhece casos em que os caracteres 
sexuais parecem confusos e  portanto difcil determinar o sexo, antes de mais nada no campo anatmico. A genitlia dessas pessoas combina caracteres masculinos 
e femininos (hermafroditismo). Em casos raros, os dois tipos de aparelho sexual coexistem plenamente desenvolvidos (hermafroditismo verdadeiro), porm com muito 
mais freqncia acham-se ambos atrofiados.
         
         Mas a importncia dessas anormalidades est em que elas facilitam de maneira inesperada a compreenso da formao normal.  que certo grau de hermafroditismo 
anatmico constitui a norma; em nenhum indivduo masculino ou feminino de conformao normal faltam vestgios do aparelho do sexo oposto, que persistiram sem nenhuma 
funo como rgos rudimentares, ou que se modificaram para tomar a seu encargo outras funes.
         
         A concepo resultante desses fatos anatmicos conhecidos de longa data  a de uma predisposio originariamente bissexual, que, no curso do desenvolvimento, 
vai-se transformando em monossexualidade, com resduos nfimos do sexo atrofiado.
         
         Era sugestivo transpor essa concepo para o campo psquico e explicar a inverso em todas as suas variedades como a expresso de um hermafroditismo psquico. 
E para resolver a questo restaria apenas constatar uma coincidncia regular da inverso com os sinais anmicos e somticos do hermafroditismo.
         
         S que essa expectativa no se realizou. No  possvel imaginar relaes to estreitas entre o suposto hibridismo psquico e o hibridismo anatmico comprovvel. 
O que amide se constata nos invertidos  uma reduo generalizada da pulso sexual (cf. Havelock Ellis [1915]) e uma ligeira atrofia anatmica dos rgos. Amide, 
mas de modo algum regularmente ou mesmo predominantemente. Portanto, cabe reconhecer que a inverso e o hermafroditismo somtico so, no conjunto, independentes 
entre si.
         
         Tem-se ainda atribudo grande importncia aos chamados caracteres sexuais secundrios e tercirios e a sua freqente presena acentuada nos invertidos (cf. 
Havelock Ellis [1915]). Tambm nisso h muito de acerto, mas no se deve esquecer que em geral os caracteres sexuais secundrios e tercirios de um sexo aparecem 
com muitssima freqncia no outro; so, portanto, indcios de hermafroditismo, mas nem por isso revela-se uma mudana do objeto sexual no sentido da inverso.
         
         O hermafroditismo psquico ganharia corpo se, com a inverso do objeto sexual, houvesse em paralelo ao menos uma mudana das demais qualidades anmicas, 
pulses e traos de carter para a variante tpica do sexo oposto. Mas s se pode esperar tal inverso do carter com alguma regularidade nas mulheres invertidas, 
pois nos homens a mais plena virilidade anmica  compatvel com a inverso. A persistir na colocao de um hermafroditismo psquico,  preciso acrescentar que suas 
manifestaes nos diversos campos permitem identificar apenas um nfimo condicionamento recproco. O mesmo se aplica, alis, ao hibridismo somtico; segundo Halban 
(1903), tambm as atrofias de rgos especficos e os caracteres sexuais secundrios aparecem com bastante independncia uns dos outros.
         
         A doutrina da bissexualidade foi exprimida em sua mais crua forma por um porta-voz dos invertidos masculinos: "um crebro feminino num corpo masculino". 
Entretanto, ignoramos quais seriam as caractersticas de um "crebro feminino". A substituio do problema psicolgico pelo anatmico  to intil quanto injustificada. 
A tentativa de explicao de Krafft-Ebing parece concebida de maneira mais exata que a de Ulrichs, embora em essncia no difira dela; segundo Krafft-Ebing [1895, 
5], a disposio bissexual dota o indivduo tanto de centros cerebrais masculinos e femininos quanto de rgos sexuais somticos. Esses centros comeam a desenvolver-se 
na poca da puberdade, na maioria das vezes sob a influncia das glndulas sexuais, que independem deles na disposio [originria]. Mas a esses "centros" masculinos 
e femininos aplica-se o mesmo que dissemos sobre os crebros masculinos e femininos, e, a propsito, nem sequer sabemos se cabe presumir, para as funes sexuais, 
reas cerebrais delimitadas ("centros") como as que supomos, por exemplo, para a fala.
         
         Ainda assim, duas idias permanecem de p aps essas discusses: de algum modo, h uma disposio bissexual implicada na inverso, embora no saibamos em 
que consiste essa disposio alm da formao anatmica; e lida-se tambm com perturbaes que afetam a pulso sexual em seu desenvolvimento.
         
         OBJETO SEXUAL DOS INVERTIDOS
         
         A teoria do hermafroditismo psquico pressupe que o objeto sexual dos invertidos seja o oposto do normal. O homem invertido sucumbiria, como a mulher, 
ao encanto proveniente dos atributos masculinos do corpo e da alma; sentir-se-ia como uma mulher e buscaria o homem.
         
         No entanto, por melhor que isso se aplique a toda uma srie de invertidos, ainda est longe de revelar uma caracterstica universal da inverso. No h 
dvida alguma de que uma grande parcela dos invertidos masculinos preserva o carter psquico da virilidade, traz relativamente poucos caracteres secundrios do 
sexo oposto e, com efeito, busca em seu objeto sexual traos psquicos femininos. No fosse assim, seria incompreensvel o fato de a prostituio masculina, que 
hoje como na Antigidade se oferece aos invertidos, copiar as mulheres em todas as exteriorizaes da indumentria e do porte; tal imitao, de outro modo, ofenderia 
necessariamente o ideal dos invertidos. Nos gregos, entre os quais os homens mais viris figuravam entre os invertidos, est claro que o que inflamava o amor do homem 
no era o carter masculino do efebo, mas sua semelhana fsica com a mulher, bem como seus atributos anmicos femininos: a timidez, o recato e a necessidade de 
ensinamentos e assistncia. Mal se tornava homem, o efebo deixava de ser um objeto sexual para o homem, e talvez ele prprio se transformasse num amante de efebos. 
Nesses casos, portanto, como em muitos outros, o objeto sexual no  do mesmo sexo, mas uma conjugao dos caracteres de ambos os sexos, como que um compromisso 
entre uma moo que anseia pelo homem e outra que anseia pela mulher, com a condio imprescindvel da masculinidade do corpo (da genitlia): , por assim dizer, 
o reflexo especular da prpria natureza bissexual.
         
         A situao  menos ambgua nas mulheres, entre as quais as invertidas ativas exibem com particular freqncia os caracteres somticos e anmicos do homem 
e anseiam pela feminilidade em seu objeto sexual, muito embora, tambm nesse caso, um conhecimento mais estreito pudesse revelar uma variedade maior.
         
         ALVO SEXUAL DOS INVERTIDOS
         
         O fato importante a ser retido  que de modo algum se pode chamar de uniforme a meta sexual dos invertidos. Nos homens, a relao sexual per anum no coincide 
em absoluto com a inverso; a masturbao  com igual freqncia seu alvo exclusivo, e as restries ao alvo sexual - a ponto de ele ser um mero extravasamento da 
emoo - so aqui ainda mais comuns do que no amor heterossexual. Tambm entre as mulheres invertidas so mltiplos os alvos sexuais, parecendo privilegiado entre 
elas o contato com a mucosa bucal.
         
         CONCLUSO
         
          verdade que nos vemos impossibilitados de esclarecer satisfatoriamente a origem da inverso a partir do material apresentado at agora, mas podemos notar 
que nesta indagao chegamos a um conhecimento que talvez se revele mais importante para ns do que a soluo da tarefa acima. Chamou-nos a ateno que imaginvamos 
como demasiadamente ntima a ligao entre a pulso sexual e o objeto sexual. A experincia obtida nos casos considerados anormais nos ensina que, neles, h entre 
a pulso sexual e o objeto sexual apenas uma solda, que corramos o risco de no ver em conseqncia da uniformidade do quadro normal, em que a pulso parece trazer 
consigo o objeto. Assim, somos instrudos a afrouxar o vnculo que existe em nossos pensamentos entre a pulso e o objeto.  provvel que, de incio, a pulso sexual 
seja independente de seu objeto, e tampouco deve ela sua origem aos encantos deste.
         
         (B) ANlMAlS E PESSOAS SEXUALMENTE IMATURAS COMO OBJETOS SEXUAIS
         
         Enquanto as pessoas cujos objetos sexuais no pertencem ao sexo normalmente apropriado, ou seja, os invertidos, afiguram-se ao observador como uma coletnea 
de indivduos talvez bastante vlidos em outros aspectos, os casos em que se escolhem pessoas sexualmente imaturas (crianas) como objetos sexuais so desde logo 
encarados como aberraes espordicas. S excepcionalmente as crianas so objetos sexuais exclusivos; em geral, passam a desempenhar esse papel quando um indivduo 
covarde ou impotente presta-se a us-las como substituto, ou quando uma pulso urgente (impretervel) no pode apropriar-se, no momento, de nenhum objeto mais adequado. 
Ainda assim,  esclarecedor sobre a natureza da pulso sexual o fato de ela admitir to ampla variao e tamanho rebaixamento de seu objeto, coisa que a fome, muito 
mais energicamente agarrada a seu objeto, s permitiria nos casos mais extremos. Uma observao similar  vlida quanto  relao sexual com animais, que no  nada 
rara, sobretudo entre os camponeses, e onde a atrao sexual parece ultrapassar a barreira da espcie.
         
         Por motivos estticos, de bom grado se atribuiriam estas e outras aberraes graves da pulso sexual  loucura, mas isso no  possvel. A experincia ensina 
que no se observam entre os loucos quaisquer perturbaes da pulso sexual diferentes das encontradas entre os sadios, bem como em raas e classes inteiras. Assim, 
com a mais inslita freqncia encontra-se o abuso sexual contra as crianas entre os professores e as pessoas que cuidam de crianas, simplesmente porque a eles 
se oferece a melhor oportunidade para isso. Os loucos apenas exibem tal aberrao em grau intensificado, ou ento, o que  particularmente significativo, elevado 
a uma prtica exclusiva e substituindo a satisfao sexual normal.
         
         Essa curiosssima relao entre as variaes sexuais e a escala que vai da sade  perturbao mental d o que pensar. Eu opinaria que este fato, ainda 
por esclarecer, seria uma indicao de que as moes da vida sexual, mesmo normalmente, encontram-se entre as menos dominadas pelas atividades anmicas superiores. 
Segundo minha experincia, quem  mentalmente anormal em algum outro aspecto, seja em termos sociais ou ticos, habitualmente tambm o  em sua vida sexual. Mas 
muitos so os anormais na vida sexual que, em todos os outros pontos, correspondem  mdia, e que passaram pessoalmente pelo desenvolvimento cultural humano, cujo 
ponto mais fraco continua a ser a sexualidade.
         
         Ora, como resultado mais genrico dessas discusses extrairamos o entendimento de que, numa grande quantidade de condies e num nmero surpreendentemente 
elevado de indivduos, a ndole e o valor do objeto sexual passam para segundo plano. O essencial e constante na pulso sexual  alguma outra coisa.
         
         (2) DESVIOS COM RESPEITO AO ALVO SEXUAL
         
         Considera-se como alvo sexual normal a unio dos genitais no ato designado como coito, que leva  descarga da tenso sexual e  extino temporria da pulso 
sexual (uma satisfao anloga  saciao da fome). Todavia, mesmo no processo sexual mais normal reconhecem-se os rudimentos daquilo que, se desenvolvido, levaria 
s aberraes descritas como perverses.  que certas relaes intermedirias com o objeto sexual (a caminho do coito), tais como apalp-lo e contempl-lo, so reconhecidas 
como alvos sexuais preliminares. Essas atividades, de um lado, trazem prazer em si mesmas, e de outro, intensificam a excitao que deve perdurar at que se alcance 
o alvo sexual definitivo. Alm disso, a um desses contatos, o das mucosas labiais das duas pessoas - o beijo - , atribuiu-se em muitos povos (dentre eles os mais 
altamente civilizados) um elevado valor sexual, apesar de as partes do corpo nele implicadas no pertencerem ao aparelho sexual, mas constiturem a entrada do tubo 
digestivo. A esto, portanto, fatores que permitem ligar as perverses  vida sexual normal e que tambm so aplicveis  classificao delas. As perverses so 
ou (a) transgresses anatmicas quanto s regies do corpo destinadas  unio sexual, ou (b) demoras nas relaes intermedirias com o objeto sexual, que normalmente 
seriam atravessadas com rapidez a caminho do alvo sexual final.
         
         (A) TRANSGRESSES ANATMICAS
         
         SUPERVALORIZAO DO OBJETO SEXUAL
         
         Somente em rarssimos casos a valorizao psquica com que  aquinhoado o objeto sexual, enquanto alvo desejado da pulso sexual, restringe-se a sua genitlia; 
ela se propaga, antes, por todo o seu corpo, e tende a abranger todas as sensaes provenientes do objeto sexual. A mesma supervalorizao irradia-se pelo campo 
psquico e se manifesta como uma cegueira lgica (enfraquecimento do juzo) perante as realizaes anmicas e as perfeies do objeto sexual, e tambm como uma submisso 
crdula aos juzos dele provenientes. Assim  que a credulidade do amor passa a ser uma fonte importante, se no a fonte originria da autoridade.
         
         Ora,  essa supervalorizao sexual que no suporta bem a restrio do alvo sexual  unio dos rgos genitais propriamente ditos e que contribui para elevar 
as atividades ligadas a outras partes do corpo  condio de alvos sexuais.
         
         A importncia desse fator da supervalorizao sexual pode ser estudada em melhores condies no homem, cuja vida amorosa  a nica a ter-se tornado acessvel 
 investigao, enquanto a da mulher, em parte por causa da atrofia cultural, em parte por sua discrio e insinceridade convencionais, permanece envolta numa obscuridade 
ainda impenetrvel.
         
         USO SEXUAL DA MUCOSA DOS LBIOS E DA BOCA
         
         O uso da boca como rgo sexual  considerado como perverso quando os lbios (lngua) de uma pessoa entram em contato com a genitlia de outra, mas no 
quando ambas colocam em contato a mucosa labial. Nesta exceo reside o ponto de ligao com o normal. Quem, por consider-las perverses, detesta as outras prticas, 
certamente usuais desde os primrdios da humanidade, cede nisso a um claro sentimento de asco que o resguarda de aceitar tal alvo sexual. Mas os limites desse asco 
so, muitas vezes, puramente convencionais; aquele que beija com ardor os lbios de uma bela jovem talvez usasse com asco a escova de dentes dela, embora no tenha 
nenhuma razo para supor que sua prpria cavidade bucal seja mais limpa que a da moa. Chama a ateno, aqui, o fator do asco, que estorva a supervalorizao libidinosa 
do objeto sexual, mas que, por sua vez, pode ser vencido pela libido. Poder-se-ia ver no asco uma das foras que levaram  restrio do alvo sexual. Em geral, estas 
se detm ante a genitlia. Mas no h dvida alguma de que tambm os genitais do sexo oposto, em si mesmos, podem constituir objetos de asco, e de que esse comportamento 
 uma das caractersticas de todos os histricos (sobretudo as mulheres). A fora da pulso sexual gosta de se exercer na dominao desse asco. (Ver a partir de 
[1].)
         
         USO SEXUAL DO ORIFCIO ANAL
         
         No que concerne ao nus, reconhece-se com clareza ainda maior do que nos casos anteriores que  a repugnncia que ape nesse alvo sexual o selo da perverso. 
Mas que eu no seja acusado de partidarismo por observar que a fundamentao desse asco no fato de tal parte do corpo servir  excreo e entrar em contato com o 
asqueroso em si - os excrementos - no  muito mais convincente do que a razo fornecida pelas moas histricas para explicar seu asco ante o rgo genital masculino: 
que ele serve  mico.
         
         O papel sexual da mucosa do nus de modo algum se restringe  relao sexual entre homens, nem tampouco a predileo por ela  caracterstica da sensibilidade 
dos invertidos. Parece, ao contrrio, que o paedicatio do homem deve seu papel  analogia com o ato praticado com a mulher, ao passo que a masturbao recproca 
 o alvo sexual mais facilmente encontrado na relao sexual dos invertidos.
         
         SIGNIFICAO DE OUTRAS PARTES DO CORPO
         
         A propagao do interesse sexual para outras partes do corpo, com todas as suas variaes em princpio nada nos oferece de novo; nada acrescenta ao conhecimento 
da pulso sexual, que nisso no faz seno proclamar sua inteno de se apoderar do objeto sexual em todos os sentidos. Mas ao lado da supervalorizao sexual apresenta-se, 
nas transgresses anatmicas, um segundo fator que  alheio ao conhecimento popular. Certos lugares do corpo, como as mucosas bucal e anal, que aparecem repetidamente 
nessas prticas, como que reivindicam ser considerados e tratados, eles mesmos, como genitais. Veremos mais adiante que essa reivindicao se justifica pelo desenvolvimento 
da pulso sexual e que  atendida na sintomatologia de certos estados patolgicos.
         
         SUBSTITUIO IMPRPRIA DO OBJETO SEXUAL - FETICHISMO
         
         Uma impresso muito peculiar resulta dos casos em que o objeto sexual normal  substitudo por outro que guarda certa relao com ele, mas que  totalmente 
imprprio para servir ao alvo sexual normal. Do ponto de vista da classificao, por certo teramos feito melhor em mencionar esse grupo sumamente interessante de 
aberraes da pulso sexual j entre os desvios com respeito ao objeto sexual, mas o adiamos at tomar conhecimento do fator da supervalorizao sexual, da qual 
dependem esses fenmenos ligados ao abandono do alvo sexual.
         
         O substituto do objeto sexual geralmente  uma parte do corpo (os ps, os cabelos) muito pouco apropriada para fins sexuais, ou ento um objeto inanimado 
que mantm uma relao demonstrvel com a pessoa a quem substitui, de preferncia com a sexualidade dela (um artigo de vesturio, uma pea ntima). Comparou-se esse 
substituto, no injustificadamente, com o fetiche em que o selvagem v seu deus incorporado.
         
         A transio para os casos de fetichismo com renncia ao alvo sexual, seja este normal ou perverso, constitui-se dos casos em que se exige do objeto sexual 
uma condio fetichista para que o alvo sexual seja alcanado (determinada cor dos cabelos, certas roupas, ou mesmo defeitos fsicos). Nenhuma outra variao da 
pulso sexual nas raias do patolgico merece tanto o nosso interesse quanto essa, dada a singularidade dos fenmenos a que d lugar. Um certo rebaixamento da aspirao 
ao alvo sexual normal (fraqueza de execuo no aparelho sexual) parece ser pr-requisito disso em todos os casos. O ponto de ligao com o normal  proporcionado 
pela supervalorizao psicologicamente necessria do objeto sexual, que se propaga inevitavelmente por tudo o que est associativamente ligado ao objeto. Por isso 
certo grau desse fetichismo costuma ser prprio do amor normal, sobretudo nos estgios de enamoramento em que o alvo sexual normal  inatingvel ou sua satisfao 
parece impedida:
         
                            Schaff mir ein Halstuch von ihrer Brust,
                              Ein Strumpfband meiner Liebeslust
         
         O caso s se torna patolgico quando o anseio pelo fetiche se fixa, indo alm da condio mencionada, e se coloca no lugar do alvo sexual normal, e ainda, 
quando o fetiche se desprende de determinada pessoa e se torna o nico objeto sexual. So essas as condies gerais para que meras variaes da pulso sexual se 
transformem em aberraes patolgicas.
         
         Na escolha do fetiche manifesta-se - como Binet [1888] foi o primeiro a sustentar e como depois se comprovou abundantemente - a influncia persistente de 
uma impresso sexual recebida, na maioria das vezes, na primeira infncia, o que se pode comparar com a proverbial persistncia do primeiro amor ("on revient toujours 
 ses premiers amours"). Essa derivao  particularmente clara nos casos em que h apenas um condicionamento fetichista do objeto sexual. Voltaremos a deparar, 
em outro ponto (ver em [1]), com a significao das impresses sexuais precoces.
         
         Em outros casos, o que leva  substituio do objeto pelo fetiche  uma conexo simblica de pensamentos que, na maioria das vezes, no  consciente para 
a pessoa. Os trajetos dessas conexes nem sempre podem ser indicados com certeza (o p, por exemplo,  um antiqussimo smbolo sexual que j aparece no mito, e as 
"peles" decerto devem seu papel de fetiche  associao com os plos do mons Veneris). No obstante, nem mesmo esse simbolismo parece independer sempre das experincias 
sexuais da infncia.
         
         (B) FIXAES DE ALVOS SEXUAIS PROVISRIOS
         
         SURGIMENTO DE NOVAS INTENES
         
         Todas as condies externas e internas que dificultam ou adiam a consecuo do alvo sexual normal (impotncia, preo elevado do objeto sexual, riscos do 
ato sexual) reforam, como  compreensvel, a tendncia a demorar-se nos atos preliminares e a formar a partir deles novos alvos sexuais, que podem tomar o lugar 
dos normais. Um exame mais atento sempre mostra que esses novos propsitos, mesmo os que se afiguram mais estranhos, j se esboam no processo sexual normal.
         
         O TOCAR E O OLHAR
         
         Uma certa dose de uso do tato, ao menos para os seres humanos,  indispensvel para que se atinja o alvo sexual normal. Sabe-se tambm, universalmente, 
que fonte de prazer, por um lado, e que afluxo de excitao renovada, por outro, so proporcionados pelas sensaes de contato com a pele do objeto sexual. Portanto, 
demorar-se no tocar, desde que o ato sexual seja levado adiante, dificilmente pode contar entre as perverses.
         
         O mesmo se d com o ver, que em ltima anlise deriva do tocar. A impresso visual continua a ser o caminho mais freqente pelo qual se desperta a excitao 
libidinosa, e  com a transitabilidade desse caminho - se  que esse tipo de considerao teleolgica  permissvel  - que conta a seleo natural ao fazer com que 
o objeto sexual se desenvolva em termos de beleza. A progressiva ocultao do corpo advinda com a civilizao mantm desperta a curiosidade sexual, que ambiciona 
completar o objeto sexual atravs da revelao das partes ocultas, mas que pode ser desviada ("sublimada") para a arte, caso se consiga afastar o interesse dos genitais 
e volt-lo para a forma do corpo como um todo. A demora nesse alvo sexual intermedirio do olhar carregado de sexo surge, em certa medida, na maioria das pessoas 
normais, e de fato lhes d a possibilidade de orientarem uma parcela de sua libido para alvos artsticos mais elevados. Por outro lado, o prazer de ver [escopofilia] 
transforma-se em perverso (a) quando se restringe exclusivamente  genitlia, (b) quando se liga  superao do asco (o voyeur - espectador das funes excretrias), 
ou (c) quando suplanta o alvo sexual normal, em vez de ser preparatrio a ele. Este ltimo  marcantemente o caso dos exibicionistas, que, se posso deduzi-lo aps 
diversas anlises, exibem seus genitais para conseguir ver, em contrapartida, a genitlia do outro.
         
         Na perverso que aspira a olhar e ser olhado distingue-se um trao curiosssimo, do qual nos ocuparemos ainda mais intensamente na aberrao a ser examinada 
a seguir, ou seja: nela, o alvo sexual apresenta-se numa configurao dupla, nas formas ativa e passiva.
         
         A fora que se ope ao prazer de ver, mas pode eventualmente ser superada por ele (como vimos antes no caso do asco),  a vergonha.
         
         SADISMO E MASOQUISMO
         
         A inclinao a infligir dor ao objeto sexual, bem como sua contrapartida, que so as mais freqentes e significativas de todas as perverses, foram denominadas 
por Krafft-Ebing, em formas ativa e passiva, de "sadismo" e "masoquismo" (passivo). Outros autores [p. ex., Schrenck-Notzing (1899)] preferem a designao mais estrita 
de algolagnia, que destaca o prazer na dor, a crueldade, enquanto os termos escolhidos por Krafft-Ebing colocam em primeiro plano o prazer em qualquer forma de humilhao 
ou sujeio.
         
         No tocante  algolagnia ativa, o sadismo, suas razes so fceis de apontar nas pessoas normais. A sexualidade da maioria dos vares exibe uma mescla de 
agresso, de inclinao a subjugar, cuja importncia biolgica talvez resida na necessidade de vencer a resistncia do objeto sexual de outra maneira que no mediante 
o ato de cortejar. Assim, o sadismo corresponderia a um componente agressivo autonomizado e exagerado da pulso sexual, movido por deslocamento para o lugar preponderante.
         
         O conceito de sadismo oscila, na linguagem corriqueira, desde uma atitude meramente ativa ou mesmo violenta para com o objeto sexual at uma satisfao 
exclusivamente condicionada pela sujeio e maus-tratos a ele infligidos. Num sentido estrito, somente este ltimo caso extremo merece o nome de perverso.
         
         De maneira similar, a designao de "masoquismo" abrange todas as atitudes passivas perante a vida sexual e o objeto sexual, a mais extrema das quais parece 
ser o condicionamento da satisfao ao padecimento de dor fsica ou anmica advinda do objeto sexual. O masoquismo enquanto perverso parece distanciar-se mais do 
alvo sexual normal do que sua contrapartida; em primeiro lugar, pode-se pr em dvida se ele aparece alguma vez como fenmeno primrio, ou se, pelo contrrio, surge 
regularmente do sadismo mediante uma transformao.  freqente poder-se reconhecer que o masoquismo no  outra coisa seno uma continuao do sadismo que se volta 
contra a prpria pessoa, que com isso assume, para comear, o lugar do objeto sexual. A anlise clnica dos casos extremos de perverso masoquista mostra a colaborao 
de uma ampla srie de fatores (como o complexo de castrao e a conscincia de culpa) no exagero e fixao da atitude sexual passiva originria.
         
         A dor, que com isso  superada, alinha-se com o asco e a vergonha que se opunham  libido como resistncia.
         
         O sadismo e o masoquismo ocupam entre as perverses um lugar especial, j que o contraste entre atividade e passividade que jaz em sua base pertence s 
caractersticas universais da vida sexual.
         
         Que a crueldade e a pulso sexual esto intimamente correlacionadas -nos ensinado, acima de qualquer dvida, pela histria da civilizao humana, mas no 
esclarecimento dessa correlao no se foi alm de acentuar o fator agressivo da libido. Segundo alguns autores, essa agresso mesclada  pulso sexual , na realidade, 
um resduo de desejos canibalsticos e, portanto, uma co-participao do aparelho de dominao, que atende  satisfao de outra grande necessidade ontogeneticamente 
mais antiga. Afirmou-se tambm que toda dor contm em si mesma a possibilidade de uma sensao prazerosa. Contentamo-nos aqui em afirmar que o esclarecimento dessa 
perverso de modo algum tem sido satisfatrio e que, possivelmente, diversas aspiraes anmicas nela se combinam para produzir um efeito nico.
         
         A particularidade mais notvel dessa perverso reside, porm, em que suas formas ativa e passiva costumam encontrar-se juntas numa mesma pessoa. Quem sente 
prazer em provocar dor no outro na relao sexual  tambm capaz de gozar, como prazer, de qualquer dor que possa extrair das relaes sexuais. O sdico  sempre 
e ao mesmo tempo um masoquista, ainda que o aspecto ativo ou passivo da perverso possa ter-se desenvolvido nele com maior intensidade e represente sua atividade 
sexual predominante.
         
         Assim, vemos que algumas das inclinaes  perverso apresentam-se regularmente como pares de opostos, o que, em conjunto com um material a ser posteriormente 
apresentado, pode reivindicar uma elevada significao terica.  ainda evidente que a existncia do par de opostos sadismo-masoquismo no  dedutvel, em termos 
imediatistas, da mescla de agresso. Ao contrrio, ficaramos tentados a relacionar a presena simultnea desses opostos com a oposio entre masculino e feminino 
que se combina na bissexualidade, oposio que amide  substituda na psicanlise pelo contraste entre ativo e passivo.
         
         (3) CONSIDERAES GERAIS SOBRE AS PERVERSES
         
         VARIAO E DOENA
         
          natural que os mdicos, que inicialmente estudaram as perverses em exemplos bem marcados e em condies especiais, tenham-se inclinado a adjudicar-lhes 
o carter de um sinal de degenerao ou doena, tal como havia ocorrido com a inverso. No obstante,  ainda mais fcil descartar tal opinio no presente caso. 
A experincia cotidiana mostrou que a maioria dessas transgresses, no mnimo as menos graves dentre elas, so um componente que raramente falta na vida sexual das 
pessoas sadias e que  por elas julgado como qualquer outra intimidade. Quando as circunstncias so favorveis, tambm as pessoas normais podem substituir durante 
um bom tempo o alvo sexual normal por uma dessas perverses, ou arranjar-lhe um lugar ao lado dele. Em nenhuma pessoa sadia falta algum acrscimo ao alvo sexual 
normal que se possa chamar de perverso, e essa universalidade basta, por si s, para mostrar quo imprpria  a utilizao reprobatria da palavra perverso. Justamente 
no campo da vida sexual  que se tropea com dificuldades peculiares e realmente insolveis, no momento, quando se quer traar uma fronteira ntida entre o que  
mera variao dentro da amplitude do fisiolgico e o que constitui sintomas patolgicos.
         
         Ainda assim, em muitas dessas perverses a qualidade do novo alvo sexual  de tal ordem que requer uma apreciao especial. Algumas delas afastam-se tanto 
do normal em seu contedo que no podemos deixar de declar-las "patolgicas", sobretudo nos casos em que a pulso sexual realiza obras assombrosas (lamber excrementos, 
abusar de cadveres) na superao das resistncias (vergonha, asco, horror ou dor). Nem mesmo nesses casos, porm, pode-se ter uma expectativa certeira de que em 
seus autores se revelem regularmente pessoas com outras anormalidades graves ou doentes mentais. Tampouco nesses casos pode-se passar por cima do fato de que pessoas 
cuja conduta  normal em outros aspectos colocam-se como doentes apenas no campo da vida sexual, sob o domnio da mais irrefrevel de todas as pulses. Por outro 
lado, a anormalidade manifesta nas outras relaes da vida costuma mostrar invariavelmente um fundo de conduta sexual anormal.
         
         Na maioria dos casos podemos encontrar o carter patolgico da perverso, no no contedo do novo alvo sexual, mas em sua relao com a normalidade. Quando 
a perverso no se apresenta ao lado do alvo e do objeto sexuais normais, nos casos em que a situao  propcia a promov-la e h circunstncias desfavorveis impedindo 
a normalidade, mas antes suplanta e substitui o normal em todas as circunstncias, ou seja, quando h nela as caractersticas de exclusividade e fixao, ento nos 
vemos autorizados, na maioria das vezes, a julg-la como um sintoma patolgico.
         
         A PARTICIPAO DO ANMICO NAS PERVERSES
         
         Talvez justamente nas perverses mais abjetas  que devamos reconhecer a mais abundante participao psquica na transformao da pulso sexual. Eis a 
a obra de um trabalho anmico ao qual no se pode negar, a despeito de seu resultado atroz, o valor de uma idealizao da pulso. A onipotncia do amor talvez nunca 
se mostre com maior intensidade do que nessas aberraes. O mais nobre e o mais vil, por toda parte da sexualidade, aparecem na mais ntima dependncia mtua ("vom 
Himmel durch die Welt zur Hlle").
         
         DUAS CONCLUSES
         
         Do estudo das perverses resultou-nos a viso de que a pulso sexual tem de lutar contra certas foras anmicas que funcionam como resistncias, destacando-se 
entre elas com mxima clareza a vergonha e o asco.  lcito conjecturar que essas foras contribuam para circunscrever a pulso dentro dos limites considerados normais, 
e que, caso se desenvolvam precocemente no indivduo, antes que a pulso sexual alcance a plenitude de sua fora, sem dvida sero elas que iro apontar o rumo de 
seu desenvolvimento.
         
         Observamos ainda que algumas das perverses investigadas s se tornam compreensveis mediante a convergncia de diversos motivos. Se elas admitem uma anlise 
- uma decomposio -, ento devem ser de natureza composta. Com isso podemos ter um indcio de que talvez a prpria pulso sexual no seja uma coisa simples, mas 
rena componentes que voltam a separar-se nas perverses. A clnica nos alertaria, portanto, para a existncia de fuses que perderiam sua expresso como tais na 
conduta normal uniforme.
         
         (4) A PULSO SEXUAL NOS NEURTICOS
         
         A PSICANLISE
         
         Uma importante contribuio para o conhecimento da pulso sexual em pessoas que ao menos se aproximam do normal  extrada de uma fonte acessvel apenas 
por determinado caminho. Existe apenas um meio de obter informaes exaustivas e sem erro sobre a vida sexual dos chamados "psiconeurticos" ([os que sofrem de] 
histeria, neurose obsessiva, da erroneamente chamada neurastenia, e certamente tambm de dementia praecox e parania): submet-los  investigao psicanaltica, 
da qual se serve o procedimento teraputico introduzido por Josef Breuer e eu em 1893 e ento chamado de "catrtico".
         
         Devo primeiramente esclarecer, repetindo o que j disse em outras publicaes, que essas psiconeuroses, at onde chegam minhas experincias, baseiam-se 
em foras pulsionais de cunho sexual. No quero dizer com isso apenas que a energia da pulso sexual faz uma contribuio para as foras que sustentam os fenmenos 
patolgicos (os sintomas), e sim asseverar expressamente que essa contribuio  a nica fonte energtica constante da neurose e a mais importante de todas, de tal 
sorte que a vida sexual das pessoas em pauta expressa-se de maneira exclusiva, ou predominante, ou apenas parcial, nesses sintomas. Como exprimi em outro lugar [1905e, 
Posfcio, ver em [1]], os sintomas so a atividade sexual dos doentes. A prova dessa afirmao deriva do nmero crescente de psicanlises de histricos e outros 
neurticos que venho realizando h vinte e cinco anos, e sobre cujos resultados j prestei contas minuciosamente em outras publicaes, como ainda continuarei a 
fazer.
         
         A psicanlise elimina os sintomas dos histricos partindo da premissa de que tais sintomas so um substituto - uma transcrio, por assim dizer - de uma 
srie de processos, desejos e aspiraes investidos de afeto, aos quais, mediante um processo psquico especial (o recalcamento), nega-se a descarga atravs de uma 
atividade psquica passvel de conscincia. Assim, essas formaes de pensamento que foram retidas num estado de inconscincia aspiram a uma expresso apropriada 
a seu valor afetivo, a uma descarga, e, no caso da histeria, encontram-na mediante o processo de converso em fenmenos somticos - justamente os sintomas histricos. 
Pela retransformao sistemtica (com a ajuda de uma tcnica especial) dos sintomas em representaes investidas de afeto j agora conscientizadas, fica-se em condies 
de averiguar com a mxima preciso a natureza e a origem dessas formaes psquicas antes inconscientes.
         
         RESULTADOS DA PSICANLISE
         
         Verificou-se por esse caminho que os sintomas representam um substituto de aspiraes que extraem sua fora da fonte da pulso sexual. Harmoniza-se plenamente 
com isso o que sabemos sobre o carter dos histricos (aqui tomados por modelo de todos os psiconeurticos) antes de seu adoecimento, bem como sobre as ocasies 
que precipitam a doena. O carter histrico permite identificar um grau de recalcamento sexual que ultrapassa a medida normal; uma intensificao da resistncia 
 pulso sexual (que j ficamos conhecendo como vergonha, asco e moralidade); e uma fuga como que instintiva a qualquer ocupao do intelecto com o problema do sexo, 
que tem como conseqncia, nos casos mais acentuados, a manuteno de uma completa ignorncia sexual, mesmo depois de alcanado o perodo de maturidade sexual.
         
         Esse trao de carter, to essencial na histeria, no raro escapa  observao casual, ficando encoberto pelo segundo fator constitucional da histeria, 
ou seja, o desenvolvimento desmedido da pulso sexual; somente a anlise psicolgica sabe desvend-lo em todas as oportunidades e solucionar a enigmtica contradio 
da histeria, registrando a presena desse par de opostos: uma necessidade sexual desmedida e uma excessiva renncia ao sexual.
         
         O ensejo para o adoecimento apresenta-se  pessoa de disposio histrica quando, em conseqncia de sua prpria maturao progressiva ou das circunstncias 
externas de sua vida, as exigncias reais do sexo tornam-se algo srio para ela. Entre a premncia da pulso e o antagonismo da renncia ao sexual situa-se a sada 
para a doena, que no soluciona o conflito, mas procura escapar a ele pela transformao das aspiraes libidinosas em sintomas. No passa de exceo aparente o 
fato de uma pessoa histrica, um homem, por exemplo, adoecer por causa de uma emoo banal, de um conflito que no gire em torno de um interesse sexual. Nesses casos, 
a psicanlise consegue demonstrar regularmente que a doena foi possibilitada pelo componente sexual do conflito, que privou os processos anmicos de uma execuo 
normal.
         
         NEUROSE E PERVERSO
         
         Boa parte da oposio contra estas minhas teses se esclarece pelo fato de que a sexualidade, da qual derivo os sintomas psiconeurticos,  considerada coincidente 
com a pulso sexual normal. S que a psicanlise ensina ainda mais. Ela mostra que de modo algum os sintomas surgem apenas  custa da chamada pulso sexual normal 
(pelo menos no de maneira exclusiva ou predominante), mas que representam a expresso convertida de pulses que seriam designadas de perversas (no sentido mais 
lato) se pudessem expressar-se diretamente, sem desvio pela conscincia, em propsitos da fantasia e em aes. Portanto, os sintomas se formam, em parte, s expensas 
da sexualidade anormal; a neurose , por assim dizer, o negativo da perverso.
         
         A pulso sexual dos psiconeurticos permite discernir todas as aberraes que estudamos como variaes da vida sexual normal e como manifestaes da patolgica.
         
         (a) Na vida anmica de todos os neurticos (sem exceo) encontram-se moes de inverso, de fixao da libido em pessoas do mesmo sexo. Sem uma discusso 
a fundo  impossvel apreciar adequadamente a importncia desse fator para a configurao do quadro patolgico; s posso asseverar que a tendncia inconsciente para 
a inverso nunca est ausente e, em particular, presta os maiores servios ao esclarecimento da histeria masculina.
         
         (b) No inconsciente dos psiconeurticos  possvel demonstrar, como formadoras do sintoma, todas as tendncias  transgresso anatmica, encontrando-se 
entre elas com particular freqncia e intensidade as que reivindicam para as mucosas da boca e do nus o papel dos genitais.
         
         (c) Um papel muito destacado entre os formadores de sintomas das psiconeuroses  desempenhado pelas pulses parciais, que na maioria das vezes aparecem 
como pares de opostos e das quais j tomamos conhecimento como portadoras de novos alvos sexuais - a pulso do prazer de ver e do exibicionismo, e a pulso de crueldade 
em suas formas ativa e passiva. A contribuio desta ltima  indispensvel  compreenso da natureza sofrida dos sintomas e domina quase invariavelmente uma parte 
da conduta social do doente.  tambm por intermdio dessa ligao da libido com a crueldade que se d a transformao do amor em dio, das moes afetuosas em moes 
hostis, que  caracterstica de um grande nmero de casos de neurose e at, ao que parece, da parania em geral.
         
         O interesse por esses resultados aumenta ainda mais a partir de certas particularidades dos fatos.
         
         (a) Sempre que se descobre no inconsciente uma pulso desse tipo, passvel de ser pareada com um oposto, em geral pode-se demonstrar que este ltimo tambm 
 eficaz. Toda perverso "ativa", portanto,  acompanhada por sua contrapartida passiva: quem  exibicionista no inconsciente  tambm, ao mesmo tempo, voyeur; quem 
sofre as conseqncias das moes sdicas recalcadas encontra outro reforo para seu sintoma nas fontes da tendncia masoquista. O completo acordo com a conduta 
nas perverses "positivas" correspondentes decerto  muito digno de nota, embora, nos quadros patolgicos, uma ou outra das inclinaes opostas desempenhe o papel 
preponderante.
         
         (b) Nos casos mais patentes de psiconeurose  raro encontrar desenvolvida apenas uma dessas pulses perversas; na maioria das vezes encontramos um grande 
nmero delas e, em geral, vestgios de todas. Mas a intensidade de cada pulso isolada  independente do desenvolvimento das outras. Tambm nesse aspecto o estudo 
das perverses "positivas" proporciona uma contrapartida exata.
         
         (5) PULSES PARCIAIS E ZONAS ERGENAS
         
         Se juntarmos o que a investigao das perverses positivas e negativas nos permitiu averiguar, parecer plausvel reconduzi-las a uma srie de "pulses 
parciais" que, no entanto, no so primrias, j que permitem uma decomposio ulterior. Por "pulso" podemos entender, a princpio, apenas o representante psquico 
de uma fonte endossomtica de estimulao que flui continuamente, para diferenci-la do "estmulo", que  produzido por excitaes isoladas vindas de fora. Pulso, 
portanto,  um dos conceitos da delimitao entre o anmico e o fsico. A hiptese mais simples e mais indicada sobre a natureza da pulso seria que, em si mesma, 
ela no possui qualidade alguma, devendo apenas ser considerada como uma medida da exigncia de trabalho feita  vida anmica. O que distingue as pulses entre si 
e as dota de propriedades especficas  sua relao com suas fontes somticas e seus alvos. A fonte da pulso  um processo excitatrio num rgo, e seu alvo imediato 
consiste na supresso desse estmulo orgnico.
         
         Outra hiptese provisria de que no podemos furtar-nos na teoria das pulses afirma que os rgos do corpo fornecem dois tipos de excitao, baseados em 
diferenas de natureza qumica. A uma dessas classes de excitao designamos como a que  especificamente sexual, e referimo-nos ao rgo em causa como a "zona ergena" 
da pulso parcial que parte dele.
         
         Nas inclinaes perversas que reivindicam para a cavidade bucal e para o orifcio anal um sentido sexual, o papel das zonas ergenas  imediatamente perceptvel. 
Elas se comportam em todos os aspectos como uma parte do aparelho sexual. Na histeria, esses lugares do corpo e os tratos de mucosa que partem deles transformam-se 
na sede de novas sensaes e de alteraes da inervao - e mesmo de processos comparveis  ereo -, tal como os prprios rgos genitais diante das excitaes 
dos processos sexuais normais.
         
         O sentido das zonas ergenas como aparelhos acessrios e substitutos da genitlia evidencia-se com maior clareza, dentre as psiconeuroses, na histeria, 
mas isso no implica que ele deva ser menos valorizado nas outras formas de doena. Nestas (neurose obsessiva, parania), ele  apenas menos reconhecvel, pois a 
formao dos sintomas se d em regies do aparelho anmico mais afastadas dos centros especficos que dominam o corpo. Na neurose obsessiva, o que mais se destaca 
 a significao dos impulsos que criam novos alvos sexuais e parecem independentes das zonas ergenas. No obstante, na escopofilia e no exibicionismo o olho corresponde 
a uma zona ergena; no caso da dor e da crueldade como componentes da pulso sexual,  a pele que assume esse mesmo papel - a pele, que em determinadas partes do 
corpo diferenciou-se nos rgos sensoriais e se transmudou em mucosa, sendo assim a zona ergena ?????????? [por excelncia].
         
         (6) ESCLARECIMENTOS SOBRE A  APARENTE PREPONDERNCIA DA SEXUALIDADE PERVERSA NAS PSICONEUROSES
         
         A discusso precedente talvez tenha colocado sob um prisma falso a sexualidade dos psiconeurticos. Talvez tenha criado a aparncia de que, em virtude de 
sua predisposio, os psiconeurticos aproximam-se estreitamente dos perversos em sua conduta sexual e se distanciam dos normais na mesma medida.  bem possvel, 
de fato, que a disposio constitucional desses doentes contenha, alm de um grau desmedido de recalcamento sexual e de uma intensidade hiperpotente da pulso sexual, 
uma tendncia incomum  perverso no sentido mais lato. Ainda assim, a investigao de casos mais brandos mostra que esta ltima suposio no  necessariamente 
indispensvel, ou que, pelo menos, ao formar um juzo sobre esses efeitos patolgicos,  preciso descontar a atuao de um outro fator. Na maioria dos psiconeurticos, 
a doena s aparece depois da puberdade, a partir das solicitaes da vida sexual normal.  contra esta que se orienta de modo preponderante o recalcamento. Ou ento 
a doena se instaura mais tardiamente, quando a libido fica privada de satisfao pelas vias normais. Em ambos os casos a libido se comporta como uma corrente cujo 
leito principal foi bloqueado; ela inunda ento as vias colaterais que at ali talvez tivessem permanecido vazias. Assim, tambm o que parece ser uma enorme tendncia 
 perverso (apesar de negativa) nos psiconeurticos pode estar colateralmente condicionado, e, em todo caso, deve ser colateralmente intensificado. O fato  que 
se tem de alinhar o recalcamento sexual, enquanto fator interno, com os fatores externos que, como a restrio da liberdade, a inacessibilidade do objeto sexual 
normal, os riscos do ato sexual normal etc., permitem que surjam perverses em indivduos que, de outro modo, talvez permanecessem normais.
         
         Nesse aspecto, os diversos casos de neurose podem portar-se de maneira diferente: num, prepondera a fora inata da tendncia  perverso, noutro, o aumento 
colateral dessa mesma tendncia por ser a libido desviada do alvo e do objeto sexuais normais. Seria errneo presumir uma oposio onde existe de fato uma relao 
de cooperao. A neurose sempre produz seus efeitos mximos quando a constituio e a vivncia cooperam no mesmo sentido. Uma constituio marcante talvez possa 
prescindir do apoio de impresses provenientes da vida, e um grande abalo na vida talvez provoque a neurose at mesmo numa constituio corriqueira. Alis, essa 
viso da importncia etiolgica do inato e do acidentalmente vivenciado  igualmente vlida em outros campos.
         
         Entretanto, caso se prefira a hiptese de que uma tendncia particularmente marcante para as perverses  uma das peculiaridades da constituio psiconeurtica, 
abre-se a perspectiva de se poder distinguir uma multiplicidade dessas constituies, segundo a preponderncia inata desta ou daquela zona ergena, desta ou daquela 
pulso parcial. Como acontece com tantas outras coisas nesse campo, ainda no se investigou se h uma relao especial entre a disposio perversa e a escolha da 
forma especfica da doena.
         
         (7) INDICAO DO INFANTILISMO DA SEXUALIDADE
         
         Ao demonstrar as moes perversas enquanto formadoras de sintomas nas psiconeuroses, aumentamos extraordinariamente o nmero de seres humanos que poderiam 
ser considerados perversos. No  s que os prprios neurticos constituam uma classe muito numerosa, h tambm que levar em conta que sries descendentes e ininterruptas 
ligam a neurose, em todas as suas configuraes,  sade; por isso Moebius pde dizer, com boas justificativas, que todos somos um pouco histricos. Assim, a extraordinria 
difuso das perverses fora-nos a supor que tampouco a predisposio s perverses  uma particularidade rara, mas deve, antes, fazer parte da constituio que 
passa por normal. 
         
          discutvel, como vimos, que as perverses remontem a condies inatas ou resultem, como sups Binet quanto ao fetichismo (ver em [1]), de experincias 
ao acaso. Agora se nos oferece a concluso de que h sem dvida algo inato na base das perverses, mas esse algo  inato em todos os seres humanos, embora, enquanto 
disposio, possa variar de intensidade e ser acentuado pelas influncias da vida. Trata-se, pois, das razes inatas da pulso sexual dadas pela constituio, as 
quais, numa srie de casos (as perverses), convertem-se nas verdadeiras portadoras da atividade sexual (perversa), outras vezes passam por uma supresso (recalcamento) 
insuficiente, de tal sorte que podem atrair indiretamente para si, na qualidade de sintomas patolgicos, parte da energia sexual, e que permitem, nos casos mais 
favorveis situados entre os dois extremos, mediante uma restrio eficaz e outras elaboraes, a origem da chamada vida sexual normal.
         
         Mas devemos dizer ainda que essa suposta constituio que exibe os germes de todas as perverses s  demonstrvel na criana, mesmo que nela todas as pulses 
s possam emergir com intensidade moderada. Vislumbramos assim a frmula de que os neurticos preservaram o estado infantil de sua sexualidade ou foram retransportados 
para ele. Desse modo, nosso interesse volta-se para a vida sexual da criana, e procederemos ao estudo do jogo de influncias que domina o processo de desenvolvimento 
da sexualidade infantil at seu desfecho na perverso, na neurose ou na vida sexual normal.
         
         A SEXUALIDADE INFANTIL
         
         O DESCASO PARA COM O INFANTIL
         
         Faz parte da opinio popular sobre a pulso sexual que ela est ausente na infncia e s desperta no perodo da vida designado da puberdade. Mas esse no 
 apenas um erro qualquer, e sim um equvoco de graves conseqncias, pois  o principal culpado de nossa ignorncia de hoje sobre as condies bsicas da vida sexual. 
Um estudo aprofundado das manifestaes sexuais da infncia provavelmente nos revelaria os traos essenciais da pulso sexual, desvendaria sua evoluo e nos permitiria 
ver como se compe a partir de diversas fontes.
         
          digno de nota que os autores que se ocuparam do esclarecimento das propriedades e reaes do indivduo adulto tenham prestado muito mais ateno  fase 
pr-histrica representada pela vida dos antepassados - ou seja, atribudo uma influncia muito maior  hereditariedade - do que  outra fase pr-histrica, quela 
que se d na existncia individual da pessoa, a saber, a infncia.  que, como se pode supor, a influncia desse perodo da vida seria mais fcil de compreender 
e teria direito a ser considerada antes da influncia da hereditariedade.  certo que na literatura sobre o assunto encontramos notas ocasionais acerca da atividade 
sexual precoce em crianas pequenas, sobre erees, masturbao e at mesmo atividades semelhantes ao coito. Mas elas so sempre citadas apenas como processos excepcionais, 
curiosidades ou exemplos assustadores de depravao precoce. Nenhum autor, ao que eu saiba, reconheceu com clareza a normatividade da pulso sexual na infncia, 
e, nos escritos j numerosos sobre o desenvolvimento infantil, o captulo sobre o "Desenvolvimento Sexual" costuma ser omitido.
         
         AMNSIA INFANTIL
         
         A razo dessa estranha negligncia pode ser buscada, em parte, nas consideraes convencionais que os autores respeitam em conseqncia de sua prpria criao, 
e em parte, num fenmeno psquico que at agora escapou a qualquer explicao. Refiro-me  singular amnsia que, na maioria das pessoas (mas no em todas!), encobre 
os primeiros anos da infncia, at os seis ou oito anos de idade. At o momento, no nos ocorreu ficar surpresos ante o fato dessa amnsia, e no entanto, teramos 
boas razes para isso. De fato, somos informados de que, durante esses anos, dos quais s preservamos na memria algumas lembranas incompreensveis e fragmentadas, 
reagamos com vivacidade frente s impresses, sabamos expressar dor e alegria de maneira humana, mostrvamos amor, cime e outras paixes que ento nos agitavam 
violentamente, e at formulvamos frases que eram registradas pelos adultos como uma boa prova de discernimento e de uma capacidade incipiente de julgamento. E de 
tudo isso, quando adultos, nada sabemos por ns mesmos. Por que ter nossa memria ficado to para trs em relao a nossas outras atividades anmicas? Ora, temos 
razes para crer que em nenhuma outra poca da vida a capacidade de recepo e reproduo  maior do que justamente nos anos da infncia.
         
         Por outro lado, devemos supor, ou podemos convencer-nos disso mediante a investigao psicolgica de outrem, que as mesmas impresses por ns esquecidas 
deixaram, ainda assim, os mais profundos rastros em nossa vida anmica e se tornaram determinantes para todo o nosso desenvolvimento posterior. No h como falar, 
portanto, em nenhum declnio real das impresses infantis, mas sim numa amnsia semelhante  que observamos nos neurticos em relao s vivncias posteriores, e 
cuja essncia consiste num mero impedimento da conscincia (recalcamento). Mas quais so as foras que efetuam esse recalcamento das impresses infantis? Quem solucionasse 
esse enigma teria tambm esclarecido a amnsia histrica.
         
         Todavia, no queremos deixar de destacar que a existncia da amnsia infantil fornece um novo ponto de comparao entre o estado anmico da criana e o 
dos psiconeurticos. J deparamos com outro desses pontos (ver em [1]) quando se imps a ns a frmula de que a sexualidade dos psiconeurticos preserva o estado 
infantil ou  reconduzida a ele. E se a prpria amnsia infantil tambm tiver de ser relacionada com as moes sexuais da infncia?
         
         Alis, ligar a amnsia infantil  histrica  mais do que um mero jogo de palavras. A amnsia histrica, que est a servio do recalcamento, s  explicvel 
pela circunstncia de que o indivduo j possui um acervo de traos anmicos que deixaram de estar  disposio da conscincia e que agora, atravs de uma ligao 
associativa, apoderam-se daquilo sobre o que atuam as foras repulsoras do recalcamento. Pode-se dizer que sem a amnsia infantil no haveria amnsia histrica. 
[Cf. Freud, l950a, Carta 84, de 10 de maro de 1898.]
         
         Creio, pois, que a amnsia infantil, que converte a infncia de cada um numa espcie de poca pr-histrica e oculta dele os primrdios de sua prpria vida 
sexual, carrega a culpa por no se dar valor ao perodo infantil no desenvolvimento da vida sexual. Um observador isolado no pode preencher as lacunas assim geradas 
em nosso conhecimento. J em 1896 frisei a significao da infncia para a origem de certos fenmenos importantes que dependem da vida sexual, e desde ento nunca 
deixei de trazer para primeiro plano o fator infantil na sexualidade.
         
         (1) O PERODO DE LATNCIA SEXUAL DA INFNCIA E SUAS RUPTURAS
         
         As constataes extraordinariamente amiudadas de moes sexuais pretensamente excepcionais e anormativas na infncia, bem como a revelao das lembranas 
infantis do neurtico, at ento inconscientes, talvez permitam traar o seguinte quadro das condutas sexuais da infncia:
         
         Parece certo que o recm-nascido traz consigo germes de moes sexuais que continuam a se desenvolver por algum tempo, mas depois sofrem uma supresso progressiva, 
a qual, por sua vez, pode ser rompida por avanos regulares do desenvolvimento sexual ou suspensa pelas peculiaridades individuais. Nada se sabe ao certo sobre a 
regularidade e a periodicidade desse curso oscilante de desenvolvimento. Parece, no entanto, que a vida sexual da criana costuma expressar-se numa forma acessvel 
 observao por volta dos trs ou quatro anos de idade.
         
         AS INIBIES SEXUAIS
         
         Durante esse perodo de latncia total ou apenas parcial erigem-se as foras anmicas que, mais tarde, surgiro como entraves no caminho da pulso sexual 
e estreitaro seu curso  maneira de diques (o asco, o sentimento de vergonha, as exigncias dos ideais estticos e morais). Nas crianas civilizadas, tem-se a impresso 
de que a construo desses diques  obra da educao, e certamente a educao tem muito a ver com isso. Na realidade, porm, esse desenvolvimento  organicamente 
condicionado e fixado pela hereditariedade, podendo produzir-se, no momento oportuno, sem nenhuma ajuda da educao. Esta fica inteiramente dentro do mbito que 
lhe compete ao limitar-se a seguir o que foi organicamente prefixado e imprimi-lo de maneira um pouco mais polida e profunda.
         
         FORMAO REATIVA E SUBLIMAO
         
         Com que meios se erigem essas construes to importantes para a cultura e normalidade posteriores da pessoa? Provavelmente, s expensas das prprias moes 
sexuais infantis, cujo afluxo no cessa nem mesmo durante esse perodo de latncia, mas cuja energia - na totalidade ou em sua maior parte -  desviada do uso sexual 
e voltada para outros fins. Os historiadores da cultura parecem unnimes em supor que, mediante esse desvio das foras pulsionais sexuais das metas sexuais e por 
sua orientao para novas metas, num processo que merece o nome de sublimao, adquirem-se poderosos componentes para todas as realizaes culturais. Acrescentaramos, 
portanto, que o mesmo processo entra em jogo no desenvolvimento de cada indivduo, e situaramos seu incio no perodo de latncia sexual da infncia.
         
         Tambm sobre o mecanismo desse processo de sublimao pode-se arriscar uma conjectura. As moes sexuais desses anos da infncia seriam, por um lado, inutilizveis, 
j que esto diferidas as funes reprodutoras - o que constitui o trao principal do perodo de latncia - , e por outro, seriam perversas em si, ou seja, partiriam 
de zonas ergenas e se sustentariam em pulses que, dada a direo do desenvolvimento do indivduo, s poderiam provocar sensaes desprazerosas. Por conseguinte, 
elas despertam foras anmicas contrrias (moes reativas) que, para uma supresso eficaz desse desprazer, erigem os diques psquicos j mencionados: asco, vergonha 
e moral.
         
         RUPTURAS DO PERODO DE LATNCIA
         
         Sem nos iludirmos quanto  natureza hipottica e quanto  clareza insuficiente de nossos conhecimentos acerca dos processos do perodo infantil de latncia 
ou adiamento, voltemos  realidade para indicar que esse emprego da sexualidade infantil representa um ideal educativo do qual o desenvolvimento de cada um quase 
sempre se afasta em algum ponto, amide em grau considervel. Vez por outra irrompe um fragmento de manifestao sexual que se furtou  sublimao, ou preserva-se 
alguma atividade sexual ao longo de todo o perodo de latncia, at a irrupo acentuada da pulso sexual na puberdade. Na medida em que prestam alguma ateno  
sexualidade infantil, os educadores portam-se como se compartilhassem nossas opinies sobre a construo das foras defensivas morais  custa da sexualidade, e como 
se soubessem que a atividade sexual torna a criana ineducvel, pois perseguem como "vcios" todas as suas manifestaes sexuais, mesmo que no possam fazer muita 
coisa contra elas. Ns, porm, temos todos os motivos para voltar nosso interesse para esses fenmenos temidos pela educao, pois deles esperamos o esclarecimento 
da configurao originria da pulso sexual.
         
         (2) AS MANIFESTAES DA SEXUALIDADE INFANTIL
         
         O CHUCHAR
         
         Por motivos que se deduziro posteriormente, tomaremos como modelo das manifestaes sexuais infantis o chuchar (sugar com deleite), ao qual o pediatra 
hngaro Lindner (1879) dedicou um excelente estudo.
         
         O chuchar [Ludeln ou Lutschen], que j aparece no lactente e pode continuar at a maturidade ou persistir por toda a vida, consiste na repetio rtmica 
de um contato de suco com a boca (os lbios), do qual est excludo qualquer propsito de nutrio. Uma parte dos prprios lbios, a lngua ou qualquer outro ponto 
da pele que esteja ao alcance - at mesmo o dedo do p - so tomados como objeto sobre o qual se exerce essa suco. Uma pulso prensil surgida ao mesmo tempo 
pode manifestar-se atravs de puxadas rtmicas simultneas do lbulo da orelha e apoderar-se de uma parte de outra pessoa (em geral, a orelha) para o mesmo fim. 
O sugar com deleite alia-se a uma absoro completa da ateno e leva ao adormecimento, ou mesmo a uma reao motora numa espcie de orgasmo. No raro, combina-se 
com a frico de alguma parte sensvel do corpo, como os seios ou a genitlia externa. Por esse caminho, muitas crianas passam do chuchar para a masturbao.
         
         O prprio Lindner reconheceu a natureza sexual dessa ao e a destacou de maneira irrestrita. Na meninice, o chuchar  freqentemente equiparado aos outros 
"maus costumes" sexuais da criana. De numerosos pediatras e neurologistas tem-se erguido um protesto muito enrgico contra essa concepo, parcialmente baseado, 
sem dvida, na confuso entre "sexual" e "genital". Esse protesto levanta uma questo difcil e irrecusvel: por qual caracterstica genrica podemos reconhecer 
as manifestaes sexuais da criana? Parece-me que a concatenao de fenmenos que pudemos discernir atravs da investigao psicanaltica nos autoriza a ver no 
chuchar uma manifestao sexual e a estudar justamente nele os traos essenciais da atividade sexual infantil.
         
         AUTO-EROTlSMO
         
         Temos a obrigao de fazer um exame aprofundado desse exemplo. Como trao mais destacado dessa prtica sexual, salientemos que a pulso no est dirigida 
para outra pessoa; satisfaz-se no prprio corpo,  auto-ertica, para diz-lo com a feliz denominao introduzida por Havelock Ellis [1910].
         
         Est claro, alm disso, que o ato da criana que chucha  determinado pela busca de um prazer j vivenciado e agora relembrado. No caso mais simples, portanto, 
a satisfao  encontrada mediante a suco rtmica de alguma parte da pele ou da mucosa.  fcil adivinhar tambm em que ocasies a criana teve as primeiras experincias 
desse prazer que agora se esfora por renovar. A primeira e mais vital das atividades da criana - mamar no seio materno (ou em seus substitutos) - h de t-la familiarizado 
com esse prazer. Diramos que os lbios da criana comportaram-se como uma zona ergena, e a estimulao pelo fluxo clido de leite foi sem dvida a origem da sensao 
prazerosa. A princpio, a satisfao da zona ergena deve ter-se associado com a necessidade de alimento. A atividade sexual apia-se primeiramente numa das funes 
que servem  preservao da vida, e s depois torna-se independente delas. Quem j viu uma criana saciada recuar do peito e cair no sono, com as faces coradas e 
um sorriso beatfico, h de dizer a si mesmo que essa imagem persiste tambm como norma da expresso da satisfao sexual em pocas posteriores da vida. A necessidade 
de repetir a satisfao sexual dissocia-se ento da necessidade de absoro de alimento - uma separao que se torna inevitvel quando aparecem os dentes e o alimento 
j no  exclusivamente ingerido por suco, mas  tambm mastigado. A criana no se serve de um objeto externo para sugar, mas prefere uma parte de sua prpria 
pele, porque isso lhe  mais cmodo, porque a torna independente do mundo externo, que ela ainda no consegue dominar, e porque desse modo ela se proporciona como 
que uma segunda zona ergena, se bem que de nvel inferior. A inferioridade dessa segunda regio a levar, mais tarde, a buscar em outra pessoa a parte correspondente, 
os lbios. ("Pena eu no poder beijar a mim mesmo", dir-se-ia subjazer a isso.)
         
         Nem todas as crianas praticam esse chuchar.  de se supor que cheguem a faz-lo aquelas em quem a significao ergena da zona labial for constitucionalmente 
reforada. Persistindo essa significao, tais crianas, uma vez adultas, sero vidas apreciadoras do beijo, tendero a beijos perversos ou, se forem homens, tero 
um poderoso motivo para beber e fumar. Caso sobrevenha o recalcamento, porm, sentiro nojo da comida e produziro vmitos histricos. Por fora da dupla finalidade 
da zona labial, o recalcamento se estende  pulso de nutrio. Muitas de minhas pacientes com distrbios alimentares, globus hystericus, constrico na garganta 
e vmitos foram, na infncia, firmes adeptas do chuchar.
         
         No chuchar ou sugar com deleite j podemos observar as trs caractersticas essenciais de uma manifestao sexual infantil. Esta nasce apoiando-se numa 
das funes somticas vitais, ainda no conhece nenhum objeto sexual, sendo auto-ertica, e seu alvo sexual acha-se sob o domnio de uma zona ergena. Antecipemos 
que essas caractersticas so vlidas tambm para a maioria das outras atividades das pulses sexuais infantis.
         
         (3) O ALVO SEXUAL DA SEXUALIDADE INFANTIL
         
         CARACTERSTICAS DAS ZONAS ERGENAS
         
         Do exemplo do chuchar podemos ainda deduzir vrias coisas para a caracterizao do que  uma zona ergena. Trata-se de uma parte da pele ou da mucosa em 
que certos tipos de estimulao provocam uma sensao prazerosa de determinada qualidade. No h dvida de que os estmulos produtores de prazer esto ligados a 
condies especiais que desconhecemos. Entre elas, o carter rtmico deve desempenhar algum papel, impondo-se aqui a analogia com as ccegas. Menos seguro, parece, 
 se o carter da sensao prazerosa provocada pelo estmulo pode ser designado de "particular", particularidade esta em que estaria contido justamente o fator sexual. 
Em matria de prazer e desprazer, a psicologia ainda tateia tanto no escuro que as hipteses mais prudentes so as mais recomendveis. Mais adiante, talvez deparemos 
com razes que paream sustentar a idia de uma qualidade particular da sensao prazerosa.
         
         A propriedade ergena pode ligar-se de maneira mais marcante a certas partes do corpo. Existem zonas ergenas predestinadas, como mostra o exemplo do chuchar. 
Mas esse exemplo ensina tambm que qualquer outro ponto da pele ou da mucosa pode tomar a seu encargo as funes de uma zona ergena, devendo, portanto, ter certa 
aptido para isso. Assim, a qualidade do estmulo, mais do que a natureza das partes do corpo,  que tem a ver com a produo da sensao prazerosa. A criana chuchadora 
perscruta seu corpo para sugar alguma parte dele, que depois, por hbito, torna-se a preferida; quando tropea casualmente numa das partes predestinadas (os mamilos, 
a genitlia), esta decerto retm a preferncia. Uma capacidade de deslocamento inteiramente anloga reaparece na sintomatologia da histeria. Nessa neurose, o recalcamento 
afeta sobretudo as zonas genitais propriamente ditas, e estas transmitem sua excitabilidade a outras zonas ergenas, de outro modo relegadas na vida adulta, que 
ento se comportam exatamente como genitais. Alm disso, porm, tal como ocorre no chuchar, qualquer outra parte do corpo pode ser provida da excitabilidade da genitlia 
e alada  condio de zona ergena. As zonas ergenas e histergenas exibem as mesmas caractersticas.
         
         O ALVO SEXUAL INFANTIL
         
         O alvo sexual da pulso infantil consiste em provocar a satisfao mediante a estimulao apropriada da zona ergena que de algum modo foi escolhida. Essa 
satisfao deve ter sido vivenciada antes para que reste da uma necessidade de repeti-la, e  lcito esperarmos que a natureza tenha tomado medidas seguras para 
que essa vivncia no fique entregue ao acaso. J tomamos conhecimento do que  que promove a satisfao dessa finalidade no caso da zona labial:  a ligao simultnea 
dessa parte do corpo com a alimentao. Ainda depararemos com outros dispositivos semelhantes como fontes da sexualidade. O estado de necessidade de repetir uma 
satisfao transparece de duas maneiras: por um sentimento peculiar de tenso, que tem, antes, o carter de desprazer, e por uma sensao de prurido ou estimulao 
centralmente condicionada e projetada para a zona ergena perifrica. Por isso, pode-se tambm formular o alvo sexual de outra maneira: ele viria substituir a sensao 
de estimulao projetada na zona ergena pelo estmulo externo que a abolisse ao provocar a sensao de satisfao. Esse estmulo externo consiste, na maioria das 
vezes, numa manipulao anloga ao sugar.
         
         Est em perfeito acordo com nossos conhecimentos fisiolgicos que a necessidade possa tambm ser evocada perifericamente, atravs de uma modificao real 
na zona ergena. S  um tanto estranho que, para ser abolido, um estmulo parea exigir a colocao de um segundo no mesmo lugar.
         
         (4) AS MANlFESTAES SEXUAIS MASTURBATRIAS
         
         S pode alegrar-nos sumamente descobrir que, uma vez compreendida a pulso vinda de uma nica zona ergena, no temos muito mais coisas importantes a aprender 
sobre a atividade sexual das crianas. As diferenas mais significativas dizem respeito s providncias necessrias  satisfao, que, no caso da zona labial, consistiam 
no sugar, e que tero de ser substitudas por outras aes musculares conforme a posio e a natureza das outras zonas.
         
         ATIVIDADE DA ZONA ANAL
         
         Tal como a zona dos lbios, a zona anal est apta, por sua posio, a mediar um apoio da sexualidade em outras funes corporais.  de se presumir que a 
importncia ergena dessa parte do corpo seja originariamente muito grande. lnteiramo-nos pela psicanlise, no sem certo assombro, das transmutaes por que normalmente 
passam as excitaes sexuais dela provenientes e da freqncia com que essa zona conserva durante toda a vida uma parcela considervel de excitabilidade genital. 
Os distrbios intestinais to freqentes na infncia providenciam para que no faltem a essa zona excitaes intensas. Os catarros intestinais na mais tenra idade 
deixam a criana "nervosa", como se costuma dizer; no adoecimento neurtico posterior, eles tm uma influncia determinante na manifestao somtica da neurose e 
colocam  disposio dela toda a soma das perturbaes intestinais. Considerando-se a significao ergena da zona rectal, que se preserva ao menos em sua transmutao, 
tampouco podemos rir da influncia das hemorridas, s quais a medicina antiga atribua tanta importncia no esclarecimento dos estados neurticos.
         
         As crianas que tiram proveito da estimulabilidade ergena da zona anal denunciam-se por reterem as fezes at que sua acumulao provoca violentas contraes 
musculares e, na passagem pelo nus, pode exercer uma estimulao intensa na mucosa. Com isso, ho de produzir-se sensaes de volpia ao lado das sensaes dolorosas. 
Um dos melhores pressgios de excentricidade e nervosismo posteriores  a recusa obstinada do beb a esvaziar o intestino ao ser posto no troninho, ou seja, quando 
isso  desejado pela pessoa que cuida dele, ficando essa funo reservada para quando aprouver a ele prprio. Naturalmente, no  que lhe interesse sujar a cama; 
ele est apenas providenciando para que no lhe escape o dividendo de prazer que vem junto com a defecao. Mais uma vez, os educadores tm razo ao chamarem de 
perversas [schlimm] as crianas que "retardam" essas funes.
         
         O contedo intestinal, que, enquanto corpo estimulador, comporta-se frente a uma rea de mucosa sexualmente sensvel como precursor de outro rgo destinado 
a entrar em ao depois da fase da infncia, tem ainda para o lactante outros importantes sentidos.  obviamente tratado como parte de seu prprio corpo, representando 
o primeiro "presente": ao desfazer-se dele, a criaturinha pode exprimir sua docilidade perante o meio que a cerca, e ao recus-lo, sua obstinao. Do sentido de 
"presente", esse contedo passa mais tarde ao de "beb", que, segundo uma das teorias sexuais infantis (ver em [1]),  adquirido pela comida e nasce pelo intestino.
         
         A reteno da massa fecal, a princpio intencionalmente praticada para tirar proveito da estimulao como que masturbatria da zona anal, ou para ser empregada 
na relao com as pessoas que cuidam da criana, , alis, uma das razes da constipao to freqente nos neuropatas. Alm disso, o sentido pleno da zona anal espelha-se 
no fato de se encontrarem muito poucos neurticos que no tenham seus rituais escatolgicos especiais, suas cerimnias e coisas similares, por eles cuidadosamente 
mantidos em segredo.
         
         A estimulao masturbatria efetiva da zona anal com a ajuda do dedo, provocada por uma comicho centralmente determinada ou perifericamente mantida, no 
 nada rara nas crianas mais velhas.
         
         ATIVIDADE DA ZONA GENITAL
         
         Entre as zonas ergenas do corpo infantil encontra-se uma que decerto no desempenha o papel principal nem pode ser a portadora das moes sexuais mais 
antigas, mas que est destinada a grandes coisas no futuro. Nas crianas tanto de sexo masculino quanto feminino, est ligada  mico (glande, clitris) e, nas 
primeiras, acha-se dentro de uma bolsa de mucosa, de modo que no pode faltar-lhe a estimulao por secrees que aticem precocemente a excitao sexual. As atividades 
sexuais dessa zona ergena, que faz parte dos rgos sexuais propriamente ditos, so sem dvida o comeo da futura vida sexual "normal".
         
         Por sua posio anatmica, pelas secrees em que esto banhadas, pela lavagem e frico advindas dos cuidados com o corpo e por certas excitaes acidentais 
(como as migraes de vermes intestinais nas meninas),  inevitvel que a sensao prazerosa que essas partes do corpo so capazes de produzir se faa notar  criana 
j na fase de amamentao, despertando uma necessidade de repeti-la. Considerada a soma dos dispositivos existentes e ponderando que as providncias para manter 
a limpeza mal podem atuar de modo diferente da sujeira, custa evitar a concluso de que  atravs do onanismo do lactante, do qual praticamente nenhum indivduo 
escapa, que se estabelece a futura primazia dessa zona ergena na atividade sexual. A ao que elimina o estmulo e provoca a satisfao consiste num contato por 
frico manual ou numa presso (decerto preparada nos moldes de um reflexo) exercida com a mo ou unindo as coxas. Este ltimo mtodo  de longe o mais freqente 
nas meninas. Nos meninos, a preferncia pela mo j indica a importante contribuio que a pulso de dominao est destinada a fazer para a atividade sexual masculina.
         
         A bem da clareza, convm eu indicar que  preciso distinguir trs fases da masturbao infantil. A primeira  prpria do perodo de lactncia, a segunda 
pertence  breve florescncia da atividade sexual por volta do quarto ano de vida, e somente a terceira corresponde ao onanismo da puberdade, amide o nico a ser 
levado em conta.
         
         A SEGUNDA FASE DA MASTURBAO INFANTIL
         
         O onanismo do lactante parece desaparecer aps um curto prazo, mas seu prosseguimento ininterrupto at a puberdade pode constituir o primeiro grande desvio 
do desenvolvimento a que se aspira para os seres humanos inseridos na cultura. Em algum momento da infncia posterior ao perodo de amamentao, comumente antes 
do quarto ano, a pulso sexual dessa zona genital costuma redespertar e novamente durar algum tempo, at ser detida por uma nova supresso, ou prosseguir ininterruptamente. 
As circunstncias possveis so muito variadas e s  vivel apreci-las mediante uma anlise mais rigorosa dos casos individuais. Mas todos os detalhes dessa segunda 
fase de atividade sexual infantil deixam atrs de si as mais profundas marcas (inconscientes) na memria da pessoa, determinam o desenvolvimento de seu carter, 
caso ela permanea sadia, e a sintomatologia de sua neurose, caso venha a adoecer depois da puberdade. Nesta ltima eventualidade, constatamos que esse perodo sexual 
foi esquecido e que as lembranas conscientes que o testemunham foram deslocadas; j afirmei que eu tambm vincularia a amnsia infantil normal com essa atividade 
sexual infantil. Atravs da investigao psicanaltica  possvel tornar consciente o esquecido e, desse modo, eliminar uma compulso que provm do material psquico 
inconsciente.
         
         O RETORNO DA MASTURBAO DA LACTNCIA
         
         A excitao sexual do perodo de lactncia retorna nos anos infantis j indicados, seja como um estmulo de prurido centralmente condicionado, que exorta 
a uma satisfao masturbatria, seja como um processo da natureza de uma poluo, que, em analogia com as polues da maturidade, chega  satisfao sem a ajuda 
de ao alguma. Este ltimo caso  o mais freqente nas meninas e na segunda metade da infncia; no  inteiramente compreensvel em termos do que o condiciona e, 
muitas vezes, embora no regularmente, parece ter como premissa um perodo anterior de onanismo ativo. A sintomatologia dessas manifestaes sexuais  escassa; o 
que d sinal do aparelho sexual ainda no desenvolvido , na maioria das vezes, o aparelho urinrio, que funciona, por assim dizer, como tutor dele. A maioria dos 
chamados distrbios vesicais dessa poca so perturbaes sexuais; a enurese noturna, quando no representa um ataque epiltico, corresponde a uma poluo.
         
         Para o reaparecimento da atividade sexual so decisivas as causas internas e as contingncias externas, ambas as quais podem ser inferidas, nos casos de 
doena neurtica, a partir da forma dos sintomas, sendo descobertas com certeza atravs da investigao psicanaltica. Sobre as causas internas falaremos mais adiante; 
as contingncias fortuitas externas ganham nesse perodo uma importncia grande e duradoura. Em primeiro plano situa-se a influncia da seduo, que trata a criana 
prematuramente como um objeto sexual e que, em circunstncias que causam forte impresso, ensina-a a conhecer a satisfao das zonas genitais - uma satisfao que 
ela fica quase sempre obrigada a renovar pelo onanismo. Tal influncia pode provir de adultos ou de outras crianas; no me  possvel admitir que, em meu ensaio 
sobre "A Etiologia da Histeria" (1896c), eu tenha superestimado sua freqncia ou sua importncia, embora eu ainda no soubesse, na poca, que os indivduos que 
permanecem normais podem ter tido na infncia as mesmas experincias, e por isso tenha dado maior valor  seduo do que aos fatores da constituio e do desenvolvimento 
sexuais.  evidente que a seduo no  necessria para despertar a vida sexual da criana, podendo esse despertar surgir tambm, espontaneamente, de causas internas.
         
         DISPOSIO PERVERSA POLIMORFA
         
          instrutivo que a criana, sob a influncia da seduo, possa tornar-se perversa polimorfa e ser induzida a todas as transgresses possveis. Isso mostra 
que traz em sua disposio a aptido para elas; por isso sua execuo encontra pouca resistncia, j que, conforme a idade da criana, os diques anmicos contra 
os excessos sexuais - a vergonha, o asco e a moral - ainda no foram erigidos ou esto em processo de construo. Nesse aspecto, a criana no se comporta de maneira 
diversa da mulher inculta mdia, em quem se conserva a mesma disposio perversa polimorfa. Em condies usuais, ela pode permanecer sexualmente normal, mas, guiada 
por um sedutor habilidoso, ter gosto em todas as perverses e as reter em sua atividade sexual. Essa mesma disposio polimorfa, e portanto infantil,  tambm 
explorada pelas prostitutas no exerccio de sua profisso, e no imenso nmero de mulheres prostitudas ou em quem se deve supor uma aptido para a prostituio, 
embora tenham escapado ao exerccio dela,  impossvel no reconhecer nessa tendncia uniforme a toda sorte de perverses algo que  universalmente humano e originrio.
         
         PULSES PARCIAIS
         
         De resto, a influncia da seduo no ajuda a revelar as circunstncias iniciais da pulso sexual, mas antes confunde nossa viso dela, uma vez que apresenta 
prematuramente  criana um objeto sexual de que, a princpio, a pulso sexual infantil no mostra nenhuma necessidade. Contudo, devemos admitir que tambm a vida 
sexual infantil, apesar da dominao preponderante das zonas ergenas, exibe componentes que desde o incio envolvem outras pessoas como objetos sexuais. Dessa natureza 
so as pulses do prazer de olhar e de exibir, bem como a de crueldade, que aparecem com certa independncia das zonas ergenas e s mais tarde entram em relaes 
estreitas com a vida genital, mas que j na infncia se fazem notar como aspiraes autnomas, inicialmente separadas da atividade sexual ergena. A criana pequena 
, antes de mais nada, desprovida de vergonha, e em certos perodos de seus primeiros anos mostra uma satisfao inequvoca no desnudamento do corpo, com nfase 
especial nas partes sexuais. A contrapartida dessa inclinao tida como perversa - a curiosidade de ver a genitlia de outras pessoas - provavelmente s se torna 
manifesta um pouco mais tarde na infncia, quando o obstculo do sentimento de vergonha j atingiu certo desenvolvimento. Sob a influncia da seduo, a perverso 
de ver pode alcanar grande importncia na vida sexual da criana. Entretanto, minhas investigaes da meninice tanto de pessoas sadias quanto de doentes neurticos 
foram-me a concluir que a pulso de ver pode surgir na criana como uma manifestao sexual espontnea. As crianas pequenas cuja ateno foi atrada, em algum 
momento, para sua prpria genitlia - geralmente pela masturbao - costumam dar o passo adicional sem ajuda externa e desenvolver um vivo interesse pelos genitais 
de seus coleguinhas. Dado que as oportunidades de satisfazer tal curiosidade em geral s se apresentam quando da satisfao das duas necessidades excrementcias, 
tais crianas tornam-se voyeurs, zelosos espectadores da mico e da defecao de outrem. Uma vez sobrevindo o recalcamento dessas inclinaes, a curiosidade de 
ver a genitlia alheia (seja do mesmo sexo ou do sexo oposto) persiste como uma presso torturante, que em muitos casos de neurose fornece, posteriormente, a mais 
poderosa fora impulsora para a formao do sintoma.
         
         Com independncia ainda maior das outras atividades sexuais vinculadas s zonas ergenas desenvolve-se na criana o componente de crueldade da pulso sexual. 
A crueldade  perfeitamente natural no carter infantil, j que a trava que faz a pulso de dominao deter-se ante a dor do outro - a capacidade de compadecer-se 
- tem um desenvolvimento relativamente tardio.  sabido que ainda no se teve xito na anlise psicolgica exaustiva dessa pulso; podemos supor que o impulso cruel 
provenha da pulso de dominao e surja na vida sexual numa poca em que os genitais ainda no assumiram seu papel posterior. Assim, ela domina uma fase da vida 
sexual que mais adiante descreveremos como organizao pr-genital. As crianas que se distinguem por uma crueldade peculiar para com os animais e os companheiros 
despertam, em geral justificadamente, a suspeita de uma atividade sexual intensa e precoce advinda das zonas ergenas, e mesmo no amadurecimento precoce e simultneo 
de todas as pulses sexuais, a atividade sexual ergena parece ser primria. A ausncia da barreira da compaixo traz consigo o risco de que esse vnculo estabelecido 
na infncia entre as pulses cruis e as ergenas torne-se depois indissolvel na vida.
         
         Desde as Confisses de Jean Jacques Rousseau, a estimulao dolorosa da pele das ndegas tem sido reconhecida por todos os educadores como uma das razes 
ergenas da pulso passiva de crueldade (masoquismo). Disso eles concluram com acerto que o castigo corporal, que quase sempre incide nessa parte do corpo, deve 
ser evitado em todas as crianas cuja libido, atravs das exigncias posteriores da educao cultural, possa ser forada para vias colaterais.
         
         (5) A INVESTIGAO SEXUAL INFANTIL
         
         A PULSO DE SABER
         
         Ao mesmo tempo em que a vida sexual da criana chega a sua primeira florescncia, entre os trs e os cinco anos, tambm se inicia nela a atividade que se 
inscreve na pulso de saber ou de investigar. Essa pulso no pode ser computada entre os componentes pulsionais elementares, nem exclusivamente subordinada  sexualidade. 
Sua atividade corresponde, de um lado, a uma forma sublimada de dominao e, de outro, trabalha com a energia escopoflica. Suas relaes com a vida sexual entretanto, 
so particularmente significativas, j que constatamos pela psicanlise que, na criana, a pulso de saber  atrada, de maneira insuspeitadamente precoce e inesperadamente 
intensa, pelos problemas sexuais, e talvez seja at despertada por eles.
         
         O ENIGMA DA ESFINGE
         
         No so interesses tericos, mas prticos, que pem em marcha a atividade investigatria na criana. A ameaa trazida para suas condies existenciais pela 
chegada conhecida ou suspeitada de um novo beb, assim como o medo de que esse acontecimento traga consigo a perda de cuidados e de amor, tornam a criana pensativa 
e perspicaz. O primeiro problema de que ela se ocupa, em consonncia com essa histria do despertar da pulso de saber, no  a questo da diferena sexual, e sim 
o enigma; de onde vm os bebs? Numa distoro facilmente anulvel, esse  tambm o enigma proposto pela Esfinge de Tebas. Ao contrrio, o fato de existirem dois 
sexos  inicialmente aceito pela criana sem nenhuma rebeldia ou hesitao. Para o menino,  natural presumir uma genitlia igual  sua em todas as pessoas que ele 
conhece, sendo-lhe impossvel conjugar a falta dela com sua representao dessas outras pessoas.
         
         COMPLEXO DE CASTRAO E INVEJA DO PNIS
         
         Essa convico  energicamente sustentada pelos meninos, obstinadamente defendida contra a tradio que logo resulta da observao, e somente abandonada 
aps srias lutas internas (o complexo de castrao). As formaes substitutivas desse pnis perdido das mulheres desempenham um grande papel na forma assumida pelas 
diversas perverses.
         
         A suposio de uma genitlia idntica (masculina) em todos os seres humanos  a primeira das notveis e momentosas teorias sexuais infantis. Tem pouca serventia 
para a criana que a cincia biolgica d razo a seu preconceito e tenha de reconhecer o clitris feminino como um autntico substituto do pnis. J a garotinha 
no incorre em semelhantes recusas ao avistar os genitais do menino, com sua conformao diferente. Est pronta a reconhec-lo de imediato e  tomada pela inveja 
do pnis, que culmina no desejo de ser tambm um menino, to importante em suas conseqncias.
         
         TEORIAS DO NASCIMENTO
         
         Muitas pessoas recordam com clareza a intensidade com que se interessaram, no perodo pr-pbere, pela questo da provenincia dos bebs. As solues anatmicas 
ento concebidas foram dos mais diversos tipos: eles sairiam do seio, ou se recortariam do ventre, ou o umbigo se abriria para deix-los passar. Fora da anlise, 
 muito raro haver lembranas de uma investigao correspondente nos primeiros anos da infncia; h muito ela sucumbiu ao recalcamento, mas seus resultados so uniformes: 
os filhos chegam quando se come determinada coisa (como nos contos de fadas) e nascem pelo intestino, como na eliminao de fezes. Essas teorias infantis fazem lembrar 
condies existentes no reino animal, sobretudo a cloaca dos tipos de animais inferiores aos mamferos.
         
         A CONCEPO SDICA DA RELAO SEXUAL
         
         Quando as crianas em to tenra idade assistem  relao sexual entre adultos, o que  ensejado pela convico dos mais velhos de que a criana pequena 
no pode entender nada de sexual, elas no podem deixar de conceber o ato sexual como uma espcie de sevcia ou subjugao, ou seja, de encar-lo num sentido sdico. 
A psicanlise tambm nos permite verificar que uma impresso dessa natureza na primeira infncia contribui em muito para a predisposio a um deslocamento sdico 
posterior do alvo sexual. Ademais, as crianas se ocupam muito com o problema de saber em que consiste a relao sexual, ou, como dizem elas, em que consiste ser 
casado, e costumam buscar a soluo do mistrio em alguma atividade conjunta proporcionada pelas funes de mico ou defecao.
         
         O FRACASSO TPICO DA INVESTIGAO SEXUAL INFANTIL
         
         Em geral, pode-se dizer das teorias sexuais infantis que elas so reflexos da prpria constituio sexual da criana, e que, apesar de seus erros grotescos, 
testemunham uma maior compreenso dos processos sexuais do que se pretenderia de seus criadores. As crianas tambm percebem as alteraes provocadas na me pela 
gravidez e sabem interpret-las corretamente; a fbula da cegonha  amide contada a uma platia que a recebe com desconfiana profunda, embora quase sempre silenciosa. 
Mas como dois elementos permanecem desconhecidos na investigao sexual infantil, a saber, o papel do smen fecundante e a existncia do orifcio sexual feminino 
- os mesmos pontos, alis, em que a organizao sexual infantil ainda est atrasada -, os esforos do pequeno investigador so geralmente infrutferos, e acabam 
numa renncia que no raro deixa como seqela um prejuzo permanente para a pulso de saber. A investigao sexual desses primeiros anos da infncia  sempre feita 
na solido; significa um primeiro passo para a orientao autnoma no mundo e estabelece um intenso alheamento da criana frente s pessoas de seu meio que antes 
gozavam de sua total confiana.
         
         (6) AS FASES DE DESENVOLVIMENTO DA ORGANIZAO SEXUAL
         
         At agora, destacamos como caractersticas da vida sexual infantil o fato de ela ser essencialmente auto-ertica (seu objeto encontra-se no prprio corpo) 
e de suas pulses parciais serem inteiramente desvinculadas e independentes entre si em seus esforos pela obteno de prazer. O desfecho do desenvolvimento constitui 
a chamada vida sexual normal do adulto, na qual a obteno de prazer fica a servio da funo reprodutora, e as pulses parciais, sob o primado de uma nica zona 
ergena, formam uma organizao slida para a consecuo do alvo sexual num objeto sexual alheio.
         
         ORGANIZAESPR-GENITAIS
         
         O estudo das inibies e perturbaes desse processo de desenvolvimento, com a ajuda da psicanlise, permite-nos identificar os rudimentos e etapas preliminares 
de tal organizao das pulses parciais, que ao mesmo tempo resultam numa espcie de regime sexual. Essas fases da organizao sexual so normalmente atravessadas 
sem dificuldade, revelando-se apenas por alguns indcios. Somente nos casos patolgicos  que so ativadas e se tornam passveis de conhecimento pela observao 
grosseira.
         
         Chamaremos pr-genitais s organizaes da vida sexual em que as zonas genitais ainda no assumiram seu papel preponderante. At aqui tomamos conhecimento 
de duas delas, que do a impresso de constituir recadas em estados anteriores da vida animal.
         
         A primeira dessas organizaes sexuais pr-genitais  a oral, ou, se preferirmos, canibalesca. Nela, a atividade sexual ainda no se separou da nutrio, 
nem tampouco se diferenciaram correntes opostas em seu interior. O objeto de uma atividade  tambm o da outra, e o alvo sexual consiste na incorporao do objeto 
- modelo do que mais tarde ir desempenhar, sob a forma da identificao, um papel psquico to importante. Como resduo dessa hipottica fase de organizao que 
nos foi imposta pela patologia podemos ver o chuchar, no qual a atividade sexual, desligada da atividade de alimentao, renunciou ao objeto alheio em troca de um 
objeto situado no prprio corpo.
         
         Uma segunda fase pr-genital  a da organizao sdico-anal. Nela, a diviso em opostos que perpassa a vida sexual j se constituiu, mas eles ainda no 
podem ser chamados de masculino e feminino, e sim ativo e passivo. A atividade  produzida pela pulso de dominao atravs da musculatura do corpo, e como rgo 
do alvo sexual passivo o que se faz valer , antes de mais nada, a mucosa ergena do intestino; mas h para essas duas aspiraes opostas objetos que no coincidem. 
Ao lado disso, outras pulses parciais atuam de maneira auto-ertica. Nessa fase, portanto, j  possvel demonstrar a polaridade sexual e o objeto alheio, faltando 
ainda a organizao e a subordinao  funo reprodutora.
         
         AMBIVALNCIA
         
         Essa forma da organizao sexual pode conservar-se por toda a vida e atrair permanentemente para si uma boa parcela da atividade sexual. O predomnio do 
sadismo e o papel de cloaca desempenhado pela zona anal conferem-lhe um cunho singularmente arcaico. Como caracterstica adicional,  prprio dela que os pares opostos 
de pulses estejam desenvolvidos de maneira aproximadamente igual, num estado de coisas descrito pela oportuna designao de "ambivalncia", introduzida por Bleuler.
         
         A hiptese das organizaes pr-genitais da vida sexual repousa na anlise das neuroses e  difcil apreci-la independentemente do conhecimento destas. 
Podemos esperar que a continuidade dos esforos analticos venha a fornecer-nos muito mais informaes sobre a estrutura e o desenvolvimento da funo sexual normal.
         
         Para completar o quadro da vida sexual infantil,  preciso acrescentar que, com freqncia ou regularmente, j na infncia se efetua uma escolha objetal 
como a que mostramos ser caracterstica da fase de desenvolvimento da puberdade, ou seja, o conjunto das aspiraes sexuais orienta-se para uma nica pessoa, na 
qual elas pretendem alcanar seus objetivos. Na infncia, portanto, essa  a maior aproximao possvel da forma definitiva assumida pela vida sexual depois da puberdade. 
A diferena desta ltima reside apenas em que a concentrao das pulses parciais e sua subordinao ao primado da genitlia no so conseguidas na infncia, ou 
s o so de maneira muito incompleta. Assim, o estabelecimento desse primado a servio da reproduo  a ltima fase por que passa a organizao sexual.
         
         OS DOIS TEMPOS DA ESCOLHA OBJETAL
         
         Pode-se considerar como ocorrncia tpica que a escolha de objeto se efetue em dois tempos, em duas ondas. A primeira delas comea entre os dois e os cinco 
anos e retrocede ou  detida pelo perodo de latncia; caracteriza-se pela natureza infantil de seus alvos sexuais. A segunda sobrevm com a puberdade e determina 
a configurao definitiva da vida sexual.
         
         Mas a existncia da bitemporalidade da escolha objetal, que se reduz essencialmente ao efeito do perodo de latncia,  de suma importncia para o desarranjo 
desse estado final. Os resultados da escolha objetal infantil prolongam-se pelas pocas posteriores; ou se conservam como tal ou passam por uma renovao na poca 
da puberdade. Contudo, revelam-se inutilizveis, em conseqncia do recalcamento que se desenvolve entre as duas fases. Seus alvos sexuais foram amenizados e agora 
representam o que se pode descrever como a corrente de ternura da vida sexual. Somente a investigao psicanaltica pode demonstrar que, por trs dessa ternura, 
dessa venerao e respeito, ocultam-se as antigas aspiraes sexuais, agora imprestveis, das pulses parciais infantis. A escolha de objeto da poca da puberdade 
tem de renunciar aos objetos infantis e recomear como uma corrente sensual. A no confluncia dessas duas correntes tem como conseqncia, muitas vezes, a impossibilidade 
de se alcanar um dos ideais da vida sexual - a conjugao de todos os desejos num nico objeto.
         
         (7) AS FONTES DA SEXUALIDADE INFANTIL
         
         No esforo de rastrear as origens da pulso sexual, descobrimos at agora que a excitao sexual nasce (a) como a reproduo de uma satisfao vivenciada 
em relao a outros processos orgnicos, (b) pela estimulao perifrica apropriada das zonas ergenas, e (c) como expresso de algumas "pulses" que ainda no nos 
so inteiramente compreensveis em sua origem, como a pulso de ver e a pulso para a crueldade. A investigao psicanaltica, que retrocede de uma poca posterior 
para a infncia, e a observao contempornea da criana conjugam-se para nos apontar outras fontes que fluem regularmente para a excitao sexual. A observao 
de crianas tem a desvantagem de trabalhar com dados facilmente passveis de mal-entendidos, e a psicanlise  dificultada pelo fato de s poder chegar a seus dados 
e concluses depois de longos rodeios; em cooperao, entretanto, os dois mtodos obtm um grau satisfatrio de certeza de conhecimentos.
         
         Pela investigao das zonas ergenas, j descobrimos que essas regies da pele meramente mostram uma intensificao especial de um tipo de estimulabilidade 
que, em certo grau,  prprio de toda a superfcie cutnea. Portanto, no nos surpreender constatar que  possvel atribuir efeitos ergenos muito claros a certos 
tipos de estimulao geral da pele. Entre esses, destacamos acima de tudo os estmulos trmicos, o que talvez facilite nossa compreenso do efeito teraputico dos 
banhos quentes.
         
         EXCITAES MECNICAS
         
         Devemos ainda arrolar aqui a produo de excitao sexual pela agitao mecnica e ritmada do corpo, na qual devemos distinguir trs formas de atuao estimulatria: 
no aparato sensorial dos nervos vestibulares, na pele e nas reas profundas (msculos, aparelho articular). A existncia das sensaes prazerosas assim geradas - 
vale enfatizar que  lcito empregarmos indistintamente, numa vasta medida, "excitao sexual" e "satisfao", cabendo-nos o dever de buscar mais adiante uma explicao 
para isso [ver em [1]]-, a existncia dessas sensaes prazerosas, produzidas por certos tipos de agitao mecnica do corpo,  confirmada pelo fato de as crianas 
gostarem tanto das brincadeiras de movimento passivo, como serem balanadas e jogadas para o alto, e de pedirem incessantemente que sejam repetidas. Sabe-se que 
 costumeiro usar o recurso de embalar as crianas inquietas para faz-las adormecer. O balano das carruagens e, mais tarde, das viagens de trem exerce um efeito 
to fascinante nas crianas mais velhas que pelo menos todos os meninos, em algum momento da vida, quiseram ser condutores de trem ou cocheiros quando crescessem. 
Eles dedicam um intrigante interesse de extraordinria intensidade a tudo o que se relaciona com as ferrovias, e, na idade em que se ativa a fantasia (pouco antes 
da puberdade), fazem disso o ncleo de um simbolismo singularmente sexual.  evidente que a compulso a estabelecer tal vnculo entre as viagens ferrovirias e a 
sexualidade provm do carter prazeroso das sensaes de movimento. Sobrevindo ento o recalcamento, que converte tantas das predilees infantis em seu oposto, 
essas mesmas pessoas, quando adolescentes ou adultas, reagiro com nuseas aos balanos e sacolejos, ficaro terrivelmente esgotadas pelas viagens de trem, ou tendero 
a sofrer ataques de angstia nas viagens, protegendo-se da repetio dessa experincia dolorosa atravs de um pavor das ferrovias.
         
         Alinha-se aqui o fato, ainda no compreendido, de que a conjugao do susto com a agitao mecnica produz a grave neurose traumtica histeriforme. Podemos 
ao menos supor que essas influncias, que numa intensidade nfima transformam-se em fontes de excitao sexual, provoquem, em medida excessiva, uma profunda desordem 
no mecanismo ou na qumica sexual.
         
         ATIVIDADE MUSCULAR
         
          sabido que a atividade muscular intensa , para a criana, uma necessidade de cuja satisfao ela extrai um prazer extraordinrio. Se esse prazer tem 
algo a ver com a sexualidade, se encerra em si mesmo uma satisfao sexual, ou se pode converter-se no ensejo de uma excitao sexual, tudo isso  passvel de consideraes 
crticas que, de fato, podem tambm apontar contra a colocao contida nos pargrafos precedentes, a saber, que o prazer extrado das sensaes de movimento passivo 
 de natureza sexual ou produz excitao sexual. Mas o fato  que uma srie de pessoas informa ter vivenciado os primeiros sinais de excitao em sua genitlia no 
curso de brigas ou lutas com seus companheiros de brincadeiras, situao na qual, alm do esforo muscular generalizado, h ainda um estreito contato com a pele 
do oponente. A tendncia a travar lutas musculares com determinada pessoa, bem como, em pocas posteriores, a inclinao s disputas verbais ["Provoca-se o que se 
ama"] so um bom sinal de que a escolha de objeto recaiu sobre essa pessoa. Na promoo da excitao sexual atravs da atividade muscular caberia reconhecer uma 
das razes da pulso sdica. Em muitos indivduos, a vinculao infantil entre as lutas corporais e a excitao sexual  co-determinante da orientao privilegiada 
que assumir, mais tarde, sua pulso sexual.
         
         PROCESSOS AFETIVOS
         
         Menores so as dvidas a que ficam sujeitas as outras fontes de excitao sexual na criana.  fcil demonstrar, tanto pela observao contempornea quanto 
pela investigao posterior, que todos os processos afetivos mais intensos, inclusive as excitaes assustadoras, propagam-se para a sexualidade, o que, alis, pode 
contribuir para a compreenso do efeito patognico de tais abalos anmicos. Nos escolares, o pavor de fazer uma prova ou a tenso diante de uma tarefa difcil de 
solucionar podem ser importantes no s para seu relacionamento com a escola, mas tambm para a irrupo de manifestaes sexuais, na medida em que, nessas circunstncias, 
 muito freqente surgir uma sensao estimuladora que incita ao contato com a genitlia, ou ainda um processo da natureza de uma poluo, como todas as suas conseqncias 
desconcertantes. O comportamento das crianas na escola, que prope aos professores um nmero bastante grande de enigmas, merece, em geral, ser relacionado com o 
desabrochar de sua sexualidade. O efeito sexualmente excitante de muitos afetos que em si so desprazerosos, tais como a angstia, o medo ou o horror, conserva-se 
num grande nmero de seres humanos por toda a vida, e sem dvida explica por que tantas pessoas correm atrs da oportunidade de vivenciar tais sensaes, desde que 
haja apenas certas circunstncias secundrias (a pertena a um mundo imaginrio,  leitura ou ao teatro) para atenuar a gravidade da sensao desprazerosa.
         
         Presumindo-se que tambm as sensaes de dor intensa provoquem o mesmo efeito ergeno, sobretudo quando a dor  abrandada ou mantida a distncia por alguma 
condio concomitante, estaria nessa vinculao uma das principais razes da pulso sadomasoquista, de cujas mltiplas complexidades vamos assim ganhando aos poucos 
algum discernimento.
         
         TRABALHO INTELECTUAL
         
         Por fim,  inequvoco que a concentrao da ateno numa tarefa intelectual, bem como o esforo intelectual em geral, tm por conseqncia produzir em muitas 
pessoas, tanto jovens quanto adultas, uma excitao sexual concomitante, o que por certo constitui a nica base justificvel para a to duvidosa prtica de derivar 
as perturbaes nervosas do "excesso de trabalho" intelectual.
         
         Correndo agora os olhos por essas provas e indcios fornecidos sobre as fontes da excitao sexual infantil, e que no foram completos nem exaustivos, podemos 
vislumbrar ou reconhecer os seguintes traos universais: parece que as mais abundantes providncias so tomadas para que o processo da excitao sexual - cuja natureza 
decerto se tornou bastante enigmtica para ns - seja posto em andamento. Cuidam disso, antes de mais nada, e de maneira mais ou menos direta, as excitaes das 
superfcies sensveis - a pele e os rgos sensoriais -, e, da maneira mais imediata, a influncia dos estmulos sobre certas reas designadas como zonas ergenas. 
O elemento decisivo nessas fontes de excitao sexual , sem dvida, a qualidade do estmulo, embora o fator da intensidade (no caso da dor) no seja de todo indiferente. 
Alm disso, porm, existem no organismo dispositivos cuja conseqncia  fazer com que a excitao sexual surja como um efeito concomitante num grande nmero de 
processos internos, to logo a intensidade desses processos ultrapasse certos limites quantitativos. O que chamamos de pulses parciais da sexualidade deriva diretamente 
dessas fontes internas da excitao sexual , ou ento se compe de contribuies vindas dessas fontes e das zonas ergenas.  possvel que nada de maior importncia 
ocorra no organismo sem fornecer seus componentes para a excitao da pulso sexual.
         
         No me parece possvel, no momento, trazer maior clareza e segurana a essas proposies gerais, e responsabilizo dois fatores por isso: primeiro, a novidade 
de todo o mtodo de abordagem, e segundo, a circunstncia de a natureza da excitao sexual ser-nos inteiramente desconhecida. Ainda assim, eu no gostaria de renunciar 
a duas observaes que prometem abrir-nos amplas perspectivas: 
         
         AS DIFERENTES CONSTITUIES SEXUAIS
         
         (a) Assim como antes vimos ser possvel (ver em [1] e [2]) basear uma multiplicidade de constituies sexuais inatas na formao diferenciada das zonas 
ergenas, podemos agora experimentar a mesma coisa com a incluso das fontes indiretas de excitao sexual. Podemos presumir que essas fontes faam contribuies 
em todos os indivduos, mas no tenham em todas as pessoas a mesma intensidade, e que na conformao privilegiada de cada fonte da excitao sexual situe-se outra 
contribuio para diferenciar as diversas constituies sexuais.
         
         VIAS DE INFLUNCIA RECPROCA
         
         (b) Se abandonarmos a expresso figurada a que nos apegamos por tanto tempo ao falar em "fontes" da excitao sexual, poderemos chegar  hiptese de que 
todas as vias de ligao que levam  sexualidade, vindo de outras funes, devem tambm ser percorrveis na direo inversa. Por exemplo, se o fato de a zona labial 
ser patrimnio comum de duas funes  a razo por que a ingesto de alimentos gera uma satisfao sexual, esse mesmo fator nos permite compreender que haja distrbios 
na nutrio quando as funes ergenas da zona comum so perturbadas. E, uma vez, que sabemos que a concentrao de ateno  capaz de provocar excitao sexual, 
somos levados a supor que, atuando pela mesma via s que em sentido inverso, o estado de excitao sexual pode influenciar a disponibilidade de ateno dirigvel 
a algo. Boa parte da sintomatologia das neuroses, que deduzo das perturbaes nos processos sexuais, expressa-se em perturbaes de outras funes no-sexuais do 
corpo; essa circunstncia, at agora incompreensvel, torna-se menos enigmtica quando se considera que representa apenas a contrapartidadas influncias sob as quais 
se d a produo da excitao sexual.
         
         Mas as mesmas vias pelas quais as perturbaes sexuais se propagam para as outras funes do corpo devem tambm prestar, na sade, um outro importante servio. 
Por elas se daria a atrao das foras pulsionais da sexualidade para outros alvos no-sexuais, ou seja, a sublimao da sexualidade. Mas devemos encerrar com a 
confisso de que  ainda muito pouco o que se conhece com certeza sobre essas vias, que sem dvida existem e provavelmente so percorrveis em ambas as direes.
         
         AS TRANSFORMAES DA PUBERDADE
         
         Com a chegada da puberdade introduzem-se as mudanas que levam a vida sexual infantil a sua configurao normal definitiva. At esse momento, a pulso sexual 
era predominantemente auto-ertica; agora, encontra o objeto sexual. At ali, ela atuava partindo de pulses e zonas ergenas distintas que, independendo umas das 
outras, buscavam um certo tipo de prazer como alvo sexual exclusivo. Agora, porm, surge um novo alvo sexual para cuja consecuo todas as pulses parciais se conjugam, 
enquanto as zonas ergenas subordinam-se ao primado da zona genital. Posto que o novo alvo sexual atribui aos dois sexos funes muito diferentes, o desenvolvimento 
sexual de ambos passa agora a divergir muito. O do homem  o mais conseqente e tambm o mais facilmente acessvel a nossa compreenso, enquanto o da mulher representa 
at mesmo uma espcie de involuo. A normalidade da vida sexual s  assegurada pela exata convergncia das duas correntes dirigidas ao objeto sexual e  meta sexual: 
a de ternura e a sensual. A primeira destas comporta em si o que resta da primitiva eflorescncia infantil da sexualidade.  como a travessia de um tnel perfurado 
desde ambas as extremidades.
         
         O novo alvo sexual do homem consiste na descarga dos produtos sexuais; o anterior - a obteno do prazer - de modo algum lhe  estranho, mas antes, o mais 
alto grau de prazer se vincula a esse ato ltimo do processo sexual. A pulso sexual coloca-se agora a servio da funo reprodutora; torna-se altrusta, por assim 
dizer. Para que essa transformao tenha xito,  preciso contar, em seu processo, com as disposies originrias e com todas as particularidades das pulses.
         
         Como em todas as outras ocasies em que se devem realizar no organismo novas combinaes e composies que levam a mecanismos complexos, tambm aqui h 
uma oportunidade para perturbaes patolgicas, caso essas reordenaes no se realizem. Todas as perturbaes patolgicas da vida sexual devem ser consideradas, 
justificadamente, como inibies do desenvolvimento.
         
         (1) O PRIMADO DAS ZONAS GENITAIS E O PR-PRAZER
         
         O ponto de partida e o alvo final do processo de desenvolvimento aqui descrito so claros a nossos olhos. As transies intermedirias ainda nos so obscuras 
em muitos aspectos; teremos de deixar subsistir nelas mais de um enigma.
         
         Escolheu-se o que mais se destaca nos processos da puberdade como o que constitui sua essncia: o crescimento manifesto da genitlia externa, que exibira, 
durante o perodo de latncia da infncia, uma relativa inibio. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento dos genitais internos avanou o bastante para que eles possam 
descarregar produtos sexuais ou, conforme o caso, receb-los para promover a formao de um novo ser vivo. Assim ficou pronto um aparelho altamente complexo,  espera 
do momento em que ser utilizado.
         
         Esse aparelho deve ser acionado por estmulos, e a observao nos permite saber que os estmulos podem afet-los por trs caminhos: vindo do mundo externo, 
mediante a excitao das zonas ergenas j conhecidas, do interior do organismo, por vias que ainda temos de explorar, e da vida anmica, que por sua vez  um repositrio 
de impresses externas e um receptor de excitaes internas. Pelos trs caminhos provoca-se o mesmo efeito, ou seja, um estado que se designa como "excitao sexual" 
e que se exprime por dois tipos de sinais, anmicos e somticos. O indcio anmico consiste num sentimento peculiar de tenso, de carter extremamente premente; 
entre os mltiplos indcios corporais situa-se, em primeiro lugar, uma srie de alteraes nos genitais, como o inequvoco sentido de serem disposies preliminares, 
preparativos para o ato sexual (a ereo do membro masculino e a umidificao da vagina).
         
         TENSO SEXUAL
         
         O carter de tenso da excitao sexual suscita um problema cuja soluo  to difcil quanto seria importante para a compreenso dos processos sexuais. 
Apesar de todas as diferenas de opinio que reinam sobre esse ponto na psicologia, devo insistir em que um sentimento de tenso tem de trazer em si o carter de 
desprazer. Para mim, o decisivo  que tal sentimento traz consigo uma presso para alterar a situao psquica, impulsiona de uma maneira que  totalmente estranha 
 natureza do prazer sentido. Mas, se a tenso da excitao sexual for computada como um sentimento de desprazer, esbarraremos no fato de que ela  inequivocamente 
experimentada como prazerosa. Sempre que  produzida por processos sexuais, a tenso faz-se acompanhar pelo prazer, at mesmo nas alteraes preparatrias dos genitais 
evidencia-se uma espcie de satisfao. Como, ento, relacionar essa tenso desprazerosa com esse sentimento de prazer?
         
         Tudo o que se relaciona com o problema do prazer e do desprazer toca num dos pontos mais sensveis da psicologia atual. Procuraremos aprender o mximo possvel 
a partir das condies do caso em pauta e evitar qualquer abordagem mais estreita do problema em sua totalidade.
         
         Lancemos primeiramente um olhar para o modo como as zonas ergenas se encaixam na nova ordem. Sobre elas recai um papel importante na introduo da excitao 
sexual. O olho, talvez o ponto mais afastado do objeto sexual,  o que com mais freqncia pode ser estimulado, na situao de cortejar um objeto, pela qualidade 
peculiar cuja causa no objeto sexual costuma ser chamada de "beleza". Da se chamarem "atrativos" os mritos do objeto sexual. A essa estimulao j se liga, por 
um lado, um prazer, e pelo outro ela tem como conseqncia um aumento da excitao sexual ou a produo dela, caso ainda esteja faltando. Se a isso vem somar-se 
a excitao de outra zona ergena, por exemplo, a da mo que  tocada, o efeito  o mesmo: uma sensao de prazer, de um lado, que logo se intensifica pelo prazer 
proveniente das alteraes preparatrias [da genitlia], e, de outro, um aumento da tenso sexual, que logo se converte no mais evidente desprazer quando no lhe 
 permitido o acesso a um prazer ulterior. Talvez mais transparente ainda seja um outro caso: por exemplo, quando se estimula por contato, numa pessoa no excitada 
sexualmente, uma dada zona ergena, digamos, a pele do seio de uma mulher. Esse contato logo provoca uma sensao prazerosa, mas, ao mesmo tempo, presta-se como 
nenhum outro para despertar uma excitao sexual que exige um aumento do prazer. O problema est justamente em saber como  que o prazer vivenciado pode despertar 
a necessidade de um prazer ainda maior.
         
         O MECANISMO DO PR-PRAZER
         
         Ora, o papel desempenhado nisso pelas zonas ergenas  claro. O que vale para uma delas vale para todas. Elas so todas usadas para proporcionar, mediante 
sua estimulao apropriada, um certo aumento do prazer; este leva a um acrscimo de tenso que, por sua vez, tem de produzir a energia motora necessria para levar 
a cabo o ato sexual. A penltima etapa desse ato, mais uma vez,  a estimulao apropriada de uma zona ergena (a prpria zona genital, na glande peniana) pelo objeto 
mais adequado para isso (a mucosa da vagina); e do prazer gerado por essa excitao obtm-se, dessa vez por via reflexa, a energia motora requerida para a expulso 
das substncias sexuais. Esse ltimo prazer  o de intensidade mais elevada e difere dos anteriores por seu mecanismo.  inteiramente provocado pela descarga: em 
sua totalidade,  um prazer de satisfao, e com ele se extingue temporariamente a tenso da libido.
         
         No me parece injustificvel fixar atravs de uma denominao essa diferena de natureza entre o prazer advindo da excitao das zonas ergenas e o que 
 produzido pela expulso das substncias sexuais. O primeiro pode ser convenientemente designado de pr-prazer, em oposio ao prazer final ou prazer de satisfao 
da atividade sexual. O pr-prazer, portanto,  o mesmo que j pudera ser produzido, embora em menor escala, pela pulso sexual infantil; o prazer final  novo e, 
portanto, provavelmente est ligado a condies que s surgem na puberdade. A frmula para a nova funo das zonas ergenas tem, assim, o seguinte teor: elas so 
empregadas para possibilitar, por meio do pr-prazer delas extrado, como na infncia, a produo do prazer maior da satisfao.
         
         Pude recentemente elucidar outro exemplo, retirado de uma esfera muito diferente do acontecer anmico, em que se alcana igualmente um efeito maior de prazer 
atravs de uma sensao prazerosa insignificante, que atua, assim, como um prmio de incentivo. Surgiu tambm ali a oportunidade de nos aprofundarmos mais na natureza 
do prazer.
         
         OS PERIGOS DO PR-PRAZER
         
         A ligao do pr-prazer com a vida sexual infantil, entretanto,  corroborada pelo papel patognico que pode competir a ele. Do mecanismo em que est includo 
o pr-prazer pode resultar, evidentemente, um perigo para a consecuo do alvo sexual normal, perigo este que surge quando, em algum ponto dos processos sexuais 
preparatrios, o pr-prazer se revela demasiadamente grande, e pequena demais sua contribuio para a tenso. Falta ento a fora pulsional para que o processo sexual 
seja levado adiante, todo o caminho se encurta, e a ao preparatria correspondente toma o lugar do alvo sexual normal. A experincia nos ensina que a precondio 
dessa eventualidade perniciosa  que, j na vida infantil, a zona ergena em questo ou a pulso parcial correspondente haja contribudo numa medida incomum para 
a obteno de prazer. Quando a isso vem ainda somar-se fatores que promovem a fixao,  fcil surgir em poca posterior da vida uma compulso que resiste  incorporao 
desse pr-prazer especfico num novo contexto.  dessa natureza, de fato, o mecanismo de muitas perverses, que consistem numa demora nos atos preparatrios do processo 
sexual.
         
         O malogro da funo do mecanismo sexual por culpa do pr-prazer  mais facilmente evitado quando, j na vida infantil, pronuncia-se igualmente o primado 
das zonas genitais. As medidas para isso parecem realmente ser tomadas na segunda metade da infncia (dos oito anos at a puberdade). Durante esses anos, as zonas 
genitais j se comportam de maneira semelhante  da maturidade: convertem-se na sede de sensaes de excitao e alteraes preparatrias sempre que se sente algum 
prazer pela satisfao de outras zonas ergenas, embora esse efeito continue desprovido de finalidade, ou seja, no contribua em nada para o prosseguimento do processo 
sexual. J na infncia, portanto, junto ao prazer de satisfao, surge uma certa dose de tenso sexual, se bem que menos constante e menos profusa, e agora podemos 
entender por que, ao discutir as fontes da sexualidade, foi-nos igualmente lcito dizer que o processo em questo provocava, quer uma satisfao sexual, quer uma 
excitao sexual. [Ver em [1].] Observe-se que, no percurso para o conhecimento, comeamos por fazer uma idia muito exagerada da diferena entre a vida sexual infantil 
e a madura, e agora fazemos uma emenda a isso. No s os desvios da vida sexual normal, como tambm a configurao normal desta so determinados pelas manifestaes 
infantis da sexualidade.
         
         (2) O PROBLEMA DA EXCITAO SEXUAL
         
         Ficaram-nos ainda inteiramente por esclarecer tanto a origem quanto a natureza da tenso sexual que surge simultaneamente com o prazer ao serem satisfeitas 
as zonas ergenas. A suposio mais bvia, ou seja, a de que essa tenso brota de algum modo do prprio prazer, no s  muito improvvel em si, como fica tambm 
anulada ao considerarmos que, no prazer mximo, o que se vincula  descarga dos produtos sexuais, no se produz tenso alguma, porm, ao contrrio, toda a tenso 
 abolida. Assim, prazer e tenso sexual s podem estar relacionados de maneira indireta.
         
         O PAPEL DAS SUBSTNCIAS SEXUAIS
         
          parte o fato de que, normalmente, s a descarga das substncias sexuais pe fim  excitao sexual, temos ainda outros pontos de referncia para relacionar 
a tenso sexual com os produtos sexuais. Numa vida de continncia, o aparelho sexual costuma livrar-se das substncias sexuais durante a noite, a intervalos variveis, 
mas no desordenados, com uma sensao de prazer e no curso da alucinao onrica de um ato sexual. No tocante a esse processo - a poluo noturna -,  difcil evitar 
a concepo de que a tenso sexual, que sabe descobrir o atalho alucinatrio como substituto do ato em si,  uma funo da acumulao de smen nos reservatrios 
de produtos sexuais. Depem no mesmo sentido as experincias feitas sobre o carter esgotvel do mecanismo sexual. Quando se esgota a reserva de smen, no s a 
execuo do ato sexual  impossvel, como tambm cessa a estimulabilidade das zonas ergenas, cuja excitao j no  capaz de provocar nenhum prazer. Assim nos 
inteiramos, de passagem, de que certa dose de tenso sexual  necessria at mesmo para a excitabilidade das zonas ergenas.
         
         Somos assim levados ao que, se no estou equivocado,  a hiptese bastante difundida de que a acumulao das substncias sexuais cria e mantm a tenso 
sexual; isso talvez se deva  presso desses produtos nas paredes de seus receptculos, que atuariam como um estmulo num centro medular cujo estado seria percebido 
pelos centros superiores e geraria, na conscincia, a conhecida sensao de tenso. Se a excitao das zonas ergenas aumenta a tenso sexual, isso s poderia acontecer 
pressupondo-se que elas tenham uma ligao anatmica prefigurada com esses centros, elevem o tnus de excitao neles e, sendo suficiente a tenso, ponham em marcha 
o ato sexual, ou, sendo ela insuficiente, estimulem a produo das substncias sexuais.
         
         Os pontos fracos dessa doutrina, que vemos aceita, por exemplo, na exposio de Krafft-Ebing sobre os processos sexuais, residem em que, tendo sido criada 
para explicar a atividade sexual do homem adulto, ela pouco leva em conta trs situaes cujo esclarecimento deveria igualmente proporcionar. So elas as situaes 
das crianas, das mulheres e dos homens castrados. Em nenhum desses trs casos  possvel falar numa acumulao de produtos sexuais no mesmo sentido que no homem, 
o que dificulta uma aplicao uniforme desse esquema; todavia, cabe admitir desde logo que seria possvel encontrar meios pelos quais tambm esses casos lhe ficariam 
subordinados. De qualquer modo, persiste a advertncia de que no devemos imputar ao fator da acumulao de produtos sexuais realizaes de que ele no parece capaz.
         
         APRECIAO DOS  RGOS SEXUAIS INTERNOS
         
         As observaes feitas em homens castrados parecem mostrar que a excitao sexual pode independer em grau considervel da produo de substncias sexuais. 
Ocasionalmente, sua libido escapa ao prejuzo trazido pela operao de castrao, embora a regra seja a limitao de libido, que alis  o que motiva essa medida. 
Alm disso, h muito se sabe que as doenas que eliminam a produo de clulas sexuais masculinas deixam intactas a libido e a potncia do indivduo agora estril. 
Portanto, de modo algum  to assombroso quanto o considera Rieger [1900] que a perda das glndulas sexuais masculinas na maturidade possa no ter maior influncia 
no comportamento anmico do indivduo.  certo que a castrao praticada em idade precoce, antes da puberdade, aproxima-se, em seu efeito, do objetivo de suprimir 
os caracteres sexuais, embora aqui, alm da perda das glndulas sexuais em si, tambm possa entrar em jogo uma inibio do desenvolvimento de outros fatores, vinculada 
a essa perda.
         
         TEORIA QUMICA
         
         As experincias feitas com a extirpao das gnadas (testculos e ovrios) de animais, bem como o correspondente reimplante desses rgos em vertebrados 
do sexo oposto, finalmente lanaram uma luz parcial sobre a origem da excitao sexual e, com isso, reduziram ainda mais a importncia da eventual acumulao de 
produtos celulares sexuais. Tornou-se possvel o experimento (E. Steinach) de transformar um macho numa fmea e, inversamente, uma fmea num macho, processo em que 
a conduta psicossexual dos animais se altera de acordo com os caracteres sexuais somticos e ao mesmo tempo que eles. Mas essa influncia determinante do sexo no 
deve ser atribuda  participao das gnadas que produz as clulas sexuais especficas (espermatozides e vulo), mas sim a seu tecido intersticial, que por isso 
tem sido destacado pelos autores como "glndula da puberdade".  muito possvel que as investigaes posteriores venham a revelar que essa glndula da puberdade 
tem normalmente uma disposio hermafrodita, com o que ficaria anatomicamente fundamentada a doutrina da bissexualidade dos animais superiores; e j  provvel que 
essa glndula no seja o nico rgo relacionado com a produo da excitao sexual e dos caracteres sexuais. De qualquer modo, essa nova descoberta biolgica ajusta-se 
ao que j verificamos antes sobre o papel da glndula tireide na sexualidade. Assim, estamos autorizados a supor que na poro intersticial das gnadas produzem-se 
substncias qumicas especiais que, absorvidas na corrente sangnea, carregam de tenso sexual determinadas partes do sistema nervoso central. J temos conhecimento, 
a partir do caso das substncias txicas introduzidas no corpo como algo estranho, de tal transformao de um estmulo txico num estmulo que atua em determinado 
rgo. Quanto ao modo como a excitao sexual  gerada pela estimulao das zonas ergenas, uma vez carregado o aparelho central, e s interaes surgidas no curso 
desses processos sexuais entre os efeitos dos estmulos puramente txicos e os dos fisiolgicos, isso ainda s pode ser tratado hipoteticamente e no constitui tarefa 
oportuna aqui. Basta que nos atenhamos, como o essencial nessa concepo dos processos sexuais,  hiptese de que existem substncias peculiares provenientes do 
metabolismo sexual. Essa colocao aparentemente arbitrria apia-se num conhecimento pouco levado em conta, porm digno da mais alta considerao. As neuroses, 
que s podem ser atribudas a perturbaes na vida sexual, mostram a mais extrema semelhana clnica com os fenmenos de intoxicao e abstinncia decorrentes do 
uso habitual de substncias txicas produtoras de prazer (alcalides).
         
         (3) A TEORIA DA LIBIDO
         
         Combinam bem com essas hipteses sobre a base qumica da excitao sexual as noes de que nos valemos para procurar dominar as manifestaes psquicas 
da vida sexual. Estabelecemos o conceito da libido como uma fora quantitativamente varivel que poderia medir os processos e transformaes ocorrentes no mbito 
da excitao sexual. Diferenciamos essa libido, no tocante a sua origem particular, da energia que se supe subjacente aos processos anmicos em geral, e assim lhe 
conferimos tambm um carter qualitativo. Ao separar a energia libidinosa de outras formas de energia psquica, damos expresso  premissa de que os processos sexuais 
do organismo diferenciam-se dos processos de nutrio por uma qumica especial. A anlise das perverses e das psiconeuroses levou-nos  compreenso de que essa 
excitao sexual  fornecida no s pelas chamadas partes sexuais, mas por todos os rgos do corpo. Chegamos assim  representao [Vorstellung] de um quantum de 
libido a cujo substituto [Vertretung] psquico damos o nome de libido do ego, e cuja produo, aumento ou diminuio, distribuio e deslocamento devem fornecer-nos 
possibilidades de explicar os fenmenos psicossexuais observados.
         
         Essa libido do ego, no entanto, s  convenientemente acessvel ao estudo analtico depois de ter sido psiquicamente empregada para investir os objetos 
sexuais, ou seja, quando se converteu em libido do objeto. Vemo-la ento concentrar-se nos objetos, fixar-se neles ou abandon-los, passar de uns para outros e, 
partindo dessas posies, nortear no indivduo a atividade sexual que leva  satisfao, ou seja,  extino parcial e temporria da libido. A psicanlise das chamadas 
neuroses de transferncia (histeria e neurose obsessiva) nos proporciona uma clara viso disso.
         
         Podemos ainda inteirar-nos, no tocante aos destinos da libido, de que ela  retirada dos objetos, mantm-se em suspenso em estados particulares de tenso 
e, por fim,  trazida de volta para o interior do ego, assim se reconvertendo em libido do ego. Em contraste com a libido do objeto, tambm chamamos a libido do 
ego de libido narcsica. Do ponto de observao da psicanlise podemos contemplar, como que por sobre uma fronteira cuja ultrapassagem no nos  permitida, a movimentao 
da libido narcsica, formando assim uma idia da relao entre ela e a libido objetal. A libido narcsica ou do ego parece-nos ser o grande reservatrio de onde 
partem as catexias de objeto e no qual elas voltam a ser recolhidas, e a catexia libidinosa narcsica do ego se nos afigura como o estado originrio realizado na 
primeira infncia, que  apenas encoberto pelas emisses posteriores de libido, mas no fundo se conserva por trs delas.
         
         Deveria ser tarefa de uma teoria da libido, no campo dos distrbios neurticos e psicticos, expressar todos os fenmenos observados e os processos deduzidos 
em termos da economia libidinal.  fcil inferir que, nesse contexto, cabe aos destinos da libido do ego a significao maior, sobretudo quando se trata de explicar 
as perturbaes psicticas mais profundas. A dificuldade reside, ento, em que o veculo de nossas investigaes, a psicanlise, s nos proporciona informaes seguras, 
por enquanto, sobre as transformaes da libido de objeto, mas no consegue estabelecer uma distino imediata entre a libido e as outras formas de energia que operam 
no ego.
         
         Por isso, de momento, a continuao da teoria da libido s  possvel pelo caminho da especulao. Entretanto, renuncia-se a tudo o que foi ganho at agora 
com a observao psicanaltica quando, a exemplo de C.G. Jung, dissolve-se o prprio conceito de libido ao equacion-lo com a fora pulsional psquica em geral. 
A distino entre as moes pulsionais sexuais e as restantes, e, portanto, a restrio do conceito de libido s primeiras, encontra forte apoio na hiptese j discutida 
de uma qumica particular da funo sexual.
         
         (4) DIFERENCIAO ENTRE O HOMEM E A MULHER
         
         Sabe-se que somente com a puberdade se estabelece a separao ntida entre os caracteres masculinos e femininos, num contraste que tem, a partir da, uma 
influncia mais decisiva do que qualquer outro sobre a configurao da vida humana.  certo que j na infncia se reconhecem bem as disposies masculinas e femininas; 
o desenvolvimento das inibies da sexualidade (vergonha, nojo, compaixo etc.) ocorre nas garotinhas mais cedo e com menor resistncia do que nos meninos; nelas, 
em geral, a tendncia ao recalcamento sexual parece maior, e quando se tornam visveis as pulses parciais da sexualidade, elas preferem a forma passiva. Mas a atividade 
auto-ertica das zonas ergenas  idntica em ambos os sexos, e essa conformidade suprime na infncia a possibilidade de uma diferenciao sexual como a que se estabelece 
depois da puberdade. Com respeito s manifestaes auto-erticas e masturbatrias da sexualidade, poder-se-ia formular a tese de que a sexualidade das meninas tem 
um carter inteiramente masculino. A rigor, se soubssemos dar aos conceitos de "masculino" e " feminino" um contedo mais preciso, seria possvel defender a alegao 
de que a libido , regular e normativamente, de natureza masculina, quer ocorra no homem ou na mulher, e abstraindo seu objeto, seja este homem ou mulher.
         
         Desde que me familiarizei com a noo de bissexualidade, passei a consider-la como o fator decisivo e penso que, sem lev-la em conta, dificilmente se 
poder chegar a uma compreenso das manifestaes sexuais efetivamente no homem e na mulher.
         
         ZONAS DOMINANTES NO HOMEM E NA MULHER
         
         Afora isso, s tenho a acrescentar o seguinte: nas meninas, a zona ergena dominante situa-se no clitris e , portanto, homloga  zona genital masculina, 
a glande. Tudo o que pude averiguar pela experincia sobre a masturbao nas meninas relacionou-se com o clitris, e no com as partes da genitlia externa que so 
posteriormente significativas para as funes sexuais. Chego mesmo a duvidar de que a menina, sob a influncia da seduo, possa ser levada a outra coisa que no 
a masturbao clitoridiana; a ocorrncia disso  totalmente excepcional. As descargas espontneas de excitao sexual, to corriqueiras justamente na menina pequena, 
expressam-se em contraes do clitris, e as freqentes erees deste rgo facultam  menina formular um juzo acertado, mesmo sem nenhuma instruo, sobre as manifestaes 
sexuais do sexo oposto: ela meramente transfere para os meninos as sensaes de seus prprios processos sexuais.
         
         Quando se quer compreender a transformao da menina em mulher,  preciso acompanhar as vicissitudes posteriores dessa excitabilidade do clitris. A puberdade, 
que no menino traz um avano to grande da libido, distingue-se, na menina, por uma nova onda de recalcamento que afeta justamente a sexualidade do clitris. O que 
assim sucumbe ao recalcamento  uma parcela de sexualidade masculina. O reforo das inibies sexuais criado por esse recalcamento da puberdade na mulher fornece 
ento um estmulo  libido do homem, e obriga a um aumento de sua atividade; com essa intensificao da libido aumenta tambm a supervalorizao sexual, que s aparece 
plenamente diante da mulher que recusa, que renega sua sexualidade. Quando enfim o ato sexual  permitido, o prprio clitris  excitado e compete a ele o papel 
de retransmitir essa excitao para as partes femininas vizinhas, assim como as lascas de lenha resinosa podem ser aproveitadas para atear fogo a um pedao de lenha 
mais dura. Para que se efetue essa transferncia,  preciso amide um certo intervalo de tempo, durante o qual a moa fica insensvel. Essa anestesia pode tornar-se 
permanente, quando a zona clitoridiana se recusa a abrir mo de sua excitabilidade, o que  preparado justamente por sua atividade intensa na vida infantil. Sabe-se 
que, muitas vezes, a anestesia da mulher  apenas aparente e localizada. Elas ficam anestesiadas na vagina, porm de modo algum so incapazes de excitao no clitris 
ou mesmo em outras zonas. A esses determinantes ergenos da anestesia vm ento somar-se os determinantes psquicos, igualmente condicionados pelo recalcamento.
         
         Quando a mulher transfere a excitabilidade ergena do clitris para a vagina, ela muda a zona dominante para sua atividade sexual posterior, ao passo que 
o homem conserva a dele desde a infncia. Nessa mudana da zona ergena dominante, assim como na onda de recalcamento da puberdade, que elimina, por assim dizer, 
a masculinidade infantil, residem os principais determinantes da propenso das mulheres para a neurose, especialmente a histeria. Esses determinantes, portanto, 
esto intimamente relacionados com a natureza da feminilidade.
         
         (5) O ENCONTRO DO OBJETO
         
         Durante os processos da puberdade firma-se o primado das zonas genitais e, no homem, o mpeto do membro agora capaz de ereo remete imperiosamente para 
o novo alvo sexual: a penetrao numa cavidade do corpo que excite sua zona genital. Ao mesmo tempo, consuma-se no lado psquico o encontro do objeto para qual o 
caminho fora preparado desde a mais tenra infncia. Na poca em que a mais primitiva satisfao sexual estava ainda vinculada  nutrio, a pulso sexual tinha um 
objeto fora do corpo prprio, no seio materno. S mais tarde vem a perd-lo, talvez justamente na poca em que a criana consegue formar para si uma representao 
global da pessoa a quem pertence o rgo que lhe dispensava satisfao. Em geral, a pulso sexual torna-se auto-ertica, e s depois de superado o perodo de latncia 
 que se restabelece a relao originria. No  sem boas razes que, para a criana, a amamentao no seio materno toma-se modelar para todos os relacionamentos 
amorosos. O encontro do objeto , na verdade, um reencontro.
         
         O OBJETO SEXUAL NAFASE DE AMAMENTAO
         
         Todavia, desses primeiros e mais importantes de todos os vnculos sexuais, resta, mesmo depois que a atividade sexual se separa da nutrio, uma parcela 
significativa que ajuda a preparar a escolha do objeto e, dessa maneira, restaurar a felicidade perdida. Durante todo o perodo de latncia a criana aprende a amar 
outras pessoas que a ajudam em seu desamparo e satisfazem suas necessidades, e o faz segundo o modelo de sua relao de lactente com a ama e dando continuidade a 
ele. Talvez se queira contestar a identificao do amor sexual com os sentimentos ternos e a estima da criana pelas pessoas que cuidam dela, mas penso que uma investigao 
psicolgica mais rigorosa permitir estabelecer essa identidade acima de qualquer dvida. O trato da criana com a pessoa que a assiste , para ela, uma fonte incessante 
de excitao e satisfao sexuais vindas das zonas ergenas, ainda mais que essa pessoa - usualmente, a me - contempla a criana com os sentimentos derivados de 
sua prpria vida sexual: ela a acaricia, beija e embala, e  perfeitamente claro que a trata como o substituto de um objeto sexual plenamente legtimo. A me provavelmente 
se horrorizaria se lhe fosse esclarecido que, com todas as suas expresses de ternura, ela est despertando a pulso sexual de seu filho e preparando a intensidade 
posterior desta. Ela considera seu procedimento como um amor "puro", assexual, j que evita cuidadosamente levar aos genitais da criana mais excitaes do que as 
inevitveis no cuidado com o corpo. Mas a pulso sexual, como bem sabemos, no  despertada apenas pela excitao da zona genital; aquilo a que chamamos ternura 
um dia exercer seus efeitos, infalivelmente, tambm sobre as zonas genitais. Alis, se a me compreendesse melhor a suma importncia das pulses para a vida anmica 
como um todo, para todas as realizaes ticas e psquicas, ela se pouparia das auto-recriminaes mesmo depois desse esclarecimento. Quando ensina seu filho a amar, 
est apenas cumprindo sua tarefa; afinal, ele deve transformar-se num ser humano capaz, dotado de uma vigorosa necessidade sexual, e que possa realizar em sua vida 
tudo aquilo a que os seres humanos so impelidos pela pulso.  verdade que o excesso de ternura por parte dos pais torna-se pernicioso, na medida em que acelera 
a maturidade sexual e tambm, "mimando" a criana, torna-a incapaz de renunciar temporariamente ao amor em pocas posteriores da vida, ou de se contentar com menor 
dose dele. Um dos melhores prenncios de neurose posterior  quando a criana se mostra insacivel em sua demanda de ternura dos pais; por outro lado, so justamente 
os pais neuropticos, que em geral tendem a exibir uma ternura desmedida, os que mais contribuem, com suas carcias, para despertar a disposio da criana para 
o adoecimento neurtico. Deduz-se desse exemplo, alis, que os pais neurticos tm caminhos mais diretos que o da herana para transferir sua perturbao para seus 
filhos.
         
         ANGSTIA INFANTIL
         
         As prprias crianas se comportam, desde cedo, como se sua afeio pelas pessoas que a assistem fosse da natureza do amor sexual. A angstia das crianas 
no , originariamente, nada alm da expresso da falta que sentem da pessoa amada; por isso elas se angustiam diante de qualquer estranho; temem a escurido porque, 
nesta, no vem a pessoa amada, e se deixam acalmar quando podem segurar-lhe a mo na obscuridade. Atribuir a todos os bichos-papes da infncia e a todas as histrias 
horripilantes contadas pelas babs a culpa por provocarem nervosismo na criana  superestimar-lhes o efeito. S as crianas propensas ao estado de angstia  que 
acolhem essas histrias, que em outras no causam nenhuma impresso; e s tendem ao estado de angstia as crianas com uma pulso sexual desmedida, ou prematuramente 
desenvolvida, ou que se tornou muito exigente em funo dos mimos excessivos. Nesse aspecto, a criana porta-se como o adulto, na medida em que transforma sua libido 
em angstia quando no pode satisfaz-la; e inversamente, o adulto neurotizado pela libido insatisfeita comporta-se como uma criana em sua angstia: comea a sentir 
medo to logo fica sozinho, ou seja, sem uma pessoa de cujo amor se acredite seguro, e a querer aplacar esse medo atravs das medidas mais pueris.
         
         A BARREIRA DO INCESTO
         
         Quando a ternura dos pais pelo filho  bem-sucedida em evitar que a pulso seja prematuramente despertada nele, ou seja, antes que se dem as condies 
somticas da puberdade, e despertada com tal fora que a excitao anmica irrompa de maneira inconfundvel no sistema genital, essa ternura pode cumprir sua tarefa 
de orientar esse filho, na maturidade, em sua escolha do objeto sexual. Sem dvida, o caminho mais curto para o filho seria escolher como objetos sexuais as mesmas 
pessoas a quem ama, desde a infncia, com uma libido, digamos, amortecida. Com o adiamento da maturao sexual, entretanto, ganhou-se tempo para erigir, junto a 
outros entraves  sexualidade, a barreira do incesto, para que assim se integrem os preceitos morais que excluem expressamente da escolha objetal, na qualidade de 
parentes consangneos, as pessoas amadas na infncia. O respeito a essa barreira , acima de tudo, uma exigncia cultural da sociedade, esta tem de se defender 
da devastao, pela famlia, dos interesses que lhe so necessrios para o estabelecimento de unidades sociais superiores, e por isso, em todos os indivduos, mas 
em especial nos adolescentes, lana mo de todos os recursos para afrouxar-lhes os laos com a famlia, os nicos que eram decisivos na infncia.
         
         Mas  na [esfera da] representao que se consuma inicialmente a escolha do objeto, e a vida sexual do jovem em processo de amadurecimento no dispe de 
outro espao que no o das fantasias, ou seja, o das representaes no destinadas a concretizar-se. Nessas fantasias, as inclinaes infantis voltam a emergir em 
todos os seres humanos, agora reforadas pela premncia somtica, e entre elas, com freqncia uniforme e em primeiro lugar, o impulso sexual da criana em direo 
aos pais, quase sempre j diferenciado atravs da atrao pelo sexo oposto: a do filho pela me e a da filha pelo pai. Contemporaneamente  subjugao e ao repdio 
dessas fantasias claramente incestuosas consuma-se uma das realizaes psquicas mais significativas, porm tambm mais dolorosas, do perodo da puberdade: o desligamento 
da autoridade dos pais, unicamente atravs do qual se cria a oposio, to importante para o progresso da cultura, entre a nova e a velha geraes. Em cada uma das 
etapas do curso de desenvolvimento por que todos os indivduos so obrigados a passar, um certo nmero deles fica retido, de modo que h pessoas que nunca superam 
a autoridade dos pais e no retiram deles sua ternura, ou s o fazem de maneira muito incompleta. Em sua maioria, so moas que, para a alegria dos pais, persistem 
em seu amor infantil muito alm da puberdade, e  muito instrutivo constatar que  a essas moas que falta, em seu posterior casamento, a capacidade de dar ao marido 
o que  devido a ele. Tornam-se esposas frias e permanecem sexualmente anestesiadas. Com isso se aprende que o amor sexual e o que parece ser um amor no-sexual 
pelos pais alimentam-se das mesmas fontes, ou seja, o segundo corresponde apenas a uma fixao infantil da libido.
         
         Quanto mais perto se chega das perturbaes mais profundas do desenvolvimento psicossexual, mais se destaca, de maneira inequvoca, a importncia da escolha 
objetal incestuosa. Nos psiconeurticos, grande parte da atividade psicossexual destinada ao encontro do objeto, ou a totalidade dela, permanece no inconsciente, 
em decorrncia de seu repdio da sexualidade. Para as moas com uma necessidade exagerada de ternura e um horror igualmente desmedido s exigncias reais da vida 
sexual, torna-se uma tentao irresistvel, por um lado, realizar em sua vida o ideal do amor assexual, e por outro, ocultar sua libido por trs de uma ternura que 
possam expressar sem auto-recriminaes, agarrando-se por toda a vida a sua inclinao infantil, renovada na puberdade, para os pais ou irmos. A psicanlise mostra 
a essas pessoas, sem esforo, que elas esto enamoradas, no sentido corriqueiro da palavra, desses seus parentes consangneos, uma vez que, com a ajuda dos sintomas 
e outras manifestaes da doena, rastreia-lhes os pensamentos inconscientes e os traduz em pensamentos conscientes. Tambm nos casos em que uma pessoa anteriormente 
sadia adoece aps uma experincia amorosa infeliz, pode-se descobrir com segurana que o mecanismo de seu adoecimento consiste numa reverso de sua libido para as 
pessoas preferidas na infncia.
         
         AS REPERCUSSES DA ESCOLHA OBJETAL INFANTIL
         
         Mesmo quem teve a felicidade de evitar a fixao incestuosa de sua libido no escapa inteiramente a sua influncia. Observa-se um eco muito claro dessa 
fase do desenvolvimento quando o primeiro enamoramento srio de um rapaz, como  to freqente, recai sobre uma mulher madura, e o da moa, sobre um homem mais velho 
e dotado de autoridade, j que essas figuras lhes podem revivescer as imagens da me e do pai. Talvez a escolha do objeto se d, em geral, mediante um apoio mais 
livre nesses modelos. O homem, sobretudo, busca a imagem mnmica da me, tal como essa imagem o dominou desde os primrdios da infncia; e est em perfeita harmonia 
com isso que a me, ainda viva, oponha-se a essa reedio dela mesma e a trate com hostilidade. Em vista dessa importncia do relacionamento infantil com os pais 
para a escolha posterior do objeto sexual,  fcil compreender que qualquer perturbao desse relacionamento ter as mais graves conseqncias para a vida sexual 
na maturidade; tambm ao cime dos amantes nunca falta uma raiz infantil, ou pelo menos um reforo infantil. As desavenas entre os pais ou seu casamento infeliz 
condicionam a mais grave predisposio para o desenvolvimento sexual perturbado ou o adoecimento neurtico dos filhos.
         
         A afeio infantil pelos pais  sem dvida o mais importante, embora no o nico, dos vestgios que, reavivados na puberdade, apontam o caminho para a escolha 
do objeto. Outros rudimentos com essa mesma origem permitem ao homem, sempre apoiado em sua infncia, desenvolver mais de uma orientao sexual e criar condies 
muito diversificadas para sua escolha objetal.
         
         PREVENO DA INVERSO
         
         Uma das tarefas implcitas na escolha do objeto consiste em no se desencontrar do sexo oposto. Isso, como  sabido, no se soluciona sem um certo tateamento. 
Com freqncia, as primeiras moes depois da puberdade se extraviam, sem que haja nenhum dano permanente. Dessoir [1894] assinalou acertadamente a regularidade 
que se deixa entrever nas amizades apaixonadas dos rapazes e moas adolescentes por outros do mesmo sexo. A grande fora que repele a inverso permanente do objeto 
sexual , sem dvida, a atrao que os caracteres sexuais opostos exercem entre si; no contexto desta discusso, nada podemos dizer para esclarec-la. Mas esse fator 
no basta, por si s, para excluir a inverso; diversos outros fatores auxiliares vm juntar-se a ele. Acima de tudo, h o entrave autoritrio da sociedade; quando 
a inverso no  considerada um crime, v-se que ela responde plenamente s inclinaes sexuais de um nmero nada pequeno de indivduos. Pode-se ainda presumir, 
no tocante ao homem, que sua lembrana infantil de ternura da me e de outras pessoas do sexo feminino a quem ficava entregue quando criana contribui energicamente 
para nortear sua escolha para a mulher, ao passo que a intimidao sexual precoce que experimentou por parte do pai e sua atitude competitiva com relao a ele desvia-o 
de seu prprio sexo. Mas ambos os fatores aplicam-se tambm  menina, cuja atividade sexual fica sob a guarda especial da me. Da resulta uma relao hostil com 
o mesmo sexo, que influencia decisivamente a escolha do objeto no sentido considerado normal. A educao dos meninos por pessoas do sexo masculino (pelos escravos, 
na antigidade) parece favorecer o homossexualismo; a freqncia da inverso na aristocracia de hoje torna-se um pouco mais inteligvel diante de seu emprego de 
criados do sexo masculino, bem como pelos maiores cuidados pessoais que a me dedica aos filhos. Em muitos histricos, v-se que a ausncia precoce de um dos pais 
(por morte, divrcio ou separao), em funo da qual o remanescente absorveu a totalidade do amor da criana, foi o determinante do sexo da pessoa posteriormente 
escolhida como objeto sexual, com isso possibilitando-se a inverso permanente.
         
RESUMO
         
         
          chegado o momento de ensaiarmos um resumo. Partimos das aberraes da pulso sexual com respeito a seu objeto e seu alvo, e deparamos com a questo de 
saber se elas provm de uma disposio inata ou so adquiridas como resultado das influncias da vida. A resposta a essa pergunta nos veio da compreenso, mediante 
a investigao psicanaltica, das condies da pulso sexual nos psiconeurticos, um grupo humano numeroso que no fica longe dos sadios. Assim, descobrimos que, 
nessas pessoas, a inclinao para todas as perverses  demonstrvel na qualidade de foras inconscientes e se denuncia como formadora de sintomas, e pudemos dizer 
que a neurose  como que o negativo da perverses. Diante da ampla disseminao das tendncias perversas, agora reconhecidas, fomos impelidos ao ponto de vista de 
que a disposio para as perverses  a disposio originria universal da pulso sexual humana, e de que a partir dela, em conseqncia de modificaes orgnicas 
e inibies psquicas no decorrer da maturao, desenvolve-se o comportamento sexual normal. Alimentamos a esperana de poder apontar na infncia essa disposio 
originria; entre as foras que restringem a orientao da pulso sexual destacamos a vergonha, o asco, a compaixo e as construes sociais da moral e da autoridade. 
Assim, tivemos de ver em cada aberrao fixa da vida sexual normal um fragmento de inibio do desenvolvimento e infantilismo. Embora tenha sido necessrio situar 
em primeiro plano a importncia das variaes da disposio originria, tivemos de supor entre elas e as influncias da vida uma relao de cooperao, e no de 
antagonismo. Por outro lado, j que a disposio originria  necessariamente complexa, pareceu-nos que a prpria pulso sexual seria algo composto de diversos fatores 
e que, nas perverses, como que se desfaria em seus componentes. Com isso, as perverses se revelaram, de um lado, como inibies do desenvolvimento normal, e de 
outro, como dissociaes dele. Essas duas concepes foram reunidas na hiptese de que a pulso sexual do adulto nasce mediante a conjugao de diversas moes da 
vida infantil numa unidade, numa aspirao com um alvo nico.
         
         Juntamos a isso o esclarecimento da preponderncia das inclinaes perversas nos psiconeurticos, na medida em que a reconhecemos como o enchimento colateral 
de canais secundrios em funo do bloqueio do leito principal [da corrente sexual] pelo "recalcamento", e passamos ento ao exame da vida sexual na infncia. Pareceu-nos 
lamentvel que se negasse a existncia da pulso sexual na infncia e que as manifestaes sexuais no raro observadas nas crianas fossem descritas como acontecimentos 
que fogem  regra. Pareceu-nos, ao contrrio, que a criana traz consigo ao mundo germes de atividade sexual e que, j ao se alimentar, goza de uma satisfao sexual 
que ento busca reiteradamente proporcionar-se atravs da conhecida atividade de "chuchar". Todavia, a atividade sexual da criana no se desenvolve no mesmo passo 
que as demais funes, mas sim, aps um breve perodo de florescncia entre os dois e os cinco anos, entra no chamado perodo de latncia. Neste, a produo de excitao 
sexual de modo algum  suspensa, mas continua e oferece uma proviso de energia que  empregada, em sua maior parte, para outras finalidades que no as sexuais, 
ou seja, de um lado, para contribuir com os componentes sexuais para os sentimentos sociais, e de outro (atravs do relacionamento e da formao reativa), para construir 
as barreiras posteriores contra a sexualidade. Assim se construiriam na infncia,  custa de grande parte das moes sexuais perversas e com a ajuda da educao, 
as foras destinadas a manter a pulso sexual em certos rumos. Outra parte das moes sexuais infantis escapa a esses empregos e consegue expressar-se como atividade 
sexual. Pudemos ento verificar que a excitao sexual da criana provm de uma multiplicidade de fontes. A satisfao surge, acima de tudo, mediante a excitao 
sensorial apropriada das chamadas zonas ergenas, e provavelmente podem funcionar como tal qualquer ponto da pele e qualquer rgo dos sentidos - provavelmente qualquer 
rgo -, embora existam certas zonas ergenas destacadas cuja excitao estaria assegurada, desde o comeo, por certos dispositivos orgnicos. Alm disso, a excitao 
sexual parece surgir como um subproduto, por assim dizer, de um grande nmero de processos que ocorrem no organismo, to logo eles alcanam certa intensidade, e 
muito especialmente, de todas as comoes mais fortes, ainda que de natureza penosa. As excitaes de todas essas fontes ainda no esto conjugadas, cada qual seguindo 
separadamente seu alvo, que  meramente a obteno de certo prazer. Na infncia, portanto, a pulso sexual no est centrada e , a princpio, desprovida de objeto, 
ou seja, auto-ertica.
         
         Ainda durante a infncia comea a fazer-se notar a zona ergena da genitlia, seja porque, como qualquer outra zona ergena, ela produz satisfao mediante 
a estimulao sensorial apropriada, seja porque, de um modo no inteiramente inteligvel, havendo uma satisfao proveniente de outras fontes, produz-se ao mesmo 
tempo uma excitao sexual que mantm uma relao particular com a zona genital. Temos de admitir com pesar que no se chegou a um esclarecimento suficiente das 
relaes entre a satisfao sexual e a excitao sexual, como tambm entre a atividade da zona genital e a das demais fontes da sexualidade.
         
         Pelo estudo dos distrbios neurticos, observamos que  possvel identificar na vida sexual infantil, desde seus primrdios, os rudimentos de uma organizao 
dos componentes sexuais da pulso. Numa primeira fase, muito precoce, o erotismo oral fica em primeiro plano; uma segunda dessas organizaes "pr-genitais" caracteriza-se 
pela predominncia do sadismo e do erotismo anal; somente numa terceira fase (desenvolvida na criana apenas at a primazia do falo)  que a vida sexual passa a 
ser determinada pela contribuio das zonas genitais propriamente ditas.
         
         Tivemos ento de registrar, como uma de nossas mais surpreendentes descobertas, que essa eflorescncia precoce da vida sexual infantil (dos dois aos cinco 
anos) tambm acarreta uma escolha objetal, com toda a riqueza das realizaes anmicas que isso implica, de modo que a fase correspondente e ligada a ela, apesar 
da falta de sntese entre os componentes pulsionais isolados e da incerteza do alvo sexual, deve ser apreciada como uma importante precursora da posterior organizao 
sexual definitiva.
         
         A instaurao bitemporal do desenvolvimento sexual nos seres humanos, ou seja, sua interrupo pelo perodo de latncia, pareceu-nos digna de uma ateno 
especial. Ela se afigura como uma das condies da aptido do homem para o desenvolvimento de uma cultura superior, mas tambm de sua tendncia  neurose. Ao que 
saibamos, nada de anlogo  demonstrvel entre os parentes animais do homem. A origem dessa peculiaridade humana deveria ser buscada na proto-histria da espcie.
         
         No pudemos dizer que medida de atividade sexual na infncia poderia ainda ser descrita como normal, como no perniciosa para o desenvolvimento ulterior. 
O carter dessas manifestaes sexuais revelou-se predominantemente masturbatrio. A experincia permitiu-nos ainda comprovar que as influncias externas da seduo 
podem provocar rompimentos prematuros da latncia e at a supresso dela, e que, nesse aspecto, a pulso sexual da criana comprova ser, de fato, perverso-polimorfa; 
comprovamos ainda que tal atividade sexual prematura prejudica a educabilidade da criana.
         
         Apesar das lacunas em nossos conhecimentos da vida sexual infantil, foi-nos ento preciso fazer uma tentativa de estudar as transformaes sobrevindas com 
a chegada da puberdade. Destacamos duas delas como decisivas: a subordinao de todas as outras fontes de excitao sexual ao primado das zonas genitais e o processo 
do encontro do objeto. Ambos j esto prefigurados na vida infantil. A primeira consuma-se pelo mecanismo de explorao do pr-prazer: os atos sexuais outrora autnomos, 
ligados ao prazer e  excitao, convertem-se em atos preparatrios do novo alvo sexual (a descarga dos produtos sexuais), cuja consecuo, acompanhada de enorme 
prazer, pe termo  excitao sexual. Nesse aspecto, havamos levado em conta a diferenciao dos seres sexuados em masculino e feminino e descobrimos que, no tornar-se 
mulher, faz-se necessrio um novo recalcamento, que suprime parte da masculinidade infantil e prepara a mulher para a troca da zona genital dominante. Por fim, descobrimos 
que a escolha objetal  guiada pelos indcios infantis, renovados na puberdade, da inclinao sexual da criana pelos pais e por outras pessoas que cuidam dela, 
e que, desviada dessas pessoas pela barreira do incesto erigida nesse meio-tempo, orienta-se para outras que se assemelhem a elas. Cabe ainda acrescentar, por ltimo, 
que durante o perodo de transio da puberdade os processos de desenvolvimento somtico e psquico prosseguem por algum tempo sem ligao entre si, at que a irrupo 
de uma intensa moo anmica de amor, levando  inervao dos genitais, produz a unidade da funo amorosa exigida pela normalidade.
         
         FATORES QUE PERTURBAM O DESENVOLVIMENTO
         
         Cada passo nesse longo percurso de desenvolvimento pode transformar-se num ponto de fixao, cada ponto de articulao nessa complexa montagem pode ensejar 
a dissociao da pulso sexual, como j discutimos em diversos exemplos. Resta-nos ainda fornecer um panorama dos diversos fatores internos e externos que perturbam 
o desenvolvimento, e indicar o lugar do mecanismo afetado pela perturbao proveniente deles.  claro que os fatores mencionados numa mesma srie podem no ter o 
mesmo valor, e devemos estar preparados para encontrar dificuldades na devida avaliao de cada um deles.
         
         CONSTITUIO E HEREDITARIEDADE
         
         Em primeiro lugar, cabe mencionar aqui a diversidade inata da constituio sexual, em que provavelmente recai o peso principal, mas que, como  compreensvel, 
s pode ser deduzida de suas manifestaes posteriores e, mesmo assim, nem sempre com grande certeza. Concebemos essa diversidade como uma preponderncia desta ou 
daquela das mltiplas fontes de excitao sexual, e cremos que tal diferena entre as disposies deve expressar-se de alguma maneira no resultado final, mesmo que 
este se mantenha dentro das fronteiras da normalidade. Sem dvida  concebvel que haja tambm variaes na disposio originria que levem necessariamente, e sem 
a ajuda de outros fatores,  configurao de uma vida sexual anormal. Poder-se-ia descrev-los como "degenerativos" e consider-los como a expresso de uma deteriorao 
hereditria. Nesse contexto, tenho um fato notvel a relatar. Em mais da metade dos casos de histeria, neurose obsessiva etc. que tive em tratamento psicoteraputico, 
pude demonstrar com certeza que o pai sofrera de sfilis antes do casamento, quer se tratasse de tabes ou paralisia progressiva, quer a doena lutica fosse indicada 
de algum outro modo pela anamnese. Quero observar expressamente que as crianas posteriormente neurticas no traziam em si nenhum sinal fsico de sfilis hereditria, 
de modo que justamente sua constituio sexual anormal  que devia ser considerada como a ltima ramificao de sua herana sifiltica. Embora eu esteja longe de 
afirmar que a descendncia de pais sifilticos  a condio etiolgica invarivel ou imprescindvel da constituio neuroptica, no creio que a coincidncia por 
mim observada seja acidental ou sem importncia.
         
         As condies hereditrias dos perversos positivos so menos conhecidas, pois eles sabem furtar-se  investigao. Ainda assim, h boas razes para supor 
que o que  vlido para as neuroses tambm o seja para as perverses. E que no raro se encontram numa mesma famlia a perverso e a psiconeurose, distribudas de 
tal modo entre os dois sexos que os membros masculinos, ou um deles, so perversos positivos, enquanto os membros femininos, em consonncia com a tendncia de seu 
sexo ao recalcamento, so perversos negativos, ou seja, histricos - uma boa prova das relaes essenciais por ns descobertas entre os dois distrbios.
         
         ELABORAO ULTERIOR
         
         Por outro lado, no se pode defender o ponto de vista de que a conformao da vida sexual ficaria inequivocamente determinada com a instaurao dos diversos 
componentes da constituio sexual. Ao contrrio, o processo de determinao prossegue e surgem outras possibilidades, conforme as vicissitudes por que passam as 
correntes tributrias das sexualidades provenientes das diversas fontes. Obviamente,  essa elaborao ulterior que decide em termos definitivos, enquanto o que 
se poderia descrever como uma constituio idntica pode levar a trs desfechos diferentes:
         
         [1] Quando todas as disposies se mantm em sua proporo relativa, considerada anormal, e so reforadas com o amadurecimento, o desfecho s pode ser 
uma vida sexual perversa. A anlise dessas disposies constitucionais anormais ainda no foi devidamente empreendida, mas j conhecemos casos facilmente explicveis 
mediante tais hipteses. Os autores opinam, por exemplo (ver em [1]), que toda uma srie de perverses por fixao teria como precondio necessria uma debilidade 
inata da pulso sexual. Expressa nessa forma, tal colocao me parece insustentvel, mas ela passa a fazer sentido quando se pensa numa debilidade constitucional 
de determinado fator da pulso sexual, qual seja, a zona genital, zona esta que assume posteriormente a funo de conjugar num todo cada uma das atividades sexuais 
isoladas, tendo por alvo a reproduo. [Quando a zona genital  fraca,] essa conjugao exigida na puberdade est fadada a fracassar, e o mais forte dentre os demais 
componentes da sexualidade impe sua prtica como uma perverso.
         
         RECALCAMENTO
         
         [2] Produz-se um desfecho diferente quando, no curso do desenvolvimento, alguns componentes que tinham fora excessiva na disposio passam pelo processo 
de recalcamento, sobre o qual devemos insistir em que no  equivalente a uma supresso. Nesse caso, as excitaes correspondentes continuam a ser produzidas como 
antes, mas so impedidas por um obstculo psquico de atingir seu alvo e empurradas para muitos outros caminhos, at que se consigam expressar como sintomas. O resultado 
pode aproximar-se de uma vida sexual normal - restrita, na maioria das vezes -, mas complementada pela doena psiconeurtica. So justamente esses os casos que se 
tornaram familiares para ns atravs da investigao psicanaltica dos neurticos. A vida sexual dessas pessoas comea como a dos perversos, e toda uma parte de 
sua infncia  ocupada por uma atividade sexual perversa, que ocasionalmente se estende para alm da maturidade. Produz-se ento, por causas internas - em geral 
antes da puberdade, mas vez por outra at mesmo depois dela -, uma reverso devida ao recalcamento, e a partir da a neurose toma o lugar da perverso, sem que se 
extingam os antigos impulsos. Isso faz lembrar o provrbio "Junge Hure, alte Betschwester", s que, nesse caso, a juventude foi curta demais. Essa substituio da 
perverso pela neurose na vida de uma mesma pessoa, assim como a j mencionada distribuio da perverso e da neurose entre os diferentes membros de uma mesma famlia, 
 coerente com a concepo de que a neurose  o negativo da perverso.
         
         SUBLIMAO
         
         [3] O terceiro desfecho da disposio constitucional anormal  possibilitado pelo processo de "sublimao", no qual as excitaes hiperintensas provenientes 
das diversas fontes da sexualidade encontram escoamento e emprego em outros campos, de modo que de uma disposio em si perigosa resulta um aumento nada insignificante 
da eficincia psquica. A encontramos uma das fontes da atividade artstica, e, conforme tal sublimao seja mais ou menos completa, a anlise caracterolgica de 
pessoas altamente dotadas, sobretudo as de disposio artstica, revela uma mescla, em diferentes propores, de eficincia, perverso e neurose. Uma subvariedade 
da sublimao talvez seja a supresso por formao reativa, que, como descobrimos, comea no perodo de latncia da criana e, nos casos favorveis, prossegue por 
toda a vida. Aquilo a que chamamos "carter" de um homem constri-se, numa boa medida, a partir do material das excitaes sexuais, e se compe de pulses fixadas 
desde a infncia, de outras obtidas por sublimao, e de construes destinadas ao refreamento eficaz de moes perversas reconhecidas como inutilizveis. Por conseguinte, 
a disposio sexual universalmente perversa da infncia pode ser considerada como a fonte de uma srie de nossas virtudes, na medida em que, atravs da formao 
reativa, impulsiona a criao delas.
         
         EXPERINCIAS ACIDENTAIS
         
         Comparadas s descargas sexuais, s ondas de recalcamento e s sublimaes (sendo inteiramente desconhecidas para ns as condies internas destes dois 
ltimos processos), todas as outras influncias parecem bem menos importantes. Quem incluir os recalcamentos e sublimaes na disposio constitucional e encar-los 
como manifestaes vitais desta poder afirmar, justificadamente, que a conformao final da vida sexual resulta, acima de tudo, da constituio inata. Mas ningum 
com algum discernimento contestar o fato de que, em tal cooperao de fatores, h tambm espao para as influncias modificadoras do que foi acidentalmente vivenciado 
na infncia e depois. No  fcil avaliar a eficcia dos fatores constitucionais e acidentais em sua relao recproca. Na teoria, sempre se tende a superestimar 
os primeiros; a prtica teraputica destaca a importncia dos ltimos. Mas em nenhum caso se deve esquecer que existe entre ambos uma relao de cooperao, e no 
de excluso. O fator constitucional tem de aguardar experincias que o ponham em vigor; o acidental precisa apoiar-se na constituio para ter efeito. Na maioria 
dos casos, pode-se imaginar o que se tem chamado de "srie complementar", na qual as intensidades decrescentes de um fator so compensadas pelas intensidades crescentes 
de outro, mas no h razo alguma para negar a existncia de casos extremos nos dois limites da srie.
         
         Harmoniza-se ainda melhor com a investigao psicanaltica dar um lugar de destaque, entre os fatores acidentais, s experincias da primeira infncia. 
A srie etiolgica nica decompe-se ento em duas, que podem ser chamadas de disposicional e definitiva. Na primeira, a constituio e as vivncias acidentais da 
infncia interagem da mesma maneira que, na segunda, a disposio e as vivncias traumticas posteriores. Todos os fatores nocivos ao desenvolvimento sexual externam 
seu efeito promovendo uma regresso, um retorno a uma fase anterior do desenvolvimento.
         
         Prossigamos agora em nossa tarefa de enumerar os fatores que verificamos serem influentes no desenvolvimento sexual, quer representem foras eficazes ou 
meras manifestaes delas.
         
         PRECOCIDADE
         
         Um desses fatores  a precocidade sexual espontnea, demonstrvel com certeza pelo menos na etiologia das neuroses, muito embora, tal como outros fatores, 
no seja por si s uma causa suficiente. Manifesta-se na interrupo, encurtamento ou encerramento do perodo infantil de latncia, c converte-se em causa de perturbaes 
por ocasionar manifestaes sexuais que, pelo estado incompleto das inibies sexuais, de um lado, e por ainda no estar desenvolvido o sistema genital, de outro, 
s podem trazer em si o carter de perverses. Essas tendncias  perverso podem ento permanecer como tais ou, instaurado o recalcamento, transformar-se em foras 
propulsoras de sintomas neurticos. De qualquer modo, a precocidade sexual dificulta o desejvel domnio posterior da pulso sexual pelas instncias anmicas superiores, 
e aumenta o carter compulsivo que,  parte isso, os substitutos [Vertretungen] psquicos da pulso reivindicam para si. A precocidade sexual amide corre paralela 
ao desenvolvimento intelectual prematuro, e como tal  encontrada na histria infantil dos indivduos mais eminentes e capazes; em tais condies, no parece tornar-se 
to patognica como quando surge isoladamente.
         
         FATORES TEMPORAIS
         
         Da mesma forma, exigem considerao outros fatores que, ao lado da precocidade, podem ser reunidos sob a designao de "temporais". A ordem em que so ativadas 
as diversas moes pulsionais, bem como o lapso de tempo em que podem manifestar-se antes de sucumbir a influncia de uma nova moo pulsional emergente, ou a algum 
recalcamento tpico, parecem filogeneticamente determinados. Todavia, tanto nessa seqncia temporal quanto nessa durao parece haver variaes que devem exercer 
uma influncia dominante no resultado final. No  indiferente que uma dada corrente emerja antes ou depois de sua corrente contrada, pois o efeito de um recalcamento 
no pode ser desfeito: cada desvio temporal na montagem dos componentes produz invariavelmente uma alterao no resultado. Por outro lado, as moes pulsionais que 
emergem com intensidade especial tm, com freqncia, um decurso assombrantemente rpido, como, por exemplo, o vnculo heterossexual dos que depois se tornam homossexuais 
manifestos. No h justificativa para o medo de que as tendncias estabelecidas com mais violncia na infncia dominem permanentemente o carter adulto;  igualmente 
espervel que elas venham a desaparecer, cedendo lugar a seu oposto. ("Gestrenge Herren regieren nicht lange.")
         
         No estamos sequer em condies de fornecer indcios das causas dessas complicaes temporais dos processos de desenvolvimento. Abre-se aqui o panorama 
de uma densa falange de problemas biolgicos, e talvez tambm histricos, dos quais nem ao menos nos aproximamos o bastante para travar batalha com eles.
         
         ADESIVIDADE
         
         A importncia de todas as manifestaes sexuais precoces  aumentada por um fator psquico de origem desconhecida, que por ora decerto s pode ser apresentado 
como uma hiptese psicolgica provisria. Refiro-me  elevada adesividade [Haftbarkeit] ou fixabilidade dessas impresses da vida sexual, que  preciso admitir, 
para a complementao dos fatos, nas pessoas que depois se tornaro neurticas ou perversas, j que as mesmas manifestaes sexuais prematuras em outras pessoas 
no conseguem gravar-se de maneira to profunda, a ponto de produzirem uma repetio convulsiva e poderem prescrever por toda a vida os caminhos da pulso sexual. 
Parte da explicao dessa adesividade talvez resida num outro fator psquico que no podemos negligenciar na causao das neuroses, a saber, a preponderncia que 
cabe na vida anmica aos traos mnmicos, em comparao com as impresses recentes. Esse fator  obviamente dependente da formao intelectual e aumenta conforme 
a elevao da cultura pessoal. Em contraste com isso, o selvagem tem sido caracterizado como "das unglckselige Kind des Augenblickes". Em decorrncia da relao 
inversa entre a cultura e o livre desenvolvimento da sexualidade, cujas conseqncias podem ser seguidas muito de perto na conformao de nossa vida, a importncia 
do rumo tomado pela vida sexual da criana para a vida posterior  muito pequena nos nveis cultural ou social mais baixos e muito grande nos mais elevados.
         
         FIXAO
         
         O terreno preparado pelos fatores psquicos que acabamos de mencionar  favorvel aos estmulos acidentalmente vivenciados da sexualidade infantil. Estes 
ltimos (sobretudo a seduo por outras crianas ou por adultos) fornecem o material que, com a ajuda dos primeiros, pode fixar-se como um distrbio permanente. 
Boa parte dos desvios da vida sexual normal posteriormente observados tanto nos neurticos quanto nos perversos  estabelecida, desde o comeo, pelas impresses 
do perodo infantil, supostamente desprovido de sexualidade. De sua causao participam a complacncia constitucional, a precocidade, a caracterstica da adesividade 
elevada e a estimulao fortuita da pulso sexual por influncias estranhas.
         
         Todavia, a concluso insatisfatria que emerge dessas investigaes das perturbaes da vida sexual provm de no sabermos, sobre os processos biolgicos 
que constituem a essncia da sexualidade, o bastante para formar, com base em nossos conhecimentos isolados, uma teoria suficiente para compreendermos tanto o normal 
quanto o patolgico.
         
         

APNDICE: LISTA DOS ESCRITOS DE FREUD QUE VERSAM PREDOMINANTEMENTE OU EM GRANDE PARTE SOBRE A SEXUALIDADE
         
         Claro est que as referncias  sexualidade so encontradas na grande maioria dos escritos de Freud. A lista que se segue compreende aqueles que versam 
mais diretamente sobre o assunto. A data indicada no incio de cada item corresponde ao ano de publicao. Os detalhes mais completos sobre cada obra sero encontrados 
na bibliografia ao final deste volume.
         
         1898a   "A Sexualidade na Etiologia das Neuroses".
         1905d   Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.
         1906a   "Minhas Teses sobre o Papel da Sexualidade na Etiologia das Neuroses".
         1907c   "O Esclarecimento Sexual da Criana".
         1908b   "Carter e Erotismo Anal".
         1908c   "Sobre as Teorias Sexuais Infantis".
         1908d   "Moral Sexual `Civilizada' e Doena Nervosa Moderna".
         1910a   Cinco Lies de Psicanlise, Conferncia IV.
         1910c   Uma Lembrana Infantil de Leonardo da Vinci, Captulo III.
         1910h   "Um Tipo Especial de Escolha de Objeto no Homem".
         1912d   "Sobre a Degradao mais Generalizada da Vida Amorosa".
         1912f   "Contribuies para um Debate sobre a Masturbao".
         1913I   "A Predisposio  Neurose Obsessiva".
         1913j   "O Interesse pela Psicanlise", Parte II (C).
         1913k   Prefcio a Scatologic Rites of All Nations, de Bourke.
         1914c   "Sobre o Narcisismo: Introduo".
         1916-17  Conferncias Introdutrias sobre Psicanlise, Conferncias XX, XXI, XXII e XXVI.
         1917c   "Sobre as Transformaes da Pulso, particularmente o Erotismo Anal".
         1918a   "O Tabu da Virgindade".
         1919e   " `Espanca-se uma Criana' ".
         1920a   "Sobre a Psicognese de um Caso de Homossexualismo Feminino".
         1922b   "Alguns Mecanismos Neurticos no Cime, na Parania e no Homossexualismo", Seo C.
         
         1923a   Dois Verbetes de Enciclopdia: (2) "A Teoria da Libido".
         1923e   "A Organizao Genital Infantil".
         1924c   "O Problema Econmico do Masoquismo".
         1924d   "O Naufrgio do Complexo de dipo".
         1925j    "Algumas Conseqncias Psquicas da Diferena Anatmica entre os Sexos".
         1927e   "Fetichismo".
         1931a   "Tipos Libidinais".
         193lb   "Sexualidade Feminina"
         1933a   Novas Conferncias Introdutrias sobre Psicanlise, Conferncias XXXII e XXXIII.
         1940a   [1938] Um Esboo de Psicanlise, Captulos III e VII.
         1940e   [1938] "A Ciso do Ego no Processo de Defesa".
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
       
       
       
       
       
       





       
       
       O MTODO PSICANALTICO DE FREUD
         
         O singular mtodo psicoterpico que Freud pratica e designa de psicanlise  proveniente do chamado procedimento catrtico, sobre o qual ele forneceu as 
devidas informaes nos Estudos sobre a Histeria, de 1895, escritos em colaborao com Joseph Breuer. A terapia catrtica foi uma descoberta de Breuer, que, cerca 
de dez anos antes, curara com sua ajuda uma paciente histrica e obtivera, nesse processo, uma compreenso da patognese de seus sintomas. Graas a uma sugesto 
pessoal de Breuer, Freud retomou o procedimento e o ps  prova num nmero maior de enfermos.
         
         O procedimento catrtico pressupunha que o paciente fosse hipnotizvel e se baseava na ampliao da conscincia que ocorre na hipnose. Tinha por alvo a 
eliminao dos sintomas patolgicos e chegava a isso levando o paciente a retroceder ao estado psquico em que o sintoma surgira pela primeira vez. Feito isso, emergiam 
no doente hipnotizado lembranas, pensamentos e impulsos at ento excludos de sua conscincia; e mal ele comunicava ao mdico esses seus processos anmicos, em 
meio a intensas expresses afetivas, o sintoma era superado e se impedia seu retorno. Os dois autores, em seu trabalho conjunto, explicaram essa experincia regularmente 
repetida, afirmando que o sintoma toma o lugar de processos psquicos suprimidos que no chegam  conscincia, ou seja, que ele representa uma transformao ("converso") 
de tais processos. A eficcia teraputica de seu procedimento foi explicada em funo da descarga do afeto, at ali como que "estrangulado", preso s aes anmicas 
suprimidas ("ab-reao"). Mas esse esquema simples da interveno teraputica complicava-se em quase todos os casos, pois viu-se que participavam da gnese do sintoma, 
no uma nica impresso ("traumtica"), porm, na maioria dos casos, uma srie delas, difcil de abarcar.
         
         Assim, a principal caracterstica do mtodo catrtico, em contraste com todos os outros procedimentos da psicoterapia, reside em que, nele, a eficcia teraputica 
no se transfere para uma proibio mdica veiculada por sugesto. Espera-se, antes, que os sintomas desapaream por si, to logo a interveno, baseada em certas 
premissas sobre o mecanismo psquico, tenha xito em fazer com que os processos anmicos passem para um curso diferente do que at ento desembocava na formao 
do sintoma.
         
         As alteraes que Freud introduziu no metdo catrtico de Breuer foram, a princpio, mudanas da tcnica; estas, porm, levaram a novos resultados e, em 
seguida, exigiram uma concepo diferente do trabalho teraputico, embora no contraditria  anterior.
         
         O mtodo catrtico j havia renunciado  sugesto, e Freud deu o passo seguinte, abandonando tambm a hipnose. Atualmente, trata seus enfermos da seguinte 
maneira: sem exercer nenhum outro tipo de influncia, convida-os a se deitarem de costas num sof, comodamente, enquanto ele prprio senta-se numa cadeira por trs 
deles, fora de seu campo visual. Tampouco exige que fechem os olhos e evita qualquer contato, bem como qualquer outro procedimento que possa fazer lembrar a hipnose. 
Assim a sesso prossegue como uma conversa entre duas pessoas igualmente despertas, uma das quais  poupada de qualquer esforo muscular e de qualquer impresso 
sensorial passvel de distra-la e de perturbar-lhe a concentrao da ateno em sua prpria atividade anmica.
         
         Como a hipnotizabilidade, por mais habilidoso que seja o mdico, reside sabidamente no arbtrio do paciente, e como um grande nmero de pessoas neurticas 
no pode ser colocado em estado de hipnose atravs de procedimento algum, ficou assegurada, atravs da renncia  hipnose, a aplicabilidade do mtodo a um nmero 
irrestrito de enfermos. Por outro lado, perdeu-se a ampliao da conscincia que proporcionava ao mdico justamente o material psquico de lembranas e representaes 
com a ajuda do qual se podia realizar a transformao dos sintomas e a liberao dos afetos. Caso no fosse encontrado nenhum substituto para essa perda, seria impossvel 
falar em alguma influncia teraputica.
         
         Freud encontrou um substituto dessa ordem, plenamente satisfatrio, nas associaes dos enfermos, ou seja, nos pensamentos involuntrios - quase sempre 
sentidos como perturbadores e por isso comumente postos de lado - que costumam cruzar a trama da exposio intencional.
         
         Para apoderar-se dessas idias incidentes, ele exorta os pacientes a se deixarem levar em suas comunicaes, "mais ou menos como se faz numa conversa a 
esmo, passando de um assunto a outro". Antes de exort-los a um relato pormenorizado de sua histria clnica, ele os instiga a dizerem tudo o que lhes passar pela 
cabea, mesmo o que julgarem sem importncia, ou irrelevante, ou disparatado. Ao contrrio, pede com especial insistncia que no excluam de suas comunicaes nenhum 
pensamento ou idia pelo fato de serem embaraosos ou penosos. No empenho de compilar esse material costumeiramente desdenhado, Freud fez as observaes que se tornaram 
decisivas para toda a sua concepo. J no relato da histria clnica surgem lacunas na memria do doente, ou seja, esquecem-se acontecimentos reais, confundem-se 
as relaes de tempo ou se rompem as conexes causais, da resultando efeitos incompreensveis. No h nenhuma histria clnica de neurose sem algum tipo de amnsia. 
Quando o paciente  instado a preencher essas lacunas de sua memria atravs de um trabalho redobrado de ateno, verifica-se que as idias que lhe ocorrem a esse 
respeito so repelidas por ele com todos os recursos da crtica, at que ele sente um franco mal-estar quando a lembrana realmente se instala. Dessa experincia 
Freud concluiu que as amnsias so o resultado de um processo ao qual ele chama recalcamento e cuja motivao  identificada no sentido de desprazer. As foras psquicas 
que deram origem a esse recalcamento estariam, segundo ele, na resistncia que se ope  restaurao [das lembranas].
         
         O fator da resistncia tornou-se um dos fundamentos de sua teoria. Quanto s idias postas de lado sob toda sorte de pretextos (como as enumeradas na frmula 
acima), Freud as encara como derivados das formaes psquicas recalcadas (pensamentos e moes), como deturpaes delas provocadas pela resistncia a sua reproduo.
         
         Quanto maior a resistncia, mais profusa  essa distoro. O valor das idias inintencionais para a tcnica teraputica reside nessa relao delas com o 
material psquico recalcado. Quando se dispe de um procedimento que permite avanar das associaes at o recalcado, das distores at o distorcido, pode-se tambm 
tornar acessvel  conscincia o que era antes inconsciente na vida anmica, mesmo sem a hipnose.
         
         Com base nisso, Freud desenvolveu uma arte de interpretao  qual compete a tarefa, por assim dizer, de extrair do minrio bruto das associaes inintencionais 
o metal puro dos pensamentos recalcados. So objeto desse trabalho interpretativo no apenas as idias que ocorrem ao doente, mas tambm seus sonhos, que abrem a 
via de acesso mais direta para o conhecimento do inconsciente, suas aes inintencionais e desprovidas de planos (atos sintomticos), e os erros que ele comete na 
vida cotidiana (lapsos da fala, equvocos na ao etc.). Os detalhes dessa tcnica de interpretao ou traduo ainda no foram publicados por Freud. Segundo suas 
indicaes, trata-se de uma srie de regras empiricamente adquiridas para construir o material inconsciente a partir das ocorrncias de idias, de instituies sobre 
como  preciso entender a situao em que deixam de ocorrer idias ao paciente, e de experincias sobre as resistncias tpicas mais importantes que surgem no decorrer 
desses tratamentos. Um volumoso livro sobre A Interpretao dos Sonhos, publicado por Freud em 1900, deve ser visto como o precursor de tal introduo  tcnica.
         
         Dessas indicaes sobre a tcnica do mtodo psicanaltico poder-se-ia concluir que seu inventor deu-se um trabalho desnecessrio e fez mal em abandonar 
o procedimento hipntico, menos complicado. De um lado, porm, a tcnica da psicanlise, uma vez aprendida,  muito mais fcil de praticar do que indicaria qualquer 
descrio dela, e de outro, nenhum caminho alternativo leva  meta desejada, donde o caminho trabalhoso  ainda o mais curto. A hipnose  censurvel por ocultar 
a resistncia e por ter assim impedido ao mdico o conhecimento do jogo das foras psquicas. E no elimina a resistncia; apenas a evade, com o que fornece to-somente 
dados incompletos e resultados passageiros.
         
         A tarefa que o mtodo psicanaltico se empenha em resolver pode expressar-se em diferentes frmulas, que em essncia, no entanto, so equivalentes. Pode-se 
dizer: a tarefa do tratamento  eliminar as amnsias. Preenchidas todas as lacunas da memria, esclarecidos todos os efeitos enigmticos da vida psquica, tornam-se 
impossveis a continuao e mesmo a reproduo da doena. Pode-se ainda conceber a condio para isso da seguinte maneira: todos os recalcamentos devem ser desfeitos; 
o estado psquico passa ento a ser idntico quele em que todas as amnsias foram preenchidas. De alcance ainda maior  outra formulao: trata-se de tornar o inconsciente 
acessvel  conscincia, o que se consegue mediante a superao das resistncias. Mas no se deve esquecer que tal estado tampouco se apresenta no ser humano normal, 
e que s raramente fica-se em condies de levar o tratamento a um ponto que se aproxime disso. Assim como a sade e a doena no se diferenciam em princpio, estando 
apenas separadas por fronteiras quantitativas determinveis na prtica, no se pode estabelecer como meta de tratamento outra coisa seno o restabelecimento prtico 
do enfermo, a restaurao de sua capacidade de rendimento e de gozo. Num tratamento incompleto ou havendo um resultado imperfeito, obtm-se sobretudo uma significativa 
melhora do estado psquico geral, enquanto os sintomas, embora com uma importncia diminuda para o paciente, podem persistir, sem que a pessoa seja rotulada de 
enferma.
         
         O procedimento teraputico, abstradas algumas modificaes insignificantes, mantm-se o mesmo para todos os quadros sintomticos da histeria, com suas 
mltiplas formas, e para todas as configuraes da neurose obsessiva. Mas isso no implica que sua aplicabilidade seja irrestrita. A natureza do mtodo psicanaltico 
envolve indicaes e contra-indicaes, tanto em relao s pessoas a serem tratadas quanto com respeito ao quadro patolgico. Os mais favorveis para psicanlise 
so os casos crnicos de psiconeurose com poucos sintomas violentos ou perigosos, e portanto, em primeiro lugar, todas as espcies de neurose obsessiva, pensamento 
e ao obsessivos, e os casos de histeria em que as fobias e abulias desempenham o papel principal; e ainda todas as expresses somticas da histeria, desde que 
a pronta eliminao dos sintomas no seja a tarefa primordial do mdico, como na anorexia. Nos casos agudos de histeria,  preciso aguardar a chegada de uma fase 
mais calma; em todos os casos em que o esgotamento nervoso domina o quadro clnico, deve-se evitar um procedimento que por si s requer esforo, traz apenas progressos 
lentos e, por algum tempo, no pode levar em considerao a persistncia dos sintomas.
         
         Para que uma pessoa se submeta com proveito a psicanlise, so muitos os requisitos exigidos. Em primeiro lugar, ela deve ser capaz de um estado psquico 
normal; durante os perodos de confuso ou de depresso melanclica, no se consegue nada nem mesmo num caso de histeria. Cabe ainda exigir dela certo grau de inteligncia 
natural e de desenvolvimento tico; com pessoas sem nenhum valor, o mdico logo perde o interesse que lhe permite aprofundar-se na vida anmica do doente. As malformaes 
de carter acentuadas, traos de uma constituio realmente degenerada, externam-se no tratamento como fontes de uma resistncia difcil de superar. Nesse aspecto, 
a constituio estabelece um limite geral para a capacidade curativa da psicoterapia. Tambm a faixa etria prxima dos cinqenta anos cria condies desfavorveis 
para a psicanlise. Nesse caso, j no  possvel dominar a massa do material psquico, o tempo exigido para a cura torna-se longo demais e a capacidade para desfazer 
processos psquicos comea a enfraquecer.
         
         Apesar de todas essas limitaes,  extraordinariamente grande o nmero de pessoas aptas para a psicanlise, e a extenso trazida a nossos poderes teraputicos 
por esse procedimento , segundo Freud, muito considervel. Para um tratamento eficaz, Freud requer perodos longos, de seis meses a trs anos; contudo, informa 
que at agora, em vista de diversas circunstncias fceis de imaginar, s esteve em condies de testar seu tratamento, na maioria das vezes, em casos muito graves: 
em pessoas enfermas desde longa data e totalmente incapacidadas, que, frustradas por toda sorte de tratamentos, foram buscar como que um ltimo recurso em seu procedimento 
novo e recebido com muitas dvidas. Nos casos de doena mais branda, a durao do tratamento poderia encurtar-se muito, obtendo-se em ganho extraordinrio em termos 
de preveno para o futuro.
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         "DIE FREUDSCHE PSYCHOANALYTISCHE METHODE"
         
         (a) EDIES ALEMS:
         (1903 Data provvel de redao.)
         1904 Em L. Loewenfeld, Die psychischen Zwangserscheinungen, 545-551 (Wiesbaden: Bergmann).
         1906 S.K.S.N. I, 218-224. (1911, 2 ed., 213-219; 1920, 3 ed.; 1922, 4 ed.)
         1924 Technick und Metapsychol., 3-10.
         1925   G.S., 6, 3-10.
         1942   G.W., 5, 3-10
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         "Freud's Psycho-Analytic Method"
         1924   C.P., 1, 264-271. (Trad. de J. Bernays.)
         
         Esta traduo [inglesa], com um novo ttulo, "Freud's Psycho-Analytic Procedure",  uma verso consideravelmente alterada da que se publicou em 1924.
         
         O livro de Loewenfeld sobre os fenmenos obsessivos, para o qual esse artigo constituiu originalmente uma contribuio,  mencionado por Freud em seu caso 
clnico do "Homem dos Ratos" (1909d, nota de rodap no incio da Parte II) como o "manual padro" sobre a neurose obsessiva. Loewenfeld esclarece ter convencido 
Freud a fazer essa contribuio em vista das grandes modificaes por que passara sua tcnica desde que fora descrita nos Estudos sobre a Histeria (1895d). O prefcio 
de Loewenfeld traz a data de "novembro de 1903", sendo portanto presumvel que o artigo de Freud tenha sido redigido naquele mesmo ano, um pouco mais cedo.
         
         Essa exposio mostra que o nico vestgio remanescente do mtodo hipntico original era a solicitao de Freud de que o paciente se deitasse. Quanto aos 
aspectos externos, sua tcnica permaneceu inalterada desde ento. O livro de Loewenfeld foi resenhado pelo prprio Freud, conforme a descoberta do Prof. Saul Rosenzweig, 
da Universidade Washington, em St. Louis. A resenha foi publicada no Journal fr Psychologie und Neurologie, 3 (1904), pp. 190-1. (Freud, 1904f.)
         
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       SOBRE A PSICOTERAPIA (1905 [1904])
         
         
         Senhores: so decorridos cerca de oito anos desde que, a convite de seu saudoso presidente, o Professor von Reder, tive a oportunidade de falar aqui sobre 
o tema da histeria. Pouco antes (1895), em colaborao com o Dr. Josef Breuer, eu publicara os Estudos sobre a Histeria, onde, com base no novo conhecimento que 
devemos a esse investigador, tentara introduzir um novo modo de tratamento das neuroses. Alegra-me poder dizer que os esforos feitos em nossos Estudos tiveram xito; 
as idias ali defendidas sobre os efeitos dos traumas psquicos atravs da reteno do afeto, bem como a concepo dos sintomas histricos como o resultado de uma 
excitao transposta do anmico para o corporal, idias estas para as quais criamos os termos "ab-reao" e "converso", so hoje universalmente conhecidas e compreendidas. 
No h - pelo menos nos pases de lngua alem - nenhuma representao da histeria que no as leve em conta em certa medida, e no h nenhum colega que no siga 
ao menos um pouco essa doutrina. E no entanto, estas teses e estes termos, enquanto eram ainda novos, devem ter soado bastante estranhos!
         
         No posso dizer o mesmo do procedimento teraputico proposto a nossos colegas simultaneamente a nossa doutrina. Este luta ainda por seu reconhecimento. 
Talvez se possam invocar razes especiais para isso. Naquela poca, a tcnica do procedimento ainda no fora desenvolvida, era-me impossvel fornecer ao leitor mdico 
do livro as instrues que o teriam habilitado a conduzir tal tratamento em sua ntegra. Mas decerto tambm concorreram para isso algumas razes de natureza geral. 
Ainda hoje, a psicoterapia se afigura a muitos mdicos como um produto do misticismo moderno, e, comparada a nossos recursos teraputicos fsico-qumicos, cuja aplicao 
se baseia em conhecimentos fisiolgicos, parece francamente acientfica e indigna do interesse de um investigador da natureza. Permitam-me, pois, defender ante os 
senhores a causa da psicoterapia e destacar o que pode ser qualificado de injusto ou errneo nessa condenao.
         
         Em primeiro lugar, permitam-me lembrar-lhes que a psicoterapia de modo algum  um procedimento teraputico moderno. Ao contrrio,  a mais antiga terapia 
de que se serviu a medicina. Na instrutiva obra de Loewenfeld, Lehrbuch der gesamten Psychotherapie [1897], os senhores podem verificar quais eram os mtodos da 
medicina primitiva e da medicina da Antigidade. A maioria deles deve ser classificada de psicoterapia; induzia-se nos doentes, com vistas  cura, um estado de "expectativa 
crdula" que ainda hoje nos presta idntico servio. Mesmo depois que os mdicos descobriram outros meios teraputicos, os esforos psicoterpicos desta ou daquela 
espcie nunca desapareceram da medicina.
         
         Em segundo lugar, deixem-me chamar-lhes a ateno para o fato de que ns, mdicos, no podemos renunciar  psicoterapia, que mais no seja porque uma outra 
parte muito interessada no processo teraputico - a saber, o doente - no tem nenhuma inteno de abandon-la. Os senhores sabem das elucidaes que devemos, nesse 
aspecto,  escola de Nancy (a Libault, a Bernheim). Um fator que depende da disposio psquica do doente contribui, sem que tenhamos essa inteno, para o resultado 
de qualquer procedimento teraputico introduzido pelo mdico, quase sempre num sentido favorvel, mas tambm com freqncia num sentido inibitrio. Aprendemos a 
usar para esse fato a palavra "sugesto", e Moebius nos ensinou que a falta de contabilidade que deploramos em tantos de nossos mtodos teraputicos remonta justamente 
 influncia perturbadora desse poderoso fator. Ns, mdicos - inclusive todos os senhores - , portanto, praticamos constantemente a psicoterapia, mesmo que no 
o saibamos nem tenhamos essa inteno; s que constitui uma desvantagem deixar to completamente entregue aos enfermos o fator psquico da influncia que os senhores 
exercem sobre eles. Dessa maneira, ele se torna incontrolvel, impossvel de dosar ou de intensificar. Assim, no ser um esforo legtimo o do mdico dominar esse 
fator, servir-se dele intencionalmente, norte-lo e refor-lo?  isso, e nada mais, o que a psicoterapia cientfica lhes prope.
         
         Em terceiro lugar, senhores colegas, quero remet-los  experincia j h muito conhecida de que certas doenas, e muito particularmente as psiconeuroses, 
so muito mais acessveis s influncias anmicas do que a qualquer outra medicao. No  um ditado moderno, e sim uma antiga mxima dos mdicos, que essas doenas 
no so curadas pelo medicamento, mas pelo mdico, ou seja, pela personalidade do mdico, na medida em que atravs dela ele exerce uma influncia psquica. Bem sei, 
senhores colegas, que muito lhes agrada a viso a que o esteta Fischer deu expresso clssica em sua pardia do Fausto:
         
         Ich weiss, das Physikalische
         Wirkt fters aufs Moralische.
         
         Porm no seria mais adequado, e mais freqentemente acertado, dizer que se pode influir sobre o lado moral de um homem com meios morais, ou seja, psquicos?
         
         H muitas espcies de psicoterapia e muitos meios de pratic-la. Todos os que levam  meta da recuperao so bons. Nosso consolo corriqueiro, que to liberalmente 
dispensamos aos enfermos - "Voc logo ficar bom de novo!" - , corresponde a um dos mtodos psicoteraputicos; mas agora que temos um discernimento mais profundo 
da natureza da neurose, no somos obrigados a ficar restritos a esse consolo. Desenvolvemos a tcnica da sugesto hipntica, a psicoterapia atravs da distrao, 
do exerccio e da provocao de afetos mais oportunos. No menosprezo nenhuma delas e utilizaria todas em condies apropriadas. Se realmente me restringi a um nico 
procedimento teraputico, ao mtodo que Breuer chamou "catrtico", mas que prefiro chamar de "analtico", foram apenas motivos subjetivos que me decidiram a faz-lo. 
Em decorrncia de minha participao na criao dessa terapia, sinto-me pessoalmente obrigado a me dedicar a explor-la e a construir sua tcnica. Posso asseverar 
que o mtodo analtico de psicoterapia  o mais penetrante, o que chega mais longe, aquele pelo qual se consegue a transformao mais ampla do doente. Abandonando 
por um momento o ponto de vista teraputico, posso acrescentar em favor desse mtodo que ele  o mais interessante, o nico que nos ensina algo sobre a gnese e 
a interao dos fenmenos patolgicos. Graas ao discernimento do mecanismo das doenas anmicas que ele nos faculta somente ele deve ser capaz de ultrapassar a 
si mesmo e de nos apontar o caminho para outras formas de influncia teraputica.
         
         No tocante a esse mtodo catrtico ou analtico de psicoterapia, permitam-me agora corrigir alguns erros e fornecer alguns esclarecimentos.
         
         (a) Observo que esse mtodo  muito amide confundido com o tratamento hipntico por sugesto; e reparei nisso porque, com relativa freqncia, colegas 
de quem alis no sou o homem de confiana enviam-me pacientes - doentes refratrios,  claro - com o pedido de que eu os hipnotize. Ora, ocorre que h uns seis 
anos j no tenho usado a hipnose para fins teraputicos (salvo em algumas experincias isoladas), de modo que costumo mandar esses encaminhamentos de volta com 
o conselho de que quem confia na hipnose deve pratic-la pessoalmente. Na verdade, h entre a tcnica sugestiva e a analtica a maior anttese possvel, aquela que 
o grande Leonardo da Vinci resumiu, com relao s artes, nas frmulas per via di porre e per via di levare. A pintura, diz Leonardo, trabalha per via di porre, 
pois deposita sobre a tela incolor partculas coloridas que antes no estavam ali; j a escultura, ao contrrio, funciona per via di levare, pois retira da pedra 
tudo o que encobre a superfcie da esttua nela contida. De maneira muito semelhante, senhores, a tcnica da sugesto busca operar per via di porre; no se importa 
com a origem, a fora e o sentido dos sintomas patolgicos, mas antes deposita algo - a sugesto - que ela espera ser forte o bastante para impedir a expresso da 
idia patognica. A terapia analtica, em contrapartida, no pretende acrescentar nem introduzir nada de novo, mas antes tirar, trazer algo para fora, e para esse 
fim preocupa-se com a gnese dos sintomas patolgicos e com a trama psquica da idia patognica, cuja eliminao  sua meta. Por esse caminho de investigao  
que ela faz avanar to significativamente nossos conhecimentos. Se abandonei to cedo a tcnica da sugesto, e com ela, a hipnose, foi porque no tinha esperana 
de tornar a sugesto to forte e slida quanto seria necessrio para obter a cura permanente. Em todos os casos graves, vi a sugesto introduzida voltar a desmoronar, 
e ento reaparecia a doena ou um substituto dela. Alm disso, censuro essa tcnica por ocultar de ns o entendimento do jogo de foras psquico; ela no nos permite, 
por exemplo, identificar a resistncia com que os doentes se aferram a sua doena, chegando em funo disso a lutar contra sua prpria recuperao; e  somente a 
resistncia que nos possibilita compreender seu comportamento na vida.
         
         (b) Parece-me haver entre os colegas o erro muito difundido de supor que a tcnica de investigar as origens da doena e de eliminar suas manifestaes atravs 
dessa explorao  fcil e evidente. Infiro isso do fato de que nenhum dentre os muitos que se interessaram por minha terapia e formularam juzos firmes sobre ela 
jamais me perguntou como realmente procedo. S pode haver uma razo para isso: eles acham que no h nada a perguntar, que a coisa  perfeitamente inteligvel por 
si s. E vez por outra, inteiro-me tambm, com assombro, de que neste ou naquele setor de um hospital um jovem mdico recebeu de seu chefe a incumbncia de empreender 
uma "psicanlise" num paciente histrico. Tenho certeza de que no deixariam a cargo dele o exame de um tumor extirpado, sem que se houvessem assegurado de que ele 
conhecia a fundo a tcnica histolgica. Da mesma forma, chegam-me notcias de que tal ou qual colega marcou consultas com um paciente para fazer com ele um tratamento 
psquico, embora eu tenha certeza de que ele no conhece a tcnica de tal tratamento. Deve estar esperando, portanto, que o paciente o presenteie com seus segredos, 
ou talvez esteja buscando a cura em alguma espcie de confisso ou confidncia. No me surpreenderia que um paciente assim tratado extrasse disso mais prejuzos 
do que benefcios.  que o instrumento anmico no  assim to fcil de tocar. Nessas ocasies, no posso deixar de pensar nas palavras de um neurtico mundialmente 
famoso, que decerto nunca esteve em tratamento com um mdico, pois viveu apenas na fantasia de um poeta. Refiro-me a Hamlet, Prncipe da Dinamarca. O Rei enviara 
dois cortesos, Rosenkranz e Guildenstern, para sond-lo e arrancar dele o segredo de seu desgosto. Ele os repele; aparecem ento algumas flautas no palco. Tomando 
uma delas, Hamlet pede a um de seus algozes que a toque, o que seria to fcil quanto mentir. O corteso se recusa, pois no conhece o manejo do instrumento, e, 
no conseguindo persuadi-lo a tentar, Hamlet finalmente explode: "Pois vede agora em que msera coisa me transformais! Quereis tocar-me; (...) quereis arrancar o 
cerne de meu mistrio; pretendeis extrair-me sons, de minha nota mais grave at o topo de meu diapaso; e embora haja muita msica, excelente voz neste pequenino 
instrumento, no podeis faz-lo falar. Pelo sangue de Cristo, julgais que sou mais fcil de tocar do que uma flauta? Chamai-me do instrumento que quiserdes, pois 
se podeis desafinar-me, ainda assim no me podeis tocar." (Ato III, Cena 2.)
         
         (c) Por algumas de minhas observaes, os senhores tero calculado que o tratamento analtico tem muitas peculiaridades que o distanciam do ideal de uma 
terapia. Tutu, cito, jucunde; a investigao e a busca no apontam para a rapidez dos resultados, e a meno da resistncia deve prepar-los para esperar por vrios 
transtornos. Sem dvida, o tratamento psicanaltico faz grandes exigncias tanto ao doente quanto ao mdico; do primeiro reclama o sacrifcio da sinceridade total, 
mostrando-se demorado e, por isso mesmo, tambm custoso; para o mdico,  igualmente demorado, e em vista da tcnica que ele tem de aprender e praticar,  bastante 
trabalhoso. Por isso, considero perfeitamente justificvel que se recorra a mtodos teraputicos mais cmodos, desde que haja uma perspectiva de conseguir algo atravs 
deles. Esse , afinal, o nico ponto decisivo; se, com o procedimento mais trabalhoso e prolongado, consegue-se mais do que com o mtodo breve e fcil, justifica-se 
o uso do primeiro, apesar de tudo. Pensem, senhores, em quo mais incmoda e custosa  a terapia de Finsen para o lpus do que o mtodo antes empregado de cauterizao 
e raspagem; no obstante, o uso do primeiro significa um grande avano, simplesmente porque rende mais; promove uma cura radical. Ora, no quero impor essa comparao, 
mas o mtodo psicanaltico pode reclamar para si um privilgio similar. Na realidade, s pude elaborar e testar meu mtodo teraputico em casos graves ou gravssimos; 
a princpio, meu material comps-se unicamente de enfermos que tudo haviam tentado sem xito e que tinham passado anos em instituies. Mal pude reunir experincia 
suficiente para dizer-lhes como se comporta minha terapia nas doenas mais leves, de surgimento episdico, e que vemos curar-se sob as mais diversificadas influncias 
e at de maneira espontnea. A terapia psicanaltica foi criada com base em doentes permanentemente incapacitados para a existncia a eles destinada, e seu triunfo 
consiste em ter tornado um nmero satisfatrio destes permanentemente aptos para a vida. Frente a esse resultado, todos os esforos despendidos parecem insignificantes. 
No podemos dissimular de ns mesmos o que, perante o enfermo, estamos acostumados a negar: que a neurose grave, para o indivduo que dela padece, no tem menor 
importncia do que qualquer caquexia, qualquer das temidas grandes enfermidades.
         
         (d) As indicaes e contra-indicaes desse tratamento, em decorrncia das muitas restries de ordem prtica que tm afetado minhas atividades, ainda no 
podem ser fornecidas de maneira definitiva. Mesmo assim, quero ensaiar a discusso de alguns pontos com os senhores:
         
         (1) Afora a doena, deve-se reparar no valor da pessoa em outros aspectos e recusar os pacientes que no possuam certo grau de formao e um carter razoavelmente 
digno de confiana. No se deve esquecer que h tambm pessoas sadias que no prestam para nada, e que com excessiva facilidade, em se tratando desses indivduos 
de valor reduzido, tende-se a atribuir  doena tudo o que os incapacita para a existncia, quando lhes ocorre mostrar algum laivo de neurose. Sustento o ponto de 
vista de que a neurose de modo algum imprime em seu portador o rtulo de dgnr, embora seja encontrada num mesmo indivduo, com bastante freqncia, associada 
a sinais de degenerao. Ora, a psicoterapia analtica no  um procedimento para tratar a degenerao neuroptica, encontrando nesta, ao contrrio, sua limitao. 
Tampouco  aplicvel s pessoas que no sejam levadas  terapia por seu prprio sofrimento, mas antes submetem-se a ela apenas pela ordem autoritria de seus familiares. 
Quanto  propriedade que interessa  adequao para o tratamento psicanaltico, ou seja, a educabilidade do paciente, ainda teremos de apreci-la segundo um outro 
ponto de vista.
         
         (2) Quando se quer trabalhar em segurana, deve-se restringir a escolha a pessoas que tenham um estado normal, pois  neste que nos apoiamos, no procedimento 
psicanaltico, para nos apropriarmos do patolgico. As psicoses, os estados confusionais e a depresso profundamente arraigada (txica, eu poderia dizer), por conseguinte, 
so imprprios para a psicanlise, ao menos tal como tem sido praticada at o momento. No considero nada impossvel que, mediante uma modificao apropriada do 
mtodo, possamos superar essa contra-indicao e assim empreender a psicoterapia das psicoses.
         
         (3) A idade dos pacientes desempenha um papel na escolha para tratamento psicanaltico, posto que, nas pessoas prximas ou acima dos cinqenta anos, costuma 
faltar, de um lado, a plasticidade dos processos anmicos de que depende a terapia - as pessoas idosas j no so educveis - , e, por outro lado, o material a ser 
elaborado prolongaria indefinidamente a durao do tratamento. O limite etrio inferior s pode ser determinado individualmente; as pessoas jovens que ainda no 
chegaram  puberdade so, muitas vezes, esplendidamente influenciveis.
         
         (4) No se deve recorrer  psicanlise quando se trata de eliminar com rapidez fenmenos perigosos, como, por exemplo, na anorexia histrica.
         
         A essa altura, os senhores devem estar com a impresso de que o campo de aplicao da psicoterapia analtica  muito restrito, j que de fato nada ouviram 
de mim alm de contra-indicaes. Mas sobram casos e formas patolgicas suficientes em que esta terapia pode ser posta  prova: todas as formas crnicas de histeria 
com fenmenos residuais, o vasto campo dos estados obsessivos, as abulias e similares.
         
          gratificante que assim se possa levar ajuda, antes de mais nada, justamente s pessoas mais valiosas e mais altamente desenvolvidas. E podemos consolar-nos 
com a afirmao de que, nos casos em que a psicoterapia analtica s conseguiu muito pouco, qualquer outro tratamento decerto nada teria realizado.
         
         (e) Os senhores certamente ho de querer perguntar-me sobre a possibilidade de que o emprego da psicanlise traga prejuzos. Quanto a isso, posso responder-lhes 
que, se estiverem dispostos a julgar esse procedimento imparcialmente, a manifestar-lhe a mesma benevolncia crtica que tm dispensado a nossos outros mtodos teraputicos, 
tero de concordar com minha opinio de que, num tratamento analtico realizado com compreenso, no se pode temer dano algum para o paciente. Talvez formule um 
juzo diferente quem, como o leigo, estiver acostumado a atribuir ao tratamento tudo o que acontece no decorrer de um caso patolgico. No faz muito tempo, nossas 
instituies de hidroterapia enfrentavam um preconceito similar. Muitos dos que eram aconselhados a buscar uma dessas instituies ficavam hesitantes, pois tinham 
algum conhecido que entrara no sanatrio como doente nervoso e ali enlouquecera. Tratava-se, como os senhores devem adivinhar, de casos incipientes de paralisia 
geral, que em seu estgio inicial ainda podiam ser enviados para um estabelecimento hedroptico, e que ali prosseguiam em sua marcha irrefrevel para a perturbao 
mental manifesta; para os leigos, a gua era a culpada e a causadora dessa triste modificao. Quando se trata de novas formas de terapia, nem mesmo os mdicos esto 
sempre isentos de tais erros de julgamento. Lembro-me de que, certa vez, fiz uma tentativa de psicoterapia com uma mulher que passara boa parte de sua existncia 
numa alternncia entre mania e melancolia . Aceitei o caso ao final de um perodo de melancolia; durante duas semanas, tudo parecia correr bem; na terceira, j estvamos 
no incio de um novo ataque de mania. Era, sem dvida, uma transformao espontnea do quadro patolgico, j que duas semanas no constituem um prazo em que a psicoterapia 
analtica possa realizar coisa alguma; entretanto, o eminente mdico (j falecido) que examinava a doente comigo no conseguiu abster-se da observao de que a psicoterapia 
seria a culpada dessa "recada". Estou plenamente convencido de que, em outras circunstncias, ele teria demonstrado maior juzo crtico.
         
         (f) Para concluir, senhores colegas, devo admitir que no  justo monopolizar sua ateno por tanto tempo, em favor da psicoterapia analtica, sem lhes 
dizer em que consiste esse tratamento e em que est fundamentado. Ainda assim, posto que tenha de ser breve, s posso fazer-lhes um esboo. Essa terapia baseia-se, 
pois, na concepo de que as representaes inconscientes - ou melhor, a inconscincia de certos processos anmicos - so a causa imediata dos sintomas patolgicos. 
Partilhamos dessa convico com a escola francesa (Janet), que alis, numa esquematizao excessiva, atribui a origem do sintoma histrico a uma ide fixe inconsciente. 
Mas no temam os senhores que isso nos precipite nas profundezas da mais obscura filosofia. Nosso inconsciente no  de modo algum idntico ao dos filsofos, e alm 
disso, a maioria destes nada quer saber sobre algo "psquico inconsciente". Entretanto, caso os senhores se situem em nosso ponto de vista, compreendero que a transformao 
desse inconsciente da vida anmica do enfermo num material consciente s pode ter como resultado a correo de seu desvio da normalidade, bem como a eliminao da 
compulso a que sua vida anmica estivera sujeita.  que a vontade consciente estende-se apenas aos processos psquicos conscientes, e toda compulso psquica  
fundamentada pelo inconsciente. Tampouco devem os senhores temer que o enfermo sofra algum dano em funo do abalo trazido pela entrada do inconsciente em sua conscincia, 
pois podem explicar a si mesmos, teoricamente, que o efeito somtico e afetivo da moo que se tornou consciente nunca pode ser to grande quanto o da moo inconsciente. 
S dominamos todas as nossas moes por dirigirmos para elas nossas mais elevadas funes anmicas, que esto ligadas  conscincia.
         
         Mas tambm lhes  possvel escolher outro ponto de vista para compreender o tratamento psicanaltico. O desvendamento e a traduo do inconsciente realizam-se 
sob uma resistncia contnua por parte do enfermo. O afloramento desse inconsciente est vinculado ao desprazer, e  por causa desse desprazer que o doente o rejeita 
vez aps outra.  nesse conflito na vida anmica do paciente que os senhores intervm; se conseguirem lev-lo a aceitar, motivado por uma compreenso melhor, algo 
que at ento rejeitara (recalcara) em conseqncia dessa regulao automtica do desprazer, tero realizado com ele parte de um trabalho educativo. J constitui 
educao, quando um homem no deixa a cama de bom grado de manh cedo, mov-lo a fazer isso ainda assim. Portanto, de modo muito geral, os senhores podem conceber 
o tratamento psicanaltico como essa espcie de ps-educao para superar as resistncias internas. Mas em nenhum ponto essa ps-educao  mais necessria, nos 
doentes nervosos, do que no tocante ao elemento anmico de sua vida sexual.  que em parte alguma a cultura e a educao causaram danos to grandes quanto justamente 
a, e  tambm a, como lhes mostrar a experincia, que se encontraro as etiologias das neuroses passveis de ser dominadas; quanto ao outro elemento etiolgico, 
a contribuio constitucional, ele nos  dado como algo inaltervel. Mas da decorre uma importante exigncia a ser feita ao mdico. No apenas ele prprio tem de 
ser de carter ntegro - "Quanto  moral, nem  preciso falar", como costumava dizer o personagem principal de Auch Einer, de Vischer - , como tambm deve ter superado, 
em sua prpria pessoa, a mescla de concupiscncia e puritanismo com que, lamentavelmente, tantos outros esto habituados a enfrentar os problemas sexuais.
         
         Talvez seja este o lugar para fazer outra observao. Sei que minha nfase no papel do sexual na formao das psiconeuroses tornou-se conhecida em amplos 
crculos. Mas sei tambm que as ressalvas e as particularizaes precisas so de pouca serventia para o grande pblico; a multido tem pouco espao em sua memria 
e retm de uma tese apenas o ncleo bruto, dela criando para si uma verso extremada e fcil de gravar.  possvel tambm que muitos mdicos tenham feito uma vaga 
idia de que, como contedo de minha doutrina, eu atribuiria a neurose, em ltima anlise,  privao sexual. E esta no falta nas condies de vida de nossa sociedade. 
Quo fcil seria, com base nessa premissa, evitar o tortuoso e cansativo caminho do tratamento psquico e aspirar diretamente  cura, recomendando como meio teraputico 
a atividade sexual! Pois bem, no conheo nada que me pudesse induzir a sufocar essa concluso, caso ela fosse justificada. Mas as coisas so diferentes. A necessidade 
e a privao sexuais so meramente um fator que entra em jogo no mecanismo da neurose; se houvesse apenas esse, o resultado no seria a doena, mas a devassido. 
O outro fator, igualmente indispensvel, mas esquecido com demasiada presteza,  a averso do neurtico  sexualidade, sua incapacidade de amar, esse trao psquico 
a que chamei "recalcamento". Somente a partir do conflito entre as duas tendncias  que irrompe a doena neurtica e, portanto, s raramente se pode descrever a 
recomendao da atividade sexual nas psiconeuroses como um bom conselho.
         
         Permitam-me concluir com essa observao defensiva. Esperemos que seu interesse pela psicoterapia, uma vez depurado de quaisquer preconceitos hostis, venha 
apoiar-nos em nosso empenho de realizar de maneira satisfatria tambm o tratamento dos casos graves de psiconeurose.
         
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         BER PSYCHOTHERAPIE
         
         (a) EDIES EM ALEMO
         (l904 12 de dezembro: pronunciada como conferncia perante o Wiener medizinisches Doktorenkollegium.)
         1905 Wien. med. Presse, 1 de janeiro, pp. 9-16.
         1906 S.K.S.N. I, pp. 205-217. (1911, 2 ed., pp. 201-212; 1920, 3 ed.; 1922, 4 ed.)
         1924 Technik und Metapsychol., pp. 11-24.
         1925 G.S., 6, pp. 11-24.
         1942 G.W., 5, pp. 13-26.
         
         (b) TRADUES EM INGLS:
         "On Psychotherapy"
         1909 S.P.H., pp. 175-185. (Trad. de A.A. Brill.) (1912, 2 ed.; 1920, 3 ed.)
         1924   C.P., 1, pp. 249-263. (Trad. de J. Bernays.)
         
         A presente traduo [inglesa]  uma verso consideravelmente modificada da que se publicou em 1924.
         
         Esta parece ter sido a ltima conferncia a ser proferida por Freud perante uma platia exclusivamente mdica. (Cf. Jones, 1955, p. 13.)
         
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       MINHAS TESES SOBRE O PAPEL DA SEXUALIDADE NA ETIOLOGIA DAS NEUROSES
         
         
         Sou de opinio que a melhor maneira de apreciar minha teoria sobre a importncia etiolgica do fator sexual para as neuroses  acompanhar seu desenvolvimento. 
 que de modo algum tenho a pretenso de negar que ela passou por um desenvolvimento e se modificou no decorrer dele. Meus colegas podem encontrar nessa confisso 
a garantia de que esta teoria no  nada alm do precipitado de experincias ininterruptas e mais aprofundadas. O que nasce da especulao, ao contrrio, pode facilmente 
surgir completo de um s golpe, e a partir de ento manter-se imutvel.
         Originalmente, a teoria referia-se apenas aos quadros patolgicos reunidos sob a denominao de "neurastenia", dentre os quais reparei em dois tipos que 
s vezes se apresentam puros e que descrevi como "neurastenia propriamente dita" e"neurose de angstia". Sempre se soube que os fatores sexuais poderiam desempenhar 
um papel na causao dessas formas [de doena], mas no se constatava sua atuao invariavelmente, nem se pensava em conferir-lhes precedncia sobre outras influncias 
etiolgicas. Fiquei surpreso, a princpio, com a freqncia das grandes perturbaes na vita sexualis dos pacientes nervosos; e quanto mais me empenhava em procurar 
essas perturbaes - no que me apercebia de que todos os seres humanos ocultam a verdade nos assuntos sexuais -, quanto mais hbil me tornava para levar esse exame 
adiante, apesar de uma negao inicial, com maior regularidade descobria tais fatores patognicos na vida sexual, at que me pareceu faltar pouco para presumir seu 
carter universal. Mas era preciso aceitar de antemo que tais irregularidades sexuais ocorreriam com freqncia similar em nossa sociedade, sob a presso das relaes 
sociais, persistindo uma dvida quanto ao grau de desvio do funcionamento sexual normal que se deveria considerar patognico. Por isso, tive que dar menos valor 
 comprovao invarivel das patologias sexuais do que a uma segunda constatao, que me pareceu menos ambgua. Viu-se que a forma da doena, fosse ela neurastenia 
ou neurose de angstia, mostrava uma relao constante com a natureza do prejuzo sexual. Nos casos tpicos de neurastenia, tratava-se, em geral, de masturbao 
ou polues freqentes, enquanto, na neurose de angstia, havia fatores como o coitus interruptus, a "excitao frustrada" e outros, passveis de demonstrar, nos 
quais o fator da descarga insuficiente da libido produzida parecia ser o elemento comum. Somente depois dessa experincia, fcil de fazer e corroborvel com a freqncia 
que se desejasse, tive a coragem de reivindicar uma posio privilegiada para as influncias sexuais na etiologia das neuroses. Alm disso, nas formas mistas to 
freqentes de neurastenia e neurose de angstia, foi possvel indicar a conjugao das etiologias supostas em cada uma das formas puras; e mais, tal bipartio na 
forma de manifestao da neurose parecia harmonizar-se bem com o carter polar da sexualidade (o masculino e o feminino).
         Nessa mesma poca, enquanto atribua  sexualidade essa importncia para a gnese das neuroses simples, eu continuava a cultivar, no tocante s psiconeuroses 
(histeria e representaes obsessivas), uma teoria psicolgica pura em que o fator sexual s interessava como uma dentre vrias fontes emocionais. Em colaborao 
com Josef Breuer, e com base em observaes feitas por ele numa paciente histrica mais de dez anos antes, eu estudara o mecanismo da gerao dos sintomas histricos 
por meio da suscitao de lembranas durante o estado de hipnose; e assim chegamos a conclues que nos permitiram estabelecer a ponte entre a histeria traumtica 
de Charcot e a histeria comum, no-traumtica (Breuer e Freud, 1895). Fomos levados  concepo de que os sintomas histricos eram efeitos persistentes de traumas 
psquicos, e de que, por circunstncias especiais, as somas de afeto a eles correspondentes tinham sido desviadas da elaborao consciente, com isso facilitando 
para si um caminho anormal para a inervao somtica. Os termos "afeto estrangulado", "converso" e "ab-reao" resumem os marcos caractersticos dessa concepo.
         Entretanto, considerando as estreitas ligaes entre as psiconeuroses e as neuroses simples, to extensas que a diferenciao diagnstica nem sempre  fcil 
para as pessoas sem prtica, os conhecimentos adquiridos num dos campos no poderiam demorar a se propagar tambm para o outro. Ademais, mesmo prescindindo dessa 
considerao, tambm o aprofundamento no mecanismo psquico dos sintomas histricos levou ao mesmo resultado.  que, seguindo cada vez mais o rastro dos traumas 
psquicos de que derivavam os sintomas histricos, atravs do procedimento "catrtico" introduzido por Breuer e eu, acabava-se chegando a vivncias pertencentes 
 infncia do enfermo e relacionadas com sua vida sexual, inclusive nos casos em que uma emoo banal, de natureza no sexual, ocasionara a irrupo da doena. Sem 
levar em conta esses traumas da infncia, era impossvel elucidar os sintomas, cuja determinao eles tornavam compreensvel, ou prevenir seu ressurgimento. Com 
isso, a incomparvel importncia das vivncias sexuais para a etiologia das psiconeuroses parecia indubitavelmente estabelecida, e esse fato permanece at hoje como 
um dos pilares da teoria.
         Quando se descreve essa teoria afirmando que a causa da neurose histrica, que persiste pela vida afora, reside em vivncias sexuais da primeira infncia, 
em sua maioria insignificantes em si mesmas, ela por certo soa bastante estranha. Mas quando se leva em conta o desenvolvimento histrico da doutrina, situando sua 
essncia na tese de que a histeria  a expresso de um comportamento particular da funo sexual do indivduo, e de que esse comportamento j foi decisivamente determinado 
pelas primeiras influncias e vivncias atuantes na infncia, fica-se com um paradoxo a menos, mas ganha-se um motivo para voltar a ateno para as repercusses 
das impresses infantis, que so sumamente importantes, apesar de terrivelmente negligenciadas at aqui.
         Reservo para mais adiante a abordagem pormenorizada da questo de devermos ver nas vivncias sexuais da infncia a etiologia da histeria (e da neurose obsessiva), 
e retorno agora  forma adotada pela teoria em algumas pequenas publicaes provisrias dos anos de 1895 e 1896 (Freud, 1896b e 1896c). A nfase nos supostos fatores 
etiolgicos permitiu, naquela poca, confrontar as neuroses comuns, enquanto distrbios com etiologia contempornea, com as psiconeuroses, cuja etiologia deveria 
ser buscada principalmente nas vivncias sexuais do passado. A doutrina culminou nesta tese: na vita sexualis normal, a neurose  impossvel.
         Embora ainda hoje eu no considere essas teses incorretas, no surpreende que, em dez anos de esforo contnuo para chegar ao conhecimento dessas relaes, 
tenha ultrapassado em boa medida meus pontos de vista de ento e me acredite agora em condies de corrigir, atravs da experincia aprofundada, as insuficincias, 
os deslocamentos e os mal-entendidos de que a doutrina padecia na poca. O material ainda escasso dessa ocasio me havia trazido, por fora do acaso, um nmero desproporcionalmente
 grande de casos em que a seduo por algum adulto ou por crianas mais velhas desempenhara o papel principal na histria infantil do doente. Superestimei a freqncia 
desses acontecimentos (alis impossveis de pr em dvida), ainda mais que, naquele tempo, no era capaz de estabelecer com segurana a distino entre as iluses 
de memria dos histricos sobre sua infncia e os vestgios de eventos reais. Desde ento, aprendi a decifrar muitas fantasias de seduo como tentativas de rechaar 
lembranas da atividade sexual do prprio indivduo (masturbao infantil). Esclarecido esse ponto, caiu por terra a insistncia no elemento "traumtico" presente 
nas vivncias sexuais infantis, restando o entendimento de que a atividade sexual infantil (seja ela espontnea ou provocada) prescreve o rumo a ser tomado pela 
vida sexual posterior aps a maturidade. Esse mesmo esclarecimento, que corrigiu o mais importante de meus erros iniciais, tambm tomou necessrio modificar a concepo 
do mecanismo dos sintomas histricos. Estes j no apareciam como derivados diretos das lembranas recalcadas das experincias infantis, havendo antes, entre os 
sintomas e as impresses infantis, a interposio das fantasias (fices mnmicas) do paciente (produzidas, em sua maior parte, durante os anos da puberdade), que, 
de um lado, tinham-se construdo a partir das lembranas infantis e com base nelas, e, de outro, eram diretamente transformadas nos sintomas. Somente com a introduo 
do elemento das fantasias histricas  que se tornaram inteligveis a textura da neurose e seu vnculo com a vida do enfermo; evidenciou-se tambm uma analogia realmente 
espantosa entre essas fantasias inconscientes dos histricos e as criaes imaginrias que, na parania, tornam-se conscientes como delrios.
         Depois dessa correo, os "traumas sexuais infantis" foram substitudos, em certo sentido, pelo "infantilismo da sexualidade". No estava longe uma segunda 
modificao da teoria original. Juntamente com a suposta freqncia da seduo na infncia, caiu tambm por terra a nfase exagerada nas influncias acidentais sobre 
a sexualidade, s quais eu pretendera atribuir o papel principal na acusao da doena, embora nem por isso negasse os fatores constitucionais e hereditrios. Chegara 
at mesmo a ter esperana de solucionar o problema da escolha da neurose (a deciso sobre a forma de psiconeurose a que o doente deveria sucumbir) atravs das particularidades 
das vivncias sexuais infantis. E nessa poca, embora com reservas, achava que a conduta passiva nessas cenas produzia a disposio especfica para a histeria, ao 
passo que a conduta ativa predispunha  neurose obsessiva. Mais tarde, tive de abandonar por completo essa concepo, embora muitos fatos exigissem manter de algum 
modo a correlao pressentida entre passividade e histeria, atividade e neurose obsessiva. Com o recuo das influncias acidentais da experincia para o segundo plano, 
os fatores da constituio e da hereditariedade voltaram necessariamente a predominar, porm com a diferena de que em minha teoria, ao contrrio da viso que prevalece 
em outras reas, a "constituio sexual'' tomou o lugar da disposio neuroptica geral. Em meus recm-publicados Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905d 
, ver em [1]), tentei descrever as mltiplas variedades dessa constituio sexual, bem como a composio interna da pulso sexual como um todo e sua derivao das 
diferentes fontes do organismo que contribuem para origin-la.
         Ainda no contexto da concepo modificada dos "traumas sexuais infantis'', a teoria desenvolveu-se um pouco mais numa direo j anunciada nas publicaes 
dos anos de 1894 a 1896. J nessa poca, e antes mesmo que se atribusse  sexualidade seu devido lugar na etiologia, eu havia indicado, como condio da eficcia 
patognica de uma experincia, que ela precisava parecer intolervel ao ego e provocar um esforo defensivo (Freud, 1894a). A essa defesa eu remetera a ciso psquica 
(ou, como dizamos na poca, ciso da conscincia) que ocorre na histeria. Sendo a defesa bem-sucedida, a vivncia intolervel e suas conseqncias afetivas eram 
expulsas da conscincia e da memria do ego; em certas circunstncias, porm, o expelido desdobrava sua eficcia como algo agora inconsciente e retornava  conscincia 
por meio dos sintomas e dos afetos presos a eles, de sorte que o adoecimento correspondia a um fracasso da defesa. Essa concepo tinha o mrito de penetrar no jogo 
das foras psquicas e, com isso, aproximar os processos anmicos da histeria dos processos normais, em vez de situar a caracterstica da neurose num distrbio enigmtico 
e no susceptvel de anlise ulterior.
         Novas informaes ento obtidas com pessoas que haviam permanecido normais proporcionaram a inesperada descoberta de que sua histria sexual infantil no 
diferia necessariamente, em essncia, da vida infantil dos neurticos e, em especial, o papel da seduo era o mesmo em ambos os casos. Assim, as influncias acidentais 
recuaram ainda mais em contraste com o "recalcamento" (como comecei a dizer em lugar de "defesa"). No importavam, portanto, as excitaes sexuais que um indivduo 
tivesse experimentado em sua infncia, mas antes, acima de tudo, sua reao a essas vivncias - se respondera ou no a essas impresses com o "recalcamento". Viu-se 
que, no curso do desenvolvimento, a atividade sexual infantil era amide interrompida por um ato de recalcamento. Assim, o indivduo neurtico sexualmente maduro 
geralmente trazia consigo, da infncia, uma dose de "recalcamento sexual" que se exteriorizava ante as exigncias da vida real, e as psicanlises de histricos mostraram 
que seu adoecimento era conseqncia do conflito entre a libido e o recalcamento sexual, e que seus sintomas tinham o valor de compromissos entre as duas correntes 
anmicas.
         Sem uma discusso minuciosa de minhas concepes do recalcamento eu no poderia esclarecer melhor essa parte da teoria. Basta remeter aqui a meus Trs Ensaios 
sobre a Teoria da Sexualidade (1905d), onde tentei lanar alguma luz, por parca que seja, nos processos somticos em que se deve buscar a natureza da sexualidade. 
Ali expus o fato de que a disposio sexual constitucional da criana  incomparavelmente mais variada do que se poderia esperar, que merece ser chamada de "perversa 
polimorfa", e que o chamado comportamento normal da funo sexual brota dessa disposio mediante o recalcamento de certos componentes. Atravs da referncia aos 
caracteres infantis da sexualidade pude estabelecer um vnculo simples entre a sade, a perverso e a neurose. A normalidade mostrou ser fruto do recalcamento de 
certas pulses parciais e certos componentes das disposies infantis, bem como da subordinao dos demais  primazia das zonas genitais a servio da funo reprodutora; 
as perverses correspondem a perturbaes dessa sntese atravs do desenvolvimento preponderante e compulsivo de algumas das pulses parciais, e a neurose remonta 
a um recalcamento excessivo das aspiraes libidinais. Visto que quase todas as pulses perversas da disposio infantil so comprovveis como foras formadoras 
de sintomas na neurose, embora se encontrem nela em estado de recalcamento, pude descrever a neurose como o "negativo" da perverso. (ver em [1])
         
         Considero valioso enfatizar que, em minhas concepes sobre a etiologia das psiconeuroses, a despeito de todas as modificaes, houve dois pontos de vista 
que nunca reneguei ou abandonei: a importncia da sexualidade e do infantilismo. Afora isso, em lugar das influncias acidentais coloquei fatores constitucionais, 
e a "defesa", no sentido puramente psicolgico, foi substituda pelo "recalcamento sexual" orgnico. Agora, se algum perguntasse onde se h de encontrar uma prova 
mais concludente da suposta importncia etiolgica dos fatores sexuais nas psiconeuroses, j que se v a irrupo dessas doenas em resposta s comoes mais banais 
e at mesmo a causas precipitantes somticas, e j que foi preciso renunciar a uma etiologia especfica sob a forma de vivncias infantis particulares, eu nomearia 
a investigao psicanaltica dos neurticos como a fonte de que brota minha convico assim contestada. Quando nos servimos desse insubstituvel mtodo de investigao, 
inteiramo-nos de que os sintomas representam a atividade sexual do doente (na totalidade ou em parte) oriunda das fontes das pulses parciais normais ou perversas 
da sexualidade. (ver em [1] e [2]) No s uma boa parte da sintomatologia histrica deriva diretamente das expresses do estado de excitao sexual, e no s uma 
srie de zonas ergenas eleva-se, na neurose, ao sentido de rgos genitais, graas ao reforo de propriedades infantis, como tambm os mais complexos sintomas revelam-se 
como representaes "convertidas" de fantasias que tm por contedo uma situao sexual. Quem sabe interpretar a linguagem da histeria pode perceber que a neurose 
s diz respeito  sexualidade recalcada do doente. Para isso, basta compreender a funo sexual em sua devida extenso, circunscrita pela disposio infantil. Nos 
casos em que se precisa incluir uma emoo banal na causao do adoecimento, a anlise mostra regularmente que o efeito patognico foi produzido pelos infalveis 
componentes sexuais da vivncia traumtica.
         Passamos inadvertidamente da questo da causao das psiconeuroses para o problema de sua natureza essencial. Havendo uma disposio de levar em conta o 
que foi aprendido atravs da psicanlise, s se pode dizer que a essncia dessas doenas reside em perturbaes dos processos sexuais, ou seja, os processos que 
determinam no organismo a formao e a utilizao da libido sexual.  muito difcil deixar de imaginar esses processos como sendo, em ltima anlise, de natureza 
qumica, de modo que nas chamadas neuroses atuais devemos reconhecer os efeitos somticos das perturbaes do metabolismo sexual, e nas psiconeuroses, alm deles, 
os efeitos psquicos dessas perturbaes. A semelhana das neuroses com os fenmenos de intoxicao por certos alcalides e os fenmenos de abstinncia deles, e 
tambm com a doena de Basedow e a de Addison, impe-se de imediato clinicamente; e assim como estas duas ltimas doenas j no podem ser descritas como ``doenas 
nervosas", tambm as ``neuroses" propriamente ditas, apesar de sua denominao, logo tero de ser excludas dessa classe.
         Por conseguinte, pertence  etiologia das neuroses tudo o que pode atuar prejudicialmente sobre os processos que servem  funo sexual. Assim, vm em primeiro 
lugar os males que afetam a prpria funo sexual, na medida em que estes, variando conforme a cultura e a educao, so considerados nocivos  constituio sexual. 
Em segundo lugar vem toda sorte de outros males e traumas que, atravs do prejuzo generalizado do organismo, podem prejudicar secundariamente seus processos sexuais. 
Mas no se deve esquecer que o problema etiolgico  pelo menos to complicado nas neuroses quanto o  a causao em qualquer outra doena. Quase nunca basta uma 
nica influncia patognica; na grande maioria dos casos exige-se uma multiplicidade de fatores etiolgicos que apiam uns aos outros e que, portanto, no devem 
ser colocados em oposio. Tambm por isso, o estado neurtico no pode ser nitidamente distinguido da sade. O adoecimento  resultado de uma soma, e esse total 
de determinantes etiolgicos pode ser completado por qualquer lado. Buscar a etiologia das neuroses exclusivamente na hereditariedade ou na constituio seria to 
unilateral quanto pretender atribuir essa etiologia unicamente s influncias acidentais que atuam sobre a sexualidade durante a vida, quando o discernimento mostra 
que a essncia dessas situaes de adoecimento reside apenas numa perturbao dos processos sexuais no organismo.
         Viena, junho de 1905.
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         MEINE ANSICHTEN BER DIE ROLLE DER SEXUALITT IN DER TIOLOGIE DER NEUROSEN
         
         (a) EDIES EM ALEMO:
         (1905 Junho. Data do manuscrito.)
          1906 Em E. Loewenfeld, Sexualleben und Nervenleiden, 4 ed. (1914, 5 ed., pp. 313-322), Wiesbaden: Bergmann.
         1906 S.K.S.N., I, pp. 225-234. (1911, 2 ed., pp. 220-229; 1920, 3 ed.; 1922, 4 ed.).
         1924 G.S., 5, pp. 123- 133.
         1942 G.W., 5, pp. 149-159.
         
         (b) TRADUES EM INGLS:
         
         "My Views on the Rle of Sexuality in the Etiology of the Neuroses"
         1909 S.P.H., pp. 186-193. (Trad. de A.A. Brill.) (1912, 2 ed.; 1920, 3 ed.)
         
         "My Views on the Part Played by Sexuality in the Aetiology of the Neuroses"
         1924 C.P. 1, pp. 272-283. (Trad. de J. Bernays.)
         
         A presente traduo [inglesa]  nova, da autoria de James Strachey.
         
         As edies anteriores do livro de Loewenfeld haviam includo discusses sobre as teses de Freud; para a quarta edio, porem, Loewenfeld convenceu Freud 
a redigir esse artigo. Freud concordou em revis-lo para a quinta edio, mas, na verdade, fez apenas uma nica alterao trivial.
         O trao mais notvel desse artigo  que ele contm a primeira revogao cabal da crena de Freud na etiologia traumtica da histeria, bem como sua primeira 
insistncia na importncia das fantasias (opinies que ele comunicara a Fliess em particular muitos anos antes). Ver a partir de [1] e em [2].
         
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       TRATAMENTO PSQUICO (OU ANMICO) (1905)
         
         
         "Psyche"  uma palavra grega e se concebe, na traduo alem, como alma. Tratamento psquico significa, portanto, tratamento anmico. Assim, poder-se-ia 
pensar que o significado subjacente : tratamento dos fenmenos patolgicos da vida anmica. Mas no  este o sentido dessas palavras. "Tratamento psquico'' quer 
dizer, antes, tratamento que parte da alma, tratamento - seja de perturbaes anmicas ou fsicas - por meios que atuam, em primeiro lugar e de maneira direta, sobre 
o que  anmico no ser humano.
         Um desses meios e sobretudo a palavra, e as palavras so tambm a ferramenta essencial do tratamento anmico. O leigo por certo achara difcil compreender 
que as perturbaes patolgicas do corpo e da alma possam ser eliminadas atravs de "meras" palavras. Achar que lhe esto pedindo para acreditar em bruxarias. E 
no estar to errado assim: as palavras de nossa fala cotidiana no passam de magia mais atenuada. Mas ser preciso tomarmos um caminho indireto para tornar compreensvel 
o modo como a cincia  empregada para restituir s palavras pelo menos parte de seu antigo poder mgico.
         S em poca recente, alm disso, os mdicos de formao cientfica aprenderam a apreciar o valor do tratamento anmico. Isso se esclarece facilmente ao 
pensarmos no curso de desenvolvimento da medicina neste ltimo meio sculo. Aps um perodo bastante infrutfero de dependncia da chamada filosofia da natureza, 
a medicina, sob a influncia propcia das cincias naturais, fez seus maiores progressos, tanto na qualidade de cincia como na de arte: desvendou a composio do 
organismo a partir de unidades microscopicamente pequenas (as clulas), aprendeu a compreender fsica e quimicamente cada um dos processos (funes) vitais, distinguiu 
as modificaes visveis e palpveis das partes do corpo em conseqncia dos diferentes processos patolgicos, e descobriu, por outro lado, os indcios pelos quais 
se revelam os processos patolgicos entranhados a fundo no organismo vivo; desvendou ainda um grande nmero dos micrbios patognicos e, com a ajuda dos conhecimentos 
recm-adquiridos, reduziu extraordinariamente os perigos das intervenes cirrgicas mais graves. Todos esses progressos e descobertas diziam respeito ao aspecto 
fsico do ser humano, e assim, em conseqncia de uma linha de raciocnio incorreta, mas facilmente compreensvel, os mdicos passaram a restringir seu interesse 
ao corporal e de bom grado deixaram aos filsofos, a quem menosprezavam, a tarefa de se ocuparem do anmico.
          verdade que a medicina moderna tinha motivos suficientes para estudar o incontestvel vnculo existente entre o fsico e o anmico, mas nunca deixou de 
representar o anmico como determinado pelo fsico e dependente deste. Assim, enfatizou-se que o funcionamento intelectual estaria ligado  existncia de um crebro 
normalmente desenvolvido e suficientemente nutrido, e que qualquer adoecimento desse rgo faria com que se incorresse em perturbaes; que a introduo de substncias 
txicas na circulao poderia produzir certos estados de doena mental, ou, em pequena escala, que os sonhos do sujeito adormecido seriam modificveis conforme os 
estmulos que se fizesse atuar sobre ele para fins experimentais.
         A relao entre o fsico e o anmico (tanto nos animais quanto no ser humano)  recproca, mas o outro lado dessa relao, o efeito do anmico no corpo, 
encontrou pouca aceitao aos olhos dos mdicos em pocas anteriores. Eles pareciam temerosos de conceder uma certa autonomia  vida anmica, como se com isso fossem 
abandonar o terreno da cientificidade.
         Essa orientao unilateral da medicina para o aspecto fsico passou, na ltima dcada e meia, por uma modificao gradual diretamente oriunda da prtica 
mdica. Ocorre que h um grande nmero de doentes de maior ou menor gravidade que, por seus distrbios e queixas, fazem grandes exigncias  habilidade do mdico, 
mas em quem no se encontram sinais visveis e palpveis do processo patolgico, seja durante a vida ou depois da morte, apesar de todos os progressos dos mtodos 
de investigao da medicina cientfica. Um grupo desses doentes destaca-se pela abundncia e pela variedade multiforme do quadro patolgico; no podem fazer nenhum 
trabalho intelectual, em conseqncia de dores de cabea ou insuficincia da ateno, seus olhos doem durante a leitura, suas pernas se cansam ao andar, ficando 
pesadas, doloridas ou dormentes, sua digesto  perturbada por sensaes dolorosas, eructaes ou espasmos gstricos, a defecao no se d sem a ajuda de laxativos, 
o sono  abolido etc. Eles podem ter todos esses males simultaneamente ou em sucesso, ou sofrer apenas de uma seleo deles; na totalidade dos casos, trata-se obviamente 
da mesma doena. Apesar disso, os sinais da doena so amide mais variveis, revezando-se entre si e substituindo uns aos outros; um mesmo doente, at ento incapaz 
de trabalhar por causa das dores de cabea, mas com uma digesto bastante boa, pode no dia seguinte desfrutar de uma cabea desembaraada, mas a partir da suportar 
mal a maioria dos alimentos. Da mesma forma, seus padecimentos o abandonam subitamente ao sobrevir uma modificao em suas condies de vida; numa viagem, pode sentir-se 
perfeitamente bem e saborear sem prejuzo a mais diversificada dieta, mas, de volta a casa, talvez tenha de restringir-se novamente  coalhada. Em alguns desses 
doentes, a perturbao - seja ela uma dor ou uma fraqueza nos moldes de uma paralisia - pode at trocar repentinamente de lado no corpo, passando da direita para 
a rea correspondente no lado esquerdo. Em todos, porm,  possvel observar que os sinais de padecimento esto muito claramente sob a influncia das excitaes, 
comoes, preocupaes etc., e tambm que desaparecem, podendo dar lugar a uma sade plena, sem deixar nenhum vestgio, nem mesmo aps uma longa permanncia.
         A investigao mdica finalmente mostrou que essas pessoas no devem ser consideradas nem tratadas como doentes gstricos, doentes dos olhos ou similares, 
mas que, nelas, trata-se de uma doena do sistema nervoso como um todo. At aqui, entretanto, a investigao do crebro e dos nervos desses doentes no permitiu 
encontrar nenhuma modificao palpvel, e alguns dos aspectos do quadro patolgico chegam at a proibir a expectativa de que um dia se possa apontar, com meios de 
investigao mais apurados, modificaes de tal ordem que sejam capazes de esclarecer a doena. Tem-se conferido a esse estado o nome de nervosismo (neurastenia, 
histeria), qualificando-o como uma doena meramente "funcional" do sistema nervoso. Alis, tambm em muitas doenas nervosas mais duradouras, e naquelas que produzem 
apenas sinais patolgicos anmicos (as chamadas idias obsessivas, idias delirantes, demncia), o exame pormenorizado do crebro (aps a morte do doente) no trouxe 
nenhum resultado.
         Coube assim aos mdicos investigar a natureza e a origem das manifestaes patolgicas desses doentes nervosos ou neurticos. Nesse processo, fez-se ento 
a descoberta de que, pelo menos numa parcela desses enfermos, os sinais da doena no provinham de outra coisa seno uma influncia modificada da vida anmica sobre 
seu corpo, devendo-se portanto buscar no anmico a causa imediata da perturbao. Quais so as causas remotas de cada distrbio pelo qual o anmico  afetado (o 
que, por sua vez, tem uma atuao perturbadora sobre o fsico) constitui uma outra questo, que bem podemos deixar de considerar aqui. Mas a cincia mdica encontrou 
nisso a oportunidade de voltar plenamente sua ateno para o lado at ento negligenciado da relao recproca entre o corpo e a alma.
         S depois de estudar o patolgico  que se compreende a normalidade. Muito do que sempre se soube acerca da influncia do anmico sobre o corpo s ento 
se desloca para sua perspectiva correta. O exemplo mais corriqueiro de atuao anmica sobre o corpo, observado regularmente e em todas as pessoas,  fornecido pela 
chamada "expresso das emoes". Quase todos os estados anmicos de um homem exteriorizam-se nas tenses e relaxamentos de seus msculos faciais, na focalizao 
de seus olhos, no afluxo de sangue para sua pele, no emprego [varivel] de seu aparelho vocal e na postura de seus membros, sobretudo as mos. Essas modificaes 
fsicas concomitantes em geral no trazem nenhum benefcio  pessoa em questo, mas, ao contrrio, so amide obstculos a suas intenes, quando ela quer ocultar 
dos outros seus processos anmicos; para esses outros, no entanto, servem como sinais fidedignos pelos quais  possvel inferir os processos anmicos, e nos quais 
se deposita maior confiana do que em qualquer das expresses intencionais feitas simultaneamente em palavras. Quando se tem possibilidade de submeter algum a um 
exame mais rigoroso durante uma dada atividade anmica, outras conseqncias fsicas dessa atividade so encontradas nas modificaes de seu funcionamento cardaco, 
nas alteraes da distribuio de sangue em seu corpo, e coisas similares.
         Em certos estados anmicos chamados de "afetos", a participao do corpo  to evidente e intensa que alguns estudiosos da alma chegaram at a pensar que 
a essncia do afeto consistiria apenas nessas suas exteriorizaes fsicas. So genericamente conhecidas as extraordinrias mudanas na expresso facial, na circulao 
sangnea, nas secrees e nos estados de excitao da musculatura voluntria sob a influncia, por exemplo, do medo, da clera, da dor psquica e do deleite sexual. 
Menos conhecidos, embora estabelecidos com plena certeza, so outros efeitos fsicos dos afetos que j no so prprios da expresso deles. Os estados afetivos persistentes 
de natureza penosa, ou, como se costuma dizer, "depressiva", tais como desgosto, a preocupao e a tristeza, abatem a nutrio do corpo como um todo, causam o embranquecimento 
dos cabelos, fazem a gordura desaparecer e provocam alteraes patolgicas nas paredes dos vasos sangneos. Inversamente, sob a influncia de excitaes mais alegres, 
da "felicidade", v-se o corpo inteiro desabrochar e a pessoa recuperar muitos sinais de juventude. Evidentemente, os grandes afetos tm muito a ver com a capacidade 
de resistncia s doenas infecciosas; um bom exemplo disso  a observao mdica de que a propenso a contrair tifo e disenteria  muito mais significativa nos 
membros de um exrcito derrotado do que na situao de vitria. Ademais, os afetos - embora quase que exclusivamente os depressivos - muitas vezes bastam por si 
mesmos para ocasionar doenas, tanto no tocante aos males do sistema nervoso com alteraes anatmicas demonstrveis quanto no que concerne s doenas de outros 
rgos, situao na qual temos de supor que a pessoa em causa j tinha uma predisposio para tal doena, at ali inoperante.
         Os estados patolgicos j formados podem ser sumamente influenciados pelos afetos tempestuosos, quase sempre no sentido de um agravamento, mas tampouco 
faltam exemplos em que um grande choque ou um desgosto sbito, mediante uma alterao peculiar no tono do organismo, tem uma influncia salutar sobre um estado patolgico 
bem consolidado ou chega mesmo a aboli-lo. Por fim, no h dvida alguma de que a durao da vida pode ser consideravelmente abreviada pelos afetos depressivos, 
do mesmo modo que um choque mais violento, uma "injria" contundente ou uma humilhao podem dar um fim repentino  vida; o curioso  que, vez por outra, este ltimo 
efeito  tambm observado como conseqncia de uma grande e inesperada alegria.
         Os afetos, num sentido mais estrito, distinguem-se por um vnculo muito especial com os processos fsicos, mas, a rigor, todos os estados anmicos, inclusive 
aqueles que estamos acostumados a considerar como "processos de pensamento" so "afetivos" numa certa medida, e nenhum deles carece de manifestaes fsicas e da 
capacidade de modificar os processos corporais. Mesmo enquanto se est tranqilamente pensando por meio de "representaes", correspondem ao contedo dessas representaes 
vrias excitaes constantes, desviadas para os msculos lisos e estriados; estas, mediante o reforo apropriado, podem tornar-se claras e fornecer a elucidao 
de muitos fenmenos estranhos e at supostamente "sobrenaturais". Assim, por exemplo, a chamada "advinhao do pensamento" [Gedanken erraten] se esclarece por pequeninos 
movimentos musculares involuntrios executados pelo "mdium" quando se faz uma experincia com ele - algo como um deixar-se guiar por ele para encontrar um objeto 
escondido. O fenmeno inteiro merece, antes, o nome de traio do pensamento [Gedanken verraten].
         Os processos de volio e ateno tambm so capazes de influenciar profundamente os processos fsicos e de desempenhar, nas doenas somticas, um grande 
papel fomentador ou inibidor. Um grande mdico ingls relatou que consegue provocar, em qualquer parte do corpo para a qual queira dirigir sua ateno, uma multiplicidade 
de sensaes e dores, e a maioria dos seres humanos parece comportar-se de maneira parecida. Ao formar um juzo sobre as dores, que se costuma considerar como fenmenos 
fsicos, em geral cabe levar em conta sua clarssima dependncia das condies anmicas. Os leigos, que de bom grado renem tais influncias anmicas sob o nome 
de ``imaginao'', costumam ter pouco respeito pelas dores decorrentes da imaginao, em contraste com as que so causadas por leses, doenas ou inflamaes. Mas 
isso e evidentemente injusto: qualquer que seja sua causa, inclusive a imaginao, as dores em si nem por isso so menos reais ou menos violentas.
         Assim como as dores so produzidas ou intensificadas em se voltando a ateno para elas, tambm desaparecem pelo desvio da ateno. Essa experincia pode 
ser utilizada com todas as crianas para acalm-las; os soldados adultos no sentem a dor da ferida no entusiasmo febril da batalha;  muito provvel que os mrtires, 
no ardor desmedido de seu sentimento religioso e voltando todos os seus pensamentos para as recompensas com que lhes acena o paraso, fiquem perfeitamente insensveis 
s dores de sua tortura.  menos fcil comprovar atravs de exemplos a influncia da volio nos processos patolgicos do corpo, mas  muito possvel que a determinao 
de curar-se ou a vontade de morrer no sejam desprovidas de importncia nem mesmo para o desfecho dos casos mais graves e mais duvidosos de doena.
         Tem extremo direito a nosso interesse o estado anmico da expectativa, por meio do qual pode ser mobilizada uma srie de foras anmicas de suma eficcia 
para a instaurao e a cura das doenas fsicas. A expectativa angustiada por certo no deixa de influenciar o resultado; seria importante saber com certeza se ela 
contribui tanto para o adoecimento quanto se acredita, se  verdade, por exemplo, que em meio a uma epidemia correm maior perigo aqueles que tm medo de adoecer. 
O estado inverso - a expectativa confiante e esperanosa -  uma fora atuante com que temos de contar, a rigor, em todas as nossas tentativas de tratamento e cura. 
De outro modo, no poderamos explicar a peculiaridade dos efeitos observados dos medicamentos e intervenes teraputicas. Dentre os mais palpveis est a influncia 
da expectativa confiante nas chamadas curas miraculosas, ainda hoje efetuadas diante de nossos olhos sem a colaborao de nenhuma habilidade mdica. As curas milagrosas 
tpicas realizam-se nos crentes sob a influncia de cerimnias prprias para intensificar os sentimentos religiosos, ou seja, em lugares onde se adora uma imagem 
milagrosa, ou onde uma figura santa ou divina revelou-se aos homens e lhes prometeu alvio como recompensa por sua adorao, ou onde as relquias de um santo so 
preservadas como um tesouro. No parece fcil  f religiosa, por si s, suprimir a doena pelo caminho da expectativa, pois, em geral, h ainda o concurso de outras 
coisas nas curas milagrosas. As ocasies em que se busca a clemncia divina tm de ser indicadas por condies especiais; o esforo fsico que o doente se impe, 
as dores e sacrifcios da peregrinao devem torn-lo digno dessa regra especial.
         Seria conveniente, mas muito equivocado, simplesmente recusar crdito a essas curas milagrosas e pretender explicar os relatos feitos sobre elas atravs 
de uma combinao de engodo devoto e observao inexata. Por mais que essa tentativa de explicao possa amide justificar-se, ainda assim no tem o poder de descartar 
por completo o fato das curas miraculosas. Elas realmente ocorrem, deram-se em todas as pocas e dizem respeito no s s doenas de origem anmica, ou seja, quelas 
que se fundamentam na "imaginao" e podem justamente ser afetadas de maneira especial pelas circunstncias da romaria, mas tambm aos estados patolgicos fundamentados 
no "orgnico" e at ento resistentes a todos os esforos mdicos.
         Mas no h nenhuma necessidade de recorrer a outra coisa seno os poderes anmicos para esclarecer as curas milagrosas. Nem mesmo nessas condies manifestam-se 
efeitos que possamos considerar inconcebveis para nossa cognio. Tudo se passa naturalmente; de fato, o poder da f religiosa recebe a um reforo de muitas foras 
pulsionais tipicamente humanas. A crena religiosa de cada um  intensificada pelo entusiasmo da multido em meio  qual ele costuma aproximar-se do local sagrado. 
Todas as moes anmicas de cada ser humano podem ser imensamente ampliadas por esse efeito das massas. Quando algum vai sozinho em busca da cura no lugar miraculoso, 
so a fama e o prestgio do lugar que substituem a influncia da multido, e portanto, mais uma vez,  apenas o poder da multido que exerce seu efeito. Essa influncia 
tambm se faz sentir de mais outra maneira. Sabe-se que a misericrdia divina mostra-se apenas a alguns dentre os muitos que a ela recorrem, e cada qual gostaria 
de estar entre os distinguidos e eleitos; a ambio que dormita em cada um vem em socorro da f religiosa. Quando tantas foras poderosas colaboram, no nos deve 
surpreender que, vez por outra, a meta seja realmente alcanada.
         Tampouco os que no tm crena religiosa precisam renunciar s curas milagrosas. Para eles, o prestgio e o efeito das massas substituem completamente a 
crena religiosa. H em todas as pocas tratamentos da moda e mdicos da moda, que exercem um domnio especial na alta sociedade, onde as forcas pulsionais anmicas 
mais poderosas so representadas pelo esforo de exceder uns aos outros e imitar os mais aristocrticos. Tais tratamentos da moda ostentam efeitos teraputicos que 
esto fora de seu alcance, e um mesmo procedimento rende muito mais nas mos de um mdico da moda, que talvez se tenha tornado conhecido por assistir alguma personalidade 
de destaque, do que pode render nas de outro mdico. Assim, tanto h milagreiros humanos quanto divinos, s que os homens que se servem desses favores da moda e 
da imitao para galgar uma posio de prestgio perdem-na rapidamente, como e da natureza das foras que atuaram para consegui-la.
         A compreensvel insatisfao com a ajuda amide insuficiente da arte medicinal, e talvez tambm a rebeldia interna contra o rigor do pensamento cientfico, 
que reflete para os homens a inexorabilidade da natureza, criaram em todas as pocas, e novamente em nossos dias, uma curiosa condio para o poder curativo das 
pessoas e dos procedimentos. A expectativa confiante s se produz quando aquele que presta assistncia no  mdico e pode vangloriar-se de no entender nada da 
fundamentao cientfica da teraputica, e quando o procedimento no foi comprovado por um teste rigoroso, mas  recomendado por alguma preferncia popular. Da 
a profuso de terapias naturais e terapeutas naturais que ainda hoje fazem concorrncia aos mdicos no exerccio de sua profisso, e dos quais podemos ao menos dizer, 
com alguma certeza, que com muito mais freqncia trazem prejuzos do que benefcios aos que buscam a cura. Se temos nisso uma base para censurar a expectativa confiante 
dos doentes, ainda assim no devemos ser to ingratos a ponto de esquecer que essa mesma fora apia continuamente nossos prprios esforos mdicos.  provvel que 
o efeito de cada procedimento prescrito pelo mdico, de cada interveno feita por ele, componha-se de duas partes. E uma delas, ora maior, ora menor, mas que nunca 
deve ser de todo desprezada,  fornecida pela conduta anmica do doente. A expectativa confiante com que ele vai ao encontro da influncia direta de uma providncia 
mdica depende, de um lado, da extenso de sua prpria nsia de cura, e, de outro, de sua confiana em ter dado o passo certo para isso, ou seja, de seu respeito 
pela arte mdica em geral; depende ainda do poder que ele atribui  pessoa do mdico, e at mesmo da simpatia puramente humana que este desperta nele. H mdicos 
cuja capacidade de conquistar a confiana dos doentes tem um grau mais elevado que em outros; nesses casos,  freqente o enfermo j sentir um alvio ao ver o mdico 
entrar em seu quarto.
         Os mdicos tm praticado o tratamento anmico desde sempre, ainda mais abundantemente em pocas remotas do que hoje em dia. Quando entendemos por tratamento 
psquico o esforo de provocar no doente os estados e condies anmicos mais propcios para a cura, vemos que esse tipo de tratamento mdico , historicamente, 
o mais antigo. Os povos da antigidade mal dispunham de outra coisa seno o tratamento psquico; e nunca deixavam de apoiar o efeito das poes curativas e das medidas 
teraputicas mediante um tratamento anmico insistente. Os conhecidos usos de frmulas mgicas, banhos purificadores e invocao de sonhos oraculares dormindo no 
salo do templo, entre outros, s podem ter-se tornado curativos por via psquica. A prpria personalidade do mdico adquiria prestgio por derivar diretamente do 
poder divino, j que, em seus primrdios, a arte curativa estava nas mos dos sacerdotes. Assim, tanto naquela poca quanto hoje, a pessoa do mdico era uma das 
condies principais para promover no doente o estado psquico propcio a cura.
         Agora comeamos tambm a compreender a "magia" das palavras.  que as palavras so o mediador mais importante da influncia que um homem pretende exercer 
sobre o outro; as palavras so um bom meio de provocar modificaes anmicas naquele a quem so dirigidas, e por isso j no soa enigmtico afirmar que a magia das 
palavras pode eliminar os sintomas patolgicos, sobretudo aqueles que se baseiam justamente nos estados psquicos.
         Todas as influncias anmicas que se revelaram eficazes na eliminao das doenas tm algo de incerto. Os afetos, a concentrao da vontade, o desvio da 
ateno, a expectativa confiante, todas essas foras, que ocasionalmente eliminam a doena, deixam de faz-lo em outros casos sem que se possa responsabilizar a 
natureza da doena pelo resultado diferente. Evidentemente,  o carter autocrtico das personalidades psiquicamente to diversas que estorva a regularidade dos 
resultados teraputicos. Desde que os mdicos reconheceram com clareza a importncia do estado anmico para a cura, ocorreu-lhes, naturalmente, fazer uma tentativa 
de no mais deixar a critrio do enfermo o tanto de boa vontade psquica que nele se produziria, mas forar energicamente o estado anmico propcio por meios adequados. 
Foi nesse esforo que teve origem o moderno tratamento anmico.
         Assim se produziu toda uma quantidade de modos de tratamento, alguns bastante evidentes, outros somente acessveis  compreenso depois de hipteses complexas. 
 evidente, por exemplo, que o mdico, j no podendo hoje inspirar admirao como sacerdote ou como possuidor de um saber secreto, h de usar sua personalidade 
de modo a poder ganhar a confiana e uma parcela da simpatia de seu paciente. J atender a uma distribuio conveniente que ele consiga esse resultado apenas com 
um nmero restrito de enfermos, enquanto outros, por seu grau de formao e suas inclinaes, sero atrados para a pessoa de outros mdicos. Entretanto, com a abolio 
da livre escolha do mdico, aniquila-se uma importante precondio para influenciar o doente em termos anmicos.
         H toda uma srie de meios psquicos muito eficazes de que o mdico deve privar-se. Ou no tem o poder, ou no pode arrogar-se o direito de invoc-los. 
Isso se aplica sobretudo  provocao dos afetos mais intensos e, portanto, aos meios mais importantes pelos quais o anmico atua sobre o fsico. O destino muitas 
vezes cura as doenas atravs das grandes emoes de alegria, da satisfao das necessidades e da realizao dos desejos, com os quais o mdico, amide impotente 
fora de sua arte, no pode rivalizar. Estaria antes em seu poder provocar medo e terror para fins curativos, mas, exceto no caso de crianas, ele deve ponderar muito 
sobre o recurso a essas medidas perigosas. Por outro lado, o mdico deve romper todas as relaes com os doentes que estejam ligadas a sentimentos de ternura, por 
causa da significao vital desses estados anmicos. E assim, seu poder de promover modificaes anmicas em seus doentes parece to reduzido desde o incio que 
o tratamento anmico deliberadamente intensificado no prometeria nenhuma vantagem sobre o mtodo anterior.
         O mdico pode tentar dirigir algo da funo volitiva e da ateno do doente, e em diversos estados patolgicos tem bons motivos para isso. Quando obriga 
persistentemente algum que se cr paraltico a fazer os movimentos que supostamente lhe so impossveis, ou ao recusar um exame a um paciente nervoso que insiste 
em ser examinado por uma doena que certamente no existe, o mdico estar seguindo o rumo de tratamento correto, mas esses casos isolados dificilmente justificariam 
situarmos o tratamento anmico como um procedimento teraputico especial. Em contrapartida, existe um caminho singular e imprevisto que oferece ao mdico a possibilidade 
de exercer uma influncia profunda, se bem que transitria, sobre a vida anmica de seus pacientes, e de utiliz-la para fins teraputicos.
         Sabe-se h muito tempo, embora somente nas ltimas dcadas isso tenha-se elevado acima de qualquer dvida, que  possvel, mediante certas aes suaves, 
transportar as pessoas para um estado anmico totalmente peculiar, que tem muita semelhana com o sono e por isso  chamado de hipnose.  primeira vista, os procedimentos 
para produzir a hipnose no tm muita coisa em comum. Pode-se hipnotizar algum fazendo-o olhar fixamente para um objeto brilhante por alguns minutos, ou segurando 
um relgio pelo mesmo espao de tempo junto ao ouvido do sujeito experimental, ou ainda passando repetidamente as mos espalmadas, a uma pequena distncia, sobre 
seu rosto e membros. Mas tambm se pode chegar a esse mesmo resultado avisando a pessoa a quem se pretende hipnotizar, com tranqila segurana, sobre a chegada do 
estado hipntico e suas particularidades, ou seja, "fazendo-a crer" na hipnose. Tambm  possvel vincular esses dois procedimentos. Deixa-se a pessoa sentar, ergue-se 
um dedo diante de seus olhos, ordenando-lhe que o encare fixamente, e ento diz-se a ela: "Voc est-se sentindo cansada. Seus olhos j esto fechando, voc no 
consegue mant-los abertos. Seus membros esto pesados, voc j no consegue moviment-los. Est adormecendo..." etc. Observe-se ainda que todos esses procedimentos 
tm em comum a fixidez da ateno; nos primeiros a ser mencionados, trata-se de fatigar a ateno mediante estmulos sensoriais fracos e uniformes. Ainda no est 
satisfatoriamente esclarecido o modo como a mera conversa provoca exatamente o mesmo estado que os demais procedimentos. Os hipnotizadores habilidosos afirmam que 
a partir desses meios consegue-se uma clara modificao hipntica em cerca de oitenta por cento dos sujeitos experimentais. Mas no h nenhum indcio pelo qual se 
possa saber de antemo quais as pessoas hipnotizveis e quais as que no o so. O estado patolgico de modo algum faz parte das precondies da hipnose: as pessoas 
normais costumam deixar-se hipnotizar com especial facilidade, enquanto os neurticos so muito mais difceis de hipnotizar e os doentes mentais so completamente 
rebeldes. O estado hipntico tem muitas gradaes diferentes; no grau mais leve, o hipnotizado sente apenas algo como uma ligeira insensibilidade, enquanto o grau 
mais elevado e marcado por curiosidades especiais  chamado de sonambulismo, por sua semelhana com o fenmeno natural observvel de andar durante o sono. Mas a 
hipnose de modo algum  como nosso sono noturno ou como o sono provocado por soporferos. Nela ocorrem mudanas e se conservam funes anmicas que faltam ao sono 
normal.
         Muitos dos fenmenos da hipnose, como as alteraes da atividade muscular, tm apenas um interesse cientfico. Mas a marca mais significativa da hipnose, 
e para ns a mais importante, reside na atitude do hipnotizado perante seu hipnotizador. Enquanto o hipnotizado comporta-se perante o mundo externo como se estivesse 
adormecido, com todos os seus sentidos desviados dele, est desperto para a pessoa que o hipnotizou: v e ouve apenas a ela, compreende-a e lhe d respostas. Esse 
fenmeno, chamado de rapport na hipnose, encontra um paralelo na maneira como algumas pessoas dormem - por exemplo, a me que est amamentando um filho. Trata-se 
de algo to curioso que h de facilitar nosso entendimento da relao entre o hipnotizado e o hipnotizador.
         Mas o fato de o mundo do hipnotizado estar como que restrito ao hipnotizador no  tudo. Ocorre ainda que o primeiro torna-se completamente dcil perante 
o segundo, ficando obediente e crdulo, e de um modo quase ilimitado na hipnose profunda. Na maneira como se do essa obedincia e essa credulidade mostra-se ento, 
como caracterstica do estado de hipnose, que a influncia da vida anmica sobre o fsico aumenta extraordinariamente no hipnotizado. Se o hipnotizador diz "Voc 
no pode movimentar seu brao", o brao cai inerte;  bvio que o hipnotizado se empenha com todas as suas foras, mas no consegue mov-lo. Se o hipnotizador diz 
"Seu brao est se mexendo sozinho, e voc no consegue det-lo", l est o brao a se movimentar, e vemos o hipnotizado fazer esforos inteis para mant-lo quieto. 
A representao que o hipnotizador forneceu ao hipnotizado atravs da palavra provocou nele precisamente a relao anmico-fsica correspondente ao contedo da representao. 
Existe nisso, de um lado, a obedincia, mas de outro h um aumento da influncia fsica de uma idia. A palavra, nesse caso, volta realmente a tornar-se magia.
         O mesmo se d no campo das percepes sensoriais. Diz o hipnotizador: "Voc est vendo uma cobra, est cheirando uma rosa, est ouvindo a mais linda msica", 
e o hipnotizado v, cheira e ouve o que dele exige a representao que lhe  fornecida. E como sabemos que ele realmente tem essas percepes? Poder-se-ia pensar 
que est apenas fingindo, mas no h razo alguma para duvidar disso, j que ele se comporta exatamente como se de fato as tivesse: expressa os afetos pertinentes 
a elas e pode tambm, em algumas circunstncias, descrever depois da hipnose suas percepes e vivncias imaginrias. Percebe-se ento que ele viu e ouviu tal como 
vemos e ouvimos nos sonhos, ou seja, que alucinou. Obviamente,  to crdulo perante o hipnotizador que est convencido de que devia haver uma cobra a ser vista 
quando o hipnotizador lhe anunciou isso; e essa convico teve um efeito to intenso no corpo que ele realmente viu a cobra, coisa que, alis, pode acontecer tambm 
com pessoas que no esto hipnotizadas.
         Observe-se, de passagem, que uma credulidade como a que  demonstrada pelo hipnotizado perante o hipnotizador, fora da hipnose e na vida real, s  encontrada 
nos filhos perante os pais amados, e que uma adaptao semelhante da prpria vida anmica  de outra pessoa, com uma submisso anloga, encontra um paralelo nico, 
mas integral, em algumas relaes amorosas plenas de dedicao. A combinao da estima exclusiva com a obedincia crdula costuma estar entre as marcas distintivas 
do amor.
         H ainda alguns pontos a relatar sobre o estado hipntico. A fala do hipnotizador, que exibe os efeitos mgicos anteriormente descritos,  chamada de sugesto, 
e acostumamo-nos a empregar esse termo tambm quando h, em princpio, meramente a inteno de provocar um efeito semelhante. Tal como o movimento e a sensao, 
todas as outras atividades anmicas do hipnotizado obedecem a essa sugesto, ao passo que ele no costuma tomar nenhuma iniciativa espontaneamente. Pode-se explorar 
a obedincia hipntica para fazer uma srie de experimentos sumamente curiosos, que proporcionam um profundo conhecimento do mecanismo anmico e produzem no observador 
uma convico inextirpvel do insuspeitado poder do anmico sobre o fsico. Tal como o hipnotizado pode ser forado a ver o que no est ali, pode tambm ser proibido 
de ver algo que est presente e que pretende impor-se a seus sentidos, como, por exemplo, determinada pessoa (a chamada "alucinao negativa"); essa pessoa descobre 
ento ser impossvel fazer-se notar pelo hipnotizado atravs de qualquer tipo de estimulao;  tratada por ele "como se fosse feita de vento". Pode-se sugerir ao 
hipnotizado que pratique certa aco determinado tempo depois de despertar da hipnose (a "sugesto ps-hipntica''), e ele observa esse prazo e executa a ao sugerida 
em seu estado desperto, sem que possa fornecer nenhuma razo para ela. Indagado sobre por que fez o que fez, ou se referir a um impulso obscuro a que no pde resistir, 
ou inventar algum pretexto bvio e precrio, sem se lembrar da verdadeira razo - a sugesto que lhe foi feita.
         O despertar da hipnose decorre sem esforo da interveno imperiosa do hipnotizador: "Acorde!" Depois da hipnose mais profunda, no h lembrana de nada 
do que nela foi vivenciado sob a influncia do hipnotizador. Esse trecho da vida anmica [do sujeito] fica como que isolado do restante. Outros hipnotizados guardam 
uma lembrana de carter onrico, e outros ainda lembram-se de tudo, mas relatam ter estado sob uma compulso psquica  qual no puderam opor nenhuma resistncia.
          impossvel exagerar o ganho cientfico trazido aos mdicos e psiclogos pela familiarizao com os fatos do hipnotismo. Entretanto, para avaliar a importncia 
prtica desses novos conhecimentos,  preciso colocar o mdico no lugar do hipnotizador e o doente no lugar do hipnotizado. Acaso a hipnose no parece apta a satisfazer 
todas as necessidades do mdico, na medida em que ele pretende proceder perante o doente como "mdico da alma"? A hipnose dota o mdico de uma autoridade da qual 
os sacerdotes ou os milagreiros provavelmente nunca foram possuidores, pois concentra todos os interesses anmicos do hipnotizado na pessoa do mdico; abole no doente 
a arbitrariedade da vida anmica, na qual identificamos um entrave obstinado  exteriorizao da influncia anmica no corpo; em princpio, produz um aumento do 
domnio do anmico sobre o fsico, aumento esse que s se costuma observar sob o efeito dos mais intensos afetos; e ainda, graas  possibilidade de que as instrues 
dadas ao doente durante a hipnose s se manifestem posteriormente, no estado normal (sugesto ps-hipntica), ela coloca nas mos do mdico o meio de utilizar o 
grande poder de que desfruta durante a hipnose para promover alteraes no doente quando desperto. Surgiria assim um padro simples para o tipo de cura mediante 
tratamento anmico: o mdico poria o doente em estado hipntico, far-lhe-ia a sugesto, modificada conforme as circunstncias, de que ele no estava doente, ou de 
que no sentiria mais seus sintomas ao acordar, depois o acordaria e confiaria na expectativa de que a sugesto cumprisse seu dever contra a doena. E se uma nica 
aplicao desse procedimento no fosse suficiente, ele seria repetido tantas vezes quantas fossem necessrias.
         
         Uma s considerao poderia impedir o mdico e o paciente de empregarem um procedimento teraputico to promissor, a saber, caso se revelasse que o benefcio 
da hipnose seria contrabalanado por algum prejuzo - por exemplo, se ela deixasse um distrbio ou fraqueza permanentes na vida anmica do hipnotizado. Mas as experincias 
feitas at agora j bastam para afastar essas dvidas; as hipnoses isoladas so totalmente inofensivas, e no causam dano algum mesmo sendo freqentemente repetidas. 
H que destacar apenas um ponto: quando as circunstncias tornam necessrio o uso prolongado do hipnotismo, estabelece-se um hbito de hipnose [no doente] e uma 
dependncia do mdico hipnotizador, o que no pode fazer parte do propsito do procedimento teraputico.
         O tratamento hipntico realmente significa hoje uma grande ampliao do alcance da medicina e, por conseguinte, um avano na arte de curar. Pode-se aconselhar 
cada enfermo a entregar-se a ele em confiana, desde que seja praticado por um mdico experiente e digno de crdito. Entretanto,  preciso servir-se da hipnose de 
um modo diferente do que  hoje habitual. Comumente, s se recorre a esse tipo de tratamento depois que todos os outros recursos fracassam, quando o doente j est 
desanimado e de m vontade. Tem ento de abandonar seu mdico, que no sabe hipnotizar ou no emprega a hipnose, e voltar-se para um mdico estranho, que em geral 
no usa ou no pode usar nada alm do hipnotismo. Ambas as situaes so desvantajosas para o enfermo. O prprio mdico da famlia deve conhecer a fundo o mtodo 
hipntico de terapia e aplic-lo desde o incio, to logo considere o caso e a pessoa apropriados para isso. Sempre que considerada til, a hipnose deve estar em 
posio equivalente a dos outros procedimentos teraputicos, e no ser encarada como um ltimo recurso ou mesmo uma queda da cientificidade para o embuste.  que 
o hipnotismo  til no apenas em todos os estados de nervosismo e nos distrbios devidos  "imaginao", mas tambm para romper hbitos patolgicos (como alcoolismo, 
vcio em morfina, aberraes sexuais) e ainda em muitas doenas orgnicas, inclusive inflamatrias, nas quais se tem uma perspectiva, mesmo persistindo o distrbio 
subjacente, de eliminar os sintomas incmodos para o enfermo, tais como as dores, inibies do movimento etc. A escolha dos casos para aplicao do procedimento 
hipntico depende quase sempre da deciso do mdico.
         Mas agora  chegado o momento de desfazer a impresso de que, com o recurso da hipnose, teria despontado para o mdico uma poca mais cmoda de taumaturgia. 
Ainda e preciso levar em conta diversas circunstncias aptas a reduzir consideravelmente nossas pretenses em relao  terapia hipntica e a restituir a sua justa 
medida as esperanas talvez despertadas nos doentes. Antes de mais nada, verifica-se que uma premissa bsica  insustentvel, qual seja, a de que se conseguiria, 
atravs da hipnose, retirar dos doentes a arbitrariedade que  perturbadora em sua conduta anmica. Eles a conservam e j a evidenciam em sua postura perante a tentativa 
de hipnotiz-los. Quando se disse acima que cerca de oitenta por cento das pessoas so hipnotizveis, esse nmero elevado s pde ser atingido computando-se entre 
os casos positivos todos aqueles que mostravam algum indcio de serem influenciveis. Na realidade, as hipnoses profundas e com plena docilidade, como as escolhidas 
para servir de modelo nas descries, so efetivamente raras ou, em todo caso, no to freqentes quanto seria desejvel no interesse da cura. Mas a impresso causada 
por esse fato pode novamente atenuar-se, na medida em que acentuemos o fato de que a profundidade da hipnose e a docilidade diante das sugestes no caminham pari 
passu, de modo que, muitas vezes, ainda  possvel observar um bom efeito da sugesto onde h apenas uma ligeira insensibilidade hipntica. Entretanto, mesmo considerando 
isoladamente a docilidade hipntica como o aspecto mais essencial desse estado, convm admitir que cada pessoa mostra sua particularidade nesse aspecto, deixando-se 
influenciar apenas at determinado grau de docilidade e detendo-se a. Isoladamente, portanto, as pessoas mostram graus muito diferentes de adequao para a terapia 
hipntica. Se fosse possvel descobrir um meio pelo qual todos esses graus particulares do estado hipntico pudessem ser intensificados at a hipnose completa, as 
peculiaridades dos enfermos seriam novamente eliminadas, atingindo-se o ideal do tratamento anmico. Mas esse progresso no foi obtido at agora; o grau de docilidade 
com que a sugesto ser recebida ainda depende muito mais do doente que do mdico, ou seja, reside, por sua vez, no arbtrio do enfermo.
         Ainda mais importante  um outro ponto de vista. Quando se descreve o resultado sumamente notvel da sugesto no estado hipntico, esquece-se com muita 
facilidade que aqui, como em todas as atividades anmicas, trata-se tambm de uma proporo ou de uma relao de foras. Ao colocarmos uma pessoa sadia em hipnose 
profunda e lhe ordenarmos que morda uma batata apresentada a ela como uma pra, ou se lhe dissermos que est vendo um conhecido e deve cumpriment-lo, ser fcil 
constatar uma docilidade completa, pois no h no hipnotizado nenhuma razo grave para que se oponha  sugesto. Mas diante de outras ordens - por exemplo, ao exigirmos 
que uma moa muito pudica se dispa, ou que um homem honesto se apodere de um objeto valioso furtando-o -,  possvel observar no hipnotizado uma resistncia que 
pode ir a ponto de ele se recusar a obedecer  sugesto. Com isso aprendemos que, mesmo na melhor das hipnoses, a sugesto no exerce um poder ilimitado, mas apenas 
um poder com determinada fora. Pequenos sacrifcios o hipnotizado pode fazer, mas diante dos grandes ele se detm, exatamente como quando est desperto. Assim, 
quando lidamos com um doente e o impelimos, atravs da sugesto, a renunciar a sua doena, notamos que isso significa para ele um grande sacrifcio, e no uma pequena 
oferenda. O poder da sugesto confronta-se aqui com a fora que criou e mantm os fenmenos patolgicos, e a experincia mostra que esta  de uma ordem de grandeza 
muito diferente da que caracteriza a influncia hipntica. O mesmo doente que se resigna com perfeita docilidade em qualquer situao onrica que lhe seja sugerida, 
desde que no seja francamente escandalosa, pode ficar completamente rebelde a uma sugesto que o prive, digamos, de sua paralisia imaginria. Acresce ainda que, 
na clnica, justamente os pacientes neurticos, em sua maioria, e que so difceis de hipnotizar, de modo que a luta contra as foras poderosas com que a doena 
se consolidou na vida anmica tem de ser travada, no com a totalidade da influncia hipntica, mas apenas com um fragmento dela.
         A sugesto, portanto, no constitui de antemo a certeza de uma vitria sobre a doena to logo se consiga a hipnose, ou mesmo a hipnose profunda. Falta 
ainda travar uma outra batalha, cujo desfecho e amide muito incerto. Por isso  que uma nica hipnose no surte nenhum efeito contra as perturbaes graves de origem 
anmica. Com a repetio, porm, a hipnose perde a impresso de milagre que o doente talvez tenha concebido. Sucedendo-se as hipnoses, e possvel conseguir que se 
torne cada vez mais clara a influncia que a princpio faltou sobre a doena, at que se alcance um resultado satisfatrio. Mas tal tratamento hipntico pode decorrer 
de maneira to cansativa e morosa quanto qualquer outra terapia.
         Outro aspecto que trai a relativa fraqueza da sugesto, comparada s doenas a ser combatidas,  que de fato ela traz a suspenso dos sintomas patolgicos, 
mas apenas por um curto perodo. Ao trmino desse intervalo, eles retornam e tm de ser novamente eliminados pela hipnose e sugesto renovadas. Repetindo-se essa 
evoluo com freqncia suficiente,  comum esgotar-se a pacincia tanto do enfermo quanto do mdico, tendo por conseqncia o abandono do tratamento hipntico. 
So tambm esses os casos em que costumam instalar-se no doente a dependncia do mdico e uma espcie de vcio na hipnose.
          bom que os doentes conheam essas deficincias do mtodo de terapia hipntico, bem como as possibilidades de desapontamento em sua utilizao. O poder 
curativo da sugesto hipntica  algo de factual e dispensa recomendaes exageradas. Por outro lado,  fcil compreender que os mdicos, a quem o tratamento anmico 
por hipnose prometera muito mais do que pde cumprir, no se cansem de buscar outros procedimentos que possibilitem exercer uma influncia mais profunda ou menos 
incerta sobre a psique do doente. Podemos antecipar a expectativa segura de que o moderno tratamento anmico sistemtico, que representa uma revivescncia inteiramente 
nova de antigos mtodos teraputicos, venha a colocar nas mos dos mdicos armas ainda muito mais fortes para lutar contra a doena. Um discernimento mais profundo 
dos processos da vida anmica, cujas origens primordiais repousam justamente em vivncias hipnticas, h de apontar os meios e modos de chegarmos a isso.
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         PSYCHISCHE BEHANDLUNG (SEELENBEHANDLUNG)
         
         (a) EDIES EM ALEMO:
         1890 Em Die Gesundheit, org. de R. Kossmann e J. Weiss, l ed., 1, pp. 368-384, Stuttgart, Berlim e Leipzig: Union Deutsche Verlagsgesellschaft. (1900, 
2 ed.; 1905, 3 ed.)
         1937 Z. Psychoan. Pd., 11, pp. 133-147.
         1942 G.W., 5, pp. 289-315.
         
         (b) TRADUO EM INGLS:
         "Psychical (or Mental) Treatment"
         
         Esta traduo [inglesa], de autoria de James Strachey, surge agora pela primeira vez e, ao que se saiba,  a primeira a ser publicada.
         
         Die Gesundheit foi uma obra coletiva de carter semipopular sobre a medicina, em dois volumes, tendo um grande nmero de colaboradores. Numa carta enviada 
a Pfister em 17 de junho de 1910 (1963a), diz Freud: "O livro que estou colocando nas mos de meus filhos  uma obra popular de medicina, Die Gesundheit, para a 
qual eu mesmo contribu.  bem seco e factual." O texto foi reimpresso sem alteraes na segunda e terceira edies do trabalho, ocupando no primeiro volume as mesmas 
pginas em que constara na primeira edio.
         
         At 1966, afirmava-se invariavelmente que esse artigo datava de 1905 (recebera na Ed. Standard a data de 1905b.), uma vez que s se examinara a edio de 
1905 de Die Gesundheit. Sabe-se agora que, na verdade, essa fora a terceira edio, embora os organizadores do trabalho tenham deixado de fornecer tal indicao. 
Cf. algumas informaes e comentrios adicionais sobre essa descoberta na introduo do editor [ingls] ao grupo de ensaios de Freud sobre o hipnotismo e a sugesto, 
ao qual pertence mais apropriadamente o presente artigo (ver em [1] e [2]).
         
         
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       PERSONAGENS PSICOPTICOS NO PALCO (1942 [1905 ou 1906])
         
         
         Se a finalidade do drama, como se supe desde os tempos de Aristteles, consiste em despertar "terror e comiserao", em produzir uma "purgao dos afetos", 
pode-se descrever esse propsito de maneira bem mais detalhada dizendo que se trata de abrir fontes de prazer ou gozo em nossa vida afetiva, assim como, no trabalho 
intelectual, o chiste ou o cmico abrem fontes similares, muitas das quais essa atividade tornara inacessveis. Para tal finalidade, o fator primordial , indubitavelmente, 
o desabafo dos afetos do espectador; o gozo da resultante corresponde, de um lado, ao alvio proporcionado por uma descarga ampla, e de outro, sem dvida,  excitao 
sexual concomitante que, como se pode supor, aparece como um subproduto todas as vezes que um afeto  despertado, e confere ao homem o to desejado sentimento de 
uma tenso crescente que eleva seu nvel psquico. Ser espectador participante do jogo dramtico significa, para o adulto, o que representa o brincar para a criana, 
que assim gratifica suas expectativas hesitantes de se igualar aos adultos. O espectador vivencia muito pouco, sentindo-se como "um pobre coitado com quem no acontece 
nada"; faz tempo que amorteceu seu orgulho, que situava seu eu no centro da fbrica do universo, ou, melhor dizendo, viu-se obrigado a desloc-lo: anseia por sentir, 
agir e criar tudo a seu bel-prazer - em suma, por ser um heri. E o autor-ator do drama lhe possibilita isso, permitindo-lhe a identificao com um heri. Ao faz-lo, 
poupa-o tambm de algo, pois o espectador sabe que essa promoo de sua pessoa ao herosmo seria impossvel sem dores, sofrimentos e graves tribulaes, que quase 
anulariam o gozo. Ele sabe perfeitamente que tem apenas uma vida, e que poderia perd-la num nico desses combates contra a adversidade. Por conseguinte, seu gozo 
tem por premissa a iluso, ou seja, seu sofrimento  mitigado pela certeza de que, em primeiro lugar,  um outro que est ali atuando e sofrendo no palco, e em segundo, 
trata-se apenas de um jogo teatral, que no ameaa sua segurana pessoal com nenhum perigo. Nessas circunstncias, ele pode deleitar-se como um "grande homem", entregar-se 
sem temor a seus impulsos sufocados, como a nsia de liberdade nos mbitos religioso, poltico, social e sexual, e desabafar em todos os sentidos em cada uma das 
cenas grandiosas da vida representada no palco.
         Mas essas precondies de gozo so comuns a diversas outras formas de criao literria. A poesia lrica presta-se sobretudo a dar vazo a uma sensibilidade 
intensa e variada, como acontece tambm com a dana; a poesia pica visa principalmente a possibilitar o gozo do grande personagem herico em seu momento de triunfo, 
enquanto o drama explora a fundo as possibilidades afetivas, modela em gozo at os prprios pressgios de infortnio e por isso retrata o heri derrotado em sua 
luta, com uma satisfao quase masoquista. Poder-se-ia caracterizar o drama por essa relao com o sofrimento e o infortnio, quer apenas a inquietao seja despertada 
e depois aplacada, como na comdia, quer o sofrimento realmente se concretize, como na tragdia. O fato de o drama ter-se originado nos ritos sacrificiais do culto 
dos deuses (cf. o bode do sacrifcio e o bode expiatrio) no pode deixar de relacionar-se com esse sentido do drama; ele como que apazigua a revolta incipiente 
contra a ordem divina do universo, que instaurou o sofrimento. Os heris so, acima de tudo, rebeldes que se voltaram contra Deus ou contra alguma divindade, e o 
sentimento de infortnio que assalta o mais fraco diante da potncia divina est fadado a gerar prazer, tanto pela satisfao masoquista quanto pelo gozo direto 
de um personagem cuja grandeza, apesar de tudo,  destacada. Eis a, portanto, o prometesmo humano, s que apequenado pela disposio de se deixar acalmar temporariamente 
por uma satisfao momentnea.
         So tema do drama, portanto, todos os tipos de sofrimento, e deles o espectador tem que extrair algum prazer; da resulta a primeira condio dessa forma 
de criao artstica: ela no deve causar sofrimento ao espectador, mas saber compensar a comiserao que desperta mediante as satisfaes que da possam ser extradas 
- uma regra que os autores modernos tm infringido com particular freqncia. Mas esse sofrimento restringe-se desde logo ao anmico, pois o sofrimento fsico no 
 desejado por ningum que saiba quo depressa a sensibilidade fsica assim alterada pe termo a todo o gozo da psique. Quem est enfermo tem apenas um desejo: sarar, 
livrar-se de seu estado; que venham o mdico e os medicamentos, para que se elimine a inibio do jogo da fantasia, que nos mimou a ponto de fazer-nos extrair um 
gozo at de nosso prprio sofrimento. Se o espectador se coloca no lugar de algum que sofre de um mal fsico, no encontra a nenhum gozo e nenhuma produtividade 
psquica. Por isso, o indivduo corporalmente enfermo s pode figurar no palco como um requisito dramtico, e no como heri, a menos que determinados aspectos fsicos 
de seu estado possibilitem o trabalho psquico - por exemplo, o desamparo do doente em Filoctetes ou a desesperana dos enfermos nas peas que giram em tomo dos 
tsicos.
         Mas as pessoas tm conhecimento do sofrimento anmico principalmente em conexo com as circunstancias que o provocam; por isso o drama precisa de uma ao 
que engendre o sofrimento, e comea por introduzir-nos nela. No passam de excees aparentes as peas que nos apresentam sofrimentos anmicos j estabelecidos, 
como Ajax ou Filoctetes;  que no drama grego, por ser seu tema muito conhecido, a cortina sobe como que no meio da pea.  fcil expor exaustivamente as condies 
que regem a ao mencionada: ela tem que pr em jogo um conflito e incluir um esforo da vontade e uma situao adversa. A luta contra os deuses representou o primeiro 
e mais grandioso cumprimento dessa condio. J dissemos que essa  uma tragdia de rebelio, e nela o dramaturgo e a platia tomam o partido dos rebeldes. Depois, 
 medida que se vai descrendo da divindade, mais importante se torna a ordenao humana, que o discernimento crescente passa a responsabilizar pelo sofrimento. Assim, 
a luta seguinte do heri  contra a sociedade dos homens: temos a a tragdia social. Outro cumprimento [da precondio mencionada] encontra-se na luta entre os 
seres humanos:  a tragdia de caracteres; que exibe todas as excitaes do agon [????, conflito] e se desenrola com mais proveito entre personalidades destacadas, 
libertas da servido das instituies humanas - ou seja, ela tem de apresentar dois heris. Decerto so admissveis as fuses dessas duas ltimas categorias, exibindo 
a luta do heri contra instituies encarnadas em personagens fortes. Falta  tragdia de caracteres, em sua forma pura, a rebeldia como fonte de gozo, mas esta 
ressurge, sem menor fora do que nas tragdias histricas dos clssicos gregos, nos dramas sociais - por exemplo, em Ibsen.
         Se o drama religioso, o drama social e o drama de caracteres diferem essencialmente pelo terreno em que se desenrola a ao geradora do sofrimento, j agora 
o drama nos leva para um novo terreno em que se torna totalmente psicolgico. Aqui,  na prpria alma do heri que se trava a luta geradora do sofrimento: so os 
impulsos desencontrados que se combatem, numa luta que no culmina na derrota do heri, mas na extino de um de seus impulsos: tem que terminar na renncia a um 
deles. Claro est que so possveis todas as combinaes entre essa precondio e as que regem a tragdia social e a de caracteres; assim, as prprias instituies 
podem ser a causa do conflito interno.  a que entram as tragdias do amor, pois o sufocamento do amor pela cultura social, pelas convenes humanas, ou o conflito 
entre "amor e dever", to notrio na pera, so ponto de partida de uma variedade quase infinita de situaes de conflito - to infinita quanto os devaneios erticos 
dos seres humanos.
         Mas a srie de possibilidades se amplia, e o drama psicolgico se converte em psicopatolgico, quando a fonte de sofrimento de que deveramos participar 
e extrair prazer j no  o conflito entre duas moes dotadas de conscincia quase igual, mas entre um impulso consciente e uma moo recalcada. Aqui, a condio 
do gozo  que o espectador tambm seja neurtico.  que s ao neurtico pode advir prazer, e no simples repugnncia, da revelao e do reconhecimento mais ou menos 
consciente da moo recalcada; no no-neurtico, esse reconhecimento deparar apenas com uma repugnncia e o predispor prontamente a repetir o ato de recalcamento 
[antes aplicado  moo].  que, nessas pessoas, esse ato se fez com xito, e um nico dispndio de recalcamento bastou para neutralizar completamente a moo recalcada. 
No neurtico, em contrapartida, o recalcamento est sempre  beira do fracasso;  instvel e requer um gasto constantemente renovado - justamente o gasto que lhe 
 poupado pelo reconhecimento da moo. Somente no neurtico persiste uma luta como a que pode ser tema desse tipo de drama; nem mesmo nele, porm, o dramaturgo 
provocar apenas um gozo pela liberao, mas despertar tambm uma resistncia.
         O primeiro desses dramas modernos  Hamlet. Seu tema  a maneira como um homem at ento normal torna-se neurtico devido  natureza particular da tarefa 
com que se defronta, ou seja, um homem em quem uma moo at ali recalcada com xito esfora-se por se impor. Hamlet distingue-se por trs caractersticas que parecem 
importantes para a questo de que estamos tratando: (1) O heri no  um psicopata, transformando-se em tal apenas no decorrer da ao. (2) A moo recalcada figura 
entre as que so igualmente recalcadas em todos ns; seu recalcamento faz parte das bases de nosso desenvolvimento pessoal, e  justamente ele que a situao [da 
pea] vem contestar. Essas duas caractersticas facilitam que nos reconheamos no heri; somos susceptveis ao mesmo conflito que ele, pois "quem no perde a razo 
em certas circunstncias no tem nenhuma razo a perder". (3) Mas parece precondio desse modelo artstico que a moo que luta por chegar  conscincia, por mais 
notria que se revele, no seja chamada por seu prprio nome; assim, o processo consuma-se de novo no espectador, com sua ateno distrada, e ele se torna presa 
de sentimentos, em vez de se aperceber do que est acontecendo. Poupa-se desse modo, sem dvida, uma certa dose de resistncia, tal como a que encontramos no trabalho 
analtico, onde os retornos do recalcado, por provocarem uma resistncia menor, chegam  conscincia, ao passo que o prprio recalcado no consegue faz-lo. Em Hamlet,de 
fato, o conflito est to oculto que coube a mim desvend-lo.
          possvel que, por se desconsiderarem essas trs precondies, muitos outros personagens psicopticos sejam to sem serventia no palco quanto o so na 
vida real. De fato, no podemos penetrar no conflito do neurtico quando este j o traz plenamente firmado dentro de si. Inversamente, quando reconhecemos esse conflito, 
esquecemos que se trata de um doente, da mesma forma que ele, ao tomar conhecimento de seu conflito, deixa de ser doente. A tarefa do autor seria colocar-nos nessa 
mesma doena, e a melhor maneira de consegui-lo  fazer com que sigamos o curso de seu desenvolvimento junto com aquele que adoece. Isso  particularmente necessrio 
nos casos em que o recalcamento no est j dentro de ns, mas precisa primeiro ser instaurado, isso significa dar um passo alm de Hamlet na utilizao da neurose 
no palco. Ao sermos confrontados com uma neurose desconhecida e acabada, tendemosa chamar o mdico (como na vida real) e a julgar que o personagem  inadequado para 
uma encenao teatral.
         Esse erro parece ocorrer em Die Andere, de Bahr, alm de um outro implcito no problema da pea: no nos  possvel ter a convico solidria de que somente 
determinada pessoa tem o privilgio de satisfazer a moa plenamente. Por isso no podemos colocar-nos no lugar dela. E a isso vem acrescentar-se um terceiro defeito: 
nada nos  deixado para descobrirmos por ns mesmos, e toda a nossa resistncia  mobilizada contra esse condicionamento prvio do amor, que nos  inaceitvel. Dentre 
as trs condies formais que vimos discutindo, a mais importante me parece ser o desvio da ateno.
         Talvez se possa dizer, de modo geral, que a labilidade neurtica do pblico e a habilidade do autor de evitar as resistncias e propocionar um pr-prazer 
sejam o nico determinante dos limites impostos ao emprego de personagens anormais [no palco].
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         PSYCHOPATHISCHE PERSONEN AUF DER BHNE
         
         (a) EDIES EM ALEMO:
         (1905 ou 1906 Data provvel da redao.)
         1962 Neue Rundschau, 73, pp. 53-57.
         
         (b) TRADUO PARA O INGLS:
         "Psychophathic Characters on the Stage"
         
         1942 Psychoanal. Quart., 11 (4), outubro, pp. 459-464. (Trat. de H.A. Bunker.)
         
         Esta  uma nova traduo [inglesa] de James Strachey.
         
         Num artigo publicado no Psychoanal. Quart., 11 (1942), p. 465, o Dr. Max Graf relata que este ensaio foi redigido por Freud em 1904 e entregue a ele pelo 
autor. Nunca foi publicado pelo prprio Freud. Entretanto, deve haver um erro cm relao a essa data (o manuscrito no est datado), j que a pea Die Andere, de 
Hermann Bahr, discutida na p. 326, foi encenada pela primeira vez (em Munique e Leipzig) no incio de novembro de 1905, tendo sua primeira apresentao em Viena 
no dia 25 do mesmo ms. S foi publicada sob a forma de livro em 1906.  provvel, portanto, que o presente ensaio tenha sido escrito no final de 1905 ou incio 
de 1906. Somos gratos ao Dr. Raymond Gosselin, editor do Psychoanalytic Quarterly, por fornecer-nos uma cpia fotosttica do manuscrito original de Freud. Em alguns 
pontos, a grafia  difcil de decifrar, o que explica algumas divergncias entre as duas tradues inglesas.
         
         
         
         
         



125



  Estudos sobre a histeria - Josef Breuer & Sigmund Freud
